– O “Palacio” que calculava

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Menandro Ramos
FACED/UFBA.

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u tentava dar um cochilo, depois do almoço, quando o Saci se aproximou da rede. Senti a sua presença pelo obscurecimento do vão da janela. Mesmo de olhos fechados, percebi a claridade interrompida.

– Veja chefia, o Prof. Palacios é um homem minucioso, calculoso. Nenhum detalhe lhe escapa do olhar acurado de pesquisador experiente. Por trás de suas lentes espessas, há um cérebro que calcula, pondera, mensura, compara, aquilata, hipotetiza

Meio mal humorado, vi nas mãos do pestinha – que adora secar a minha impressora a jato de tinta! -, a mensagem impressa que o colega havia postado na lista. Parece que, pelos cálculos que ele fizera, os números que o Comando Local de Greve divulgara não batiam com a foto que o jornal A Tarde publicara.

A simples visualização do nome do ilibado pesquisador fez-me suspeitar algo sério. Recentemente, descobri que talvez o Prof. Palacios não fosse chegado às gaiatices do Saci. Inferi ser algo deveras importante, pois o mesmo não iria gastar o seu precioso tempo em coisas fúteis como o humor. Ou, pelo menos, um humor que não fosse o de caserna, daquele que as  Seleções do Reader’s Digest – ou assemelhadas! -, que  qualquer país do primeiro mundo costuma publicar.

– Sabe Saci, os ossos do ofício apuram o olhar, aguçam o cérebro. O detetive, o pesquisador, o semioticista, todos eles têm no detalhe o seu plus, o que os diferencia dos pobres mortais. Olhe Sherlock Homes! Um torrão de terra na sola do sapato, alguns arranhões no relógio de bolso, a ausência de um simples selo numa folha postal… Um pequeno detalhe é suficiente para visualizar o ausente. Aliás, os religiosos costumam dizer que “Deus se esconde nos detalhes”…

– E para os não religiosos – interrompeu-me o mal-educado –, “a virtude está nos detalhes!…”  Você já me disse isso umas trezentas mil vezes!

– Isso mesmo! Se o professor fosse um zé-mané qualquer, certamente, não se debruçaria diante dessa inconsistência entre o registro imagético e o registro escrito. A academia não pode conviver com essa dúvida. Ou a câmera do repórter fotográfico apresentou um erro de paralaxe ou o Comando Local de Greve se equivocou…

Perainda, chefia! Colé a sua? Isso tá me parecendo o cara lá no interiorzão de Caetité ou Riacho de Santana… O primeiro filho do camarada ia nascer, e lá pras tantas, da sala onde ele estava, ouviu o berro do meninão: BUÁÁÁÁÁÁÁ! Quando menos esperava, a porta do quarto se abriu e a parteira lhe pediu um pedaço de linha,  que era para amarrar o cordão umbilical do bacuri. Aí o coitado de desgraçou  todo a correr, correr, pois ele não tinha nem linha nem cordão em sua casa, e seu vizinho mais próximo morava a uma légua de distância…

O pestinha exagerado me viu arregalar os olhos e não se fez de rogado.

– Isso mesmo! Seis quilômetros era a distância do seu vizinho mais próximo!…

Como ele fez uma cara amuada de quem ia sair, agora quem correu fui eu, para que contasse o final da história.

– Sei como é Saci! Antigamente, no interior, era assim mesmo, mas, e daí? O que aconteceu depois?

Como se esperasse por essa minha reação, não se fez de rogado.

– Daí que o infeliz, que já tinha percorrido a metade do caminho, se lembrou de um detalhe.  Pois deu meia volta no calcanhar, soltando a maior poeira, e chegou na sua casa que nem uma bala. E antes de botar o pé na porta, foi logo gritando para a parteira: Dona Iaiá, Dona Iaiá! De que cor é a linha que a senhora quer?

Não preciso dizer que procurei algo para acertar nas fuças do Saci, mas o canalha foi mais rápido que o corisco… Amedrontado com a minha reação, o pilantra se mandou que ele não é nada bobo…

***

Agora que acabei de chegar da rua, encontrei um bilhete do tinhoso sobre o teclado do meu notebook:

Foi mal, chefia! Só queria lhe descontrair. Se não for lhe amolar, publique no YouTube o videozinho que editei. Talvez ele ajude o Prof. Marcos Palacios a calcular o número aproximado dos professores que brigam por uma UFBA porreta!

————-

OBS.: Relutei em publicar a expressão “UFBA porreta”, pois os acadêmicos são muitos cismados com termos populares, tidos como “jocosos”. Criei coragem, entretanto, e chutei o pau da barraca, pois não tenho a menor vocação para censor. Seja o que Deus quiser! E que Ele seja louvado, se me poupar de catiripapos futuros!

4 Respostas to “– O “Palacio” que calculava”

  1. O Saci-Pererê Says:

    Circulou na “debates-l”:

    ————————————–

    Colegas,

    (Tentei enviar esta mensagem para a lista Debates-l, mas foi rejeitada em virtude do ‘peso’ da foto. Para viabililizar a postagem, estou colocando a foto que a acompanha neste link: http://tinyurl.com/8r4ta4n )

    Colegas,

    O Jornal A Tarde de hoje (21/08/2012) traz uma reportagem (página A7) sobre uma assembleia realizada ontem, convocada pelo Comando Local de Greve.

    A foto (abaixo) que ilustra a matéria está acompanhada pela legenda: “Dentre os 177 docentes participantes, dois se abstiveram e um votou contra a greve”.

    A reportagem informa que a assembleia contou – “segundo os professores do comando de greve” – com 180 docentes, tendo 177 votado pela continuidade da greve, com duas abstenções e um voto contra.

    Estranhamente, no entanto, a foto mostra um auditório que está longe de ter 180 pessoas. Mesmo em se considerando que duas pequenas porções laterais do espaço ficaram fora do enquadramento, nem a metade desse número pode ser contada na imagem.

    Algumas hipóteses:

    a) a foto é de outra assembleia e foi usada equivocadamente;

    b) a foto foi tirada depois que os 180 votaram e, em seguida, muitos se retiraram apressadamente;

    c) a foto foi tirada antes da chegada dos180, pois as discussões não importavam;

    d) a foto foi do teste do sistema de som do auditório (“Som…som… 1, 2, 3, som…”);

    e) os professores votantes estão todos amontoados atrás da mesa e não couberam na foto;

    f) houve voto postal;

    g) houve voto por procuração;

    h) quem assinou a lista mas não ficou para a assembleia contou como votante (a favor);

    i) não sei contar e há, de fato, 180 pessoas na foto;

    j) a foto foi manipulada (pelo Proifes? pelo Saci?) com substituição de docentes por cadeiras vazias;

    k) nenhuma das anteriores.

    Alguém poderia me esclarecer, por favor?

    Saudações,

    marcos palacios

    Professor Titular

    FACOM/UFBA

    “Vamos despacio porque vamos lejos”

    (Los indignados – España)

    • O Saci-Pererê Says:

      Prezado Prof. Marcos:
      O gabarito da sua prova tem como respostas certas, as alternativas c, e, i:

      c) a foto foi tirada antes da chegada dos 180, pois a pergunta clássica: em REGIME DE VOTAÇÃO, ocorre após as discussões. LEVANTARAM E FORAM CONTADOS 177 BRAÇOS-VOTOS PELA CONTINUIDADE DA GREVE.

      e) os professores votantes NÃO estão todos amontoados atrás da mesa. COMO V. SA. JÁ PERCEBEU EM TODAS AS ASSEMBLEIA HÁ PROFESSORES QUE FICAM NO ENTORNO DA MESA DIRETIVA DA ASSEMBLEIA, HÁ PROFESSORES NA ENTRADA DO AUDITÓRIO, HÁ OS PROFESSORES FUMANTES QUE FICAM NA PARTE EXTERANA (portanto, essa multidão não saiu na foto). NA HORA DA VOTAÇÃO TODOS SÃO CONVOCADOS AO ATO DO VOTO. OBSERVE QUE NA FOTA HÁ a presença do Prof. Luis Filgueiras fazendo relato sobre as tabelas – propostas. Portanto, é uma foto anterior ao MOMENTO CLÁSSICO DA VOTAÇÃO.

      i) não sei contar e há, de fato, 180 pessoas na foto. O Sr. sabe contar, mas esquece de propósito os meandros da assembléia: professores sentados, circulando, no entorno da mesa, na entrada do auditório, os fumantes e outros/outras que foram resolver as necessidades fisiológicas.

      Att.
      JOROMOTA /dqoiqufba

    • O Saci-Pererê Says:

      Prof Marcos Palacios,

      estive na assembléia, até o fim, e por algumas vezes olhei o livro de assinaturas. Não analisei esse aspecto, mas não creio que algum colega tenha assinado em dobro.

      Não olhei o número final de assinantes, mas o número é aproximadamente esse . Os que foram a AG podem confirmar. De qq modo, o livro está à disposição que não gostam de ir a AG e se interessem por esse número.

      Luiz Anibal.

  2. José Tavares-Neto Says:

    Prezado Amigo do Saci,

    Esses PELEGOS têm cada argumento!

    Saudações,

    J. Tavares-Neto
    FMB-UFBA

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