1039 – Carta enigmática aos eleitores

.

CARTA-ENIGMATICA-ELEITORAL.

Menandro Ramos
FACED/UFBA

.

P.

.

.

ara o Saci, talvez influenciado pelo filósofo Heráclito (540 a. C. – 470 a.C.) da cidade de Éfeso, situada na costa ocidental da Ásia Menor, hoje cidade da Turquia, “panta rhéi“, ou seja “tudo flui”. Acordei, hoje, às cinco e meia da matina ouvindo isso e agora, cinco horas após o meu despertar, já devo ter escutado a mesma coisa umas cinco mil e poucas vezes. É de doer, Caro Leitor, Cara Leitora.

Nessa “quebra-de-braço” auditiva, resolvi jogar a toalha. Embora estivesse por dentro como um vulcão, prestes a entra em erupção – qual alguns reitoráveis da UFBA no último debate -, forcei um sorriso superior e complacente, perguntando-lhe do que tratava aquele mantra. Depois de me dar uma verdadeira aula sobre os pré-socráticos, ele me apontou para a tela do meu notebook.

Logo percebi que era uma Carta Enigmática de sua autoria. Não demorei muito para traduzi-la para o Português. Na minha infância, especializei-me em matar charadas, e “descriptografar” as instigantes cartas enigmáticas da seção de “passa-tempo” do “Bristol” e de outros almanaques semelhantes.

– Traduzi, mas não entendi! – falei-lhe aparentando calma e fingindo interesse naquilo que eu supunha ser mais uma besteira do moleque debochado.

– Foi como eu suspeitei, chefia. Fazer o quê, né?

Diante daquela postura conformada, fiquei intrigado.

– UÉ, Saci, então é só você explicar!…

– Explicar? Como assim?

– Explicar, UAI! Como é que se explica alguma coisa a alguém?

Senti o olhar do Saci me perscrutando no fundo dos olhos, a nu, sem os aparelhos que os oftalmologistas usam para detectar uma possível glaucoma. Calmamente ele se dirigiu à sua cadeira de três pernas, acendeu o insuportável pito e me inquiriu:

– Você é cristão, chefia?

– Pro inferno Saci! Você sabe o que penso de religião. Interesso-me apenas  pelos problemas da vida… Cada uma que escolha com o que se preocupar!…

– Tudo bem!… Mas você que leu o Velho e o Novo Testamento de cabo a rabo, ainda tem lembrança das parábolas que JC se dirigia aos seus discípulos e demais ouvintes?

– Claro que sim! Com o me lembro também de “João e Maria”, do “Gato de Botas”, dos “Três Porquinhos”, do “Menino Maluquinho”, da “Professora Maluquinha”. Esses últimos li não faz tanto tempo assim…

– Pois bem, mas voltando ao Novo Testamento, você deve se lembrar ainda das parábolas do “Filho Pródigo”, do “Grão de Mostarda”, das “Pérolas”…

– Sim, sim! – impacientei-me – E daí?

– Você acha que JC queria ou não queria se fazer entendido? Pela lógica de qualquer comunicador que não quer ficar pregando no deserto, ele queria, ou não, que os seus ouvintes sacassem a mensagem que ele tentava passar através daquelas narrativas simples, breves?

– Já disse que não me interesso por religiões. Interesso-me por assuntos da pólis e de seus moradores…

– Pelos cornos de Ali-Babá! – explodiu o pestinha – Que camarada turrão! Eu só quero que me responda uma coisa: através dessa estória da carochinha, ou não, JC queria ou não queria ser compreendido por seus discípulos, pela multidão e pelo escambau que o escutava?

– Óbvio que queria, Pedro Bó! É cada besteira que você me arranja!

– Pois é. E se ele queria, porque então recorreu aos expediente de se fazer entender apenas através das parábolas, cuja sacação do pela galera não era assim tão óbvia?…

Cacilda! – esbravejei – Pergunte ao Papa Francisco quando ele retornar ao Brasil! E eu lá sei? É cada uma!

– Calma, chefia! Você anda muito estressado. Tenho saudade dos tempos em que conversávamos até altas horas…

Fiquei calado. De fato, houve época em que papeávamos até o sol amanhecer. Sentei no sofá. Respirei fundo. Cerrei os olhos. Jeitoso ele insistiu:

– Não falemos mais em religião. Responda-me, então, uma outra coisa: a Natureza se revela ao ser humano de forma escancarada? As Leis são sacadas assim de mão beijada, sem um mínimo esforço mental, sem uma mínima ciranda das sinapses na grande pista do salão do neocórtex cerebral?

– Claro que não, não é Saci!? – respondi-lhe brandamente. Sentia-me calmo naquele momento. A chantagem do Saci lembrando-me dos tempos de outrora gastos com filosofices, funcionou.

Então, Chefia! Pela madrugada! Se JC falou por parábolas; se a Natureza só permite que a humanidade a desvende em doses homeopáticas, por que, então, terei eu que explicar as coisas e os eventos do mundo tim-tim por tim-tim?…

***

Moral da história, Leitora, Leitor, este é mais um domingo que deverei quebrar a minha já decrépita cachola para tentar traduzir para eleitores e eleitoras do Colégio Eleitoral da UFBA, essa maldita carta enigmática sacizesca. Pela expressão soturna do meu amigo abusado, sinto que a decisão acertada do voto depende dela.

Prazam os céus que até o final da tarde deste dia de sol meio tímido, eu consiga essa proeza. Queiram os deuses que, pelo menos, até o dia 20, o primeiro dia da votação, eu tenha uma epifania esclarecedora dos mistérios da UFBA, que a nossa tola filosofia procura em vão dá conta…

Tudo isso valerá a pena? Ocorreu-me perguntar sozinho, sem o Saci por perto, comigo mesmo, no mais recôndito do meu ser. Antes que qualquer solução própria viesse das minhas próprias entranhas cognitivas, socorreu-me o grande Henfil: “Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a intenção da semente.”

———————

Saiba mais (ou não!):

O enigma da esfinge da UFBA

 

Anúncios

2 Respostas to “1039 – Carta enigmática aos eleitores”

  1. rogerio Says:

    gostaria de saber qual o nome dessa fonte de letra
    com o nome (carta enigmatica

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: