1046 – UFBA: tinha uma pedra no caminho

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Para o Saci, Drummond já sabia que tinha uma pedra no caminho…

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Um desafio para Nelson Pretto e Ângelo Serpa

Menadro Ramos
FACED/UFBA

A.

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bertas as urnas e conhecidos os resultados da Eleição da UFBA para reitor e vice, a tendência é que cada candidato siga o seu caminho e volte à sua rotina acadêmica diária. O temperamento de cada um vai fazê-lo amofinar-se de outras lutas semelhantes ou colocá-lo de prontidão, tão logo surja a oportunidade de manifestar-se. Há os que, diante da derrota, se recolhem ressentidos com o mundo, com a universidade. Não são poucos os casos daqueles que se decepcionaram com o resultado das urnas e fugiram do embate para sempre. O que dá margem a pensar que estavam interessados tão somente em alimentar seus egos, pouco importando com a construção coletiva diuturna de um projeto de Universidade Pública com iniciais maiúsculas.

Os que não se enquadram nessa tipologia oportunista, e até mesmo covarde, não podem e não devem se abater diante de uma batalha perdida. Recarregadas as baterias e sacudida a poeira da decepção, urge que voltem a fitar o horizonte e teçam manhãs de esperança…

Creio (e espero) que os professores Nelson Pretto e Ângelo Serpa se enquadram no perfil dos que dão a volta por cima dos percalços e vão à luta novamente. O terceiro lugar que ocuparam na preferência do eleitor, pode muito bem alavancar uma frente em favor da UFBA dos nossos sonhos: autônoma, republicana, democrática, laica, referenciada no social e desatrelada dos interesses do executivo federal. Portanto, diferente da administração que a UFBA convive há mais de uma década.

Na presente conjuntura, creio eu, só os muito ingênuos conseguem acreditar nos apoios recebidos pelo titular da Chapa 1 sem a cobrança de uma gorda contrapartida. Temos carradas de exemplos reveladores da nada piedosa máxima franciscana “é dando que se recebe” que enxovalha a vida republicana do país. Mas cedo ou mais tarde, a fatura virá. Essa é a nossa tese maior.

Ao tempo em que fazemos votos – os mais sinceros! – que os Professores João Carlos Salles e Paulo Miguez tenham um profícuo reitorado, lançamos a ambos o desafio de se desvencilharem com firmeza dos sérios riscos de serem manietados por capos parlamentares, sobretudo de se tornarem eficientes correias de transmissão dos partidos políticos atrelados ao executivo federal. Fala-se que a articulação do nome do titular da Chapa 1 se deu através de indicação de forte liderança do PCdoB. Inclusive se comenta também de o nome do Prof. Salles ter substituído, a pedidos, um ex-candidato a reitor que voltaria a concorrer, pois era tido como sendo “de pavio curto”. Essas e outras histórias são contadas nos corredores da UFBA, como a de certa fatura não paga de um célebre banquete, causador da rachadura da aliança de cristal que unia os últimos gestores da Casa Grande ideada por Edgard Santos e materializada em 1946…

A partir do momento da posse, que suponho apoteótica, a julgar pelo que vi ao final do último debate, no Palácio da Reitoria, terão os novos gestores da UFBA 1.460 dias para demonstrarem que são infundados os nossos temores e que a nossa tese é furada. Terão quatro anos, portanto, com chances de ampliação para mais quatro, para provarem que seguirão com magnificência o reto caminho da autonomia universitária, e da qual serão guardiões incorruptíveis.

A consulta para a escolha dos dirigentes da UFBA, recentemente realizada, revelou algo que já sabiam os mais atentos e que puderam radiografar uma UFBA cujas forças políticas estão polarizadas, com ligeira vantagem para um dos lados. Já havíamos dito isso quando do resultado da última eleição da APUB, em que o bloco proificista venceu o bloco andino por uma pequena margem de diferença. Não computadas, claro, as manobras da diretoria anterior com os aposentados de boa-fé.

Box-np-serpaCreio que aí está o desafio para os professores Nelson Pretto e Ângelo Serpa. A eles cabe, se quiserem,  tentar juntar os cacos de uma oposição sindical atabalhoada, indecisa, medrosa, de egos inflados, cujas ações hesitantes só favorecem o opositor. Pelo menos, precisam tentar esse difícil labor. E por uma razão muito simples que tentaremos explicitar.

Um simples exame dos números da última eleição mostra que, de um colégio eleitoral de cerca de 40.000l eleitores, apenas 13.765 votaram, ou seja, houve a participação somente de 34% dos votantes na escolha dos dirigentes da UFBA para o próximo quadriênio. Considerando que a Chapa 1 obteve 7.593 votos contra 6.732 da soma das 3 outras Chapas concorrentes, significa dizer que o candidato a reitor e o vice mais votados levaram a vantagem de míseros 861 votos, isto é, se for considerado o total de 26.235 eleitores que se declinaram de votar. Por favor, peço que verifiquem se ainda sei fazer contas.

Portanto, não creio que os docentes Nelson Pretto e Ângelo Serpa teriam grande dificuldade em liderar um movimento em favor da UFBA autônoma e democrática, estabelecendo o diálogo com os articuladores das Chapas 3 e 4, e com a participação potencial de parte dos 26.235 eleitores que se abstiveram de participar dessa última consulta por motivos variados.

Apuradas as urnas e conhecidos os resultados, então, os que de fato têm responsabilidades para com a UFBA, não podem se deixar abater por uma campanha malsucedida. Apenas uma batalha foi perdida. É bom lembrar que cerca de metade dos membros do Conselho Universitário não rezará necessariamente pela cartilha do próximo reitor que será empossado. E ninguém duvida, por motivos óbvios, que o MEC escolherá outro nome que não seja o do Prof. João Carlos Salles para reitor… Aliás, o que se quer é isso mesmo: que se respeite a vontade do eleitor! Ainda que o nosso candidato não tenha sido o escolhido.

É bom lembrar, da mesma forma, que o reitor empossado terá o maior interesse em eleger os futuros diretores de Unidades de sua inteira confiança, para que a tal “governabilidade” proceda. Como é do conhecimento de todos, ou pelo menos de alguns, o mandato dos diretores das Unidades da UFBA não coincide com o mandato do reitor.

Já que os componente da Chapa 2 deram especial relevo à Autonomia Universitária, está em suas mãos catalisar um grande movimento cidadão em defesa de uma UFBA politizada, porém não partidarizada, ou seja, correia de transmissão dos partido políticos.

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Uma resposta to “1046 – UFBA: tinha uma pedra no caminho”

  1. Nana Terra Says:

    Excelente, meu querido Profi. Sempre lúcido e polêmico! Saudades!

    Gd Bjo.

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