1073 – Chuva de aposentados compulsórios

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CHUVA-APOSENTADO.

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

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H.

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oje cedo, meu escrachado amigo de gorro vermelho e pito estava me lembrando da chuvarada de aposentadorias compulsórias que vai cair sobre a UFBA em menos de 10 anos. Ligadão que estava na maratona televisiva sobre a Copa da FIFA, aproveitou um breve intervalo da Vênus Platinada para me lembrar o que eu já estava ciente.

– Inclusive você estará nesse bolo, chefia. É bom providenciar um prego logo, para não ter problemas quando chegar a hora de pendurar as suas chuteiras.

– É verdade, Saci. Foi-se a juventude, brincando, brincando. A vida passou célere sem eu perceber. E, com isso, se avizinham, cada vez mais, as portas da eternidade…

– Oxente, chefia! E quem disse que aposentar significa morrer?

– Ora, Saci! De alguma forma, sim. Para quem gosta de sala de aula, a aposentadoria compulsória acaba sendo um “chega pra lá” que o Estado aplica nos cidadãos e cidadãs que ainda não querem entregar os pontos. Muitas vezes, até é preciso mesmo, para o bem da juventude… Mas quem é que quer parecer gagá? Quem admite que o seja?

Durante algum tempo, ficamos calados. Ele, certamente, reconhecia que eu tinha razão e não ousava dizer nada. Percebi que me dera as costas. Talvez para eu não ver seus olhos úmidos de comoção, piedade ou sei lá do quê!  Tempos atrás,  chegamos a conversar sobre a brevidade da vida. Quando lhe falei que já havia trilhado mais da metade do meu caminho, ele não conteve o pranto e soluçou de dar dó. Falou-me que se eu morresse ele morreria também. Que não suportaria viver sem mim. Como resposta, eu lhe falei que ele era ele, e eu era eu; falei-lhe, ainda, que ele haveria de me sobreviver muitos e muitos anos para gorar muitos ovos e botar muitas moscas ainda em sopas de pelegos, como todo bom saci deve e sabe fazer…

Mais uma vez, logo saquei que falar sobre aposentadoria lhe deixava bastante incomodado, meio melancólico. Resolvi quebrar aquele clima de velório com um deboche. AH! Como o deboche e a ironia podem ser providenciais para os usuários de códigos linguísticos!

– Felizes foram FHC e Lula, cujo início de vida política de ambos é datada, por assim dizer, praticamente após uma aposentadoria precoce, com poucos anos de trabalho…

Virando-se bruscamente da janela ele, me interrompeu.

– A coisa é mais grave do que parece, chefia. Nos próximos dez anos, mais de duzentas aposentadorias compulsórias ocorrerão. Raciocine comigo: se a média de comparecimento às assembleias da Apub, nas últimas estações, é de vinte e pouco docentes, imagine daqui a mais dois ou três reitorados? O que será da entidade sindical dos professores dessas e de outras plagas? O que será dessa nova geração de docentes que está chegando na UFBA, totalmente despolitizada, e emprenhada pelos ouvidos e pelos olhos ao ler e ouvir os informes de uma entidade pelega chapa branca?

– Você é que pensa, Saci. Essa safra de docentes que chega, tem melhor qualificação acadêmica do que a do meu tempo. Cada vez mais chegam mestres e doutores cheios de gás, com zilhões de artigos publicados em revistas de megaqualis, sem falar na Plataforma Lattes estufada de significativas publicações.

Perainda, chefia, cê tá gozando com a minha cara! Você desconhece  o alheamento desses docentes quanto às questões que dizem respeito ao futuro da categoria? Me responda só isso!

– Claro que estamos passando por algumas dificuldades. Negar isso seria ser hipócrita. Mas nada que não possa ser reconfigurado. Mas você há de convir que muitos aposentados – da velha guarda, portanto – foram garfados pelo assistencialismo das últimas diretorias pelegas da APUB. Muitos deles estão completamente por fora dos expedientes “vivaldinos” dos apubianos governistas. Como só têm acesso aos  informes da diretoria, veem o mundo cor-de-rosa. Raríssimos deles são capazes de reconhecer as perdas que a categoria foi acumulando nos últimos tempos. Muitos desses colegas são massageados com agendinhas, calendários, mensagens “carinhosas”… E isso sem falar nos carurus e forrós que participam felizes e saltitantes. A verdade dói, mas a verdade é essa, embora alguns não queiram admiti-la. Depois desses afagos, adivinhe em quem votam na hora de escolher um novo dirigente sindical? Adivinhe?

Por segundos, minutos, horas talvez, fez-se um silêncio tumular na pequena sala em que estávamos.

Desolado, como que acordando de um “sono dogmático”, ele, sem me olhar, foi saindo pela porta, coisa raríssima, aliás. O pestinha ficou viciado em sair, do AP onde eu me escondo, rodopiando pelas janelas. Intrigado com aquela ruptura de paradigma, corri para espiá-lo pelo olho mágico  da porta da rua. Ainda deu para ouvi-lo resmungar mal humorado:

– Caracas! Se os professores da UFBA não fizerem algo urgentemente, em breve estarão todos lascados!

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P.S.

Aproveitei a saída do pestinha para desligar a televisão. De forma automática, entrei no site da APUB para tentar ver algo diferente do que a TV exibia. Mas, como sempre, além do forró de Santo Antônio que acontecera, o que havia para ler já estava por demais requentado. Reinava nas páginas virtuais da entidade sindical a paz dos cemitérios. Enquanto, pelo Brasil afora, a luta continuava firme e forte, nas “telinhas” fornecidas pela APUB o real havia hibernado em berço não tão esplêndido assim…

Pensando no que ouvira do Saci, selecionei algumas breves informações que talvez possam contribuir para elevar o ânimo dos meus colegas docentes que sustentarão a UFBA por três décadas ou mais. Décadas essas, a meu ver, completamente impermeáveis às profecias dos mais antenados clarividentes.

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2 Respostas to “1073 – Chuva de aposentados compulsórios”

  1. Francisco Santana Says:

    Espero que esses novos duzentos se dignem a comparecer às assembléias

  2. Menandro Ramos Says:

    Num cálculo grosseiro, estimou-se que nos próximos dois ou três reitorados, a UFBA terá cerca de duzentas aposentadorias compulsórias. Ou seja, duas centenas de docentes a menos.

    Isso é o fim do mundo ou o começo de uma Nova Era?

    Lembro-me de uma aula do curso de Filosofia que fiz, em que o professor mencionou Aristófanes (447 a.C.-385 a.C.), célebre dramaturgo grego. Segundo o professor, do qual não me lembro mais o nome, Aristófanes teria testemunhado a queda da Atenas antiga esplendorosa. Num dos seus momentos de lamúria, o dramaturgo teria dito: “O mundo está perdido. Tudo se encontra de pernas pra cima. Os jovens não respeitam mais seus mestres […], e se sentam de forma inadequada… E por aí foi levando o verbo. Naquele momento, ocorreu-me pensar que o mundo havia continuado tal e qual. Ou quase isso. Quem se perdeu mesmo na poeira do tempo, ou próximo disso, foi Aristófanes. Depois dele, os jovens envelheceram e puderam exercer a crítica sobre os que lhes sobreviveram e assim por diante.

    De todo sorte, é fato que a minha geração cada vez se aproxima mais do “setentinha” – indesejado para uns. Alguns ficarão no meio do caminho, mas outros o superarão. E a pergunta previsível é sacada da algibeira: “Qual o perfil dos novos docentes que sustentarão a UFBA? Serão servis ao poder – ou pelegos, no popular -, ou revelar-se-ão incansáveis combativos?

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