1075 – A vaca que Caio abandonou…

.VACA-DE-CAIO

 

.

Segundo da série

Continuando o debate e a reflexão sugerida ou pedida pelo Prof. Caio no seu primeiro e-mail.

Porque Giannotti não poderia ser a favor de pagar mensalidades e nem de vender a USP

Francisco Santana
Prof. Aposentado da UFBA

.

Comecemos citando os exemplos de dois professores da Escola Politécnica da UFBA.O primeiro é o emérito Prof. de Resistência de Materiais, Luis Valente. Em todas as oportunidades que tinha inclusive nos conselhos e colegiados universitários ele declarava sua opinião com firmeza:

“EU SOU A FAVOR DO ENSINO PAGO: TODO ESTUDANTE DEVE SER PAGO PARA FAZER O CURSO UNIVERSITÁRIO.”

 

A.

.

justificativa dele era que todo jovem tinha direito de gozar a sua juventude e o curso universitário se dava justamente num período rico dessa fase. O investimento não era só interesse do jovem mas de toda a sociedade.  E aqueles jovens que não tivessem condições econômicas suficientes teriam sua juventude sacrificada mais que os demais.

Acrescento que que a não cobrança de anuidades de todos ou o pagamento igual para todos cria um ambiente igualitário e humanista que não só neutraliza as ideologias preconceituosas, discriminatórias e até  racistas de certos professores como enraíza no jovem um humanismo que ele depois vai tentar retribuir a toda a sociedade fazendo-a evoluir.

Em outras palavras o Prof. Luis valente defendia um princípio humanista. Não sei em qual escola filosófica ele se incluiria, sei que seu irmão, Prof. Magno Valente, catedrático de Termodinâmica, se declarava positivista, a filosofia cujo lema é:

“Amor por princípio, Ordem como meio e Progresso como fim”.

O Prof. magno Valente notabilizou-se politicamente quando na primeira reunião da Congregação da Escola Politécnica após o golpe militar de 1964, ele pediu para registrar em ATA o seu repúdio ao golpe. Se me perguntassem se algum catedrático comunista estava presente eu só posso responder, que o único que conhecia foi caçado e preso logo após ao golpe ou obrigado a se apresentar ao QG e ficando sob liberdade vigiada.

O fato é que o Prof. Luis Valente tem um perfil de um filósofo humanista ou igualitarista.

O segundo exemplo é o oposto desse. Trata-se de um ou mais professores da Escola Politécnica, cujos nomes nem guardo,  que ao apreciarem um pedido de um aluno cuja justificativa era que ele trabalhava para se manter, esse professor negou sob a alegação de que se ele precisava trabalhar então não poderia estudar Engenharia.

Essa é uma posição que eu qualificaria de nazista. Pois as posições excludentes de pessoas não têm grande distância das posições nazistas. Quando você diz que uma pessoa é inferior e não pode tentar acompanhar outras que são superiores seja porque critério for, você está traçando o caminho que levou ao nazismo.

Quando o Governador Carlos Lacerda e sua secretária Sandra Cavalcante excluíram os mendigos do Rio de transitarem no centro deste, com o apoio da sociedade carioca, os mendigos acabaram sendo jogados no Rio da Guarda para morrerem afogados.

Em uma assembleia eu aparteei uma certa professora que fazia a apologia da competência afirmando que só os mais competentes deveriam ser premiados, perguntando o que ela sugeria para os menos competentes? Forca, garrote vil ou afogamento no Rio da Guarda? Ela me respondeu secamente: basta a demissão.
Realmente, às vezes a demissão é um bom substituto da pena de morte. Os nazistas começaram no Gueto de Varsóvia, reduzindo os salários e tirando os meios de trabalho e terminaram com Câmara de Gás e Fornos Crematórios.

E no entanto há pessoas que falam com a maior inocência que são a favor da pena de morte. Thomas Jeferson pregava que as penas máximas não deveriam ultrapassar 10 anos pois se não o indivíduo não poderia ser recuperado para a sociedade, no entanto a ganância e a defesa da propriedade privada levou os EUA rapidamente à pena de morte. Mas isso é outra história. Voltemos à vaca fria.

Em resumo eu quero afirmar que a tese de cobrança de anuidades está mais próxima do perfil nazista do que do perfil humanista.

Alguns retrucarão: mas você está ideologizando uma questão simples de viabilidade econômica.

Ledo engano. Aí é que entra o princípio da dialética, TUDO SE RELACIONA.

A filosofia é a ciência das leis mais gerais. Ela permite aos seus discípulos ter princípios gerais que os guiam nos mares tormentosos das ciências. O indivíduo pode não conhecer uma determinada ciência, mas se ele tem convicção de seus princípios de conduta, ele pode opinar sobre uma certa medida tomada em nome dessa ciência particular que fira esses princípios.

É claro que isso só não é suficiente, é o seu direito de veto. Caso queira ele poderá depois estudar o assunto e propor soluções outras. Mas o seu veto é inabalável.

E justamente a tese de cobrança de anuidades comete aberrações não só contra uma filosofia humanística, mas contra a lógica, a política e a própria economia também.

1 – Contra a Filosofia porque é desonesta – Propõe o nazismo em nome da humanidade.

2 – Contra a lógica porque é ilógica – Propõe produzir valor com uma instituição que por definição não produz valor (de troca).

3 – Contra a política porque é demagógica – Propõe ampliar recursos como pretexto para reduzir drasticamente os recursos provenientes do estado.

4 – Contra a economia porque é inviável economicamente – Propõe construir uma instituição que precisa para ser viável de recursos astronômicos a fundo perdido com cobranças de anuidades de uma sociedade pobre. Como eu no e-mail anterior: Sustentar Universidade com anuidades é como manter parque de diversões em bairro pobre.

Diante disso é óbvio porque o Prof. Giannotti jamais poderia ser a favor de pagar anuidades. Foi realmente um equívoco meu ter numa leitura apressado imaginado  que ele tivesse feito uma bobagem dessas.

Como se vê o texto enviado pelo Prof. Caio para reflexão é realmente muito rico em reflexão. Pena que seus colegas não o aproveitem.

Aliás o novo reitor eleito que é professor de Filosofia bem que nos poderia brindar com sua reflexão, pois além do mais, o Prof. Caio foi um dos principais apoiadores de sua candidatura.

Ou será que o novo Reitor é da opinião que o Reitor não deve descer do Olimpo à Agora dos plebeus?

Brincadeira. Não é nada disso. Sabemos que o professor João Sales é um homem de muitos afazeres e agora eleitor Reitor  deve estar ainda mais assoberbado.

Mas os grandes dirigentes políticos tinham o bom hábito de tentar auscultar o que se passava na plebe para não ser pego de surpresa. Seria de bom alvitre ele encarregar sua secretaria para abrir seus e-mail e fazer uma triagem de assuntos que lhe interessam principalmente do debates-l@listas.

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Em 15 de junho de 2014 11:58, Francisco José Duarte de Santana <franssuzer@gmail.com> escreveu:

Continuando o debate e a reflexão sugerida ou pedida pelo Prof. Caio no seu primeiro e-mail.

no meu último e-mail eu fiz a autocrítica ao meu texto, GIANNOTTI E O BÊBADO. Agora envio ele corrigido. Bastou apenas trocar o títunlo,   GIANNOTTI E O BÊBADO por  A ANUIDADE E O BÊBADO.Não se precisou mudar nada mais.

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A ANUIDADE E O BÊBADO

Por diversas vezes usei a piada do Bêbado para contestar certas alegações de ordem orçamentária. Uma delas foi quando da polêmica sobre a CPMF. Acho que ela se aplica também ao caso de cobranças de anuidades.

 

A CPMF E O BÊBADO

 

Há o caso do bêbedo que instigado pelo padre a jogar fora o conteúdo da garrafa de cachaça que tinha na mão, retrucou que não podia, pois a porção de cima da cachaça não pertencia a êle, mais ao amigo e a parte dêle estava em baixo. O problema do CPMF é o mesmo. O CPMF é mais dinheiro para o orçamento do governo. Tanto faz você dizer que o dinheiro é para a educação como para os banqueiros (serviços escusos da dívida) ou como para a saúde etc. Se você cobrar o CPMF agora, pode significar que o percentual da saúde aumentou em detrimento dos percentuais das outras rubricas que decresceram; ou pode significar que você primeiro tirou da saúde para dar às outras rubricas (principalmente aos banqueiros) para depois expertamente explorar o sentimentalismo do povo pedindo dinheiro só para a saúde. A saúde é portanto um mero pretexto.

(Obs.: Eu não sou contra imposto do tipo CPMF, acho bom, sou contra mais um imposto sob pretexto que é para a saúde quando na verdade é para o superavit primário da dívida).

Essa piada do bêbado se aplica também ao caso das anuidades da USP.

Tanto faz você cobrar anuidades proporcionais à renda da família como cobrar impostos proporcionais à renda e destiná-los à educação, sendo esse último mais certo pois não há a garantia de que uma família de alta renda vá matricular seu filho na USP, pode mandá-lo para os EUA.

Imaginemos um tipo de imposto da seguinte forma. Poderia primeiro se estipular quantos filhos uma pessoa de renda X poderia sustentar num determinado padrão exigido. Essa pessoa tenha ou não esse número de filhos pagará uma tributação equivalente a uma anuidade padrão por filho. Caso a família prove que mantém o filho numa escola privada pagando a anuidade desta, descontaria essa anuidade do imposto, desde que a escola particular fosse no Brasil. Mais detalhes ficam para os tributaristas.

Os tributaristas, provavelmente, simplificariam o problema cobrando um CPMF para a educação ou uma nova alíquota do IR para a educação sem mais detalhes, mas a minha sugestão imaginária obrigaria o brasileiro a valorizar mais a educação tanto de seus filhos como de todas as crianças brasileiras.

1) Mas o fato principal é que tanto faz cobrar anuidades como cobrar imposto de quem pode pagar mais por exemplo, de Eike Batista, banqueiros etc., ou fazer a auditaria da dívida, denunciar 70% dela e usá-la para a educação.

2)Qual das duas medidas é mais eficaz? Provaremos em seguida que cobrar anuidades é a pior. Tentar sustentar uma universidade com recursos próprios é furado. A ditadura militar tentou com as fundações e deu com os burros n’água.

Pelos manuais de economias, manter uma universidade no Brasil com anuidades é como sustentar um parque de diversões num bairro pobre. É tentar tirar leite de pedra.

A grande hegemonia do capital financeiro sobre o industrial adveio justamente disso. Ter num momento um capital ocioso em grande quantidade para investir. Não depender do próprio retorno de seu próprio capital circulante. Daí formaram-se os grandes monopólios financeiros-industriais que finalizaram controlando também o dinheiro público a seu favor.

A época em que se constituiram esses monopólios coincide com a época que esses monopólios compram e ou criam grandes Universidades americanas; Havard foi uma das compradas e Stanford, se não me engano, foi uma das criadas. O máximo que o Bradesco e outros grandes grupos brasileiros fazem é investir em creches ou centros de treinamento.

 

Hoje já se sabe que a maior parte dos recursos das universidades americanas vem do estado muitas vezes disfarçados de convênios com grandes verbas para a defesa e a segurança, setores estratégicos em geral.

Durante a ditadura foram criadas várias fundações, em que se estabelecia que elas tinham autonomia de captar recursos por conta própria e que deveriam dentro de um prazo esses recursos atingirem 25% de suas receitas.

Só a universidade de Brasília conseguia cumprir essa meta porque na sua fundação recebeu um grande patrimônio em terrenos em Brasília e assim ela conseguia esses recursos não com sua atividade fim mas como empresa imobiliária. No final todas as fundações voltaram a ser autarquias levando algum tempo para se corrigirem as distorções criadas naquele período.

Se a USP fosse fundada sob essa filosofia, hoje ela não seria muito maior do que a Faculdade Rui Barbosa.

Em resumo, toda grande empresa opera no limite de sua capacidade de reinvestimento, daí necessitar em momentos inadiáveis grandes aportes de capital que só as grandes financeiras dispõem. Daí porque as grandes empresas que não pertencem a grandes conglomerados financeiros ou  não têm grandes influências junto a governos, não sobreviverem.

Ora, as Universidades não são empresas com fins lucrativos, então sua dependência de grandes fontes de financiamento é muito maior. E no Brasil só existe um grande financiador com interesse em fundar uma universidade de ponta: O Estado Brasileiro sob governos patrióticos. Como a Universidade Norte Fluminense criada no governo Leonel Brizola.

3) Mas aí poderão argumentar. Que não seria nada demais cobrar uma anuidade módica para arcar com certas despesas. Tem aí vários inconvenientes:

a) Dupla tributação. Já foi cobrado o imposto.

b) A cobrança de anuidades diferenciadas pode provocar a constituição de castas dentro do convívio universitário. Essa é uma das vantagens do modelo brasileiro: cria um ambiente mais democrático e igualitário que refletirá no futuro na sociedade.

Na história dos povos, os que se atrasam no processo de desenvolvimento, quando o alcançam se adiantam em alguns aspectos. Os que saíram na frente foram Inglaterra, França, Holanda e EUA. Depois atrasados chegaram Alemanha, Itália e Japão. Brasil declararia seu direito de ser uma nação soberana 30 anos depois dessas últimas. Sob esse aspecto de democracia e igualdade as Universidades brasileiras estão na frente dos EUA (estamos retrocedendo desde o plano Real).

Os EUA são na realidade uma Oligarquia e não uma Democracia e essa é uma das contradições que eles terão de superar: da sua realidade com a sua constituição da qual eles se distanciaram. Ver diversos documentários de Michael Moore. E no futuro  ao resolver essa contradição com certeza eles não só abolirão o ensino privado como não cobrarão mais anuidades pois ferirá sua constituição.

Portanto cobrar anuidades no Brasil é um retrocesso. Quando devíamos avançar.

c) Está se portanto desprezando uma questão maior, filosófico-política em função de uma questão menor de caixa.

Não se pode portanto transpor o modelo americano de universidades para a realidade brasileira.

4) Na greve de 2012 eu alertei sobre o problema da auditoria da dívida pública,  tanto externa como interna. Esse ano foram destinados no orçamento um trilhão e dois bilhões de reais para pagamento dos serviços da dívida enquanto para a educação menos de 90 bilhões. A auditora fiscal  da Receita federal, M. L. Fatorelli, garante que a dívida brasileira pode com uma auditoria ser reduzida para menos de 30% da atual.

Esa é uma questão muito grave pois a dívida está sempre aumentando:

Não se pode pensar em resolver nenhum problema brasileiro sem antes atacar o problema da dívida

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Em 13 de junho de 2014 11:15, Francisco José Duarte de Santana <franssuzer@gmail.com> escreveu:

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O Prof. Caio Castilhos disse no seu e-mail abaixo:
“Nem necessário é concordar com tudo. É preciso compreender, refletir, concordar/discordar… Pensar! Atitude, cada vez mais rara, no ambiente universitário …”

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No que eu concordo, pelo menos com esse trecho.

Parece que apenas dois professores atenderam ao apelo do Prof. Caio: O Prof. José Roque e eu. Isso não quer dizer que os demais professores se enquadrem nas definições do Prof. Caio.

Na minha reflexão abaixo, eu cometi um equívoco. Eu mantenho a minha análise contra o pagamento de anuidades nas escolas públicas, mas essa não é a posição do professor Giannotti e consequentemente nem a do Prof. Caio, que embora não tenha explicitado a sua, deve ter algum ponto de concordância ou simpatia com a do Prof. Giannotti, pois a citou para reflexão.

Contribuíram para o equívoco, além da leitura apressada, a resposta rápida e pronta do Prof. José Roque e o não em azul do texto que ao invés de salientá-lo o camuflaram para meus neurônios.

Mas desculpas a parte, vamos ao que interessa que é uma reflexão sobre o texto do Prof. Giannotti.

Ele é terminantemente contra cobrar anuidades e contra vender a USP, com argumentos aos quais sou simpáticos.

Mas discordo dele quanto a dizer que o problema principal não é falta de verba.

Citêmo-lo:


“E parte de um diagnóstico errado, como se a crise da USP e de tantas outras instituições de ensino fosse provocada antes de tudo por falta de verba.

 ——————————————-


O cerne da questão reside em como a universidade pública está exercendo o mandato que a sociedade lhe confere.

Para que ela se reforme a si mesma, encontre seu enorme potencial, hoje desbaratado, necessita de maior autonomia, contrabalançada por um forte sistema de avaliação externa. Autonomia ampla, isolada dos alinhavos da burocracia do Estado, que force seus membros a virem a ser o que devem ser –antes de tudo, consciência e sementes de uma nação.”

Os erros fundamentais que levaram a universidade pública brasileira ao atual estágio são baseados em dois mitos: o da neutralidade da ciência e o da autonomia absoluta da ciência.

O da neutralidade científica levou à cópia de sistemas pseudo-universais de política científica ou pedagógica sem a devida redução sociológica (apud Guerreiro  Ramos). E o resultado é que o país foi colonizado também cientificamente. A sua política científica é ditada por centros de poder fora de qualquer controle nacional.

O da autonomia absoluta da universidade leva ao conceito errado de que autonomia se tem sem dinheiro. E o único dinheiro que dá esta autonomia é o garantido pelo estado. Não confundir governo com estado. Dinheiro de governos leva ao atrelamento da universidade á linha política do partido que está no poder naquele momento. O dinheiro do estado é aquele garantido por leis independentes de governos.

Embora nossos recursos venham majoritariamente do estado e de órgãos vinculados ao estado entretanto perdemos nossa autonomia para o Banco Mundial e o FMI, pois o estado Brasileiro como um todo perdeu sua autonomia para o FMI e o Banco Mundial.

A política seguida desde o plano Real é a do Banco Mundial que se baseia no Estado Mínimo, contenção ao máximo dos gastos públicos e em suma privatização ao máximo do ensino superior sob a aparência de uma flasa democratização do ensino superior, que fica evidente no conflito do Exame da OAB com os diplomados em direito.

Assim além da privatização em geral do ensino público, a própria Universidade Pública está sendo privatizada por dentro. O sistema mestrado-doutorado-pós doutorado-publicação em revistas de excelência, tem todos os elementos da apropriação privada do conhecimento pela divisão do trabalho descrita em todos os manuais de economia política, marxistas ou Ricardianos, mesmo se dizendo entidades sem fins lucrativos, pois se sustento vendendo conhecimento a empresas privadas.

Soma-se a esse processo a falsa autonomia dos professores captarem recursos

para seus projetos, estimulando o individualismo, o corporativismo, afalta de visão coletiva e todos os males citados de burocracia corporativa por Giannotti.

Vou findar aqui e continuara depois em outro e-mail, por dois motivos: 1) para não ser muito chato; 2) meu computador está travando repetidamente tornando uma tortura escrever um texto de mais de 5 linhas.

Até o próximo e-mail, pois esse texto do Giannotti é muito rico em reflexão.

E espero que o Prof. Caio também nos brinde com a sua reflexão.

——————————————-

———- Mensagem encaminhada ———-
De: Francisco José Duarte de Santana <franssuzer@gmail.com>
Data: 8 de junho de 2014 20:50
Assunto: Re: [debates-l] ALUNOS POBRES
Para: “debates-l@listas.ufba.br” <debates-l@listas.ufba.br>, apubemmovimento
<apubemmovimento@yahoogrupos.com.br>

Cc: Jose Roque Mota Carvalho <joromota@ufba.br>

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GIANNOTTI E O BÊBADO

Por diversas vezes usei a piada do Bêbado para contestar certas alegações de ordem orçamentária. Uma delas foi quando da polêmica sobre a CPMF. Acho que ela se aplica também ao caso de cobranças de anuidades.

 

A CPMF E O BÊBADO.

Há o caso do bêbedo que instigado pelo padre a jogar fora o conteúdo da garrafa de cachaça que tinha na mão, retrucou que não podia, pois a porção de cima da cachaça não pertencia a êle, mais ao amigo e a parte dêle estava em baixo. O problema do CPMF é o mesmo. O CPMF é mais dinheiro para o orçamento do governo. Tanto faz você dizer que o dinheiro é para a educação como para os banqueiros (serviços escusos da dívida) ou como para a saúde etc. Se você cobrar o CPMF agora, pode significar que o percentual da saúde aumentou em detrimento dos percentuais das outras rubricas que decresceram; ou pode significar que você primeiro tirou da saúde para dar às outras rubricas (principalmente aos banqueiros) para depois expertamente explorar o sentimentalismo do povo pedindo dinheiro só para a saúde. A saúde é portanto um mero pretexto.

(Obs.: Eu não sou contra imposto do tipo CPMF, acho bom, sou contra mais um imposto sob pretexto que é para a saúde quando na verdade é para o superavit primário da dívida).

Essa piada do bêbado se aplica também ao caso das anuidades da USP.

Tanto faz você cobrar anuidades proporcionais à renda da família como cobrar impostos proporcionais à renda e destiná-los à educação, sendo esse último mais certo pois não há a garantia de que uma família de alta renda vá matricular seu filho na USP, pode mandá-lo para os EUA.

Imaginemos um tipo de imposto da seguinte forma. Poderia primeiro se estipular quantos filhos uma pessoa de renda X poderia sustentar num determinado padrão exigido. Essa pessoa tenha ou não esse número de filhos pagará uma tributação equivalente a uma anuidade padrão por filho. Caso a família prove que mantém o filho numa escola privada pagando a anuidade desta, descontaria essa anuidade do imposto, desde que a escola particular fosse no Brasil. Mais detalhes ficam para os tributaristas.

Os tributaristas, provavelmente, simplificariam o problema cobrando um CPMF para a educação ou uma nova alíquota do IR para a educação sem mais detalhes, mas a minha sugestão imaginária obrigaria o brasileiro a valorizar mais a educação tanto de seus filhos como de todas as crianças brasileiras.

1) Mas o fato principal é que tanto faz cobrar anuidades como cobrar imposto de quem pode pagar mais por exemplo, de Eike Batista, banqueiros etc., ou fazer a auditaria da dívida, denunciar 70% dela e usá-la para a educação.

2) Qual das duas medidas é mais eficaz? Provaremos em seguida que cobrar anuidades é a pior. Tentar sustentar uma universidade com recursos próprios é furado. A ditadura militar tentou com as fundações e deu com os burros n’água.

Pelos manuais de economias, manter uma universidade no Brasil com anuidades é como sustentar um parque de diversões num bairro pobre. É tentar tirar leite de pedra.

A grande hegemonia do capital financeiro sobre o industrial adveio justamente disso. Ter num momento um capital ocioso em grande quantidade para investir. Não depender do próprio retorno de seu próprio capital circulante. Daí formaram-se os grandes monopólios financeiros-industriais que finalizaram controlando também o dinheiro público a seu favor.

A época em que se constituiram esses monopólios coincide com a época que esses monopólios compram e ou criam grandes Universidades americanas; Havard foi uma das compradas e Stanford, se não me engano, foi uma das criadas. O máximo que o Bradesco e outros grandes grupos brasileiros fazem é investir em creches ou centros de treinamento.

Hoje já se sabe que a maior parte dos recursos das universidades americanas vem do estado muitas vezes disfarçados de convênios com grandes verbas para a defesa e a segurança, setores estratégicos em geral.

Durante a ditadura foram criadas várias fundações, em que se estabelecia que elas tinham autonomia de captar recursos por conta própria e que deveriam dentro de um prazo esses recursos atingirem 25% de suas receitas.

Só a universidade de Brasília conseguia cumprir essa meta porque na sua fundação recebeu um grande patrimônio em terrenos em Brasília e assim ela conseguia esses recursos não com sua atividade fim mas como empresa imobiliária. No final todas as fundações voltaram a ser autarquias levando algum tempo para se corrigirem as distorções criadas naquele período.

Se a USP fosse fundada sob essa filosofia, hoje ela não seria muito maior do que a Faculdade Rui Barbosa.

Em resumo, toda grande empresa opera no limite de sua capacidade de reinvestimento, daí necessitar em momentos inadiáveis grandes aportes de capital que só as grandes financeiras dispõem. Daí porque as grandes empresas que não pertencem a grandes conglomerados financeiros ou  não têm grandes influências junto a governos, não sobreviverem.

Ora, as Universidades não são empresas com fins lucrativos, então sua dependência de grandes fontes de financiamento é muito maior. E no Brasil só existe um grande financiador com interesse em fundar uma universidade de ponta: O Estado Brasileiro sob governos patrióticos. Como a UNiversidade Norte Fluminense criada no governo Leonel Brizola.

3) Mas aí poderão argumentar. Que não seria nada demais cobrar uma anuidade módica para arcar com certas despesas. Tem aí vários inconvenientes:

a) Dupla tributação. Já foi cobrado o imposto.

b) A cobrança de anuidades diferenciadas pode provocar a constituição de castas dentro do convívio universitário. Essa é uma das vantagens do modelo brasileiro: cria um ambiente mais democrático e igualitário que refletirá no futuro na sociedade.

Na história dos povos, os que se atrasam no processo de desenvolvimento, quando o alcançam se adiantam em alguns aspectos. Os que saíram na frente foram Inglaterra, França, Holanda e EUA. Depois atrasados chegaram Alemanha, Itália e Japão. Brasil declararia seu direito de ser uma nação soberana 30 anos depois dessas últimas. Sob esse aspecto de democracia e igualdade as Universidades brasileiras estão na frente dos EUA (estamos retrocedendo desde o plano Real).

Os EUA são na realidade uma Oligarquia e não uma Democracia e essa é uma das contradições que eles terão de superar: da sua realidade com a sua constituição da qual eles se distanciaram. Ver diversos documentários de Michael Moore. E no futuro  ao resolver essa contradição com certeza eles não só abolirão o ensino privado como não cobrarão mais anuidades pois ferirá sua constituição.

Portanto cobrar anuidades no Brasil é um retrocesso. Quando devíamos avançar.

c) Está se portanto desprezando uma questão maior, filosófico-política em função de uma questão menor de caixa.

Não se pode portanto transpor o modelo americano de universidades para a realidade brasileira.

4) Na greve de 2012 eu alertei sobre o problema da auditoria da dívida pública,  tanto externa como interna. Esse ano foram destinados no orçamento um trilhão e dois bilhões de reais para pagamento dos serviços da dívida enquanto para a educação menos de 90 bilhões. A auditora fiscal  da Receita federal, M. L. Fatorelli, garante que a dívida brasileira pode com uma auditoria ser reduzida para menos de 30% da atual.

Esa é uma questão muito grave pois a dívida está sempre aumentando:

Não se pode pensar em resolver nenhum problema brasileiro sem antes atacar o problema da dívida

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Em 7 de junho de 2014 18:26, Jose Roque Mota Carvalho <joromota@ufba.br> escreveu:

SOU CONTRA VENDER A USP. SOU CONTRA COBRAR MENSALIDADES NA USP. NA USP, HÁ APENAS, ALUNOS DAS CLASSES D e E CUJAS FAMÍLIAS TÊM EM MÉDIA 03 SALÁRIOS MÍNIMOS.

JOROMOTA 

——————————————-

De: “Caio Castilho” <caio@ufba.br>
Para: debates-l@listas.ufba.br
Enviadas: Sábado, 7 de junho de 2014 17:02:02
Assunto: [debates-l] Não custa refletir!

——————————————-

José Arthur Giannotti não apenas deu contribuições significativas à instituição universitária brasileira. Continua a dar. A despeito dos seus mais de oitenta anos! Não custa refletir…
Nem necessário é concordar com tudo. É preciso compreender, refletir, concordar/discordar… Pensar! Atitude, cada vez mais rara, no ambiente universitário “mediocrizado”  (este verbo existe?) por vínculos políticos que, na verdade, são ” políticos”. Em tempos, como os de hoje, o sistema binário parece operar no sentido de favorecer a pobreza intelectual. Lamentavelmente ….

Caio Castilho

 

 

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2 Respostas to “1075 – A vaca que Caio abandonou…”

  1. osaciperere Says:

    O artigo abaixo, postado na “debates-l” pelo Prof. Caio Castilho, suscitou ricos desdobramentos de outras postagens:

    —————————————-
    JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI

    TENDÊNCIAS/DEBATES

    A USP deveria cobrar mensalidades dos alunos?
    NÃO

    Por que não vender a USP?

    A USP tem gasto mais com seu pessoal do que recebe do Estado. Muitos de seus alunos podem arcar com os estudos. Não seria natural que viessem a pagar por eles? Segundo qual critério? A renda de suas famílias? Em vez de adotar uma medida paliativa, por que não vender a própria universidade, transformá-la numa dessas instituições de ensino que distribuem diplomas como vendem bananas?
    Como estamos vendo, basta levar ao limite a proposta de cobrança das mensalidades para que se evidencie o absurdo dessa medida. A ideia não leva em consideração que, assim como a Unicamp e a Unesp, a USP é pública. Apenas revela como a noção de espaço público está desparecendo do imaginário e da política brasileiros. E parte de um diagnóstico errado, como se a crise da USP e de tantas outras instituições de ensino fosse provocada antes de tudo por falta de verba.
    Uma instituição pública é aquela em que os cidadãos, cumprindo requisitos necessários publicamente estipulados, podem frequentá-la independentemente de diferenças de classe, cor, sexo, religião e assim por diante. Por certo esse seu caráter foi trincado por louváveis ações afirmativas facilitando o ingresso de grupos desfavorecidos, mas são medidas provisórias que, no fundo, resolvem gargalos que deveriam ter sido resolvidos no ensino fundamental e secundário.
    Em virtude de seu mandado, a universidade pública, encarregada de promover ensino de qualidade, promover pesquisas e a extensão, é um dos espaços privilegiados da República, onde a nação também apreende o que ela é, projeta seu futuro e se integra ao contexto mundial. Privatizá-la equivale a arrancar o coração de nossa nacionalidade e transformar o país num grande mercado.
    Mas, infelizmente, a USP e outras instituições de ensino têm sido privatizadas, não pelo capital, mas por suas próprias burocracias, que se aglutinam para disputar vantagens nas carreiras e nas facilidades instaladas nos campi. Grupos burocráticos e ideológicos de professores disputam cargos e se apropriam deles, constroem suas carreias nem sempre segundo o estatuto universitário.

    Assessorias cuidam mais de si mesmas do que dos assessorados. E não deixa de ser sintomático que o sindicado dos professores pressione para que os avanços nas carreiras sejam obtidos sobretudo por tempo de serviço. Mutatis mutandis.

    O mesmo não acontece com certos funcionários que se instalam em seus cargos como se fossem o sofá de casa? Professores e funcionários pertencem à universidade ou ao departamento onde dão expediente? Por que um bom pesquisador deve ter a mesma carreira que um bom professor? Nem sempre eles possuem as mesmas qualificações. Por fim, não se deve esquecer aqueles alunos que usam o espaço da universidade como palco de suas divergências ideológicas e opções pessoais.

    A crise da USP é maior que seu deficit. Há tempos que a pesquisa, no mundo inteiro, tem abandonado as universidades para se concentrar em centros mais autônomos e menos burocratizados. Se quisermos resolver pela raiz os problemas das universidades públicas paulistas, é preciso executar uma reforma que vá além da simples infusão de novas verbas. O cerne da questão reside em como a universidade pública está exercendo o mandato que a sociedade lhe confere.

    Para que ela se reforme a si mesma, encontre seu enorme potencial, hoje desbaratado, necessita de maior autonomia, contrabalançada por um forte sistema de avaliação externa. Autonomia ampla, isolada dos alinhavos da burocracia do Estado, que force seus membros a virem a ser o que devem ser –antes de tudo, consciência e sementes de uma nação.

    ———————————–
    JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI, 84, é professor de filosofia da USP e membro do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)

  2. Francisco Santana Says:

    EM TEMPO:
    Nos primeiros anos da Ditadura, o governo usou um sistema parecido com a idéia do Prof. Luis Valente. Em áreas e seu interesse, o governo financiava o aluno desde o curso vestibular com uma bolsa até o fim do curso. Em troca depois de formado, o profissional teria que trgbalhar dois anos em locais e regiões determinadas pelo governo e com salários melhores dos que os que Dilma paga osmédicos cubanos.

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