1249 – Nefelibatas são os outros

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João-Ubaldo-Ribeiro-2015

 

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Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

E.

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u teria me limitado a ler e a me deliciar com a crônica do genial João Ubaldo Ribeiro, enviada para a “debates-l” pelo Prof. Caio Castilho, se não fosse uma palavrinha usada pelo eminente docente. E essa palavra é “nefelibata”. Em qualquer dicionário de bolso da Língua Portuguesa encontrar-se-á, como uma das acepções para o termo, “pessoa que busca se esquivar da realidade; quem vive nas nuvens”.

Ocorreu-me consultar o meu amigo de gorro e pito para saber o que ele entendia por “viver nas nuvens”. Sem pestanejar, ele foi incisivo.

– Aí depende, chefia.

Da mesma forma que a minha amiga Mary Arapiraca, professora recém aposentada da UFBA – sob meus protestos! -, se irrita com a expressão “idem, idem”, conforme ela mesma me confessou, às vezes, irrito-me também com a construção textual “aí depende”. Esbravejei:

– Ora bolas! Aí depende uma pinoia! Quero objetividade, ô sacripanta. Depende de que?

Calmo como poucas vezes o vi assim, acendendo o seu insuportável pito, pediu-me que me abancasse.

Já meio envergonhado da minha zanga descabida, contei-lhe tim-tim por tim-tim da mensagem enviada pelo Prof. Caio Castilho para a lista de debate dos professores da UFBA e da crônica do imortal baiano João Ubaldo Ribeiro. Meio zen, ele foi descascando o verbo.

– Como eu havia dito, depende do ponto de vista. Mas no “vamos ver” do real, nem sempre pau é pau ou pedra é pedra.

– Traduza, Saci! – Pedi-lhe impaciente.

– Antes de você, eu já tinha lido a mensagem do Prof. Castilho. E até me surpreendi com a recomendação de leitura que ele fez para a lista de discussão da UFBA. Via-o como um cientista pragmático preocupado apenas com números, equações matemáticas e complicadas fórmulas. Mas eis que, de repente, ele se humaniza, descendo à materialidade simples dos pobres mortais, ao mundo do entretenimento, das construções signícas despojadas…

– Continuo sem entender onde você que chegar, Saci…

– Não quero chegar a lugar algum, chefia – gozou com minha cara o pilantra – tô qui nem o filósofo Zeca Pagodinho: “Deixo a vida me levar”…

Mais uma vez, desconcertado pela minha impaciência, tentei me desculpar. Porém, tenho dúvida se ele ouviu uma sílaba sequer da minha desculpa.

– A conclusão que se chega é que não existe o cientista “puro” – e isso é muito bom! -, preocupado apenas com as “verdades” científicas objetivas e sacralizadas. No exato momento em que é levado a recomendar um texto que foge completamente do “paradigma científico”, de alguma forma, é possível dizer que também os “homens de ciências” praticam seus pequenos “nefelibatos”, ou seja, acabam por fugir, de alguma forma, de uma realidade cronometrada, medida, pesada – e, por isso mesmo, opressora -, para elevar-se até às nuvens, e render-se à imaginação própria ou alheia.

Senti que os volteios do Saci passavam a ganhar contornos  mais nítidos.

– Quando digo que nem sempre “pau é pau e pedra é pedra”, falo justamente para mostrar que nem sempre a objetividade cartesiana prima pela “objetividade”, mas para a subjetividade. E, às vezes, a subjetividade perversa… Repare só. Em que pese a crônica de João Ubaldo ser bem escrita, há nela, diriam os politicamente corretos – sem querer fazer qualquer apologia a esse movimento que pode se tornar chatíssimo -, um certo regozijo do autor ao “bullying” velado, quando o professor de olhar vulpino (de raposa) faz um mis-en scène, uma patacoada ou coisa que o valha para ridicularizar o aluno diante da platéia. Erudição vazia, vaidade narcisicamente azeitada, tudo se converge para se afirmar a subjetividade e, em contrapartida, denegar o outro.

– Tudo bem, Saci, mas o que poderia fazer jus a um “pensamento objetivo” por parte do cientista?

– Por exemplo, debater a realidade objetiva que oprime o trabalhador, questionar as políticas governamentais…

– Sim, mas isso já se faz na “debates-l”…

– Quem faz? O Prof. Altino ou o Prof. Chico numa lista de mais de dois mil docentes?

– E o que você sugere, Saci?

– Duas coisa. Apenas duas coisas. Melhor, três. Primeiro, que você diga ao seu nobre colega que a lista “debates-l” da UFBA é o que pode ser. Ela é ela, e não é uma lista dos docentes de Cambridge ou Oxford. Segundo,  que todos os acadêmicos podem ser honestos admitindo que são vaidosos. Sem exceção! Terceiro, que para compensar a gentileza do Prof. Caio Castilho, você o recomende uma leitura diferente da que ele se acostumou a praticar… Mas que seja extensiva a outros cientistas renomados da UFBA… E a quarta sugestão é…

– Você mencionou três! – falei com firmeza.

– Tudo bem, então, eu paro por aqui. Mas sem antes de lhe lembrar, e a quem mais for preciso, que “nefelibatas” são os outros.

***

Depois de algumas consultas aos e-mails que eu havia recebido nas últimas semanas, para atender à sugestão do meu amigo de gorro vermelho e pito, resolvi escolher um texto bem básico, de linguagem simples, na tentativa de afastar alguns colegas, nem que fosse por míseros minutinhos, do mundo intrincado de fórmulas complexas, mas que não se limitassem também à mera leitura de entretenimento. Nem tanto no céu, nem tanto na terra. Evidentemente, sem minimizar a importância dos textos mais leves…

 


 

Existe de fato um governo em disputa?

André Freire, de Salvador (BA)

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Passamos pelo primeiro mês do segundo mandato de Dilma Roussef (PT) e de Rui Costa (PT) como novo governador da Bahia e, apesar do tempo curto, este período já foi suficiente para tirarmos conclusões importantes sobre as perspectivas para as lutas da classe trabalhadora, da juventude e da maioria do nosso povo.

A reedição da polarização eleitoral entre o PT e os partidos da chamada direita tradicional, tanto no cenário nacional (PSDB) como no baiano (DEM), reacendeu velhas discussões, que estavam relativamente secundarizadas desde os anos de 2003-2005.

Posições como: votar criticamente no PT para evitar a volta da direita, a esperança de que os novos mandatos seriam mais à esquerda do que os primeiros, considerar estes governos como em disputa entre dois projetos (propondo mobilizações para puxá-los para a esquerda), apoio às chamadas medidas progressivas do governo criticando somente o que eles fazem de ruim, entre outros argumentos, voltam a ter centralidade nas discussões dos movimentos sociais e da esquerda em geral.

Porém, uma análise mais atenta irá revelar que as principais medidas destes novos governos de conciliação de classes demonstram de forma bem cristalina para quem está governando o PT, o PCdoB e demais partidos da sua base aliada.

Medidas lembram receita neoliberal da Troika européia
Os novos mandatos, longe de se aproximarem do atendimento das justas reivindicações dos movimentos sociais, na verdade estão aprofundando o que já tinha sido feito pelos dois mandatos de Lula, o primeiro de Dilma e também pelos dois mandatos de Jaques Wagner à frente do governo baiano.

A economia brasileira caminha para uma recessão, realidade já presente no setor industrial, e as medidas dos governos buscam jogar nos ombros dos trabalhadores e dos mais pobres o peso da crise econômica internacional e seus reflexos já sentidos novamente no Brasil. Realmente, um leitor desatento poderia até confundir as medidas dos governos brasileiros com os chamados planos de austeridade defendidos pela Troika e pelos governos europeus.

A nível nacional, Dilma adotou medidas que restrigem o acesso a direitos trabalhistas históricos, como o seguro-desemprego, o auxílio-doença, o abono do PIS-Pasep, entre outras medidas que atacam em cheio justamente a parcela mais empobrecida da classe trabalhadora brasileira, que sofre com a enorme rotatividade da mão-de-obra em nosso país.

Pratica um “tarifaço”, aumentando de forma exorbitante principalmente o preço da gasolina e da energia eletrétrica, reajustes que terão grande consequência em cadeia para todos os preços de produtos, inclusive da cesta básica. E diminui sensivelmente a correção da tabela do Imposto de Renda, onerando ainda mais o já arrochado salário da maioria dos trabalhadores.

Assiste a uma primeira onda de demissões na indústria sem tomar nenhuma iniciativa concreta de proteção dos empregos da classe operária, justamente em empresas como as montadoras de automóveis, que muito se beneficiaram com as políticas de empréstimos a juros baixos e isençoes fiscais do governo.

E, para piorar ainda mais, vemos o maior contigenciamento do Orçamento de todos os tempos, com um profundo corte de verbas sociais, em especial na Educação, setor que Dilma disse que iria priorizar em seu discurso de posse.

No governo da Bahia não é muito diferente, vemos os mesmo cortes de verbas sociais realizado no Orçamento Estadual, sentenciando a já precaríssima saúde pública em nosso Estado a uma situação ainda pior, levando ao desespero o povo pobre e negro que depende dos hospitais públicos. Aos cortes de verbas sociais, se soma uma política de privatização de duas empresas públicas do Estado – A Empresa Baiana de Alimentos – EBAL e a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrário – EBDA. Medidas que terão profundas consequências sociais para a maioria do povo, além de atacar estes servidores públicos.

A própria composição destes governos não pode deixar dúvidas. A presença no Governo Federal, inclusive em ministérios muito importantes, de figuras como a ruralista Kátia Abreu (PMDB) na Agricultura, o banqueiro Joaquim Levy, figura muito ligada aos próprios tucanos, na Fazenda, Gilberto Kassab (PSD) nas Cidades, Cid Gomes (Pros) na Educação, entre tantos outros, são somente mais uma confirmação dos reais objetivos deste governo. E Rui Costa não ficou atrás também neste quesito, entregando secretarias fundamentais para políticos ligados ao PP, PSD, entre outros partidos conservadores.

Mas, apesar da justa revolta de muitos ativistas com a presença destes políticos burgueses e de direita em cargos nestes governos, não podemos esquecer que o principal ator e responsável por estas administrações é o próprio PT.

Quem determina a política econômica e social são quadros do PT, a começar pela Presidente e pelo Governador, passando pelos principais ministros e secretários, tudo com o aval da direção do PT e de seus principais dirigentes, especialmente Lula.

Uma polêmica necessária
Editorial do jornal Brasil de Fato, em sua edição 611, de 12 de novembro de 2014, diz o seguinte: “Mas para alterar a correlação de forças que permita ao governo avançar, será necessário realizar uma reforma política, que virá apenas através de uma assembléia constituinte, soberana, que espelhe a vontade do povo, e exclusiva para mudar o sistema político. O governo está entre esses dois projetos. E precisa agir logo, para demonstrar, pelo menos simbolicamente, de que lado está. Se cair nas emboscadas do PMDB, da mídia burguesa e outros porta-vozes da burguesia, e nomear ministros conservadores, perderá o necessário apoio popular”.

Estamos vivendo um aumento da polarização da luta de classses, e diante deste cenário as direções de importantes organizações políticas e sociais, como o MST, a Consulta Popular e o Levante Popular da Juventude seguem sustentando que a tarefa fundamental dos movimentos sociais é construírem uma agenda de mobilização para disputar o governo para seu projeto “democrático-popular”, em contraposição ao projeto neoliberal da direita. Como parte desta estratégia, se enquadra a campanha do plebiscito pela reforma política, como expresso no trecho acima de editorial do Jornal Brasil de Fato.

Para estes companheiros (as) existe, na luta política atual, uma divisão entre dois campos fundamentais: um de direita, composto pelos grandes empresários nacionais e internacionais, os governos imperialistas e os partidos da velha direita, entre outros; e um campo de esquerda, composto pelos movimentos sociais e os partidos de esquerda, mesmo aqueles que estão no Governo Federal.

Portanto, a tarefa dos movimentos sociais e da esquerda socialista seria lutar para que um projeto “democrático-popular” hegemonizasse o campo da esquerda, isolando o projeto “pseudo-neodesenvolvimentista”, que segundo os companheiros (as) seria defendido pelos governos petistas.

Historicamente, temos visto que a defesa do projeto “democrático-popular” sempre está associada à defesa de governos de conciliação de classes, que seriam impostos pela correlação de forças ainda desfavorável.

Esta estratégia se revela a cada dia como um grande equívoco. Não existe nenhuma disputa real por dentro dos governos de conciliação de classes do PT, seja nacionalmente seja ao nível dos estados, como no caso baiano.

Afinal, todos eles vêem aplicando nos últimos anos uma política econômica fundamentalmente a serviço da manutenção dos lucros das grandes empresas, bancos e do agronegócio. E, inclusive, as poucas medidas que são vistas como positivas pela maioria do povo, como Bolsa Família, Prouni, Cotas Racias nas Universidades, Lei Maria da Penha, para ficar em alguns exemplos, são parte de um mecanismo que busca convencer os trabalhadores, a população e os mvimentos sociais que eles governam superando o projeto neoliberal.

Mas são na verdade medidas muito parciais, sem questionar em nenhum momento a institucionalidade burguesa, e que só servem para escamotear a aplicação de uma política econômica que mantém, e em certa medida, aprofunda a aplicação das políticas neoliberais em nosso país.

Como podemos ver no pagamento “religioso” dos juros e amortizações da dívida pública, na preservação do mecanismo do Superávit Primário, nas políticas de isenções fiscais para as grandes empresas, no prosseguimento das privatizações, da entrega do nosso petróleo e do Pré-sal para empresas transnacionais, do retrocesso na reforma Agrária, nos cortes de verbas sociais, na reforma da Previdência, e um longo etc.

Mas o que é pior nesta estratégia não é só gerar ilusões nestes governos, mas colar a pauta e o programa de nossas mobilizações de forma absoluta ao destino das administrações petistas. A crise da econômica capitalista vem reforçar a impossibilidade de construção de um plano econômico dos trabalhadores e de um projeto de um país justo e igualitário em aliança com setores da burguesia, seja ela internacional ou mesmo nacional.

Os novos reflexos da crise econômica no Brasil já demonstram que os governos de conciliação de classes estão plenamente dispostos a adotar o receiturário dos bancos, grandes empresas e do agronegócio.

A única saída possível para os movimentos sociais combativos é forjarem nas lutas contra os ataques dos patrões e dos governos, sejam eles do PT ou da oposição de direita tradicional, uma alternativa realmente independente, sem aliança com as grandes empresas e seus partidos, e que retome a luta pelas reivindicações anticapiltalistas e socialistas.

O atrelamento de alguma forma ao projeto de concialiação de classes do PT é deixar a classe trabalhadora, a juventude e a maioria do povo sem uma alternativa de uma oposição real a tudo que está sendo feito na última década em nosso país, em nome de um projeto de esquerda, mas com um verdadeiro conteúdo programático da direita social liberal.

Construir um terceiro campo, de classe, socialista, oposto tanto ao projeto de conciliação de classes do PT, como oposto aos partidos da oposição burguesa e da velha direita, de fato não é tarefa fácil. Mas reconhecer essa dificuldade não significa dizer que ela seja impossível. Ao contrário, adiar essa construção para ficarmos reféns de um projeto que é uma completa traição às nossas perspectivas de luta pelo socialismo é o que realmente preparará a derrota e a desmoralização dos movimentos sociais combativos.

Portanto, faz muito sentido terminar este artigo com uma reflexão proposta pelo companheiro Ademar Bogo, militante e construtor ativo do próprio MST nos últimos anos:

Na medida em que a direita, embora derrotada, sai for­talecida das eleições, e as forças de esquerda, juntamente com os mo­vimentos populares organizados, subsumidos atrás da vitória do go­verno, diante dos confrontos racis­tas e sionistas vindouros, se opta­rem por defendê-lo, presos a uma proposta reduzida de “reforma po­lítica”, estarão enfraquecendo ain­da mais a capacidade de luta. Ao alimentar esta tática, para saber como será o futuro, basta respon­der a indagação do presente: qual seria a capacidade de reação das esquerdas e dos movimentos popu­lares se os tucanos tivessem ganha­do esta última eleição?” (Conflitos e confrontos, Ademar Bogo, Filósofo, escritor e militante muito ligado às lutas dos movimentos sociais).

Muitas vezes já foi dito: “quem não sabe contra quem luta, nunca poderá vencer”. Só retomando o caminho das mobilizações independentes contra os ataques de todos os governos, a começar pelos atuais ataques do governo Dilma, é que vamos fortalecer uma alternativa que realmente represente os interesses dos trabalhadores, da juventude e da maioria do nosso povo. E, para tal, é urgente e necessário romper completamente todo e qualquer apoio e ilusões nos governos de concialiação de classe construídos pelo PT e pelo PCdoB.

 

Uma resposta to “1249 – Nefelibatas são os outros”

  1. osaciperere Says:

    Publicado na “debates-l”:
    —————————————

    Prezados,

    Esta lista foi criada com o objetivo de estabelecer debates. Vez que se realizando a partir de uma Universidade Pública, depreender-se-ia fossem debates acadêmicos, pelo menos essencialmente. No entanto, pessoas em processo de crescente narcisamento, bem como nefelibatas e alambicados, dela se apoderaram – risco (preço?) da liberdade. Não obstante …
    Recebi, de querida docente, o texto abaixo, do saudoso João Ubaldo. Compartilho o mesmo com vocês. Talvez seja uma leitura interessante e, simultaneamente, agradável e lúdica, para o final de semana que se aproxima.

    Cordialmente,

    Caio Castilho

    O Verbo For
    João Ubaldo Ribeiro
    Vestibular de verdade era no meu tempo. Já estou chegando, ou já cheguei, à altura da vida em que tudo de bom era no meu tempo; meu e dos outros coroas. O vestibular, é claro, jamais voltará ao que era outrora e talvez até desapareça, mas julgo necessário falar do antigo às novas gerações e lembrá-lo às minhas coevas (ao dicionário outra vez; domingo, dia de exercício).

    O vestibular de Direito a que me submeti, na velha Faculdade de Direito da Bahia, tinha só quatro matérias: português, latim, francês ou inglês e sociologia, sendo que esta não constava dos currículos do curso secundário e a gente tinha que se virar por fora. Nada de cruzinhas, múltipla escolha ou matérias que não interessassem diretamente à carreira. Tudo escrito tão ruybarbosianamente quanto possível, com citações decoradas, preferivelmente. Os textos em latim eram As Catilinárias ou a Eneida, dos quais até hoje sei o comecinho.

    Havia provas escritas e orais. A escrita já dava nervosismo, da oral muitos nunca se recuperaram inteiramente, pela vida afora. Tirava-se o ponto (sorteava-se o assunto) e partia-se para o martírio, insuperável por qualquer esporte radical desta juventude de hoje. A oral de latim era particularmente espetacular, porque se juntava uma multidão, para assistir à performance do saudoso mestre de Direito Romano Evandro Baltazar de Silveira. Franzino, sempre de colete e olhar vulpino (dicionário, dicionário), o mestre não perdoava.

    — Traduza aí quousque tandem, Catilina, patientia nostra — dizia ele ao entanguido vestibulando.

    — “Catilina, quanta paciência tens?” — retrucava o infeliz.

    Era o bastante para o mestre se levantar, pôr as mãos sobre o estômago, olhar para a platéia como quem pede solidariedade e dar uma carreirinha em direção à porta da sala.

    — Ai, minha barriga! — exclamava ele. — Deus, oh Deus, que fiz eu para ouvir tamanha asnice? Que pecados cometi, que ofensas Vos dirigi? Salvai essa alma de

    alimária. Senhor meu Pai!

    Pode-se imaginar o resto do exame. Um amigo meu, que por sinal passou, chegou a enfiar, sem sentir, as unhas nas palmas das mãos, quando o mestre sentiu duas dores de barriga seguidas, na sua prova oral. Comigo, a coisa foi um pouco melhor, eu falava um latinzinho e ele me deu seis, nota do mais alto coturno em seu elenco.

    O maior público das provas orais era o que já tinha ouvido falar alguma coisa do candidato e vinha vê-lo “dar um show”. Eu dei show de português e inglês. O de português até que foi moleza, em certo sentido. O professor José Lima, de pé e tomando um cafezinho, me dirigiu as seguintes palavras aladas:

    — Dou-lhe dez, se o senhor me disser qual é o sujeito da primeira oração do Hino Nacional!

    — As margens plácidas — respondi instantaneamente e o mestre quase deixa cair a xícara.

    — Por que não é indeterminado, “ouviram, etc.”?

    — Porque o “as” de “as margens plácidas” não é craseado. Quem ouviu foram as margens plácidas. É uma anástrofe, entre as muitas que existem no hino. “Nem teme quem te adora a própria morte”: sujeito: “quem te adora.” Se pusermos na ordem direta…

    — Chega! — berrou ele. — Dez! Vá para a glória! A Bahia será sempre a Bahia!

    Quis o irônico destino, uns anos mais tarde, que eu fosse professor da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia e me designassem para a banca de português, com prova oral e tudo. Eu tinha fama de professor carrasco, que até hoje considero injustíssima, e ficava muito incomodado com aqueles rapazes e moças pálidos e trêmulos diante de mim. Uma bela vez, chegou um sem o menor sinal de nervosismo, muito elegante, paletó, gravata e abotoaduras vistosas. A prova oral era bestíssima. Mandava-se o candidato ler umas dez linhas em voz alta (sim, porque alguns não sabiam ler) e depois se perguntava o que queria dizer uma palavra trivial ou outra, qual era o plural de outra e assim por diante. Esse mal sabia ler, mas não perdia a pose. Não acertou a responder nada. Então, eu, carrasco fictício, peguei no texto uma frase em que a palavra “for” tanto podia ser do verbo “ser” quanto do verbo “ir”. Pronto, pensei. Se ele distinguir qual é o verbo, considero-o um gênio, dou quatro, ele passa e seja o que Deus quiser.

    — Esse “for” aí, que verbo é esse?

    Ele considerou a frase longamente, como se eu estivesse pedindo que resolvesse a quadratura do círculo, depois ajeitou as abotoaduras e me encarou sorridente.

    — Verbo for.

    — Verbo o quê?

    — Verbo for.

    — Conjugue aí o presente do indicativo desse verbo.

    — Eu fonho, tu fões, ele fõe – recitou ele, impávido. — Nós fomos, vós fondes, eles fõem.

    Não, dessa vez ele não passou. Mas, se perseverou, deve ter acabado passando e hoje há de estar num posto qualquer do Ministério da Administração ou na equipe econômica, ou ainda aposentado como marajá, ou as três coisas. Vestibular, no meu tempo, era muito mais divertido do que hoje e, nos dias que correm, devidamente diplomado, ele deve estar fondo para quebrar. Fões tu? Com quase toda a certeza, não. Eu tampouco fonho. Mas ele fõe!

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