1319 – O descarte dos terceirizados

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DESCARTE-TERCEIRIZADO-2015.

N.

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ão é de hoje que os “terceirizados” estão aos deus-dará. Volta e meia, tanto o pessoal da limpeza quanto o da vigilância têm seus salários atrasados, não dispondo de dinheiro sequer para o transporte. Infelizmente, esse pouco caso com o trabalhador ainda acontece dentro da própria UFBA, instituição que tanto discute “justiça social”, “direitos humanos”. Sou obrigado a concordar com o Saci: “Praticar a teoria é fogo”.

Felizmente, algumas almas ainda se manifestam em favor desses eternos esquecidos…

 


 

Magnífico Senhor Reitor João Carlos,

Muito bom dia. Permita-me trata-lo de Vossa Senhoria, uma vez que “Vossa Magnificência” pode soar demasiado pomposo e, por isto mesmo, sugerir um tom sarcástico, que absolutamente não é a intenção desta minha mensagem.

Escrevo em resposta à sua Carta à Comunidade UFBA, postada em 23 de março. Entendo que as restrições orçamentárias na UFBA são um reflexo do que está ocorrendo em todo país e que devamos de fato contribuir, como bons cidadãos e objetivando um futuro melhor para toda a nação.

No entanto, peço respeitosamente sua licença para discordar de um ponto em sua lista de medidas e expressar esta discordância para toda a comunidade, sem o quê minha consciência não ficará em paz.

Trata-se da sugerida redução em 25 % nos contratos de serviços terceirizados, inclusos serviços de segurança e vigilância patrimonial, portaria e recepção, manutenção, limpeza e conservação. Penso que esta Administração cometeria um terrível equívoco, por duas razões principais:

1) Tal medida certamente ocasionará demissões nos quadros das empresas que prestam tais serviços, impactando muito negativamente na sociedade e contribuindo para piorar os números e estatísticas que retratam a situação atual do Brasil. Todavia, muito além de números e estatísticas, estamos falando de famílias de baixa renda, que muitas vezes dependem exclusivamente destes proventos para custear as despesas com crianças, idosos e entes enfermos ou incapacitados. Estamos falando de profissionais que já são muito mal remunerados e, por muitas vezes, na história recente da UFBA (pelo menos nos 25 anos em que atuo como docente) foram desrespeitados em seus direitos trabalhistas, mas que mesmo assim se apegam a este vínculo empregatício pela necessidade de prover o pão de cada dia a seus familiares e de minimizar suas dívidas. Estamos falando dos pequeninos, invisíveis para muitos de nós, não obstante indispensáveis, que a comunidade UFBA abriga e tem o dever de proteger. Sim, nós, docentes universitários, que, querendo ou não, verdade ou não, simbolizamos para sociedade o que há de mais intelectualmente refinado neste país, temos o dever de utilizar nossa palavra e nosso poder de ação para defender estes pequeninos de voz fraca.

2) Reconheço que existam itens de dispêndio nesta Instituição que poderiam ser aplicados com maior parcimônia, mas, indubitavelmente, os serviços terceirizados não estão entre eles. Ao contrário, a prestação destes serviços, em razão do quadro restrito de profissionais, está muito aquém do minimamente necessário. No que concerne à segurança, portaria e recepção, isto se reflete nos inúmeros episódios de furto, assalto, agressão e depredação do patrimônio público, muitos que, infelizmente, sequer chegam ao conhecimento de V.Sa. No que concerne à limpeza e conservação, testemunhamos todos os dias um pequeno número de profissionais, alguns dos quais em idade avançada, fazendo o impossível com materiais ínfimos e utensílios desgastados, para dar conta de corredores sem fim, vidraçarias sem fim, escadarias sem fim, superfícies sem fim, pesos sem fim. Sem mencionar a exposição perigosa a eventos grotescos, como inundações de água esgotada ou transbordamentos de privadas. Reconhecendo toda esta sobrecarga, não é raro que docentes e funcionários de vários setores da UFBA colaborem com gorjetas irrisórias, porém muito bem vindas, para amenizar a situação ou acrescentar demandas extras. No que concerne à manutenção, saltam aos olhos os serviços que se encontram por fazer em todas as instalações da UFBA, configurando até mesmo alguns quadros calamitosos ou potencialmente desastrosos, a exemplo de cabos de eletricidade expostos a vazamentos, sítios sem adequadas vias de escape em caso de incêndio, entre outros.

Assim sendo, Sr. Reitor, venho solicitar encarecidamente e em nome de muitos de meus pares, que tal medida seja reconsiderada pela Administração Central, até porque hoje necessitamos de um substancial acréscimo e não de uma redução dos serviços terceirizados. Acredito que um estudo mais pormenorizado, a ser realizado pelo pessoal da área administrativa, financeira e técnica, permitirá encontrar alternativas de redução de despesas que não afetem estes serviços.

Firmando meus protestos de apreço e consideração, subscrevo-me,

Atenciosamente,
Ana Isabela Araújo Cunha
Professora do Departamento de Engenharia Elétrica da UFBA

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Total concordância com a professora Ana Isabela Araújo Cunha, a quem aplaudo a iniciativa e assino embaixo.
Não nos parece sensato cortar “gastos” com terceirizados, num momento crítico como este.
Ainda mais se considerarmos que o  orçamento 2015 aprovado pelo Congresso Nacional para a UFBA comporta um reajuste de 16,86%  nas verbas previstas, em relação ao orçamento de 2014, totalizando R$ 1.314.749.911,00. É lutarmos para que a draconiano Levy, de quem Dilma é prisioneira, não ouse cortar os recursos aprovados pelos parlamentares. Uma greve geral bem pode ser pautada, se eles ousarem.
Encareço também ao prezado reitor João Carlos Sales e ao Conselho Universitário que, em demonstração de humildade e grandeza, revejam o deliberado anteriormente e comunicado via “Carta à Comunidade”.

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.Fernando Conceição


Leia também:

Nau sem rumo

 

 

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5 Respostas to “1319 – O descarte dos terceirizados”

  1. Francisco Santana Says:

    Onde estão a ASSUFBA e a UFBA?

  2. osaciperere Says:

    Circulou na “debates-l”:
    ————————————

    Degradação generalizada: saúde, educação, segurança, transporte, meio ambiente, arrocho, inflação, desemprego, desvalorização da moeda, PIB, desconfiança internacional, giga corrupção. Ligo a TV e vejo petralhas-friends, representantes do partido comunista, tentando mascarar o caos e amaciar a insatisfação popular com a velha e surrada história de chapeuzinho vermelho: “cuidado jovens brasileiros o lobo mau vai abocanhar a Petrobrás e as jazidas do pré-sal”. Mas logo agora? Porque o lobo não atacou, há 10 anos atrás quando estava faminto, a empresa saudável e o pré-sal viável? Mas é possível que os gringos tenham resolvido explorar nossa (?) riqueza com base em pareceres dos renomados “consultores” Lula e Zé Dirceu.

    Telésforo
    …………………………………
    O rato de esgoto, o molusco X-9, elegeu uma anta prepotente, arrogente e incapaz. O resultado é que sobrou para todo mundo, principalmente para os mais pobres e desprotegidos. O que está ocorrendo na Ufba é uma pequenina mostra da situação em todo o país. De qualquer modo, minhas felicitações a iniciativa da Profa. Ana Isabela…

    Telésforo

  3. altino Says:

    Louve-se a iniciativa da missiva da colega!
    Pero, nada de novo nesse processo chamado de “ajuste fiscal” para dar mais grana a banqueiros e capitalistas! Sistematicamente fazem isso e, para variar, a responta tem de ser a mobilização e pressão através da luta dos trabalhadores, podendo redundar na “abominada” greve!
    A comunidade da UFBA tá disposta a se mobilizar, parar como propõe o Fernando ou continuará assistindo o “desenrolar dos acontecimentos”?
    altino

  4. Sandra Marinho Siqueira Says:

    A crise econômica atingiu um ponto alto e se elevará ainda mais. Esta posto a sentença: Ou defendemos as reivindicações com os métodos próprios de luta ou arcaremos com pesados sacrifícios,

    Não podemos admitir que a unica saída para a crise na UFBA seja a mesma aplicada pelos governos, ou seja, de cortes, austeridade e ataques a vida dos trabalhadores, particularmente, os mais vulneráveis (terceirizados).

    Qualquer concessão que os trabalhadores fizerem ao governo e aos patroes, resultará em mais cortes, destruição de direitos, avanço da terceirização, demissão, precarização geral das relações de trabalho.

    O governo do PT deu um salto de 1,1 bilhão para 13 bilhões anuais (aumento de 1.218%) com o FIES, só obteve no período um crescimento de matriculas de apenas 13%. O FIES é apresentado pelo governo com meio de acesso do estudante trabalhador ao ensino superior. Essa politica de subsidio aos capitalistas do ensino na tentativa de ampliar gradativamente o numero total de estudantes tem se chocado com os interesses dos referidos capitalistas que só tem acumulado e valorizado a educação enquanto mercadoria.

    O grupo Kroton (Anhanguera) recebeu só em 2014 mais de 2 bilhões do governo, através do FIES. Estácio recebeu no mesmo ano R$ 683 milhões e UNIP, R$ 390 milhões.

    Aliado a drenagem de recursos públicos para a esfera privada, temos o submetimento da politica econômica ao pagamento de juros das dividas internas e externas. O governo tem servido ao grande capital nacional e internacional, portanto, a pergunta que não pode calar: È JUSTO ARCARMOS COM O ÔNUS DA CRISE?.DEVEMOS CORTAR NA CARNE DOS TRABALHADORES QUE NÃO SÃO RESPONSÁVEIS PELA CRISE?

    Neste momento devemos mobilizar todos os segmentos da universidade, CONSTRUIRMOS UMA FRENTE DE LUTA CONTRA OS ATAQUES. CONTRA A MERCANTILIZAÇÃO, CONTRA AS DEMISSÕES E CONTRA A APLICAÇÃO NA UNIVERSIDADE DO PLANO LEVY.

    VAMOS NOS ORGANIZAR E LUTAR ATÉ A VITÓRIA FINAL

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