201 – A árvore de Natal da APUB

Num gesto de rebeldia, as mãos quase ágeis do Saci tomavam um rumo diferente do que o seu cérebro reflexivo recomendava... (clique na arte para ampliá-la).

 

.

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

Clichê à parte, o silêncio sepulcral da nova diretoria da APUB já incomodava o Saci. De longe eu o observava. Estava todo concentrado diante da tela do computador. Absorto no mundo virtual de bits e bytes, a língua saía-lhe da boca qual borboleta irrequieta, acariciada levemente por dentes cúmplices. As vezes que eu fechava os olhos incomodado pela claridade que vinha da janela da sala, só o estalido  renitente do mouse denunciava-lhe a presença. Ele era todo silêncio e concentração. Até os seus olhos, um tanto esbugalhados, relutavam em deixar a superfície de cristal líquido, sequer por míseras frações de segundo.

O calor de final de primavera baiana induzia à lânguida madorna. Capitulei. O sono assaltou-me, sem que eu mostrasse qualquer resistência.  Não sei por quanto tempo fiquei fora do ar.

Da mesma forma que fui, voltei. Em fade in, vi novamente o Saci surgindo na minha frente. De esguelha, ele havia percebido o meu cochilo e colaborara para que eu descansasse um pouco. A minha impressão era que evitava clicar o mouse com mais força para eu não despertar. Quando percebeu, afinal, que eu já ensaiava sair da larga cadeira de vime onde me encontrava, rompeu o silêncio meio reticente.

– Sinceramente, chefia, não estou bem certo… Talvez eu deva esperar mais um pouquinho… Natal é sempre uma trabalheira extra… E depois, não deve ser fácil remover todo o entulho deixado por uma diretoria autoritária…

Meu raciocínio ainda estava meio lento. Era como se eu não estivesse acordado por completo. Ao mesmo tempo em que lhe perguntava sobre o que ou de quem estava falando, dirigi-me ao banheiro. Sempre achei que a água fria levava para o ralo as últimas partículas de sono impregnadas no canto dos olhos. Talvez até que essa minha tese não seja lá muito científica, mas também eu não estou muito  preocupado  em receber o título de pesquisador do mês, com retratinho e tudo no portal da UFBA, como era antigamente no reitorado anterior. Aquela prática me remetia ao expediente dos mequidônaldes do mundo, para estimular o moral da tropa… Algo um tanto artificial, meio sorriso de propaganda de creme dental… Mas, enfim, devia funcionar. Afinal, se estava no catecismo dos empreendedores neoliberais, era porque tinha alguma serventia. Caso contrário, a escola pragmatista fecharia suas portas…

De volta à  sala, encontrei o meu amigo de gorro vermelho  e pito meio fragilizado. Diria, pelos seus olhos melancólicos, que vivia um conflito interior. Daquele vivido por Hamlet, o príncipe da Dinamarca, exibido no Shakesperare’s Canal, do tipo “tubi or notubi”, que, aliás, é uma coceira no nervo ótico… (O conflito interior é que é incômodo, esclareço, e não o genial escritor inglês, para que não paire qualquer dúvida…).

Respeitei-lhe o estado de espírito. Folheei uma edição especial (novembro/dezembro de 2010) da revista Carta Capital. Fui obrigado a reconhecer a esperteza de certos empresários que falam de cidadania, de deselvolvimento sustentável, de energia renovável, de respeito ao meio ambiente e de muitos outros bichos e vegetais, como se fosse possível acumular, acumular, acumular sem exaurir a seiva vital do planeta. E, ainda por cima, sem abrir mão da exploração humana e da mais-valia. Isso tudo eu ia conjuminando interiormente para não encará-lo de frente (como se fosse possível encará-lo de trás no maldito clicheguevara!).

Mas ele facilitou o papo. Apontou-me a arte que havia obrado. Enquanto eu a observava, tentando controlar o tamanho do sorriso de canto de boca, para não demonstrar mais interesse do que devia, ele mostrou-se, mais uma vez, reticente com as palavras, diferente do que acontecera com as imagens na sua web-art.

– Sabe, chefia, é Natal. Meu coração fica pior do que margarina em cima de aparelho de TV de tubo de imagem. É uma Bósnia mesmo! Não quero que digam que atirei no príncipe de Seravejo, o Chico Ferdinando. Afinal, só quero me expressar contra o peleguismo, o entreguismo, o trairismo. Afinal, sindicato é pra lutar, pra defender o interesse dos trabalhadores, e não pra ficar assim [esfregou os dedos indicadores entre si] com os homens lá de cima. O pior de tudo é que são professores supostamente conscientes. Tudo bem que tenham uma relação amistosa e até respeitosa com o censor anterior, mas seguir a sua bula proibitória é demais. Cadê a tal autonomia que vocês professores universitários tanto discursam em sala de aula? Cadê?

– Bem Saci, eu não queria me meter…

– Claro, claro. Sua posição é delicada. Afinal, são seus colegas… Tudo bem! Vamos esperar mais um pouco. Eu  quero primeiro ter elementos concretos pra botar a boca no mundo, e dizer em alto e bom som “A NOVA DIRETORIA DA APUB ESTÁ SEGUINDO O CATECISMO DO PROF. ISRAEL PINHEIRO! ESTÁ CENSURANDO MENSAGENS NA LISTA! E EU QUERO QUE ME PROVEM O CONTRÁRIO!…”

– Calma, meu amigo! Você está gritando! O que o vizinho não vai pensar?

Ô chefia, foi mal. Fiquei meio indignado, só em pensar que tenho que fazer, nos próximo dois anos, mais duzentas charges para valer o meu direito de cidadão, de pagante de mensalidade à APUB…

– Como é que é, Saci? Pagante de mensalidade à APUB? Desde quando?

Ops! Mais uma vez foi mal. Quem paga é você. Eu sou só um penetra, apenas um enxerido, um intruso, um intrometido, um…

– Também não é assim, meu querido!Você é meu parceiro, meu amigo de fé, meu irmão camarada, meu id, minha pulsão vital, minha…

– Menos chefia, menos! É Natal, mas não precisa exagerar. Se você quer aplacar sua consciência, vá lá no seu armário e veja o que está com a data de validade pra vencer, ou pegue suas roupas que não dão mais em você, e dê para os pobrezinhos. Em cima de muá, não!

E, dizendo isso, feito João Gilberto, jogou o violão para o lado e se mandou na direção da Praça da Piedade.

Meio aturdido com o que ocorrera, só tive ânimo de abrir a boca feito bobo. Eu, hem! é cada uma! Só tem gente estressada!

***

 Veja leitor, como você pode testemunhar, sem mais nem menos, o Saci se mandou e deixou inconcluso este post. Agora, bateu a dúvida: publicá-lo ou não?

Bem, para sermos coerentes, se criticamos a diretoria da APUB por reter mensagens, o correto é liberarmos este post, assim como está mesmo. Afinal, você e os demais leitores da lista “debates-l”, e de outras das quais sou fiel tributário, são  espertos e podem tirar suas conclusões, ainda que certas palavras não estejam aqui escritas e presentes. Esta é a grande magia da linguagem e a grande sacada da proposta  da congenialidade…

———————–

OBS: 1) Já ia me esquecendo! Um pouco acima, onde se lê “violão”, leia-se “teclado alfa-numérico”. 2) Não confundir João Gilberto com Sérgio Ricardo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: