1019 – Os juízes do Monte São Lázaro

. juiz-de são-lazaro.

Menandro Ramos
FACED/UFBA

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P.

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ara o Saci, “os doutos juízes que brotam nas terras férteis do Monte São Lázaro – medida de todas as coisas e porta-voz auto-nomeado da UFBA -,  dão sempre a última palavra, guardiões que são dos densos tratados Deontológicos, Axiológicos e, sobretudo, da Ética Normativa Lazarena prescrita para pobres e ignaros mortais, do que sobra da cognição humana para a academia periférica”. Segundo ainda o meu debochado amigo, os tais são “árbitros implacáveis, que fazem soar, de forma tonitroante, seus robustos martelos para decidir quem deve ou não fazer o usa do verbo – profano ou sagrado, apolíneo ou dionisíaco”.

Já eu, infinitamente mais raso do que o meu amigo de gorro vermelho e pito, apenas pergunto: o que há de mal, colegas, em exigir salvaguardas para a UFBA? Algum candidato estaria acima do bem e do mal para não serem sabatinados? Se sim, por que não me avisaram?

Ao longo da últimas semanas, tenho ouvido carradas de elogios à atuação do Prof. João Salles, um dos reitoráveis da UFBA, enquanto ex-diretor da Faculdade de Filosofia. Inclusive da parte dos Prof. Antônio Câmara e da Prof. Betty Malin, dois queridos amigos que muito estimo e admiro pelas lutas que em que estivemos engajados. Aliás, com eles, fomos a Brasília para protestar contra os desmandos do governo Lula, então iniciante, notadamente combatendo o ataque que era perpetrado contra a Previdência, na chamada contrarreforma de DNA neoliberal. Não me lembro de ter visto lá nenhum desses outro doutos do Monte São Lázaro…

De cara, nutri uma grande simpatia pela candidatura do Prof. Salles. Isso, entretanto, durou até eu saber dos notáveis governistas de carteirinha que o apoiavam: Marilena Chauí, Emiliano José, Nelson Pellegrino, Alice Portugal, só para citar alguns deles. Imediatamente, veio-me à mente a contrapartida que poderiam demandar para que o apoio fosse efetivado de fato.

Mas, pergunto eu aos doutos colegas: o que há de mal nisso? Ao contrário. O questionamento que faço até oportuniza  que o candidato confirme seu empenho pessoal em favor da autonomia da UFBA e reafirme o seu protagonismo perante a sociedade baiana em favor da democracia, do respeito mútuo entre os cidadãos e da construção de um mundo melhor para todos, muito além da retórica eleitoreira.

Tive a oportunidade de trabalhar, por um breve tempo, com o Prof. João Salles numa disciplina que ajudei o saudoso Prof. Felippe Serpa a criar para a graduação e pós-graduação da FACED, cujo nome bem identificava o seu autor e ex-reitor, porém magnífico perpétuo: Universidade, Nação e Solidariedade. Na época, impressionei-me pela seriedade e competência do mencionado colega. Tranquilo, calmo e sempre gentil, como convêm à saúde da boa convivência universitária.

Confesso-me, entretanto, um gato escaldado em água quente. Admirei, um dia, Lula da Silva; admirei José Dirceu; admirei José Genoíno. Tenho vivas, na memória, as lembranças da minha família e eu cantando pelas ruas de São Paulo, onde eu estudava na época: “Lula lá, brilha uma estrela”. Meus filhos, ainda pequenos, aprenderam a dar nós e a exercitar a coordenação motora fina com as fitas de propaganda da candidatura petista, amarrando-as sozinhos nas próprias cabeças e afixando a estrela vermelha (que nos parecia honrada) no peito, e que ostentavam com grande orgulho a opção pelo Partido dos Trabalhadores, outrora tão respeitado.

box3O tempo passou e vieram a decepção, a perplexidade, a indignação. O povo brasileiro foi cinicamente usado. E A Universidade Pública, idem. Pelo menos parcialmente. Concordei com o querido Prof. Câmara quando ele tachou Lula de traidor do Trabalhador. E o tempo continuou passando… Se eu tiver oportunidade, ainda perguntarei ao ex-presidente da APUB se continua pensando da mesma forma que antes sobre o ex-presidente da República. Quem sabe, também, não terei a oportunidade de indagar ao titular da Chapa 1 se ele concorda com a visão do Prof. Câmara de que Lula traiu a classe trabalhadora deste país.

Não tenho dúvida que o Prof. João Salles saberá responder, a contento, todos os questionamentos que lhe são feitos, inclusive saberá também aplacar os temores dos que não esquecem do triste papel representado pelo grande intelectual e filósofo alemão Heidegger, que se filiou ao partido NAZI de Hitler, tendo sido mais tarde nomeado reitor da Universidade de Friburgo… Intelectuais são feitos de carne e osso: comem, descomem, têm vaidades, amam, odeiam, ocasionalmente podem praticar luxúrias, traições, crimes e por aí vai. Mas asseguro que o candidato a reitor não está no rol dos equivocados…

Que me perdoe a peroração de um dos ilustres juízes do Monte são Lázaro: “Todo mundo critica grupos ideológicos fechados. Na hora em que um  candidato consegue dialogar tranquilamente com pessoas de diferentes  posições políticas, começam a questionar, lançar suspeitas? O que está  acontecendo?” (Abaixo, a íntegra do libelo em favor do titular da Chapa 1). Faço, entretanto,  minhas as palavras do combativo Prof. Fernando Conceição, da FACOM: “Não se trata aqui de criticar atabalhoadamente seu arco de alianças, à maneira como quer nos fazer acreditar, como se ingênuos fôssemos todos, o Prof. Waldomiro Silva Filho, ao defender o voto no seu projeto de poder, alegando sua capacidade de “dialogar tranquilamente com pessoas de diferentes posições políticas”.  Creio que para um eleitor mais exigente da UFBA, parodiando os antigos romanos: “Não basta a um candidato a reitor ser confiável! Ele precisa parecer confiável”.

Confira o que diz o douto em tela:

Colegas,

Sou desses que defende o direito irrestrito à livre expressão,  sobretudo no que concerne a temas políticos. Mas todo aquele que usa  esse direito deve arcar com certas obrigações morais. E a principal  delas é a honestidade intelectual. O que implica usar argumentos  claros, deixar claro seu ponto de vista, respeitar eventuais  adversários e assim por diante. Acho importante que o prof. Menandro se utilize desse espaço para  expressar suas opiniões sobre a movimentação em torno da eleição para  reitor da UFBA. Esse é um bom modo de exercício da democracia,  principalmente porque somos uma comunidade pequena com interesses  muito semelhantes acerca dos mesmo temas. Meu único – e grave desconforto – diz respeito a uma prática que, na  minha opinião, não é virtuosa: o Prof. Menandro pretende assumir o  lugar de um “intérprete” da campanha eleitoral e tenta colocar seu  blog como uma espécie de “observatório” (isento, neutro, crítico, que  arrola fato, reúne as diferentes opiniões, expõe o real). Ele pretende isso, mas o que tem feito é exclusivamente criticar e atacar um único  candidato, o Prof. João Carlos Salles, e o amplo (e plural) grupo que  lhe dá apoio. Seria mais virtuoso fazer uma das duas coisas a seguir: a) assumir que  seu interesse é opor-se à candidatura do Prof. João Carlos, reunir  críticas e depoimentos desfavoráveis a ele e defender seu próprio  candidato ou b) tornar-se um observador crítico de todos os candidatos  e grupos. Creio que “b” é impossível, pois o “certo” e o “errado” já está posto:  “certo” são aqueles que assumem a agenda que o próprio Prof. Menandro  defende. Por isso, sugiro que assuma a opção “a”, declare sua  preferência político acadêmica, defenda seu candidato. Não há nada de errado nisso. Ao contrário, isso é virtuoso. O prof.  Câmara fez isso, o Prof. Paulo Fábio fez isso. Muitos outros têm  assumido escolhas políticas, e, por curioso que pareça, são as pessoas  (de diferentes colorações) que dão apoio ao candidato da Chapa 1 que  têm mais desenvoltura, leveza e clareza nesse item. Eu, por exemplo, não tenho dificuldades para dizer que votarei no  Prof. João Carlos e que acredito que, sendo eleito, ele terá todas as  condições para dirigir uma universidade plural, contraditória, rica,  como a nossa. Será capaz de manter um diálogo franco e aberto com  todos, principalmente porque a sua campanha não é contra alguém, não  se pretende derrubar, desmoralizar, desacreditar alguém. Todo mundo critica grupos ideológicos fechados. Na hora em que um  candidato consegue dialogar tranquilamente com pessoas de diferentes  posições políticas, começam a questionar, lançar suspeitas? O que está  acontecendo? Atenciosamente,

Waldomiro Silva Filho
Dep. de Filosofia

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4 Respostas to “1019 – Os juízes do Monte São Lázaro”

  1. osaciperere Says:

    Circulou na “debates-l”:
    —————————-

    Prezado Prof. João Salles Pires da Silva,

    desde já declaro meu respeito e estima pessoal pelo colega, de trajetórias política e acadêmica respeitáveis. Torço para que faça uma feliz campanha pela disputa à Reitoria da UFBA, embora, como já anteriormente aqui informei, meu voto é do nosso também admirável Prof. Nelson Pretto.

    É uma opção política que faço, riscando o colega das minhas preferências por conta daquilo que em mensagem que gerou vossa resposta a mim, apontou o Prof. Paul Regnier.

    Sua resposta, aliás, deixa de lado o ponto nevrálgico apontado pelo Prof. Regnier, relativo à suposição de que, eleito ao comando desta UFBA, sua administração estaria comprometida com o projeto de poder que faz quase 8 anos governa a Bahia. Ao qual faço sérias restrições e acuso de conivente com o genocídio do povo negro deste Estado, além de outros descalabros administrativos.

    Como democrata, sou a favor da alternância no poder. Razão porque me engajarei na derrota da chapa Rui Costa/João Leão empurrada por Jaques Wagner/Otto Alencar. Se trabalhar pela derrota de tal projeto passa por negar meu voto ao ilustre colega João Salles Pires da Silva, assim o farei.
    Como o senhor, em sua resposta a mim, não negou essa suposição de alinhamento, que se constituirá em fato gravíssimo à autonomia da Universidade perante governos -, suposição baseada na análise do seu arco de apoio político-partidário nessa campanha à Reitoria da UFBA -, deixa margem à confirmação da hipótese.

    Não se trata aqui de criticar atabalhoadamente seu arco de alianças, à maneira como quer nos fazer acreditar, como se ingênuos fôssemos todos, o Prof. Waldomiro Silva Filho, ao defender o voto no seu projeto de poder, alegando sua capacidade de “dialogar tranquilamente com pessoas de diferentes posições políticas”. É justamente essa “tranquilidade” que deveria nos intranquilizar – vez que não se trata, no caso da disputa pela Reitoria, de obter a vitória a qualquer custo, ainda mais a custa do atrelamento ideológico-partidário da Academia.

    Talvez seja querer demais, mas penso que a Universidade deveria resistir à tentação de se deixar corromper pelo oportunismo eleitoreiro. A sociedade necessita de uma gestão universitária crítica aos desmandos governamentais que assistimos, por conta do silêncio de supostos intelectuais que servem não à sociedade, mas ao Partido, por adesistas que se fizeram.

    Em sua resposta a mim dirigida o senhor mira exclusivamente na justificativa de suas opiniões quanto ao veto que fez, quando diretor da FFCH, à construção de uma residência universitária em terreno limítrofe às comunidades do Alto das Pombas e Calabar, de onde eu vim. A base do seu veto é aquilo que o senhor diz ser “a vizinhança do tráfico” [de drogas], afirmando inclusive que a área seria dominada por traficantes. Desculpe, mas o senhor estava, como ainda permanece, equivocado. E perdeu, com o veto, a oportunidade de fazer a Universidade dialogar melhor com a comunidade – que está ali muito antes do campus de São Lázaro.

    A comunidade não é nem nunca foi dominada por traficantes. Eu e milhares de moradores não o somos nem aceitamos essa pecha – moto de todo o trabalho e toda a luta política que ali desenvolvemos, criando escolas modelos, grupos culturais, alternativas de geração de renda-emprego, grupos de mulheres e de jovens, equipes de esportes que disputam campeonatos regionais, estaduais e nacionais saindo-se vitoriosas.

    O senhor perdeu a chance de rever a visão elitista e preconceituosa em relação a essas comunidades. Todas as manhãs que chego para dar aulas na Facom, ou à tarde ou à noite, quando saio, encontro pessoas no vão de entrada consumindo drogas tranquilamente. No campus de São Lázaro o senhor sabe que o mesmo ocorre, e na Politécnica, e nas áreas verdes dos PAFs etc. Essa droga não dá por geração espontânea nos campi da UFBA. Ainda assim, são os moradores do Calabar e do Alto das Pombas os responsáveis pelas disputas advindas da enorme demanda de gente diferenciada como nós, a inteligência que quer comandar a Reitoria… Como são as vítimas do genocídio que vimos nas últimas semanas as responsáveis por terem sido mortas, como cinicamente difunde o discurso oficial.

    Desejo boa sorte à sua candidatura, candidato.

    Fernando Conceição.

  2. Ramon Missias Says:

    Ulalá!! Toma rebombada! rs Eu sou mais a Chapa 2!!! kkkkkkkkkk

  3. osaciperere Says:

    Circulou na “debates-l”
    ———————————–

    Waldomiro,

    Parabens pelo seu escrito, concordo com você. Um amigo meu, filósofo, sempre diz que os intelectuais não sabem dialogar e sim polemizar.

    O Prof. Menandro não acompanhou a trajetória de João Salles, João conseguiu instalar a pós-graduação em Filosofia. Mestrado e Doutorado.

    Foi brilhante no exercicio da Diretoria, ninguem tem nada para criticar o Prof. João, ele sabe o que é Democracia, sempre foi cordial e respeitoso com todos. Foi eleito por duas vezes para dirigir a ANPOF por seus pares.

    Tenho a impressão que o Prof. Menandro não o conhece. Tenho sempre comigo o dito “Quem se destaca do coletivo
    toma p. de todos os lados”. Eu conheço João Salles desde a graduação, depois na pós (ele foi meu aluno). Acho que o
    Prof. Menandro não sabe o que é filosofia e que o Prof. João foi Professor de Lógica e sabe analisar quando a contradição
    pode levar ao engano.

    Prof Menandro por que o senhor está tão preocupado com João, aonde ele lhe incomoda? No fato de nunca o sr. terá a trajétoria dele?

    Elyana Barbosa

    • Menandro Ramos Says:

      Circulou na “debates-l”:
      —————————-

      Fico feliz pelo coração da UFBA bater fortemente outra vez, ainda que sem compreender direito o que seja Filosofia, além da vaga compreensão do que é ser amigo da sabedoria, e de não ser digno de pisar, sequer, no chão em que o celebrado filósofo-candidato pisa…

      Quem sabe os doutos do Monte São Lázaro invertam o dito aristotélico: amigo da verdade, da sabedoria, mas mais amigo de João… Rss.

      Talvez o Prof. Altino, o patinho rebelde das bandas de lá, tenha razão: amordaçaram a razão crítica… Está tudo dominado!

      Menandro Ramos
      FACED/UFBA

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