1020 – O rei está nu?

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JOÃO-ESTÁ-NU.

Menandro Ramos
FACED/UFBA

A.

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lguns leitores já me indagaram o porquê deste Blog ter publicado mais postagens sobre o candidato titular da Chapa 1 do que sobre os outros candidatos.

A pergunta pode ser respondida de uma maneira muito simples: o Prof. João Salles, além de ser um forte candidato, tem recebido, como não é segredo para ninguém, o apoio de inúmeros políticos e celebridades ligadas ao partido do governo. Como consequência disso, o ilustre professor pode ficar refém da estrela vermelha que tanto estrago tem provocado na UFBA, correndo, assim, o risco das mazelas se estenderem por um total de oito longos anos, caso seja eleito e as suspeitas se confirmem.

Só quem não quer enxergar não vai concordar que o PT estendeu seus tentáculos pela UFBA com grande voracidade. Cada jogada foi ensaiada cuidadosamente nos últimos anos. Tim-tim por tim-tim. Por que teria sido indicada a atual reitora – alguém vista, de um modo mais amplo, como alguém competente tecnicamente, ética e, sobretudo, “neutra” a ponto de não representar ameaças para o projeto expansionista do governo, iniciado na gestão do Prof. Naomar de Almeida Filho? Teria sido apenas coincidência a passagem dela pela Fapesb? Por que teriam sido indicados tantos colegas docentes para secretariar o governo estadual petista, como nunca antes aconteceu na história da UFBA? Pela competência técnica dos escolhidos? Se sim, por que, então, o Prof. Osvaldo Barreto foi logo para a pasta da Educação, com a qual nunca teve a menor intimidade, demonstrando isso durante o tempo todo que vem ocupando a importante Pasta, e atanazando a vida dos professores estaduais, como verdadeiro inimigo dos trabalhadores? Creio que seria dispensável falar sobre os demais secretários, reféns de recursos carimbados pelas conveniências do politicamente do Partido dos. Trabalhadores. A realidade fala por si, e as coloridas propagandas de Jaques Wagner não conseguem escondê-la totalmente para os menos ingênuos.

Tudo isso é suficiente para colocar o candidato mais cortejado pelo partido do governo sob suspeita, falando de uma maneira muito franca. Nelson Pretto e João Salles, por enquanto, ocupam as melhores posições, de acordo com a pesquisa que fizemos de intenção de votos. A ordem é essa: Nelson, João, Dirceu e Rogério.

Se a inteligência e cordialidade do candidato da Chapa 1 encanta, a possibilidade de ser cooptado pela petezada – ou pelegada para alguns -, assusta. E muito. Cabe a ele, então, apresentar o “ônus da prova”, ou seja,  cabe a ele mostrar o contrário, e não aos eleitores, como insistem em pregar os doutos apoiadores-levitadores do Prof. Salles, com endereço fixo no Monte São Lázaro (uma espécie de Parnaso da UFBA), num flagrante desrespeito à inteligência dos que querem mais do que promessas de campanha.

Durante o Debate promovido pelas três entidades que constituem o colégio eleitoral da UFBA, e de forma sem-cerimônia coordenado pela presidente da APUB, que se declara ligada a um sindicato inexistente legalmente, instiguei os candidatos a se pronunciarem sobre o ANDES-SN e sobre o Proifes. Sem tituberar, o Prof. Dirceu Martins, reconheceu o ANDES-SN como o único com o direito de representar os professores universitários. Já o Prof. João Salles, hábil com as palavras, escorregou de mansinho e saiu de à francesa, “como se querendo ficar bem na fita para os governistas” nas palavras piedosas do Saci. Sabe-se que o Proifes é ligado à Cut e que esta é o braço do governo na instância sindical.

Como eu saí  no final do segundo bloco do referido debate, não gravei as respostas dos outros dois candidatos. Soube, depois, que o Prof. Nelson Pretto também reconheceu  o ANDES-SN como o único representante dos professores. Já o Prof. Luiz Rogério, preferiu não se comprometer… Tal qual o candidato João.

De toda forma, ainda terão chances de mostrar a que vieram, sem tapeações ao eleitor. Contando os reitoráveis com o benefício da dúvida, creio que ainda é tempo de fazerem os devido esclarecimentos ao público, caso tenham sido prejudicados pela afobação de debate passado. Até a data do Debate Magno, que ocorrerá no Salão Nobre da Reitoria, para encerrar o período de campanha dos candidatos, todos terão a chance de se afiarem e de se prepararem para as perguntas, cujas respostas poderão revelar, como um Raio X, as entranhas ideológicas de cada um deles. Aí, então, podemos afirmar como na fábula: “O rei está nu!”

Enquanto isso, registramos “missivas” eletrônicas que vão rolando nas listas da UFBA.

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Prezado Prof. João Salles Pires da Silva,

Desde já declaro meu respeito e estima pessoal pelo colega, de trajetórias política e acadêmica respeitáveis. Torço para que faça uma feliz campanha pela disputa à Reitoria da UFBA, embora, como já anteriormente aqui informei, meu voto é do nosso também admirável Prof. Nelson Pretto.

É uma opção política que faço, riscando o colega das minhas preferências por conta daquilo que em mensagem que gerou vossa resposta a mim, apontou o Prof. Paul Regnier.

Sua resposta, aliás, deixa de lado o ponto nevrálgico apontado pelo Prof. Regnier, relativo à suposição de que, eleito ao comando desta UFBA, sua administração estaria comprometida com o projeto de poder que faz quase 8 anos governa a Bahia. Ao qual faço sérias restrições e acuso de conivente com o genocídio do povo negro deste Estado, além de outros descalabros administrativos.

Como democrata, sou a favor da alternância no poder. Razão porque me engajarei na derrota da chapa Rui Costa/João Leão empurrada por Jaques Wagner/Otto Alencar. Se trabalhar pela derrota de tal projeto passa por negar meu voto ao ilustre colega João Salles Pires da Silva, assim o farei.

Como o senhor, em sua resposta a mim, não negou essa suposição de alinhamento, que se constituirá em fato gravíssimo à autonomia da Universidade perante governos -, suposição baseada na análise do seu arco de apoio político-partidário nessa campanha à Reitoria da UFBA -, deixa margem à confirmação da hipótese.

Não se trata aqui de criticar atabalhoadamente seu arco de alianças, à maneira como quer nos fazer acreditar, como se ingênuos fôssemos todos, o Prof. Waldomiro Silva Filho, ao defender o voto no seu projeto de poder, alegando sua capacidade de “dialogar tranquilamente com pessoas de diferentes posições políticas”. É justamente essa “tranquilidade” que deveria nos intranquilizar – vez que não se trata, no caso da disputa pela Reitoria, de obter a vitória a qualquer custo, ainda mais a custa do atrelamento ideológico-partidário da Academia.

Talvez seja querer demais, mas penso que a Universidade deveria resistir à tentação de se deixar corromper pelo oportunismo eleitoreiro. A sociedade necessita de uma gestão universitária crítica aos desmandos governamentais que assistimos, por conta do silêncio de supostos intelectuais que servem não à sociedade, mas ao Partido, por adesistas que se fizeram.

Em sua resposta a mim dirigida o senhor mira exclusivamente na justificativa de suas opiniões quanto ao veto que fez, quando diretor da FFCH, à construção de uma residência universitária em terreno limítrofe às comunidades do Alto das Pombas e Calabar, de onde eu vim. A base do seu veto é aquilo que o senhor diz ser “a vizinhança do tráfico” [de drogas], afirmando inclusive que a área seria dominada por traficantes. Desculpe, mas o senhor estava, como ainda permanece, equivocado. E perdeu, com o veto, a oportunidade de fazer a Universidade dialogar melhor com a comunidade – que está ali muito antes do campus de São Lázaro.

A comunidade não é nem nunca foi dominada por traficantes. Eu e milhares de moradores não o somos nem aceitamos essa pecha – moto de todo o trabalho e toda a luta política que ali desenvolvemos, criando escolas modelos, grupos culturais, alternativas de geração de renda-emprego, grupos de mulheres e de jovens, equipes de esportes que disputam campeonatos regionais, estaduais e nacionais saindo-se vitoriosas.

O senhor perdeu a chance de rever a visão elitista e preconceituosa em relação a essas comunidades. Todas as manhãs que chego para dar aulas na Facom, ou à tarde ou à noite, quando saio, encontro pessoas no vão de entrada consumindo drogas tranquilamente. No campus de São Lázaro o senhor sabe que o mesmo ocorre, e na Politécnica, e nas áreas verdes dos PAFs etc. Essa droga não dá por geração espontânea nos campi da UFBA. Ainda assim, são os moradores do Calabar e do Alto das Pombas os responsáveis pelas disputas advindas da enorme demanda de gente diferenciada como nós, a inteligência que quer comandar a Reitoria… Como são as vítimas do genocídio que vimos nas últimas semanas as responsáveis por terem sido mortas, como cinicamente difunde o discurso oficial.

Desejo boa sorte à sua candidatura, candidato.

Fernando Conceição.

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Prezado Prof. Fernando Conceição,

Escrevo-lhe para fazer um importante esclarecimento inicial, em deferência à sua história de lutas e à seriedade de sua mensagem. Creio que o tema da relação da UFBA com seu entorno é de extrema relevância, e pretendo me posicionar de forma ainda mais extensa e detalhada.

Considero fundamental uma relação rica e aberta da Universidade com o Calabar e o Alto das Pombas, bem como com outras comunidades do seu entorno. Mas não se tratava disso com a proposta que nos foi apresentada tempos atrás.
Simplesmente, tivemos que responder uma pergunta específica sobre a localização de uma residência estudantil, que foi planejada sem que tivéssemos sido consultados. A localização, naquele momento, não nos pareceu nada segura.

Vivíamos um momento em que a política de relação com o Calabar era inadequada. A Universidade não interagia com a comunidade, e exatamente procuramos em nossa gestão reverter isso.

Hoje, a relação de São Lázaro com o Calabar e o Alto das Pombas é bem mais rica e intensa, estando ainda muito distante do que pode vir a ser.
Naquele momento, porém, a região específica de contato da área da Faculdade com o Calabar e o Alto das Pombas comportava, ao que tínhamos ciência e vimos ao visitar o local, um claro domínio do tráfico, sendo bastante tensa até mesmo a nossa aproximação ao local. Quando chegávamos perto, por exemplo, éramos recebidos com rojões de adrianino, que alertavam sobre nossa presença.
Além disso, em um baixio em área dentro da Faculdade, a localização proposta era de difícil acesso e precária a visibilidade do local, não sendo claro como seria o futuro acesso cotidiano dos estudantes, uma vez que a Faculdade tem horários restritos, e não cabe submeter ou restringir os horários de uma residência a alguma norma monástica ou militar.

Questionei sim a localização. Ela ainda me parece inapropriada, sendo difícil o acesso dos estudantes, que aí ficariam isolados. Para não haver isolamento, outros locais de São Lázaro seriam bem mais adequados.

Observo que a localização não era no Calabar, mas sim nos fundos da FFCH, na fronteira com o Calabar e o Alto das Pombas, cujos moradores se viam nesse ponto igualmente afetados por tal situação de risco.

Nos vários contatos que mantivemos ao longo de todo esse processo, inclusive reunindo com representantes do Calabar e do Alto das Pombas, sempre ficou evidente a gravidade da situação, que direta e indiretamente atingia tanto os nossos estudantes como também os moradores do Calabar e do Alto das Pombas.

Respeito e defendo imensamente, por minha militância, por minhas convicções, a integração da UFBA com seu entorno, mas julgo ser uma responsabilidade nossa decidir se uma localização é adequada ou não, se oferece mais ou menos risco. O fato genérico de que a violência pode ocorrer em qualquer lugar não torna desimportante a avaliação específica de risco. É também uma responsabilidade nossa lutar pela segurança de nossos jovens, que têm sido constantemente vítimas sobretudo da violência policial, bem como de outras formas de violência, como as relacionadas à guerra do tráfico.

Enfim, creio que o Prof. Paul Regnier, que tomou anotações de minha fala, não o fez com o cuidado devido, sobretudo se consideramos a gravidade do tema. Assim, não só as retirou de um contexto argumentativo mais amplo, como ainda as modificou por completo, contribuindo muito pouco para o debate sério de um tema tão relevante.
A situação é sim muito séria, exige-nos um compromisso real com o destino da Universidade e com a transformação de nossa sociedade, não devendo ser distorcida em um contexto eleitoral.

Tive enfim acesso ao áudio desse encontro no Instituto de Matemática. E fiz divulgar a transcrição literal da passagem que foi distorcida, sendo referente à menção feita a meu filho.

A passagem segue abaixo.

Um abraço cordial,

João Carlos Salles

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Transcrição do trecho em que o Prof. João Carlos Salles menciona seu filho, na visita ao Instituto de Matemática. A menção é feita em resposta a uma questão da Profa. Débora, do Departamento de Ciências da Computação:

“Eu não disse que devemos nos separar do entorno. Eu disse que a decisão imediata era irresponsável, naquele momento. (…) Meu sentimento é o mesmo. É o mesmo seu. O que é que eu fiz? Eu procurei quem fazia trabalho em comunidade em São Lázaro para ir lá, no Calabar. Eu visitei esse espaço [apontando, em desenho feito no quadro, para o local específico de contato com a área da Faculdade, em um baixio atrás dos pavilhões e em contato com região que então estava sob domínio do tráfico]. Apenas relatei qual era o grau de esgarçamento completo das relações. Naquele momento, eu não colocaria meu filho ali. Se eu não colocaria meu filho ali, eu não colocaria o filho de ninguém para morar na vizinhança do tráfico, se eu posso decidir colocar em outras áreas.”

Os nossos jovens, os filhos do Calabar, do Alto das Pombas e os estudantes da UFBA não merecem conviver, em nenhum lugar da cidade, com a violência gerada pelo tráfico.

A Reitoria da UFBA acolheu as ponderações da FFCH, suspendendo a licitação e determinando que fosse encontrada nova área para a construção.

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Prezado Prof. Paul Regnier e demais:

toda vez que falam mal do Calabar e do Alto das Pombas, isso me dói no pé… Se vosso texto reproduz, de fato, as palavras de determinado candidato a reitor em referência a essas comunidades, onde nasci, me criei, fiz e ainda faço militância social, aguardo manifestação dele – essa lista em que foi postada sua mensagem chega a mais de 2.000 colegas – explicando do porque do reforço a esse estereótipo negativo que sem de comunidades como Alto das Pombas e Calabar.

Mesmo porque, quando gentes “diferenciadas” precisam de serviços domésticos, mecânicos, de reparos e – ouso dizer – de satisfazer suas necessidades de consumo de substâncias psicotrópicas consideradas ilícitas, comumente são a essas comunidades que recorrem. A declaração teria sido uma má-colocação? Um ato falho? O  que é o ato falho se não a expressão involuntária de uma ideia interiormente aceita mas, por inconveniente, precisa ser reprimida? Faz parte da mentalidade senhorial – “São Lázaro” por nós, da favela (muitos a querem Senzala), sempre foi vista como a Casa Grande – esse tipo de preconceito. (Exceção durante a gestão da reitora Eliane Azevedo, que dá nome a uma rua do Calabar por seus méritos de resolução de conflitos com a comunidade).

O senhor, Prof. Paul Regnier, levanta com vossa mensagem ainda questões preocupantes. Por exemplo, em relação à possibilidade de candidaturas a reitor da UFBA estarem subservientes a projetos de poder que, se vitoriosas, manteriam a Universidade como aparelho desse ou daquele projeto de frente político-partidário.

É isso mesmo o que o senhor está dizendo?

Entendo ser legítima, do ponto de vista democrático, a adesão de partidos e facções a essa ou aquela candidatura. Mas, ainda do ponto de vista do fortalecimento da democracia, seria uma lástima se a UFBA, ainda que pelo voto dos seus, fosse entregue para loteamento, como uma donataria, a esse ou aquele vencedor que completasse, lastimavelmente, o fim do pouco que lhe resta de autonomia. Seria ter a universidade, isto é, sua cúpula, como agente e correia de transmissão dos interesses do governo de plantão – um mau governo, diga-se logo – e não da sociedade que lhe paga a conta.

Fernando Conceição

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3 Respostas to “1020 – O rei está nu?”

  1. Jilvania Bazzo Says:

    Saci, conta a lenda: aquele que tem a coragem de apontar e dizer, claramente: “o rei(tor) está nu”, é imediatamente decapitado. (rs)

    Ainda bem que você é um Saci! (rindo ainda mais)

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