212 – Festivais de Verão

Para o Saci, é sempre difícil dizer o que é produção cultural autêntica ou investimento financeiro puro (clique na arte para ampliá-la).

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

Eu conversava o meu amigo Saci sobre a importância da cultura como cimento na formação dos povos. Ele aproveitou e foi logo linkando o que eu dissera com as nossas experiências culturais soteropolitanas.

– A cada dia, chefia, se tem notícia, nesse mundão de meu deus, do que é que a Bahia tem. Nas novelas da Globo gravadas na Bahia, o mundo todo já sabe: “Ô Maiiiinha!” Falou com malemolência, é baiano! Foi curtir o melhor Carnaval do mundo, se picou pra Salvador.

Não pude deixar de rir da sua agudeza de espírito em observar as coisas do nosso entorno. Sacando que estava me impressionando, o pilantrinha continuou.

– Agora tem mais uma. Quer zoar no verão? Se manda pro Festival do Grupo da TV Bahia.

Lembrei-me do que ouvira de um sobrinho de consideração, mineirinho de Belzonte, que recentemente visitara a nossa capital.

– A Bahia é linnnnda!

E é mesmo. Pena que o prefeito João Henrique não coloca no “banho de luz” que diz estar dando na cidade, umas gotas de um perfumezinho cheiroso… Mas, ainda assim, é a terra de todos os Santos e de todos os Deuses. “The Bahia is all”, recordei-me do esperto guia turístico mirim cantando as virtudes da nossa Soterópolis . “Aqui não tem luta de classes”, diria Pedro Bial, filósofo nas horas vagas e apresentador global do BBB, se cá vivesse. Como que adivinhando o que eu pensara, o Saci completou.

– O barão endinheirado  ali no bloco chique, de abadá, tênis de marca e tudo mais, lado a lado do descalçado cordeiro (denominação ao segurança de bloco carnavalesco, pra quem é leigo em assuntos da Bahia). Coladinho! A mesma água mineral que mata a sede de um, mata a do outro…

Pensei que ele fosse completar a setença e esperei, pacientemente, enquanto ele olhava num jornal local a lista dos secretários recentemente nomeados pelo governador do Estado. Pareceu-me ter esboçado um sorriso zombeteiro, mas não comentou o que lera. Continuou a falar do que havia interrompido.

– Quem diz que só a classe dominante baiana tem direito a camarote, não manja nada da Terra da Felicidade. Se juntar um certo número de notinhas fiscais, o folião zemané pode também faturar um lugar no big camarote que fica bem em frente ao TCA, o mais sofisticado teatro de Salvador, frequentado pelos mesmos e poucos, e que – talvez ironicamente –  leva o nome do Poeta dos Escravos… E, o melhor da história, praticamente ao lado das maiores otoridades da cidade e dos artistas globais mais sarados…

A impressão que me dava era a de que ele falava como se diante dele estivesse um turista de Marte, bem verdinho.

– Claro que o zemané vai precisar de um pouco de sorte também, mas quem não precisa de sorte? Quem? Por acaso o jatinho daquele cantor maravilhoso poderia ser adquirido apenas com sua bela voz? O que seria dele se sua Fada-Madrinha não colocasse no seu caminho aquele empresário e político – ou político e empresário –  dono da maior rede de TV que leva o nome do nosso Estado? É, chefia, é aquele negócio – “ me ajuda que eu lhe ajudo, meu irmãozinho! E nós, desinteressadamente, ajudamos à galera a festejar o verão!”

Naquela altura do campeonato, eu já boiava mais do que os estranhos objetos que vira nas águas mornas do Porto da Barra. Não boiando de cansaço, diga-se de passagem, mas de lerdeza mesmo.

Como eu não me manifestara mais, diante das suas lucubrações, ele suspirou resignado:

– Sonhos de uma Noite de Verão!.. Em que mar estamos mergulhados?… E a cultura baiana agradece – sensibilizadíssima! –, a ambas as classes: tanto a dos empresários quanto a dos artistas  pop midiáticos…

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