254 – A Indústria Cultural Baiana

O Saci se amarra no som dos artistas baianos, mas sabe que esses maravilhosos e milionários artistas, de forma consciente ou não, emprestam competência e sensibilidade para o fortalecimento da ordem/desordem capitalista através da dominação cultural (clique na arte para visualizá-la melhor).

 

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

O Carnaval da Bahia talvez seja o maior exemplo de apropriação da cultura popular pela ordem/desordem capitalista, como instrumento de controle e manutenção de privilégios da classe hegemônica. E claro exemplo de aplicação de narcotizantes simbólicos no ânimo das massas. O sustentado mito do extravasamento individual, ou mesmo em grupo, impede qualquer reflexão e conscientização sobre as condições adversas que afligem a grande maioria da população baiana.

Quem viveu quatro décadas atrás, certamente ainda se lembra dos bancos e cadeiras que as famílias moradoras do centro de Salvador colocavam, ao longo da Avenida Sete, para apreciar os súditos do Rei Momo nos três dias de Carnaval. Ao som de instrumentos de sopro ouviam-se marchinhas que se imortalizaram na memória de foliões e de não foliões.

Ei você aí, de dá um dinheiro aí” ou “Você pensa que cachaça é água” ou ainda  “Tanto riso oh! tanta alegria, mais de mil palhaços no salão” estavam na listas das mais solicitadas, sem falar da animadíssima “Corre, corre lambretinha para ver meu bem“. Eram composições simples, e até mesmo ingênuas, que enchiam de alegria e entusiasmo as ruas e avenidas de Salvador, e faziam do Carnaval baiano uma festa no espaço público aberto, sem cordas ou barreiras, à disposição de quem quisesse dele participar. A praça era literalmente do povo. Já os grandes clubes eram reservados aos grã-finos e endinheirados do high society.

Um dia veio o pau-elétrico, genial invenção de Dodô e Osmar, e veio também a ousadia de Moraes Moreira de cantar, pela primeira vez, em cima de um trio elétrico. Depois vieram os blocos, as mortalhas, os abadás, os novos ritmos e o investimento pesado de músicos-empresários que lotearam o espaço público e o cercaram de cordas e cordeiros em movimento. Tudo com muita competência estética – vocal, visual, rítmica –, de acordo com um “formato standard” construído e massificado pela mídia empresarial hegemônica.

E não ficou nada da cultura popular espontânea que não tenha sido apropriada por empresários empreendedores, verdadeiras máquinas de transformar despretensiosas criações artísticas em sofisticados objetos de consumo e de desejo. Apropriaram-se dos elementos da cultura africana, secularmente oprimida, e dela fizeram brotar negócios altamente rentáveis. Comercializaram-se utopias. Tudo, ou quase tudo, virou ouro, transformou-se em letras de música, e, sobretudo, em moedas para poucos: religião, arte, culinária, canto, ritmos, dança, entretenimento, sonhos libertários – nada escapou incólume.

As técnicas de construções simples deram lugar a sofisticadas tecnologias projetuais responsáveis pelo design de megacamarotes, sustentados por robustas estruturas metálicas e decorados com apurado requinte estético (ou não, segundo alguns mais exigentes!). O Carnaval profissionalizou-se. Exibir ou veicular na mídia um desses exuberantes camarotes e convidar personalidades do grand monde global para nele refestelar-se, passou a significar status e sinal de poder. Sem dúvida, um grande investimento no marketing pessoal de retorno assegurado.

Além do temeroso espaço do folião-pipoca, coube às camadas populares, sem eira nem beira, usufruir do pequeno comércio formal ou informal de bugigangas, água, alimentos e bebidas, assim como o convívio diuturno com a truculenta fiscalização do poder público coercitivo, quase nunca educativo.

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