287 – Deus Salve a Rainha!

Tanto o Saci quanto as criancinhas descendentes dos povos colonizados pela Inglaterra se emocionaram diante do pomposo casório da fidalguia inglesa (Clique na arte para visualizá-la melhor).

 

Saci Pererê da UFBA
Pesquisador sem Lattes

 

 

 

udo teve início no reinado de Henrique VIII (1509-1547), quando os ingleses se lançaram a conquistar o mundo através do fortalecimento da indústria naval. A expansão do comércio marítimo enriqueceu mercadores e trouxe-lhes o poder político, além do econômico. Burgueses e nobres começaram a se estranhar feio.

Descobertas e invenções transformaram a dinâmica da sociedade europeia e insuflaram os espíritos ambiciosos. A antiga rixa do Parlamento inglês com o rei Carlos II (1660-1685) não impediu que a realeza continuasse firme no cenário medieval de castelos e fantasias, na mesma pátria em que o capitalismo fora gestado. Ao galgar o poder, a classe burguesa da Inglaterra não viu risco algum em manter o teatro da realeza para povoar o imaginário dos súditos, ávidos por histórias heroicas de reis e cavaleiros leais, reunidos em lendárias távolas redondas.

Desde o golpe de estado ocorrido entre os anos de 1688 e 1689 – golpe facilmente identificado como uma revolução inglesa de mentirinha (também chamada de “Revolução Gloriosa”),  que fez sentar ao trono britânico o príncipe Guilherme – em inglês, William -, até a presente data do pomposo e badalado casamento do futuro rei da Inglaterra, também de nome William, o país tem sido um dos principais protagonistas do capitalismo na história mundial. Além de matriz das ideias liberais, também patrocinou de forma pioneira a produção industrial, a partir da máquina a vapor, e a conquista de novos mercados fornecedores de matéria prima  – quase de graça! – e de mão de obra barata pelo mundo afora…

Tanto a poderosa armada, em que tremulava a bandeira inglesa, quanto a Companhia das Índias Orientais, dirigida por burgueses britânicos sequiosos de lucro, foram responsáveis pela submissão de culturas e povos dos mais longínquos rincões do planeta, conforme a lista incompleta e desarrumada: Nova Inglaterra, Virgínia e Carolina (EUA), Canadá, Antígua, Barbados, Belize, Jamaica,  Madras, Bombaim, Calcutá e Bengala (Índia) Sudão, Quênia, Tanzânia, Uganda, Rodésia, Transvaal, Gibraltar, Gana, Cairo, Rio Gâmbia, (África), Xangai e Hong Kong (China), Austrália, Nova Zelândia, Malaca, Ceilão, Trindade e Tobago, Santa Lúcia, Maurícia, Malta, Singapura, Birmânia, Cidade do Cabo, Ilha de Man, ilhas do Canal da Mancha, Ilhas Malvinas, Anguilla, Bermudas, Geórgia do Sul, Montserrat, Ilhas Virgens Britânicas, Santa Helena… Para resumir, o Império Britânico alcançou, em 1920, o primeiro lugar em extensão, entre os treze maiores impérios da história.

É provável que seria bem diferente a alimentação das crianças de alguns dos países acima mencionados se a relação da Coroa Inglesa com tais países e regiões não fosse tão assimétrica, tão desigual.

E é por isso mesmo que não desejo para os filhos futuros do simpático casal real de pombinhos – William e Kate Middleton – nem a metade do pão amassado pelo diabo, em parceria com a Coroa, que alimentou por longa data as crianças daqueles países e rincões colonizados pela fleuma de Sua Majestade, o Capital.

Fleuma essa que continua viva e não me deixa mentir: a realeza não se intimidou, em plena recessão e inflação, com o custo de 400 mil dólares pelo vestido da noiva. Sem falar nos outros milionários penduricalhos. Afinal, é um casamento para inglês ver e telespectador aplaudir. Cerca de quatro bilhões de olhos e quatro bilhões de mãos! A conta vai para os fieis súditos consumidores locais e mundiais indiretamente.

Não foi à-toa que as TVs do Globo exploraram tanto o evento, sob a justificativa de fazer a melhor cobertura jornalística ou de levar ao público a informação mais rigorosa através da precisão das imagens…

Enquanto a mídia distrai a grande massa – alternando cenas de sofrimento e terror (como as do tsunami no Japão e a tragédia da escola de Realengo) com cenas inebriantes de histórias dos contos de fada -, a roda da economia vai girando, girando, girando em favor dos mesmos de sempre, e sem qualquer reação de contraponto… Até quando, e o que acontecerá depois? Quem souber morre!…

Deus Salve a Rainha! 

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7 Respostas to “287 – Deus Salve a Rainha!”

  1. Renata Says:

    Pois é, uma tristeza a realidade do nosso planeta…dá até vergonha de saber que somos humanos!!!

  2. osaciperere Says:

    Prezada Renata,

    Contraditoriamente, é o fato de sermos humano que nos dá o alento de reverter esta realidade…

    Pense nisso!

    Grande abraço,
    Saci

  3. Eliene Says:

    A Ana Maria Braga, a do louro José, disse que o casamento real foi o acontecimento do século, e a manhã em seu programa foi toda destinada ao casamento, comidas e roupas. Até na TV fechada, agora – domingo- antes de dormir ainda tinha canal reprisando o casamento. Um desperdício de tempo para muitos e muita arrecadação de dinheiro para poucos. A arte está bastante agressiva, mas é bom que nos choca e nos faz refletir.

  4. ramoncfs Says:

    Isso só demonstra a dantesca hipocrisia do mundo capitalista. Enquanto milhões passam fome em todo o mundo. A mídia faz questão de transmitir ao maior número possível de espectadores um casamento de mais de 70 milhões de dólares… Precisava mesmo disso tudo??

  5. Ana Paula de Souza Says:

    Profº Menandro,

    Suas palavras expõem uma hábil desenvoltura para além do óbvio ao nos mostrar a origem histórica da riqueza da Inglaterra, bem como a miséria predominante que assola as terras por ela colonizadas, e que, infelizmente, muitos fecham os olhos, e se deixam alienar com as pompas do Casamento Real.

    De fato, nos assombra ver situações como esta acontecendo com ar de naturalidade, quando na verdade querem nos desapropriar do que é nosso, em função da realeza inglesa. E a mídia desenvolve seu papel social dando informes em regime de plantão sobre o casamento, os preparativos da plebeia, o acerto de detalhes, enquanto que desastres acontecem no mundo. Aliás, em que mundo estamos falando mesmo?

    Voltemos ao mundo real.

  6. Thalisson Says:

    Por essas e por outras que eu odeio acordar cedo… Você acredita Saci que um dia desses ao acordar muito cedo eu tive a impressão de ver uma mulher conversar com um papagaio na TV?

  7. Moises Cardoso de Freitas Says:

    Então, um paradoxo, passamos tanto tempo sentados nos bancos escolares, mas parece que não há reflexões acerca da realidade da humanidade. Pois podemos observar que em uma lauda, parafraseando Menandro, é possível contar mais de quinhentos anos de historia da humanidade, de maneira reflexiva por meio da diletância, sem fazer mal a ninguém. Talvez o difícil não é saber o que é compreensão, e sim, talvez a origem da incompreensão. Ainda é possível estudantes americanos acreditarem que com a morte de Osama estamos livres, pois o pior é a idéia da suposta existência de sua alma, que será o alimento de uma insana crença. Ou os estudantes americanos já são constituídos por uma idéia de dominador, assim qualquer suposta vitória os acalenta como vitoriosos.

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