400 – Universidades napoleônicas?

Que diabo de "diploma" o imperador francês da arte sacizesca carrega na mão esquerda? (clique na arte para visualizá-la melhor).

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

 

o ler a notícia da criação de mais quatro universidades pelo governo federal – duas delas na Bahia! -, o Saci franziu a testa com com ar de quem comeu e não gostou. Logo em seguida, se meteu no meu quartinho de livros velhos, e no meio de ácaros , traças e teias de aranha quedou-se esquecido do mundo, até localizar o que tanto procurava. Minutos depois, acabou conseguindo. Era uma velha “História da Educação Moderna”, de autoria do Prof. Frederick Eby, da Universidade do Texas, editado pela editora Globo, de Porto Alegre, datada do longínquo ano de 1970. Na página 468, o professor estadunidense escreveu:

“Meu objetivo, ao estabelecer um órgão de ensino, declarava Napoleão,  “é ter um meio de dirigir as opiniões políticas e morais”

Diante daquilo que para ele era um verdadeiro tesouro, mas que recebi sem muito entusiasmo, fez um muxoxo e esparramou-se na sua cadeira preferida de três pernas. Percebendo que ele ficara ofendido com a minha atitude pouco acolhedora, tentei remendar o mal feito.

– Esse Napoleão era um danado. Pensava em tudo…

– Precisa falar nada não, chefia. A emenda sai sempre pior do que  o soneto. Eu tinha me esquecido que  chefe também se deixou contaminar, como os seus colegas da UFBA, pela indiferença. Eu nem me lembrava mais que a Filosofia que a Academia hoje adota é a de Zeca Pagodinho…

Diante de meu ar interrogativo e de ignorância em relação ao que ele tentava me dizer, o debochado pulou da cadeira e socorreu-me à mente cansada com um remelexo debochado, do tipo “rebolation baiano”, e cantou simulando segurar um microfone com a mão:

– Deixa a vida me levar, vida leva eu…

Ao perceber que dali não podia esperar senão deboche, dei-lhe as costas e fui ver meus e-mails.

Ao sacudir o mouse para fazer o computador sair do modo de espera, deparei-me com uma  ilustração do próprio pestinha de pito e gorro vermelho, quero dizer, dessa vez com um de chapéu bicórneo contendo a letra ene no meio. O que me fez, inicialmente, pensar que se tratava de alguma pilhéria com algum dirigente ou ex-dirigente da UFBA, ou mesmo membro MEC, de nome iniciado por N. Só depois fui sacar que se tratava de  Napoleão Bonaparte, imperador dos franceses no início do século 19.

Diante do meu sorriso mais animado, o pestinha se sentiu confiante e destravou a matraca.

– Espie se não tenho razão, chefia. Acompanhe o meu raciocínio. Se isso não for um projeto de poder para mil anos, desaprendi fazer conta… Veja: o que significa para milhões de pessoas famintas as migalhas do Programa do Bolsa-Família? São bem acolhidas? São tripudiadas? Disparam a consciência crítica ou o sentimento de gratidão eterna? Se você tivesse, chefia, exatamente na condição dos beneficiados, como se sentiria em relação ao seu benfeitor? Na oportunidade de uma nova eleição de dirigentes do país, você manteria no poder quem o beneficiou ou se aventuraria em outras escolhas? Essa distribuição de merrecas, digo, essa tal “distribuição de renda” foi ou não foi tramada pensando em esquentar lugar por dez séculos no Palácio do Planalto e outras Granjas de Ovos de Ouro? 

Eu ensaiei esboçar uma resposta, porém ele foi mais rápido no gatilho.

Me diga: o que significam, então, as migalhas destinadas ao “Bolsa-Família”, ao “Minha Casa, Minha Vida”, ao Prouni, ao Proleptop etc, etc, etc?…

– Significam que o pouco com Deus é muito!… – disparei piscando-lhe o olho, tentando ser espirituoso, mas ele nem prestou atenção na minha tirada.

– O que você pensa sobre o “fazer vistas grossas” ao mensalão – e quem sabe, até acolhê-lo de bom grado! -, dado que a voracidade dos coligados só se assemelha à fome das lombrigas e solitárias? O que você pensa sobre tudo isso?

– Bem, eu… – esforcei-me, sem êxito, para dizer algo. Ele me cortou mais uma vez.

– E o que você pensa sobre as altas taxas de juros, nunca praticadas assim em toda a história da República? E como vê a alegria dos banqueiros, para os quais mudar o time que está ganhando é pior mesmo do que deitar eternamente no mármore do inferno?

Aproveitei-me da pausa que ele fez para respirar, e desabafei.

– Pra dizer a verdade, sua metralhadora parlatória me embota os neurônios…

– AH! É? Essa é a desculpa pra não raciocinar que o Reuni restaura o sistema de educação napoleônico de controle, e que o novo design para as universidades brasileiras não é mais do que é uma mísera parte de um projeto maior em favor do fortalecimento e da expansão do capital financeiro sem pátria? Me diga, então, o porquê de o Reuni ter vindo de cima cooptando reitores, tratorando o diálogo com a comunidade universitária… Me diga!… Me diga o motivo de os cardeais terem alinhavado as “discussões” nos Conselhos Universitários e de não investirem nas Estatuintes para a construção de marcos regulatórios democráticos de fato… Para onde foi a APUB nessa época? E a ASSUFBA? E o DCE? Me diga se souber!…

Eu tinha que reconhecer nas coisas que ele falava uma grande plausibilidade. Tudo fazia sentido. Pensei no governo Lula, que dera continuidade às políticas implementadas por de FHC, mudando apenas alguns rótulos. E, em alguns casos, nem foram mudados, como o rótulo do Banco Central brasileiro chamado Henrique Meireles, cria do Bank Boston… Lembrei-me da cooptação dos sindicatos – e a festiva APUB estava lá na casinha da João das Botas para não me deixar faltar com a verdade; lembrei-me dos bravos estudantes do passado e da gloriosa UNE, que melancolicamente agora é alvo da chacota dos pixadores pelas paredes da cidade, conforme registro que fiz recentemente…

Quem for para a Biblioteca Central pela Rua Junqueira Ayres, nos Barris, pode ver, na esquina com a General Labatut, a pixação a que a gloriosa UNE de outrora foi reduzida, pelas injunções do governo Lula da Silva.

Não tive como não contemplar o edifício ruído da “exquerda” brasileira – segundo gosta de escrever o Saci –, e foi impossível não me acabrunhar com a lembrança da corrupção que reinava (e reina ainda!) nas Casas Legislativas que abrigavam os representantes do povo brasileiro. Ah! A depauperada democracia representativa!…

Subitamente um sentimento de impotência, aos poucos, foi me abatendo. Uma pergunta avassaladora foi tomando conta dos meus pensamentos. Era como se uma serpente gigantesca me apertasse os osso e me impedisse a respiração e os movimentos. E se o Saci estivesse com a razão?

De que valeriam quatro, quarenta ou quatrocentas universidades federais se todas elas já nascessem carimbadas, sem autonomia, com propósitos estratégicos de controle, tudo previamente astuciado? E se os novos Campi não passassem de meros laboratórios de engenharia social, de pirulitos acadêmicos, de açaimes, de tapa-bocas, de amortecedores, enfim,  das insurgência das massas?

Como que adivinhando os meus pensamentos, o Saci me trouxe de volta a vida.

– Chefia, no stresse! Cabeça de gelo! Não há noite eterna enquanto o sol existir! – filosofou sorridente o pestinha – Não há história em que o feitiço não vire contra o feiticeiro!  Deixai que venham as Universidades Federais! Quanto mais, melhor! Até porque, a dureza da matéria nunca foi páreo para a vontade humana e sua mão sensível… Pelo menos, quando buscam libertar do mármore as belas formas nele aprisionadas!… Cabeça de gelo, mô bródi! Cabeça de gelo!!!

Uma resposta to “400 – Universidades napoleônicas?”

  1. osaciperere Says:

    Por e-mail:
    ————-

    Recebemos uma mensagem de alguém que não quer ser identificado e destacamos o que se segue.

    […] ele [o Saci] é mesmo exagerado. Mil anos é muita coisa. O Terceiro Reich não emplacou nem duas décadas […]

    Na frase atribuida a Napoleão “é ter um meio de dirigir as opiniões políticas e morais” só uma parte se aplica, pois o item “moral” nem passa de longe na cabeça dessa gente. Vide os últimos escândalos ministeriais. Se a imprensa não tivesse denunciado, certamente estariam no “bem-bom” até hoje […]

    É bom não esquecer que depois de estar fora da Casa Civil, o influente Zé Dirceu (que está sendo processado) esteve aqui na UFBA, no Palácio da Reitoria, se não estou enganada. A pergunta que faço é: quem o convidou e com que propósito ele esteve aqui? […]

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