410 – O sentido do “Honoris Causa”

Sabe Deus o motivo de até a undécima tese do velho barbudo alemão ter vindo parar no Blog do Saci-Pererê... (clique na arte para visualizá-la melhor).

 

 

 

á conheço bem o Saci. Afinal, são anos de convivência. Conheço quando ele está aperreado. Ou de … olho virado!

– Oi! – ouvi seu cumprimento seco. Saquei logo que algo o perturbava. Só não sabia o que era. Não dei muita trela. Se der é pior. Agi como se tudo estivesse na santa paz. E estava mesmo.

Por muito tempo, ele andou pelo AP. Cenho franzido, fumando que nem um condenado, pulava para um lado e para outro. Acabei por esquecê-lo, enquanto conferia minhas mensagens na rede.

pras tantas, senti uma baforada quente no cangote. O Saci segurou-me a mão.

Peraí, chefia, peraí! Minutinho só!

Afoito, foi se apropriando do mouse e, praticamente, me expulsou do computador. Por um momento, vi um dos seus dedos ágeis apertando a tecla Control, enquanto com a outra mão rolava o botão superior do mouse. Ampliou tanto o conteúdo da mensagem que de longe eu podia ler:

Título foi proposto pela FFCH

Agora é oficial e definitivo: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe na próxima terça-feira (20 de setembro) o título de Doutor Honoris Causa da UFBA. A solenidade acontece no Salão Nobre do Palácio da Reitoria, às 11h, sob a presidência da reitora Dora Leal Rosa. O Conselho Universitário da UFBA, atendendo a proposta da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas […]

– Hummm! Entendi tudo! Matei a charada. Então, foi isso!

– Isso o que, Saci? O que é que você está falando?

– Nada, nada! Só estou só pensando alto.

Não quis insistir. Eu tinha mais o que fazer, para não ficar adulando um saci, ou suplicando-lhe para me dizer algo.

Mais tarde, ele deixou o computador, depois de obrar algo, e foi me fazer companhia no quarto. Acomodou-se em sua cadeira predileta de três pernas. Continuei entretido na minha leitura. Às vezes, eu o mirava sorrateiramente por cima dos óculos, e lá estava ele impávido, qual estátua rubro-negra. Algo me dizia que a sua parte frontal do cérebro estava em franca ebulição. Foi ele quem quebrou o silêncio.

– Me diga uma coisa, chefia, qué’qui você acha do pessoal de São Lázaro?

– Hah! Tem muita gente legal lá. Não conheço todo mundo, mas tem Câmara, Bete Malin, Altino, Jorge Nóvoa, tem…

– Eu pergunto o pessoal de Filosofia, da FFCH…

– É como eu acabei de lhe dizer, não conheço todo mundo, mas tem muita gente competente por lá. Isso eu sei que tem!

– Pois é!… Não foram eles que trouxeram Meszáros, recentemente, ao Palácio da Reitoria?

– Isso mesmo! Foram eles. Ótimo evento, não? Os cursos de lá são muito legais e importantes. São cursos que trabalham com muita reflexão, muita crítica, muita pesquisa na área das Humanas…

– Foi o que pensei!… Mas estou vendo aqui que a proposta do título de doutor honoris causa ao ex-presidente foi deles lá…

– É! Foi! Li sobre isso no portal da UFBA.

– Mas… Mas chefia! Agora estou todo confuso!…

– Por que confuso? Não entendi. Explique-se!

Well! É que… É que…

– Vamo, meu irmão, desembuche!

– É que… É que… Nada, nada! O que quero saber é o que… O que significa mesmo o título de doutor honoris causa?

Honoris causa… Bem,  o título de Doutor Honoris Causa é um título honorífico, uma honraria acadêmica concedida a pessoas eminentes que não sejam necessariamente portadoras de diplomas universitários, mas que contribuíram de alguma forma, para a causa das artes, das ciências, da filosofia, da cultura, da promoção da paz, das causas humanitárias… É uma expressão latina que significa “por causa da honra”…

Peraí, chefia, peraí! Você disse “por causa da honra”? Eu ouvi bem?

– Foi isso que eu disse. Qual é o problema?

– Nenhum, nenhum! Sou eu mesmo que estou fazendo confusão…

Não entendi o que deixava o Saci tão confuso, mas também não me preocupei muito em compreendê-lo. De quando em vez o moleque tinha desses curto-circuitos, o que me levava a concluir que nessa vida agitada que levamos, nem os sacis escapam do estresse urbano.

Já havia escurecido quando ele retornou da rua. Um grande vinco entre seus olhos denunciava que ele ainda estava mergulhado num turbilhão mental.

– Vem cá, chefia, o que foi mesmo o chamado “escândalo do mensalão”? Rapá! Deu um branco na minha cabeça…

Cê’ tá brincando Saci! Tá querendo gozar com minha cara?

– Sério, chefia! Não tô dizendo? Na moral! Deu um branco!…

A expressão do seu olhar me pareceu sincera.

– Caramba! ruim, hem, cara! Mas se estiver curtindo às minhas custas, parto-lhe a cara, ó patife!

– Na moral, chefia! Na moral! não! São as preocupações da vida que estão me deixando pinel…

– Mas se é assim, vou lhe relembrar… “Mensalão”, ou “Escândalo do Mensalão” foi um esquema de compra de votos de parlamentares, segundo alguns, para assegurar a governabilidade e aplacar a fome dos… Mas, perainda, pra que você quer saber disso?

– Na moral, na moral, é só por curiosidade, chefia…

– Saci de uma figa! Se eu te pego gozando com a minha cara…

– Na boa, chefia. É boca de zero nove. Bateu a dúvida. Na moral!… E o ano? lembrado, também? O ano em que o Mensalão foi denunciado…

– Hummm! Se não estou enganado foi em… Foi em… Humm! Tenho isso aí no computador… Foi em 2005… Foi! Foi quando a bolha estourou!…

– Tem certeza? Tem certeza?

– Absoluta!

– Ufa! Que alívio! Menos mal, então.

E, dizendo isso, o pestinha se mandou, sem cerimônia alguma – e sem pedir licença -, se picando num estonteante rodopio em direção ao jardim da Piedade.

Ao ligar novamente o monitor do computador, vi que havia um editor de texto aberto e uma data grifada em amarelo.

Mais abaixo, palavras copiadas do Aurélia indiciavam que ele havia consultado o dicionário:

Honoris causa
[Lat., ‘para honra’.]
Diz-se dos títulos universitários conferidos sem exame ou concurso, a título de homenagem: 2  
Honra
[Dev. de honrar.]

S. f.
 1.     Consideração e homenagem à virtude, ao talento, à coragem, às boas ações ou às qualidades de alguém: 2  
 2.     Sentimento de dignidade própria que leva o indivíduo a procurar merecer e manter a consideração geral; pundonor, brio: 2  
 3.     Dignidade, probidade, retidão: 2  
 4.     Grandeza, esplendor, glória: 2  
 5.     Pessoa ou coisa que é motivo de honra, de glória: 2  2  
 6.     Culto, veneração: 2  
 7.     Graça, mercê, distinção: 2  
 8.     Honestidade, pureza, castidade, virgindade.
 9.     Ant.  Terra privilegiada, de fidalgos ou cavaleiros.

Para dizer a verdade, eu ainda não havia atinado onde o meu estripulento amigo quisera chegar, não havia. Só saquei que ele levava muito a sério o sentido de cada palavra… Independente da polissemia que cada uma delas guardava.

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Leia AQUI outro post correlato.

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Uma resposta to “410 – O sentido do “Honoris Causa””

  1. Francisco Santana Says:

    Os professores da UFBA merecem.

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