411 – O “pós” honoris causa

Angustiado com a banalização do título de doutor honoris causa, o Saci nem deu bola quando eu lhe disse que o seu Blog acabara de receber a 70.503ª (septuagésima milésima quingentésima terceira) visita. Clique na arte para visualizá-la melhor.

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

 

ancho Pança de Picasso, inspirado em D. Quixote, de Cervantes, não entendeu nada. Lá estava o brasileiríssimo Saci-Pererê, da UFBA , pongado na garupa do garboso (talvez  um pouquinho menos que garboso) Rocinante.

Antes que o fiel escudeiro se voltasse furioso para defender o seu mui amado amo – ou sua prometida Ilha estaria em jogo -, o Saci tratou de explicar o que o trouxera ali. Ainda meio desconfiado, o robusto guardião ouviu atentamente as explicações do Saci, tendo dificuldade, entretanto, em entender o que seria uma rede social, um ambiente colaborativo, um upload, um blog, um e-mail e outro penduricalhos cibernéticos.

O conceito de “resistência virtual“, nem de longe entrou na sua mente ocupadíssima. Nos últimos tempos, ele a gastara tentando entender o ânimo abatido do seu dileto amo. Tinha um palpite. Ou  o nobre Cavalheiro fora vítima dos encantos da hermosa Dona Dulcineia Del Toboso, ou tivera o seu juízo abalado pelo catiripapo provocado durante uma colisão com uma das pás de um moinho de vento em sua frágil cachola, episódio esse, aliás, deveras conhecido de todos ou quase todos. Porém, a essa altura, pouca serventia tinha a delineação de um  nexo causal. O que lhe afligia, de fato, era a saúde mental do seu nobre senhor.

Mas tudo isso eu só estou contando, apenas para partilhar com o Leitor ou Leitora a minha preocupação com a saúde dos neurônios do meu dedicado amigo Pererê. Assim como o  ilustre Cavalheiro da honorável figura lançava-se ao ataque contra moinhos de vento, o meu bom amigo também viu na solenidade de outorga do título de doutor honoris causa ao ex-presidente Lula uma ameaça às forças de resistência em favor da Universidade Pública. Para ele, a estratégia do projeto neoliberal é cooptar, homeopaticamente, a intelligentsia da universidade, e implementar, aos poucos, esquemas privatizantes sedutores. É um projetinho aqui, que vai buscar parceria financeira com uma empresa amiga; é uma graninha acolá descolada da esfera privada para consertar o aparelho de ar condicionado pifado e já velhinho; e, assim, vai tocando como o deus mercado é servido. Tocando e desobrigando o Estado de suas responsabilidades constitucionais. E, claro, uns trocados extra para o coordenador do projeto X e seus incansáveis auxiliares, já que o salário do servidor público estará congelado  nas próximas duas décadas…

Para ele, o Palácio da Reitoria da UFBA, lotado da fina flor da sociedade baiana, era o termômetro que assinalava a aceitação da política neoliberal iniciada por Fernando Collor e continuada pelos seus sucessores até a atualidade. Se o ex-presidente Lula não conheceu a solidão palaciana dos que deixam o bastão de comando, então, o dito cujo só saiu de mentirinha, apenas para inglês ver. Na história do mundo, segundo o meu amigo de gorro vermelho e pito, ninguém, mas ninguém foi bajulado, sem que não tivesse a chave do cofre ou o bastão do poder na mão. As calorosas manifestações recebidas pelo ex-presidente indicavam, sobretudo, que ele ainda era o cara, ainda que sua cara substituta assinasse os papéis legais.

Assim, os aplausos calorosos ouvidos naquele recinto, significavam a confirmação de que a UFBA capitulara; desaprendera fazer a crítica e exercitar o contraditório. Ninguém chiara, a casa estava cheia. PT saudações.

E, com esse estado de espírito, o meu estripulento amigo jazia sem forças sequer para ler o UFBA em Pauta. Tentando reanimá-lo, li em voz alta o que estava estampado na tela do meu computador:

Lula recebe título de Doutor Honoris Causa da UFBA

 Decorreram nove anos para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguir receber o título de Doutor Honoris Causa da UFBA, mas finalmente nesta terça-feira (dia 20 de setembro) a Universidade realizou a cerimônia de outorga, no Salão Nobre da Reitoria, perante numeroso público formado por autoridades, comunidade acadêmica e simpatizantes do homenageado. Sob a presidência da reitora Dora Leal Rosa, a solenidade teve a participação do governador Jaques Wagner, do prefeito João Henrique Carneiro, do ex-governador Waldir Pires e dos ex-reitores Roberto Santos, Germano Tabacoff e Naomar de Almeida Filho. Saudado pela vice-diretora da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH), Profa. Maria Victoria Gonzalez, o ex-presidente ressaltou que a homenagem não destacou especialmente o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva, mas “o resultado coletivo daquilo que a sociedade brasileira construiu” durante os oito anos de sua gestão na Presidência da República. A concessão do título foi proposta pela FFCH no ano de 2002 e logo aprovada pelo Conselho Universitário (Consuni).

No início da minha leitura, o meu melancólico amigo não deu o menor sinal de vida. Sem piscar sequer, seu olhar embaçado parecia fitar o nada. Tinha a expressão de um jarro sem flores. Mas à medida que eu caminhava para o final do texto, seus ombros foram recobrando a elegância costumeira e seu corpo foi desarqueando-se.

Quase não pude concluir. Com as mãos girando – em torno de um eixo imaginário horizontal –, me pediu para reler o penúltimo parágrafo. Não tive outra alternativa senão atendê-lo.

– Peraí chefia, foi isso mesmo que você leu? Repita aí, por favor!

– Repetir o que, Saci? É isso mesmo que você entendeu. Foi a vice quem fez a saudação. Qual o motivo do assombro?

– Chefia de Deus! Raciocine comigo. Ou o diretor está doente ou…

– Ou o que Saci?

– Caramba! Não sacou? Em que situação o diretor de uma faculdade delega competência?

– Não entendi. Que competência?

– Ai, meus miolos! Em que situação o vice apita?

– Continuo sem entender…

– Rudezinho, você, hem? Cara! Para o primeiro representante legal da Congregação de uma Unidade de ensino não fazer a saudação, ou ele está doente. Ou…

– Ou… Ou… Diga logo, Saci!

– Ou não está afinado com a proposta!!!  Chefia, a UFBA tem jeito, a UFBA ainda tem esperança! Se toda unanimidade é pouco inteligente, então, lá no final do túnel brilhando uma velinha!

– Ah! Me poupe Saci! E eu pensando que você estava falando coisa com coisa!

***

Mais tarde, quando eu já me recolhia à minha nada convidativa cama cheia de livros e revistas, há dias deixados pelo pestinha, as palavras do Saci soaram-me como o sino da Catedral de Santana, lá em Caetité. Blém-blém-blém-blém

Se eu fosse ainda dado a rezas, pensei, por via das dúvidas, rezaria com fervor para que a saúde do presidente daquela colenda Congregação estivesse em excelente estado…

—————————

Leia mais sobre o título de Doutor Honoris Causa (AQUI)
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Uma resposta to “411 – O “pós” honoris causa”

  1. Cecilia de Paula Says:

    Eu também!
    E logo me veio outra figura à memória….
    Uma do Henfil… e mais outra, de uma camiseta sobre a esperança… com desenhos do Henfil e o seguinte texto

    :: TEXTO FRENTE ::

    – Agora é de vera!
    – Tô vendo a esperança!!
    – Onde ? Onde?
    – Está na nossa frente!….”

    – Obah!
    – Taí!
    – Mas somos nós!
    – Será que entenderam?
    – Sei não… Sei não…
    – Mas tem um leitor ali que tá com um sorriso
    – inteligente –

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