45 – A posição da APUB na sucessão da reitoria

A arte do Saci

Para o Saci, no jogo da sucessão da reitoria da UFBA, a APUB é uma peça que não apita mais, ou um peão tombado... Talvez, na época da posse, ela estará presente para hipotecar solidariedade ao novo magnífico ou à nova magnífica...

Menandro Ramos
Prof. da FAC
ED/UFBA

O Saci está sem falar comigo. Há dias me torrou a paciência para que eu tomasse uma posição contra a censura que o colendo presidente da APUB, o Prof. Israel Oliveira Pinheiro, vem nos impondo na lista.

O pândego traçou um plano – pasmem! -, no computador, usando um desses programas de apresentação eletrônica – com efeitos e tudo mais -, e, simplesmente, o colocou ha área de trabalho (desktop) do computador que uso na faculdade. Aproveitou que estávamos sozinhos na sala para decretar:

– Pronto, chefe! Bolei um plano para enfrentar o Gal. Isopor. Não tem mais o que retocar. É só executá-lo e esperar o resultado. E é bom que não demore! (grifo meu).

Não vou mentir, não, leitor. Saí do sério. O que eu passei de descompostura no sacrista, se estiver no gibi, eu nunca li – e olhe que muitos deles já passaram pela minha mão! Desci o sarrafo no patife, sem pena e sem piedade.

Aquilo não saía da minha mente. Era algo avassalador. Veja a que ponto chegou a ousadia do desassuntado:

“- E é bom que não demore! -”

Não dizendo! Já se viu? Me dando ordens como se eu fosse um simples empregadinho seu. Mas você sabe, leitor, o que é desabafar? Desci os cachorros no pilantra, que até o Prof. Cleverson Suzart, chefe do meu Departamento, que me viu enfurecido pelos corredores da Faculdade de Educação, ficou preocupado. Depois que lhe contei o ocorrido, ele me aconselhou não me estressar à-toa. Meio cético, quando lhe falei da insolência do Saci, ele me abraçou e me olhou nos olhos como que tentando enxergar no meu semblante um traço de senilidade precoce.

– Sabe Mena, se você quiser, posso lhe arranjar mais umas duas semanas de férias…

– Como assim, professor? – Interrompi bruscamente suas ponderações (preocupadas com o meu descanso, por temer que o pior já estivesse instalado no meu juízo).

– Eu acabo de chegar de férias, professor! Estou revigoradíssimo! O que quero, mesmo, é férias desse pestinha que me atanaza o tempo todo.

Depois de pedir à servidora Rose para providenciar uma água com açúcar, insistiu em querer me levar até o meu apartamento, o que acabei aceitando. Durante o percurso, que não é longo, falou-me que gostava muito de histórias de sacis, de pequenas sereias (as tais littles) e de narrativas que embalam os sonhos das crianças e, às vezes, até dos adultos. Pensei em lhe dizer que o que estava acontecendo comigo não era delírio de história da carochinha, mas acabei desistindo. Resolvi aproveitar o delicioso ar condicionado do chefe. Reclinei-me um pouco no banco macio do seu carro e só fiz ouvi-lo. Pensei na minha mordomia ali dentro com motorista e tudo. Do lado de fora, os transeuntes do Vale dos Barris se esfalfando com o calor infernal que está fazendo em Salvador nos últimos tempos. E eu ali, numa boa. Mal eu contemplava aquele cenário externo de sufoco e já subíamos a ladeira do Salete. Que pena, pensei! Estava tão bonzinho aquele frio artificial!

Em poucos minutos eu já descia na porta da Biblioteca dos Barris, que fica pertinho do apartamento onde moro.

Durante o trajeto até a minha residência, fiquei pensando no desconforto que o calor traz. Não foi à-toa que as religiões pensaram na imagem do inferno para assombrar os pobres fiéis – ou infiéis! Se numa temperatura dessa eu me esvaia todo em suor, imagine próximo das chamas do fogo eterno e ouvindo o ranger de dentes e, ainda por cima, choro, muito choro? Coisa de doido!

Tão logo cheguei no meu “QG”, liguei o computador e enfiei o pendrive numa das portas frontais de USB. Mesmo contrariado com a audácia do meu amigo pilantra, ainda assim, tive o cuidado de gravar na faculdade o tal plano infalível contra a tirania do presidente da APUB.

Lá estava ele, minuciosamente detalhado. Ao todo, eram setes slides. No primeiro deles, havia apenas o título, em caixa alta: “DE COMO FAZER O PRESIDENTE DA APUB ENTENDER QUE A LISTA DE DISCUSSÃO NÃO É SUA PROPRIEDADE”.

Nos outros slides restantes, três traziam procedimentos para o Plano A, e, os outros três, estratégias para o Plano B. Resumindo, eu diria que o primeiro plano consistia em escrever um texto para a imprensa – com a assinatura de outros professores que tiveram suas mensagens censuradas -, denunciando as tesouradas que o Prof. Israel Pinheiro, “se julgando”, impunha à lista. Já o Plano B, envolvia uma ação judicial para garantir a liberdade de expressão dos associados da APUB, com base nos Direitos e Garantias Fundamentais da Constituição brasileira, mais precisamente no inciso IX do Art.5º:  “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença“.

Aquilo tudo que ele planejara, aliás, com a melhor das intenções, fazia sentido. Podíamos até pensar na aplicação dos Planos A e B simultaneamente. Talvez o dois remédios ministrados juntos potencializasse o efeito de ambos. O que me irritava, entretanto, era o tom que ele me dirigira e que não saíra da minha cabeça: “E é bom que não demore!”

Já um pouco calmo, examinei mais cuidadosamente todo aquele empenho do meu pequeno amigo. Pensando bem, o tom que eu julgara imperativo, podia ser abrandado por uma entonação mais suave. Talvez ele quisesse dizer mesmo: “Oi chefinho querido! É bom que você dê uma pressinha nesse negócio. Cê sabe que a lei não favorece quem dorme até tarde!” Nesse ponto ele tinha razão. Talvez eu tivesse exagerado um pouco na descompostura que eu lhe passei. E injustamente, diga-se de passagem.

—————-

E foi assim, leitor, que, enquanto eu procurava uma maneira “honrosa” de pedir desculpas ao meu amigo enfezado, eis senão quando ele aparece todo sisudo. Mal me cumprimentou com a cabeça. Foi logo se abancando na sua cadeira preferida de três pernas. Falei-lhe do calor, do último terremoto e tsunami, comentei-lhe sobre o que lera num jornal mais velho, a respeito do fato de Michelle Bachelet, presidente do Chile, ter a aprovação de 80% dos eleitores e, ainda assim, o seu candidato ser derrotado pelo direitista Piñera, e ele nada. Só me olhava com olhos de queixumes e rancor.

Falei sozinho por mais de meia hora. Travamos um duelo silencioso. Eu era a onda e ele o rochedo. Pensei em desculpar-me. Recuei. Lembrei-me de Castro Alves: “Qual dos gigantes morto rolará?!”.

Numa última tentativa, comentei sobre a sucessão na reitoria. Falei-lhe sobre o boato da candidatura única e dos meus temores pelo destino da UFBA. A impressão que eu tinha é que havia passado um tsunami nela, nos últimos oito anos. Nuca a vira tão apática nesses meus trinta anos de docente. E mais apático ainda estava o sindicato dos professores – para movimentações outras que não fossem as festanças e folguedos.

Numa última tentativa, dirigi-me a ele. Ficamos a um palmo de distância. Face to face, como diria Shakespeare . Olhei-o nos olhos firmemente e disparei:

– Saci, qual será a posição da APUB nessa sucessão para reitor?

Parecia já esperar pela pergunta. Olhou-me friamente e sem qualquer emoção dirigiu-se ao computador. Seus dedos ágeis tomaram o mouse e foram direto para um arquivo em jpeg. Dois cliques firmes e a charge, acima, respondia o que eu havia lhe perguntado.

Ele não estava para papo. Também nem precisava. Mil palavras que dissesse  e não teriam  – nem de longe –  a eloquência daquela intervenção fotográfica que fizera com a ajuda de fotos da internet e as habilidades manuais que vinha desenvolvendo (justamente para momentos de calundu como aquele que vivenciávamos).

Falar, pra quê? Precisa não. A verdade salta aos olhos!…

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