460 – Lágrimas globais

Para o Saci, algumas emissoras de televisão descobriram que as lágrimas são uma espécie de cola que mantem o telespectador preso à telinha...

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Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

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proveitei o recesso natalino para ficar em casa e botar algumas coisas em dia. Enquanto eu ralava na labuta doméstica, feito um condenado a trabalhos forçados nas galés, o Saci, de pose, zapeava pelos canais de TV. Embora aquilo me irritasse um pouco, vez ou outra eu entregava os pontos para me deslumbrar diante do ofuscante espetáculo televisivo. Ninguém pode negar a competência técnica que as empresas brasileiras de comunicação audiovisual  adquiriram nos últimos anos. Coisa de cair o queixo. E, numa dessas vezes, acabei assistindo à maestria do apresentador Luciano Huck em tirar lágrimas do público e, claro, de manter a fidelidade do seu rico anunciante.

O esquema é muito simples. Uma situação de penúria é mostrada, no meio de milhões das que diariamente acontecem nesse Brasilzão de meu Deus, pela incúria do Estado omisso às questões sociais, e, no final da história, há sempre uma boa alma para colaborar de maneira magnânima: uma instituição bancária parceira, um fabricante de tintas, uma grande empresa de material hidráulico, outra de revestimento, outra de construção em geral, de uma megaempresa de móveis etc. Nunca falta, também, a presença de uma figura popular que rompe as barreiras de uma sociedade indiferente, e transforma, para melhor, o dia a dia de crianças desamparadas afetiva e economicamente. No final do programa, é mostrada uma casa belamente reconstruída ou um veículo restaurado (como importante instrumento de trabalho!), competentemente por profissionais do ramo, e famílias felizes agradecidas aos apresentadores e patrocinadores, esses admiráveis provedores de sacos de bondade…

Na esteira dessa miraculosa fórmula exercitada pelo generoso “Caldeirão do Huck”, citado só a título de exemplo, seguem outros programas como o “Domingão do Faustão”, “Mais Você”, “Globo Repórter”, “Vídeo Show”/ “Vídeo Game” de Angélica,” Tv Xuxa”, e o recente “Esquenta” de Regina Casé. Todos eles com características próprias, mas sempre explorando o filão do “saco de bondades”.

Evidentemente que a Globo não deve ser responsabilizada pela invenção da pólvora. Seus competentes laboratórios, que pesquisam o comportamento humano – individual e de massa -, com vista ao aumento do consumo, apenas exploram e diversificam as pesquisas desenvolvidas em outros centros pioneiros de referência internacional, espalhados pelo mundo capitalista, principalmente nas matrizes estadunidenses. As demais emissoras brasileiras (SBT, Band, Record etc) seguem as mesmas receitas, que elas não são bobas de mudar o time que está ganhando, segundo a lógica do capital… Tanto assim, que o Saci brinca:

– Se houvesse céu, a Globo estaria dentro dele com as demais emissoras concorrentes, sem exceção de nenhuma delas. Nenhuma a menos! O contrário, também, seria verdade, caso lá fosse barrada, e compulsoriamente se candidatasse  às chamas eternas do inferno: todas as outras seguiriam seu rastro!…

E, como dizia eu no início, nesse recesso natalino, pegando a carona do endiabrado Saci, pude acompanhar mais de perto, com os olhos marejados de lágrimas – aqui prá nós -, o modus operandi de cada apresentador global, e identificar suas principais virtudes. Não vou mentir, não. Por diversas vezes, tive que ir ao banheiro lavar o rosto, tamanha era a competência dos ditos cujos em nos comover. Até o Saci embarcou no oceano de lágrimas debulhadas. Por diversas vezes o surpreendi tirando “cisco” nos olhos com um lencinho de papel…

Só quando a noite chegou, e a coruja de Minerva estendeu suas asas sobre os abismos das sombras, é que a ficha caiu. Aos poucos, fomos sacando, o Saci e eu, o quanto os mantenedores do capital são espertos. Esgotados os limites, lançam-se os mísseis e as bombas de grande poder de destruição. Mas só em situações extremas. No cotidiano light administrável, em que a “diplomacia” é cabível, as imagens ternas e os gestos da pseudo solidariedade humana são suficientes para enternecer os corações de boa-fé e estimular a voracidade do consumo.

Enquanto isso, as trombetas tonitruantes dos anjos, presos nos céus dos Shopping Centeres, anunciavam a feliz natividade do Salvador.

Glória in excélsis Deo: et in terra pax homínibus bonae voluntátis!

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