518 – Mudança do Garcia 2012

O Saci observou que as emissoras de TV - todas elas! - durante a cobertura do Carnaval baiano, nunca mostravam as frases contidas nas placas da "Mudança do Garcia". - Coincidência, ou algumas mãos foram "molhadas pelas otoridades"? - indagou o pestinha desconfiado...

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Explicando o bloco “Mudança do Garcia”

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

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onfesso que a ficha só caiu quando recebi um e-mail de uma sobrinha querida, que mora em Belo Horizonte, e não acompanha de perto o Carnaval baiano: “Oi tio! Essa não entendi. O que está acontecendo no Garcia? O que tem esse bairro?”

Só então percebi que a charge do Saci precisa ser explicada para os leitores deste Blog de fora da Bahia, cada vez mais globalizado… Como o pilantrinha deve estar por aí se esbaldando que nem pipoca enlouquecida pelos circuitos da folia, tão cedo não posso contar com sua presença. Provavelmente, só retornará amanhã, depois do arrastão do empreendedor assumido e músico genial Carlinhos Brown. E olhe lá!…

Mas aqui surge um probleminha. Nos quase quinze anos que trabalhei em jornal como chargista, aprendi que, para o autor da charge, pior do que padecer eternamente no mármore do inferno, feito queijo de coalho de Caetité na chapa quente, é ter que explicar sua criação. E aí me bate uma dúvida: – E se o Saci for assim também?

Bom, mas o (a) Leitor (a) é que não pode ficar na mão. Nesse caso, faço um acordo com quem lê o presente post. Não explico a charge, mas digo do que se trata o “Mudança do Garcia”. Melhor que isso, apresento o resumo de um artigo intitulado “O carnaval do riso e da crítica: o Mudança do Garcia“, de autoria do acadêmico Ruydemberg Trindade Junior, em que o autor analisa o caráter crítico do Mudança do Garcia, a partir das reflexões de Mikhail Bakhtin. Mais abaixo, disponibilizo o link do referido texto, em PDF, para quem quiser se inteirar melhor sobre o assunto. Eis o resumo publicado na revista on-line O Olho da História:

O “bloco” Mudança do Garcia apesar de fazer parte do carnaval de Salvador, difere radicalmente da atual estrutura da festa. A festa da capital baiana passou nas últimas décadas por uma intensa mercantilização, mas a singularidade do “bloco” se deve justamente ao não-acompanhamento deste processo, e ao seu caráter crítico contestatório. O Mudança do Garcia leva para a avenida não apenas máscaras e fantasias, mas, principalmente, problematiza questões ligadas à realidade social, política e econômica da Bahia e de todo o país sempre com humor, utilizando-se, então, do cômico como forma de contestação social. (Ruydemberg Trindade Junior)

O certo é que o turista, de acordo com análise feita pelo meu amigo de gorro vermelho e pito, ávido por se divertir, dificilmente percebe o quanto o Carnaval de Salvador foi mercantilizado. Governo estadual e municipal, empresários, anunciantes, mídia empresarial, cantores globais e demais loteadores do espaço público se irmanam para que tudo pareça lindo, maravilhoso. A festa momesca é vendida como sendo uma manifestação autêntica da população baiana, mas não é nada disso. Os próprios cantores-empresários são chamados para sócios desse negócio altamente rentável. E em troca da grana e da popularidade (leia-se visualização na mídia) faturadas, distribuem afagos, muitos afagos para as autoridades postadas estrategicamente nos ricos camarotes ao longo das avenidas do circuito. Além, claro, de alguns fazerem o marketing da bondade (ou média como se dizia num passado recente), convidando crianças pobres para subirem até os suntuosos Trios Elétricos, só para citar um desses expedientes.  Segundo o Saci, “Rabelais e Bakhtin ficariam corados se vissem tamanha subserviência conjugada com práticas melosamente astuciosas, fazendo do Carnaval uma festa para a massa e não do povo“. Mas isso é uma outra história.

Se a mídia televisiva não mostra o outro lado da banda desafinada ou do bloco sem corda – mas com muitos nós -, da Bahia de Todos Eles do Poder, é exatamente porque o rico dinheiro do contribuinte, investido largamente em propaganda pelos executivos estadual e municipal, vem cada vez mais recheando as contas bancárias dos proprietários ou concessionários dos canais de TV. Mesmo o povo não sendo bobo, mas a massa é de manobra…

E aí é que entra o bloco do “Mudança do Garcia”. Ou melhor, não entra. Como segmento de resistência, ele fica comendo pelas beiradas, fazendo as críticas que as empresas de blocos carnavalescos, ou os comerciantes de abadás e camarotes, por motivos óbvios, jamais o fariam. E, então, surgem faixas, fantasias jocosas, carros alegóricos simples, mas concebidos com muita criatividade, para desnudarem e desancarem os políticos e administradores vendilhões com frases escrachadas.

Não sei se este ano a APUB – entidade sindical dos professores universitarios das federais baianas -, participou do evento como há décadas vinha fazendo. Depois que resolveu trocar sua bandeira de luta “sindicato é para lutar” pelo slogansindicato é para bailar“, sua posição no “Mudança do Garcia” ficou cada vez mais desconfortável. Segundo o Saci, a última frase radical que ela usou em carnavais recentes foi “Abaixo a lei da gravidade”.

Aliás, não só a APUB perdeu o espaço crítico que o “Mudança do Garcia” ocupa no Carnaval baiano, mas os tais partidos ditos de “esqueda” e coligados que apoiam os governos federal e estadual. Afinal, contra o que poderão protestar suas faixas e apitar seus apitos?

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Saiba mais. Leia o artigo na íntegra – O carnaval do riso e da crítica: o Mudança do Garcia (AQUI) – publicado na revista O Olho da História.

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2 Respostas to “518 – Mudança do Garcia 2012”

  1. Antonieta Araujo Says:

    É meu caro colega Menandro, às vezes é preciso mesmo explicar o óbvio, que fica camuflado entre tantas máscaras carnavalescas…

  2. ronaldo ribeiro jacobina Says:

    Menandro, o saci com seu humor é um legítimo membro da Mudança
    que ele resista, como a Mudança vem resistindo!

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