514 – Arte: peias ou emancipação?

Aproveitando a carona do pintor espanhol Francisco Goya, o Saci mostra que a Arte tanto pode estar a serviço dos palácios como também defendendo os que são oprimidos pelos palacianos…

A Inconfidência Mineira, ainda que tenha sido a insurgência dos que tinham posses, de um modo geral, foi sem dúvida uma sementinha contra a opressão da Coroa portuguesa…

.

Menandro Ramos
FACED/UFBA

.

.

.

Saci queria, praticamente, me arrancar da minha leitura para que eu respondesse, imediatamente, ao e-mail que a Prof. Marya Arapiraca me enviara. Pedi-lhe tranquilidade.

– Calma Saci, cada coisa em seu devido momento. Estou estudando um pouco sobre Ícaro, personagem da mitologia grega, para um dia contar detalhadamente ao meu neto a origem do seu nome.

Perainda, chefia! Seu neto tem pouco mais de um mês e meio de idade e ainda não entende nada! Isso é piração!…

– AH! É? Você é que pensa! Claro que ele entende tudo! Por acaso você tem neto? Já provou o prazer de olhar aqueles olhinhos curiosos e ávidos de mundo? E o sorriso de manhã de verão luminosa daquela boquinha linda, não conta?…

Enciumado, ele me virou as costas e sentou-se ao computador. Ciúme é fogo!

Àquela altura, perdi o pique da leitura. Mesmo tentando me concentrar, meus olhos eram atraídos pelos pixels luminosos da tela do computador que o pestinha manuseava na minha frente com alguma perícia.

De onde me encontrava, eu reconhecia a pintura explosiva de Goya. Fala-se que ele teria traduzido com tinta rubra, anos depois, a bestialidade dos soldados franceses da tropa napoleônica contra a população madrilena. Consta que, horas depois do fuzilamento, naquela mesma noite triste, ele ainda vira horrorizado, com ajuda de uma lanterna, o sangue derramado em vasta extensão da montanha do Príncipe Pio. Era o dia 3 de maio de 1808.

Vi também o frenesi com que o pestinha de gorro vermelho e pito saiu do espanhol Goya para o brasileiro Pedro Américo. Agora era a vez da pintura do artista paraibano sofrer intervenções sacizescas.

Ali estava a arte com toda a sua pujança e miséria. Ora adornando os palácios e ricos castelos, ou ornando não muito piedosamente os templos, ora gritando de forma lancinante contra a insanidade humana. Ali estava posta a permanente superação da contradição e o movimento dialético do real. Ora grilhões, ora promessas de voos amplos. Sempre fora assim no breve período de quatro ou cinco mil anos vividos pela humanidade, período identificado também como Civilização.

À maneira de Brecht, quem talhou tanto mármore, quem arrancou dele tanta beleza e com que finalidade? Quem dessas maravilhosas esculturas e entalhes mais se beneficiou? Seus patrocinadores? Seus escultores? E em que grau cada um deles partilhou dos benefícios proporcionados?

Enquanto eu digitava estas mal-traçadas linhas, ouvia o som distante de um aparelho de TV. Vez ou outra, apurava os ouvidos para me inteirar do que estava acontecendo na Praça Castro Alves, no encontro dos Trios Elétricos. Mais cedo, ouvi que o animado cantor Bel Marques, como pai zeloso, já garantira o espaço da alegria e o futuro para os seus queridos filhotes estreantes, mas também artistas. Dezenas de outros músicos fariam o mesmo em momentos diferentes: brilharim, encantariam e colheriam os dulcíssimos frutos por emprestarem o seu talento e a sua alegria aos maravilhosos patrocinadores – capitalistas e governos -, e aos que, da mesma forma, em outros momentos, podiam pagar-lhes míseras centenas de reais, muito além do quilo de alimento não perecível… Só que ali, naquele exato momento, as pouco simpáticas cordas,  que privatizavam o espaço público, foram removidas e o folião pipoca triunfava. “A Praça é do Povo como o céu é do condor!”, dissera um dia o Poeta dos Escravos. Seria aquilo uma generosa cortesia, um “0800”? Poderia o capital alguma vez ser generoso? Ou alguém, sem ter a mínima noção, estaria pagando aquela estrondosa conta?

Muitos outros artistas, provavelmente, dariam também o ar de suas graças. Talvez, viessem depois Morais, Caldas, Baby, Pepeu, Ivete, Daniela, Saulo, Margarete, Cláudia, Armandinho, Gil, Veloso, Sarajane, Preta, Moreno, Davi, Xanddy, Brawn, Tatau e muitos e muitos outros que esbanjariam genialidade, ritmo e fariam o povo feliz, muito feliz, ainda que de forma fugaz. A Praça do Poeta, certamente, iria à loucura!

Só um deus festeiro e despudorado poderia inventar o maravilhoso Carnaval baiano. Pelo visto, a coisa está mais para ter sido obra de Dionísio (ou Baco), do que do racional Apolo. Dionísio é agitação, movimento, swing,  luxúria, concupiscência, erotismo, sensualidade, prazer e tudo o mais que o léxico da língua de Vinícius e Drummond pode reunir para representar o gozo humano. Mas bobo é quem pensa que Apolo não participou dessa fuzarca. Claro que participou, sim, quando arquitetava, quando idealizava, quando planejava os mínimos detalhes para que ao final e ao cabo, os cofres de alguns titãs ou semi-deuses estivessem abarrotados do metal precioso reluzente. Claro que participou, sim, quando emprestou sua beleza e formosura apolíneas a cada camarote, a cada abadá, a cada nave musical chamada de trio elétrico e a cada melodia saída de dedos mágicos e de cordas vocais predestinadas…

A Arte é sublime. Ela santifica, humaniza, alegra, inebria, realça, apura, depura, sintetiza,   questiona, mas também entorpece, banaliza, naturaliza, “perversifica”. Não é à-toa que o poder a corteja, não é à-toa que a paquera o tempo inteiro. E, a bem da verdade, ela não se faz de rogada.  Onde as armas perfurantes não conseguem penetrar, adentram suavemente as artes, as cores, os sons, os olores, as palavras, os ritmos em forma de ideologia do bem viver e da felicidade pessoal.

Enquanto eu perguntava a mim mesmo de que lado estaria a arte sacizesca, dirigi-me ao computador, já desocupado por meu enciumado amigo, e vi que ele compusera, com letra cursiva e em fundo róseo, a mensagem sutil que a Prof. Mary Arapiraca me enviara, solidária aos meus escritos, que alguns colegas da UFBA queriam ver fora da nossa lista de discussão. Ao concluir a leitura daquela delicada prova de amizade, que buscara em Lobato arrimo, assaltou-me uma preocupação deveras assombrosa: em qual dos dois modos de escrita a minha se incluía? A escrita que procurava agradar ou a sua contrária, diametralmente oposta? Do fundo do meu coração, torci para que fosse a do primeiro modo. Sinceramente. Já sentia um aperto na garganta e uma dor aguda no peito, só em imaginar que podiam estar pensando exatamente o contrário.

A vista escureceu-me por um momento e senti, tanto nos pés como nas mãos, o suor minar gelado em grossas bagas. Se não me tomassem por um exagerado ou um hiperbólico, reuniria forças para dizer que minhas pernas e meus braços não apenas tremiam, mas simplesmente vibravam qual as mágicas guitarras baianas ao encontro dos Trios Elétricos na Praça Castro Alves, a Praça do Povo.

Imediatamente, me veio à mente a forte metáfora do ex-presidente Jânio Quadros, quando o dito cujo do “fi-lo porque qui-lo” ensaiava deixar a política. “Pendurar ou não as chuteiras?”, indaguei confuso aos meus próprios botões.

Ou melhor, pendurar ou não o teclado e o mouse, antes que fosse tarde demais?

Acima, a afetuosa e inquietante mensagem da minha amiga-irmã que colocou em xeque, sem o suspeitar sequer, a minha coragem, já abalada há quase cinquenta e nove anos…

4 Respostas to “514 – Arte: peias ou emancipação?”

  1. Menandro Ramos Says:

    Este post foi dedicado a algumas pessoas, cujos nomes estão consignados abaixo, através da lista de discussão da UFBA “debates-l”:

    ——————————————————

    Assunto: Como não amar a UFBA?
    ———————–

    Car@

    Um e-mail recebido da Profa. Mary Arapiraca, desencadeou a presente mensagem.

    Mensagem esta que é dirigida aos alunos e professores da UFBA, estes últimos, quase todos desconhecidos, que resolveram hipotecar – gratuita e generosamente -, solidariedade à minha pessoa, diante da tentativa, por parte de alguns, de reeditar a tesoura vil da censura.

    Fiquei, de fato, sensibilizado pelo gestos dos colegas e alunos.
    Alguns, preferiram fazê-lo através do meu e-mail pessoal, e não
    através da lista. A todos e todas a minha gratidão e a confiança de que a UFBA continua com a sua vocação para a crítica e para a liberdade emancipatórias.

    Neste sábado de Carnaval, quero expressar a todos e todas, inclusive aos que ensaiaram a “discreta censura”, uma saudável e feliz festa momesca.

    Quero dedicar aos que se manifestaram diretamente, o post abaixo, intitulado “Arte: peias ou emancipação?”, para, quem sabe, uma reflexão, logo que do Carnaval de 2012 restarem apenas cinzas e lembranças…
    —————————————-
    Eis os(as) homenageados(as):

    Marcos Machado (graduando)
    Profa. Maria Inês Marques
    Prof. Caio Castilho
    Prof. José Roque Mota Carvalho
    Profa. Ana Isabela Cunha
    Prof. Petronílio Cedraz
    Prof. Telésforo
    Prof. Roberto Bastos Guimaraes
    Prof. Ricardo Kalid
    Prof. Everaldo Queiroz
    Prof. Marco A. Tomasoni
    Profa. Stella Barrouin
    Prof. Modesto Jacobino
    Profa. Betty Malin
    Profa. Mary Arapiraca
    Prof. Ronaldo Jacobina

    Atenciosamente,

    Menandro Ramos
    Prof. da FACED/UFBA
    e assessor do Blog do Saci-Pererê

    ———————-

    Sobre a “tesoura vil da censura”, confira o endereço:

    https://osaciperere.wordpress.com/%e2%99%a6%e2%99%a6%e2%99%a6-1-%e2%99%a6%e2%99%a6%e2%99%a6/123/498-persona-non-grata/

  2. Menandro Ramos Says:

    Mensagem recebida por e-mail:
    ————————

    Caro Menandro,

    me ponha nesta lista de solidariedade

    (e não confunda Jacobina com Jacobino)

    Ronaldo

    Em 18 de fevereiro de 2012 11:22, escreveu:

  3. Menandro Ramos Says:

    Mensagem recebida por e-mail:
    ———————————————

    Prezado Prof. Menandro,

    Não sou da UFBA, nem sou acadêmico, mas aprecio muito seu Blog, digo do seu amigo Saci, cuja marca é a seriedade sem ser sisudo.

    Queria sugerir ao Saci que continuasse o trabalho do pintor Goya pintando o que os americanos fizeram no Iraque. Gostaria que um dia a ONU criasse coragem e adquirisse esse grande painel, assim como adquiriu o painel de outro grande brasileiro que foi o pintor comunista Candido Portinari.

    Quem sabe também que ele não pinte o que alguns brasileiros estão fazendo com o Brasil, como Franco fez com a Espanha, por simpatia ao sanguinário Fuher.

    Saúde e Paz!

    Atenciosamente

    Eugenio S. Carvalho

  4. Menandro Ramos Says:

    Grato, Prezado Eugênio! O mesmo lhe desejo.

    A sugestão é ótima e vou repassá-la ao meu amigo Saci.

    Grande abraço,
    Menandro

Deixe uma resposta para Menandro Ramos Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: