523 – BI-ceberg

Conforme o Saci, há de se fazer um enorme esforço para explicar a verdadeira face do Bacharelado Interdisciplinar (BI) aos jovens e não jovens brasileiros (clique na arte para visualizá-la melhor).

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BI – ceberg, o que o ex-reitor da UFBA não falou sobre o BI

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

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ara que se entenda a crítica que vem sendo feita ao BI, é preciso compreender o que tem por baixo desse angu, nas palavras arrelientas do meu amigo de gorro vermelho e pito. Dizendo de outra maneira, o BI é apenas a ponta de um grannnnde iceberg, como ele gosta de exagerar, quando fala sobre o assunto. E o(a) Leitor(a) inteligente vai logo indagar: “E o que tem por baixo desse enorme bloco de gelo, além de água fria?”

Humm! Diante dessa argúcia indagativa o Saci antevê um interlocutor antenado com as sutilezas do mundo, pois debaixo disso tudo é que mora o problema. E, porque não dizer, o perigo. Para conhecê-lo, é preciso recuar no tempo, com a paciência de um detetive e o fervor de um crente.

Desde que os ventos neoliberais começaram a soprar na Era Thatcher, ou na Era Reagan, como alguns preferem denominar por patriotismo, começaram também os ataques contra as Universidades Públicas brasileiras. Nessa época, quem comandava o Palácio do Planalto era o excelentíssimo Sr. Presidente Fernando Collor de Melo. A partir do seu (des)governo e dos seus seguidores não assumidos (FHC, Lula e, quiçá, Dilma), os ataque contra as mencionadas universidades foram sendo sistematizados. De forma catequética, algumas vozes começaram a disseminar que as universidades públicas eram esclerosadas, elitistas, cartoriais, burocráticas, que constituíam verdadeiros templos de marfim e que não refletiam os anseios da população brasileira. Sem falar que o ex-ministro Bresser Pereira tentou até confundir o conceito de “público” como sendo algo diferente de estatal. E aí o Saci não perdoa: “Brinque com essa gente, chefia, brinque!”.

É bem provável que o(a) Leitor(a) inteligente não resista em perguntar o porquê desse ataque, e, claro, querer saber também se a crítica que se fazia não tinha por objetivo transformar, de fato, a Universidade Pública para melhor. Ora, em condições normais de temperatura e pressão (CNTP), como diz o Prof. José Roque, nas suas aulas de Química, isso seria o esperado. Mas no contexto expansionista do capital financeiro, a história era outra.

Vou falar sem arrodeios, por recomendação do Saci, aqui bem juntinho do teclado. O Brasil – assim como outros países que não faziam parte do clube dos ricos do Primeiro Mundo -, tinha tudo para atrair o capital financeiro: grande potencial de consumo, boa receptividade ao que vinha do estrangeiro, laranjas ambiciosos capazes de mediar relações comerciais e políticas, etc.

Na década de 1990, o austríaco Peter Drucker, considerado por muitos como o maior guru do management (Gestão de Relacionamento com o Cliente), e chamado de pai da administração, havia profetizado que tanto a Educação quanto a Saúde estariam no rol dos maiores investimentos do início do milênio, em face da importância que cada uma delas, enquanto direito do cidadão, adquirira historicamente no entendimento do que se conceitua como elementos basilares para uma vida cidadã com dignidade.

Alguém duvida que sem Saúde possa haver ânimo para realizar qualquer atividade, por menor que seja? E quanto à Educação, é possível ao que dispõe de uma face humana viver sem ela, tanto no âmbito individual quanto na esfera coletiva? Acaso um país que pretende desenvolver-se – qualquer que seja a acepção de “desenvolvimento”, quer dependente, quer emancipatório – pode se dar ao luxo de dispensá-la totalmente? Aqui temos, segundo creio, a confluência para um ponto pacífico. Em qualquer que seja a situação, a Educação e a Saúde estão na lista das prioridades. Ora, a partir do momento em que esses dois “vetores” apontam para possibilidades de ganhos vultosos, não era de se esperar que o capital financeiro os desprezasse. Muito pelo contrário.

Considerando a necessidade de o capital financeiro primeiromundista expandir-se após a Segunda Guerra Mundial, para muito além da centralidade do Primeiro Mundo, cada vez mais com mercados limitados e, ao mesmo tempo gulosos, uma de suas possíveis rotas de expansão tinha sua bússola apontando para a América Latina, e, em particular, para o Brasil. Ocorre que no meio do caminho tinha uma pedra. Ou seja, a expansão do capital financeiro deparou-se com alguns obstáculos… Obstáculos culturais, constitucionais…

Assim, algum tempo depois, a Constituição brasileira de 1988 passou a ser uma pedra no caminho da expansão do capital financeiro central para as bandas periféricas de cá, de figurino capitalista-dependente. E a clássica pergunta emergiu da cachola dos expansionistas: O que fazer?

Corre daqui, astucia acolá. O tempo passando. Um desespero só. E foi então que poderosas máquinas “fura-bloqueios” foram urdidas e tramadas por nativos influentes, seguindo religiosamente o protocolo estabelecido pela vulgata neoliberal planetária primeiromundista, interessados em partilhar das benesses que adviriam da cooperação com os próceres que tramavam aquele investimento lucrativo. Era a estação do plantio das sementes das contrarreformas, eufemisticamente ditas Reformas do Estado, cujo objetivo precípuo era exatamente enfraquecer o Estado brasileiro para depois destruí-lo. Laissez-faire, laissez passer! (Deixem fazer, deixem passar!). Deixem o Estado fora do controle da economia, liberem o mercado!

Do conjunto das contrarreformas, na última década, praticamente redesenhadas pelo governo Lula da Silva, a exemplo da Reforma Sindical (flexibilização de direitos, desmonte da democracia e da autonomia sindical), Reforma da Previdência (atentado contra a promoção da universalização da cobertura do risco-velhice) e Reforma Universitária (aligeiramento e mercantilização da Educação), só para citar três da extensa relação leiautada no gabinete do executivo federal, dirigiremos o nosso foco apenas para a última das citadas, aquela sobre a qual o então ministro da Casa Civil, José Dirceu, dissera que o tempo iria fechar – “O pau vai comer!”.

A implantação de um novo ideário de universidade – “em sintonia com a contemporaneidade” para usar um eufemismo que, se bem traduzido, seria melhor dizer “em conformidade com o que foi indicado pelo Banco Mundial para as universidades dos países de capitalismo dependente” –, deu-se através de frentes diversas cuidadosamente arquitetadas. Destacamos apenas quatro delas. A saber: 1) Desqualificação da “Velha”; 2) Testemunhal (inclusive o falso); 3) Marketing da Bondade; 4) Nova Heróica.

A primeira frente é compreendida como sendo a utilização da retórica da desqualificação contra o modelo da “Universidade Velha”. Falou-se cobras e lagartos das universidades brasileiras como se em seis décadas de existência elas não tivessem atuado de forma importante e superado, em muitas situações, o contexto do capitalismo dependente no qual foram criadas. Foram jogadas no lixo suas produções em diversas áreas, seu conhecimento crítico produzido e o sem-número de profissionais por elas formados. Tudo o que foi dito, refletido – e diversas vezes aplicado -, sobre a formação da sociedade brasileira, sobre a saúde pública e pesquisas epidemiológicas, sobre os conhecimentos históricos das lutas sociais dos nossos trabalhadores, sobre o meio ambiente e a agricultura sem agrotóxicos, sobre fontes alternativas de energia, só para citar alguns campos nos quais as nossas universidades atuaram, tudo isso foi lançado fora como trastes imprestáveis. Para nossa surpresa, a Universidade Federal da Bahia assumiu esse protagonismo, na figura no seu dirigente maior, o Prof. Naomar de Almeida Filho.

A segunda frente para legitimar a Universidade Nova e seus penduricalhos teve por expediente trazer o testemunho e a expertise de intelectuais conhecidos, notáveis – vivos (muito vivos, por sinal!) e mortos. Entre os vivos, destacou-se o filósofo francês Edgar Morin, que se notabilizou, no seu país, por ser o mentor do projeto de reforma da educação tecnológica, com base nos pressupostos neoliberais de formação aligeirada para a juventude, criticado pelo importante sociólogo Pierre Bourdieu, seu patrício e, como não poderia deixar de ser, enfrentado pelos destinatários do tal projeto, com tradição de insurgência e luta. O pau quebrou lá também. Ainda sobre Morin, pode ser dito que ele andou tentando vender pacotes de Reforma e Criação de Universidades Novas através da sua ONG, o Instituto Orus, parceiro do Banco Mundial. Além do que, é bom que se diga, muitos dos seus livros constituem referências obrigatórias para a produção de papers de professores das bandas de cá, para o bem ou para o mal, conforme o tempo vai nos dizer.

Rigorosamente, a astúcia dos estrategistas neoliberais fez apenas “palanque” na imagem de intelectual e pesquisador emérito do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) Edgar Morim, que tem seus méritos enquanto intelectual, fazendo-lhe justiça. Mas as diretrizes, de fato, não foram oriundas das questões epistemológicas levantadas pelo “filósofo dos sete saberes”, mas das premissas advindas das políticas econômicas consignadas nos documentos do Banco Mundial e dos saberes de ecomomistas e teóricos da Escola de Chicago, entre os quais o neoliberal Gary Becker, laureado com o Prêmio Nobel de 1992. Ou seja, a educação foi e continua sendo pensada não por educadores, mas por economistas.

No rol dos educadores já falecidos, também usados como “palanque” para legitimar a propalada Universidade Nova, o nome de Anísio Teixeira, respeitável humanista baiano, tem presença obrigatória. Alardeou-se amplamente que o Bacharelado Interdisciplinar da Universidade Nova fora inspirado no modelo pensado pelo ilustre caetiteense. O Prof. Roberto Leher, da UFRJ, um dos maiores críticos das proposições naomarianas, contesta:

Anísio Teixeira, autor de um projeto de educação nacional-desenvolvimentista, que, ao criar a UnB, desenvolveu fundamentos radicalmente distintos dos presentes na Universidade Nova. Embora o projeto da UnB previsse um ciclo básico em grandes áreas, seguido de um bacharelado de três anos, perfazendo uma graduação de cinco anos, este projeto foi pensado com os estudantes cursando o ciclo básico em horário integral, em pequenos grupos, acompanhados pari passu por docentes. A meta, em dez anos, era que o número de estudantes por professor fosse de 6:1! A Universidade Nova prevê no ciclo básico (O Bacharelado Interdisciplinar) 80:1 a 40:1. O REUNI 18:1! Obviamente, não há como comparar os termos da UnB com os da Universidade Nova.

No tripé que sustenta o caldeirão da Universidade Nova, a coluna do Banco Mundial, tem por premissa assumida que "No BM, o capital pensa a Educação para você"; já a coluna de Bolonha celebra "A robustez do emergente mercado educacional turbinado pela educação a distância (EAD) e tecnologias contemporâneas"; enquanto a coluna Community Colleges abraça a ideia do "lanchinho rápido para os mais pobres, coitadinhos" na linha do Bolsa Família...

De fato, o exame cuidadoso das propostas educacionais do criador da Escola Parque, mostrará, sem sombra de dúvida, que em nada se assemelham às proposições construídas pelo inventor do BI das bandas de cá. É o próprio Anísio, apontado como “educador liberal”, que se manifesta em favor da escola pública, mantida rigorosamente pelo Estado (sem parcerias com o setor privados, as PPP dos governos Lula/Dilma).

“Só existirá uma democracia no Brasil no dia em que se montar a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a escola pública. Mas não a escola pública sem prédios, sem asseio, sem higiene e sem mestres devidamente preparados e, por conseguinte, sem eficiência e sem resultados e, sim, a escola pública rica e eficiente, destinada a preparar o brasileiro para vencer e servir com eficiência dentro deste País.” (Anísio Teixeira, Educação para a democracia, 1936).

Além de Anísio Teixeira, o nome de Milton Santos, outro baiano ilustre e reconhecido internacionalmente – agraciado com o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, equivalente ao Nobel de Geografia -, povoou o material propagandístico da Universidade Nova. Até um espaço especial ganhou o seu nome: Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos (IHAC). Na opinião de alguns críticos, foi inadequada a homenagem naquele contexto, uma vez que a orientação neoliberal da Universidade Nova contraria a concepção de mundo do geógrafo – ferrenho opositor do Capitalismo! – para quem a presença do Estado era indispensável, como também concebia Anísio Teixeira. Vê-se, pois, que o recurso propagandístico do “testemunhal” evocando os nomes dos dois célebres baianos é completamente inoportuno e falseado. Quem sabe até um caso para ser levado aos tribunais –  conforme observa o meu amigo Saci -, processando seus arquitetos por propaganda enganosa…

Apesar do lasca-gato que os amigos do rei vêm fazendo para enxugar o gelo da retórica naomariana, o meu escrachado amigo insiste firme e forte: “O BI é como um shopping center: todos podem olhar as vitrines – mas só alguns compram em lojas de marca… E a massa se diverte em lojas de R$ 1,99”.

A terceira frente do pacote da retórica “fura-bloqueios” foi a que denominamos de “Marketing da Bondade”, cuja estratégia é apresentar algo aparentemente como sendo de grande relevância social. Por exemplo, o Prouni, que é definido como sendo “um programa do Ministério da Educação, criado pelo Governo Federal em 2004, que oferece bolsas de estudos em instituições de educação superior privadas, em cursos de graduação e sequenciais de formação específica, a estudantes brasileiros, sem diploma de nível superior”. Este programa é considerado pelos críticos das políticas implementadas no Governo Lula da Silva como sendo um dos mais astuciosos para desviar os recursos públicos às  empresas privadas de educação, através de bolsas – total ou parcialmente -, a alunos pobres,  ou com poucos recursos financeiros. Com a grande vantagem de ter a dúvida da retidão, ou não, do ato favorecendo o governo. A lógica é a mesma do Bolsa Família… Em ambos os programas pode-se facilmente argumentar a reparação de séculos de injustiça social; em ambos é possível pontuar a distribuição de rendas finalmente realizada em solo brasileiro. Alguém é contra essa distribuição? Se é, que fale agora ou cale-se para sempre!…

Poder-se-ia, aqui, falar também do perfil econômico do estudante da Universidade Pública e desfazer alguns caôs que andam contando por aí, para que não digam que a Universidade Pública é elitista. Comecemos informando que 75% da estudantada que cursa as universidades públicas tem renda familiar em torno de, no máximo, R$ 2.700,00. Isso mesmo que você leu: dois mil e setecentos reais. Se isso é ser elite econômica, precisamos, então, inventar urgentemente, um outro termo melhor para designar a fina flor da grana neste país. E tem mais: se tomarmos os 20% dos estudantes mais pobres que cursam as universidades públicas, vamos verificar que suas famílias dispõem de uma renda mensal em torno de R$750,00. Ou seja, a renda familiar está um pouquinho acima de um salário mínimo (referência março/ 2012). Para resumir, podemos encerrar o assunto dizendo, de acordo com os estudos do IBGE, que a renda média dos estudantes das públicas é menor do que a renda média dos estudantes das privadas.

Nesse ponto da minha escrita, o meu amigo Saci me pede para escrever o parágrafo que se segue.

– Por falar em privada, chefia, quero mandar um recado para quem estiver lendo esta postagem. Anote aí na sua cabeça mais uma coisinha importantes para que, com calma, reflita se querem ou não nos enrolar com esse papo de que quem estuda nas universidades públicas são os “filhinhos-de-papai”. Pegue o lápis e anote: do total de vagas das universidades brasileiras, 20% são das universidades públicas. É mole ou quer mais? Nesse ritmo, nas próximas décadas, o Brasil será ou não um país de privadas em qualquer galho de árvore? E as públicas, coitadinhas, restará uma só delas para contar a história? Restará uma só?

Para o Saci, em pouco tempo, a árvore das privadas estará cada vez mais frondosa no solo brasileiro neoliberal, adubado com os insumos públicos...

A quarta e derradeira frente dessa mostra que denominamos de Nova Heróica, é aquela apresentada pelos títeres da Universidade Nova como um golpe de misericórdia sobre qualquer forma de contraposição: nosso projeto de universidade lava mais branco, somos ecléticos, temos a Ciência. Pelos poderes de Grayskull! Para ela vale o bordão esgrimido ad nauseam pelo ex-presidente Lula. Os de cá repetiram a prédica: “Nunca, na história UFBA, se matriculou tanto“…

Terminando provisoriamente

Para terminar provisoriamente esta postagem, que já abusou demais da sua paciência, Leitor(a), vou trazer uma reflexão do já citado Prof. Roberto Leher:

Mas a questão de fundo do projeto Universidade Nova não é o debate epistemológico e epistêmico, mesmo porque estas preocupações inexistem no projeto Universidade Nova. A mal denominada “arquitetura curricular” da Universidade Nova é, sobretudo, uma “reestruturação” gerencial para aumentar a produtividade da universidade, em termos da administração racional do trabalho taylorista […].

Uma das formas que o pensamento neoliberal encontrou para tentar neutralizar as vozes dissonantes das suas investidas é desqualificá-las, lançando sobre elas a pecha da teoria conspiratória. De qualquer forma, quem tiver olhos abertos e boa vontade para enxergar, sem nenhum esforço pode acompanhar os rumos que a educação brasileira vem tomando. Quem perguntar o que foi feito dos ensinos fundamental e médio, certamente, vai encontrar a resposta no sucateamento das escolas públicas. Aqui em Salvador, só para citar os tradicionais Colégio da Bahia (Central), Instituto Normal (Iceia), Severino Vieira e Teixeira de Freitas é possível verificar o quanto foram perdendo prestígio nas últimas décadas. Acaso os filhos ou netos dos executivos estadual e municipal, do alto empresariado, dos profissionais liberais mais abonados financeiramente e outros tantos endinheirados da Terra do Acarajé – e por que não incluir na fração pequeno-burguesa os nossos próprios filhos e netos? -,  estudariam num desses estabelecimentos de ensino, ainda considerando o heróico esforço dos seus professores e servidores para tirar leite das pedras?

Se estivermos certos nos nossos temores, as universidade públicas, logo, logo estarão seguindo os mesmos passos desses saudosos colégios citados. Prazam os céus que estejamos errados nas nossas conclusões – em palavras e imagens… Eu, o meu amigo Saci e uns pouquíssimos companheiros de sonhos.

Por falar no pilantrinha, ele apresenta uma breve súmula imagética dos principais pontos abordados nesta postagem, bem como o que ele denominou de Resumão do Saci (ou decálogo sacizesco) sobre os descaminhos da contrarreforma universitária e da Universidade Nova.

A conclusão que o Saci chegou foi que o apetite das empresas educacionais de EAD casa com a fome dos governos neoliberais de fazer o mínimo pela educação...

Segundo o Saci, as políticas neoliberais dos últimos governos (de Collor, FHC, Lula e, quiçá, Dilma), favorecem a expansão do império das privadas...

Pelo visto, o conceito de "elite econômica" dos uninovistas é bem modesto...

Os dados estão disponíveis no IBGE.

Para o Saci, a comida dos “vocacionados aptos” será bem mais saborosa do que o PF (Prato Feito) do Bacharelado Interdisciplinar (BI)…

“Nunca, na história desta universidade, tantas vagas foram oferecidas!”.

Para o Saci, só os alunos chamados de "vocacionados" poderão "Comprar em Lojas de Marcas" das profissionalizantes, enquanto o resto levará um certificado de conclusão do Bacharelado Interdisciplinar (BI) para enfeitar a parede...

Resumão do Saci

A Contrareforma Universitária é:

1) Aplicação sumária do receituário consignado nos documentos do Banco Mundial, para os quais os países pobres ou emergentes de capitalismo dependente só devem se preocupar em acessar e assimilar os novos conhecimentos advindos dos países ricos do capitalismo central, sem precisar produzi-los. Assim, as universidades brasileiras só precisam treinar bem seus professores e alunos para que usem com competência o legado do primeiro mundo. E, claro, paguem devidamente pelo seu uso.

2) Sucateamento das instituições públicas de ensino superior e o robustecimento das instituições privadas, com o propósito de sustentar suavemente, e de forma indolor, a passagem do ideário da educação como um direito para a convicção da educação como mercadoria a ser comprada como qualquer serviço ou produto à disposição dos mercados.

3) Compreensão da Educação como sendo um serviço igual a outros oferecidos pelo mercado, que pode ser vendido por um melhor preço a quem pode pagar mais.

4) Esfriamento da participação da comunidade universitária e decisões doravante tomadas apenas por “cardeais” da elite acadêmica docente, a exemplo do tratoramento do REUNI e da construção biônica do Marco Regulatório da UFBA.

5) Reconfiguração do taylorismos-fordista e pós-toyotista  através da nova roupagem do produtivismo acadêmico.

6) Aligeiramento dos cursos para um mercado flexível e desregulamentado, conformando o futuro trabalhador  com a nova ordem do capitalismo internacional de livre mercado inexorável e irreversível.

7) Precarização do trabalho docente com jornadas estafantes de trabalho.

8) Ampliação do número de estudantes na graduação minimalista, para efeito de publicidade, sem maiores investimentos nas universidade públicas.

9) Transferência do dinheiro público para as instituições privadas-mercantis (PROUNI).

10) Entendimento de serem as entidades sindicais docentes um lócus de entretenimento e prestação de serviços aos associados. Greve, nunca mais!

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Saiba mais:

• Educação Superior Minimalista – Roberto Leher (AQUI)

O Governo Lula e a Contra-Reforma Previdenciária – Rosa Marque e Áquila Mendes (AQUI)

Políticas do Banco Mundial para a Educação Brasileira – Rebeca Szczawlinska Muceniecks e outros (AQUI)

Milton Santos – O Mundo Global Visto do Lado de Cá – documentário de Sílvio Tendler (AQUI)

Anísio Teixeira, Eterno Palanque Eleitoral – Menandro Ramos (AQUI)

Educação para Democracia – Anísio Teixeira. Editora UFRJ.

 

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Para entender o Capitalismo, leia “Era uma vez um Velhinho-Mauzinho“.

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6 Respostas to “523 – BI-ceberg”

  1. Menandro Ramos Says:

    Uma breve explicação

    A origem da postagem acima, intitulada “BI-ceberg: o que o ex-reitor da Ufba não falou sobre o BI” teve como espoleta o recebimento do e-mail, abaixo, do Prof. Ronaldo Jacobina, docente lúcido, poeta sensível às coisas do mundo e de muitos outros predicados. A frase de abertura “ao contrário de você, não sou em princípio contra o Bacharelado Interdisciplinar (BI)” me instigou a pensar no que ele dissera. O que o levou a escrever “não sou em princípio contra o Bacharelado Interdisciplinar (BI)”? Será que ele sabia algo que eu não tinha conhecimento que redimia o BI? Ou será que eu devia contar-lhe as informações que eu conseguira reunir sobre o famigerado Bacharelado Interdisciplinar?

    Animei-me para fazer-lhe uma surpresa e suscitar o debate com os colegas da UFBA, entre um assunto que continuava presente tanto na minha cabeça quanto na cachola irriquieta do meu amigo Saci-Pererê da UFBA.

    Assim, o texto acima produzido, com o propósito meramente didático, é dedicado sobretudo ao poeta Ronaldo Jacobina, com a esperança de que ele, um dia, transforme em versos essa luta titânica da Universidade Pública para não entregar os pontos.

    O meu amigo Saci costuma brincar dizendo que os alunos do BI são adoráveis e que seus professores são fantásticos. E que o único problema existente é com o Bacharelado Interdisciplinar… Brincadeiras à parte, espero que o Caro Prof. Jacobina tenha a paciência – como dizem que o Jó bíblico teve! – para ler meus escritos e que, após a leitura, me dê um retorno, quando possível, apontando-me possíveis exageros ou equívocos. O mesmo pode ser ditos aos colegas da UFBA e leitores deste Blog. Estamos prontos para aceitar a tese de que, dialéticamente, o BI, etc e tal…

    Afinal de contas, o computador, concebido inicialmente para decifrar mensagens de guerra criptografadas e para orientar o trajeto de mísseis mortíferos não foi ressignificado ou reordenado para realizae coisas mais edificantes?

    Menandro Ramos

    —————————————-

    SOBRE O B.I. ( Bacharelado Interdisciplinar) em Saúde.

    O B.I. de Saúde se tornou – para a maioria de seus alunos – uma porta de entrada para o curso de Medicina que pode ser legal, mas é ilegítima.
    Não tenho certeza, mas parece que o BI de Humanas é também uma portinha de entrada para o curso de Direito.

    A concorrência do vestibular de 2011 (para 2012) em Medicina foi de 50 candidatos para uma vaga (49,67). A do B.I. Saúde foi de 5 candidatos para uma vaga (5,22, o Noturno) e 9 para uma vaga (9,26) o diurno.

    Já ouvi comentários que muitos membros dos conselhos superiores da UFBA, na época, com a informação privilegiada, orientaram filhos de amigos, parentes a entrar pelo BI para ir para medicina (é mais demorado, mas para a classe média dá pra financiar a manutenção de um aluno em curso superior por 8 a 9 anos… ).
    Falam do modelo estadunidense. Lá é para todos. Aqui, é para um grupo privilegiado. E esta política perversa está “contaminando “ a legítima política afirmativa das cotas sociais (e étnicas), que precisa, é claro, ser aprimorada para acabar, por exemplo, com as “cotas militares”, mas esta é uma outra história…
    Medicina tem uma adesão de mais de 90 por cento do alunado ao seu curso. Pouquíssimos alunos desistem. Eles não precisam cursar o B.I . para depois decidir. E aqueles que querem cursar o B.I., ao final, já bacharéis, se querem medicina que façam o vestibular entrem pela porta da frente, como todo ano fazem enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas, odontólogos, engenheiros etc…

    Espero que a UFBA viva agora um momento democrático: que cada Unidade Universitária decida se quer fazer RESERVA DE VAGAS para o B.I. E aquelas UU que aprovarem a dita reserva discutam o percentual. A Congregação de Medicina já se manifestou contra.

    Enfiaram goela a baixo em medicina a redução de 32 vagas para serem distribuídas pelos portadores de informações privilegiadas.
    Triste UFBA! Oh como és dessemelhante!!!

    Ronaldo Ribeiro Jacobina
    Contra a reserva de vagas! O B.I. / tem que valer / em si.

  2. Roberto J.C. Cardoso Says:

    Excelente relato sobre os BI. As razões subjacentes sobre a criação desse curso estão bem mais claras agora.
    Parabéns caro Menandro

    Roberto Cardoso
    Prof. Titular aposentado da UFBA

  3. José Tavares-Neto Says:

    Prezado Amigo do Saci,

    Em resumo, dia a dia você fica mais sabido e, por isso, agradeça ao Saci.

    Felizmente, a história da Universidade vai reservar para os porões mais essa triste malandragem acadêmica, como teve destino o acesso por área (1971) do período da didatura, seguido de provão. Até porque essa nova modalidade de “acesso” ao curso de Medicina só amplia as desigualdades.

    Saudações acadêmicas bicentenárias,

    José Tavares-Neto
    Medicina (FMB-UFBA)

  4. altino Says:

    MENA!!
    para uns….elocubrações, invenciones…….para outros, análise do real que há tempos deixou-se de fazer na UFBA. Vive-se os tempos da “modorna” do movimento docente e discente. Parece que vivemos em paraíso!!! Não existe problemas de precarização, estresse etc (pontos que atingem diretamente o indivíduo)….interessante que, como não mais se reune, agora sofre-se em silêncio….e SÓ!!
    Quando encontramos colegas e conversamos é que ouve-se e percebe-se o astral…….se constata a barra pesada.
    Imagine então se se vai pensar e falar de capital, banco mundial, desenvolvimento, país, futuro…..
    Bem, como ainda existem as ilhas como tu, vamos trabalhar: que tal sacudir um pouco?
    como já elaborastes mais sobre o assunto, lhe proponho:
    VAMOS FAZER UMA “AMOSTRAOFICINAINTINERANTEBI”!
    OS PASSOS:
    a) dar mais um trato nessas “mal traçadas”: pega outras opiniões (convida o LEHER), depoimentos, documentos etc;
    b) construir esse documento iniciado em tua postagem em PUBLICAÇÃO;
    c) produzir CARTAZES com os dados;
    d) produzir uma mídia (tua especialidade) com os dados, depoimentos;
    e) e VAMOS CIRCULAR NA UFBA realizando AMOSTRAOFICINA…..
    f) INICIAR PELO BI!!
    ao seu dispor para ajudar na construção!!!
    abraços,
    altino

  5. Crispin Pepelu Says:

    Prezado autor,

    concordo em partes sobre o que foi escrito e gostaria de elogiar a inciativa. Contudo devo confessar que, enquanto educador, me preocupo que os docentes da Universidade, em especial das faculdades mais tradicionais, reservem algum tipo de tratamento injusto para os alunos egressos dos BIs. Vale lembrar que eles são tão vítimas (apesar de não achar esta a palavra mais correta) do processo quantos quaisquer outros fora dele.

    No mais, discordo do professor Ronaldo Jacobina quanto à “entrada pela porta dos fundos”. Acho que, apesar da análise contextual muito bem feita pelo autor do post, quem ingressa na Universidade Federal pelo BI tem o mesmo mérito de quem se submete ao, na minha visão, exaurido e caducante exame vestibular.

    Abraços cordiais de um amigo espanhol que mora há mais de 25 anos em seu pais,

    Crispín Moretto Pepelu

  6. osaciperere Says:

    Prezado Sr. Crispín,

    Sem dúvida, os alunos do BI merecem todo o nosso respeito e consideração. Por inúmeras vezes já dissemos que eles são adoráveis e os professores são ótimos. Um equívoco não justifica outro. No nosso entender, as bases do BI é que não são confiáveis.

    Grande abraço!

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