531 – A TV e a reinvenção do Mundo

O Saci sempre teve curiosidade de conhecer a força da TV sobre o cérebro dos estadunidenses...

Outra pergunta que o Saci sempre faz é se as informações sobre a tomada da Bastilha valem menos para os jovens franceses do que um comercial de TV...

Já no Brasil, para o Saci, são muitas as dúvidas sobre a generosidade das emissoras de TV globalizadas, que generosamente dão tantas receitas e entretenimento ao telespectador... Mas ele só não sabe se é “pensando em você; ou “pensando por você"...

POST EM CONSTRUÇÃO…

A TV brasileira e a reinvenção do Brasil

Menandro Ramos
FACED/UFBA

 

 

epois do boato de que o caso do “estupro” do BBB tinha sido articulado apenas para aumentar o Ibope do programa global, o papo que rolou solto foi sobre a TV brasileira e a reinvenção do Brasil pela emissora hegemônica; sobre suas armações ilimitadas; sobre o pozinho branco que o Boni havia recomendado colocar nos ombros de Collor (confira AQUI), durante o debate com Lula, para parecer caspa e “humanizar” o candidato; sobre o marketing da bondade do “Criança Esperança” e sobre muitas outras coisas do universo televisivo. Conversei longamente com o Saci sobre a importância da alfabetização imagética na escola, que consiste em fazer usos da imagem em situações de comunicação, bem como em situações de aprendizagem e de ensino, além da necessidade de se fazer leituras críticas do que nos é informado ou comunicado, uma vez que há sempre a possibilidade de falseamento da realidade – tanto por engano, ou por ignorância, quanto por vontade estrita de enganar, de engrupir -, através da manipulação dos códigos comunicativos para se obter algum ganho.

O papo rolou de forma tão espontânea e tão rica que ele achou que deveríamos escrever algo sobre o assunto. Concordei que faríamos juntos um paper acadêmico.

– E em inglês, chefia, para parecer mais científico!…

Fiz que não ouvi o que ele dissera, para ele não dizer que implico sempre com suas penadas. Às vezes, o silêncio vale mais do que um Prêmio Nobel…

Como alguns leitores já sacaram, tenho feito do Blog do meu amigo e parceiro Saci-Pererê da UFBA um Laboratório Virtual autônomo, democrático, meio anárquico (só meio!). Quem está próximo a mim tem conhecimento disso e não faço nenhum segredo da minha parceria com o digníssimo escrachado, embora tenhamos, de quando em vez, uns arranca-rabos dos diabos. Mas quem não tem essas broncas na vida, não é mesmo?

Cheio de si por tê-lo chamado de “parceiro”, ele fez questão de ditar umas coisinhas para que eu as escrevesse neste trabalho coletivo (meu, dele e, talvez,  seu). Como fiquei traumatizado com a censura que a APUB exerceu sobre as minhas postagens, chegando ao cúmulo de extinguir a lista de discussão da entidade sindical, para não sofrer qualquer crítica da parte dos associados, acabei fazendo “as vontades” do pilantrinha.

– Escreva aí, chefia: “A parceria com o Blog do Saci-Pererê foi sensacional. Talvez seja aconselhável ressaltar que a minha autonomia intelectual e financeira (merrecas disponíveis para comprar alguns livros todo mês), me liberam de tomar a bênção aos Conselhos Editoriais de livros e revistas aos gurus da intelectualidade daqui e d’além – sem menosprezar, claro, o que precisa ser considerado -, bem como de me fazer passar a cuia e de me desmanchar em sorrisos simpáticos aos guardiões da grana das agências financiadoras. E isso, muito menos por orgulho e mais por comodismo. Devo confessar também que me acho muito preguiçoso para algumas coisas. Por exemplo, se houver elevador, não subo dez andares de escadas; se existir água encanada, não pego água no rio; se o texto já foi digitado na internet, ou digitalizado em outro suporte qualquer, por opção, não tenho pudores em usar os poderosos Ctrl +C e Cntrl + V. Algumas vezes, isso vale para a postagem de imagens, outras não”…

– Um minutinho, Saci! Tenho que escrever isso mesmo?

– Tem sim, chefia! – ele foi incisivo. – Como você é um tanto devagar, quase parando, se eu não fizer isso, nossas reflexões sobre as imagem não decolam. Continue escrevendo.

Não entendi bulhufas. Pensei com meus botões que o Saci havia fumado um cogumelo brabo, mas ainda assim continuei digitando pacientemente o que ele ditava:

“Sempre ouvi dizer que a internet tem muito entulho. Concordo. Só que sou adepto também de reciclar o lixo e transformá-lo em algo admirável. Ainda ginasiano em Caetité, impressionou-me o que dissera o químico francês Lavoisier (1743-1794) em relação ao “nada se perder e ao tudo se transformar na Natureza”. E assim vou fazendo. Às vezes mais e às vezes menos, conforme a boa preguiça recomenda, preguiça essa que pode ser a mãe da criatividade, conforme aprendemos no CRIARTE, espaço extinto de criação de imagem, arte, e tecnologia educacional da FACED/UFBA, nos idos de 1980, ao lado das solidárias companhias dos professores Expedito Nogueira Bastos, Nildeia Souza Andrade e Manoelito Damasceno. Mas isso é assunto para outra ocasião”.

Perplexo diante daquilo tudo que ele havia ditado para que eu escrevesse, quis saber como ele obtivera aquelas informações, por sinal, algumas delas corretíssimas. Simplesmente, ele disse que eu já as repetira mil e trezentas e sete vezes aos seus pacientes ouvidos. Sabia tudo de cor e salteado, plim-plim por plim-plim

 ***

Claro que vou poupar o Leitor ou Leitora dos detalhes sórdidos da nossa fecunda e barulhenta parceria que acabou dando com os burros n’água, mas vou registrar algumas coisas que podem ser resgatadas futuramente pelos historiadores da Educação. 

***

É verdade que tenho este Blog um como Laboratório Virtual de Pesquisa. Pois é. É aqui, justamente, que venho pesquisado e escrevinhado após o encerramento da pesquisa que fiz para o meu doutorado. É aqui que venho examinado epistemologias e exercitando a dimensão do fazer imagético. Através dele, temos socializado com os alunos em sala de aula, e fora dela, o que já foi possível experienciar, tanto na esfera de pesquisas de referências teóricas objetivantes das ciências quantitativas, oriundas da base empírica, quanto das teorias críticas reflexivas. Dei a isso tudo o nome de Práxis Imagética.

Aqui, apesar dos desentendimentos corriqueiros, o Saci e eu queremos experimentar algo, sem a preocupação com o ineditismo metodológico – ou o seu contrário, o receituário e a prescrição dogmática -, a possibilidade de uma construção aberta e sensível ao fruto proveniente do diálogo. Temos assistido a formulações duras sobre a Indústria Audiovisual, e também ouvido verdadeiras loas tecidas a seu respeito. Constatamos que tanto as críticas quanto as louvações têm doses de verdade, mas não de forma absoluta. Algumas indagações precisam ser urgentemente respondidas, tais como:

– Se as imagens são cotidianamente manipuladas, o mundo sem imagens não seria melhor e mais justo? Que rumo, então, tomar nessa discussão?

– O que a educação escolar pode fazer para contraditar a mídia empresarial capitalista?

– Deve-se levar ou não a produção da Indústria Cultural para a sala de aula?

– É correto adotar (ou não) as práticas “instrucionistas” para lidar com o fazer comunicativo-imagético?

– É acertado dotar (ou não) os espaços escolares com os produtos da Indústria Pedagógica (hardwares, softwares, quinquilharias eletrônicas)?

– As imagens libertam ou escravizam?

– A arte engajada morreu? No duro?

E nesse ponto o Saci novamente volta a meter o seu bedelho, digo, cachimbo:

– Bote aí chefia que este post ficará, aberto, escancarado mesmo, para o diálogo com o público interessado em discutir essa “relação”. (As aspas são minhas). Escreva aí que sempre que possível retomaremos a problematização do ponto interrompido. E que se o (a) Leitor(a) estiver a fim de trocar figurinhas acerca do universo imagético e afins, é só postar algo no campo do comentário disponibilizado neste Blog…

Enquanto ele falava eu ia digitando automaticamente. Ainda que fossem relevantes as suas colocações, o corpo só pedia cama. Ademais, amanhã tinha que acordar cedo e já passava da meia-noite. Resolvi pedir arrego.

– Saci, tudo muito bom, bom! tudo muito bem, bem! Mas realmente, realmente eu estou morrendo de sono, sono!

Fazendo-se de desentendido, ele continuou firme e forte.

– Coloque aí, chefia: “Dando continuidade ao iniciado, refletiremos agora sobre as possibilidade de uso das imagens e dos audiovisuais a partir de epistemologias distintas que ao longo do tempo vêm norteando a prática pedagógica. Embora Piaget e Vigotski, entre outros, tenham ocupado um significativo espaço na Pedagogia contemporânea, o velho Skinner, como Elvis, não morreu…

Não pude deixar de interrompê-lo. Sua voz cada vez mais se tornava inaudível. Era tudo muito confuso. O mundo fora ficando desfocado. O sono, finalmente, venceu-me. Ainda consegui articular qualquer coisa, mas não me lembrava bem o que era. Só no dia seguinte o meu querido e sensível amigo me contou todo emburrado. Segundo ele, eu apagara legal, balbuciando:

– Elvis pode não ter morrido, mas eu estou mortinho da silva…

E dizendo isso, PUF! Caí na cama mortinho  feito uma pedra.

——————

 Continuará se o(a) Leitor (a) estiver a fim…

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Uma resposta to “531 – A TV e a reinvenção do Mundo”

  1. osaciperere Says:

    Uma leitora que prefere não ser identificada, pergunta ao Saci se o “Criança Esperança” não tem “o lado positivo num país de desiguais e de leis feitas apenas para favorecer os que têm posses”.[…]

    E o Saci responde:
    —————-

    Prezada S.

    Se a iniciativa global não deixasse pequenos resíduos de “bondade” não haveria colaboração de pessoas simples e de boa-vontade que acreditam estar fazendo da sua parte para melhorar o mundo. No momento que ouvimos o depoimento de um morador do semi-árido nordestino dizer que graças ao “Criança Esperança”, seu filho sem nenhuma condição outrora de sequer se alimentar decentemente, agora está tocando violino e vai se apresentar na Europa, nos comovemos às lágrimas. E isso porque somos humanos e tudo que diz respeito à humanidade nos toca profundamente o coração.

    Mas não falo do empresário que contribue pela visibilidade que campanha dá, e da possibilidade de sua empresa ter a “imagem” publicizada para o país inteiro. Esse apenas faz um investimento pesado, como o faria através das páginas de revistas de grande circulação nacional ou mesmo em outdoors plantados nas grandes capitais brasileiras.

    Assim, acreditamos que o “Criança Esperança” seja, disfarçadamente como um merchandising, uma das maiores campanhas em favor do pensamento neoliberal no Brasil, que suavemente vai sedimentando a ideia de que o papel do Estado pode ser muito bem substituído por empresas “competentes” e preocupadas com o crescimento e qualidade de vida do país. O argumento torna-se impecável a olhos pouco críticos.

    E, como não poderia deixar de ser, tal dedicação credita a essas empresas “pequenos privilégios”, pois nem relógio trabalha de graça.

    Forte abraço.

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