604 – Crise de identidade da UFBA?

Tão logo o logo da UFBA foi disponibilizado para download, e o Pica-Pau já filosofava sobre a realidade fantástica e o devenir fantasmagórica. Enquanto isso, o Saci apostava na capacidade da UFBA sobreviver através da representação do seu brasão e da bravura de seu coletivo…

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Menandro Ramos
FACED/UFBA

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mpressionante a coincidência. Porém, não fora mais que coincidência. O recebimento de uma mensagem, de quem de direito, que disponibilizava o brasão da UFBA para quem dele precisasse, suscitou ao Saci uma densa reflexão. Sentado na sua cadeira predileta de três pernas, o pestinha acabou discorrendo sobre a grande sacada de Saussure e Peirce, entre outros estudiosos dos signos. Por vezes, ele misturava a Semiótica e a Semiologia com práticas exotéricas milenares secretíssimas. Depois de mais de duas horas tagarelando sobre o assunto, qualquer tentativa de resumo que eu fizesse seria imperfeita e temerária.

Do meu canto, dorido por maldita lombalgia, sem achar graça em nada, eu me dividia entre o desafio de querer achar que a dor era apenas uma irrelevante criação do sistema nervoso central, e a incitação de acreditar que era pertinente o que o pilantrinha trazia à tona como reflexão.

Agora, mais aliviado pelo efeito de um poderoso analgésico, numa pincelada com tintas muito ralas, apenas para o Leitor ou Leitora ter uma vaga ideia, diria, somente, que segundo o meu amigo de gorro vermelho e pito, apreciador contumaz das poções mágicas e dos caldeirões semiológicos, as palavras carregam uma magia no seu lombo, a exemplo de abracadabra, fiat lux, alakazim-alakazam, pelos poderes de Grayskull!, só para citar algumas. De acordo com ele, alguns bruxos do marketing asseveram que a palavra NOVA também deveria ser incluída nesse rol. Ou seja, o simples fato de acrescentá-la antes ou depois de um substantivo, o dito cujo se transfigurava e ficava novinho em folha, como que por encanto. Para ilustrar, lembrou o que ocorreu com uma tal moeda, com determinado sabão em pó e com uma certa instituição de ensino superior: NOVO CRUZEIRO, NOVO OMO E UNIVERSIDADE NOVA.

Enquanto ele ponderava que aquilo tudo era um recorte do ponto de vista do signo-simbólico, e que, no concernente à esfera do signo-icônico a magia estava em, justamente, manter alguns elementos significativos do antigo corpo a um outro novo qualquer, notei que chegara uma nova mensagem. Era da colega de Departamento, a Profa. Inês Marques, versada em História e douta em história da UFBA. Curta e inquiridora, ela parecia mais fazer um diagnóstico:

Pelo visto a UFBA tem dois brasões. Se o brasão é a identidade da família, da instituição, desde tempos imemoriais, é um só, a heráldica diz isto. Temos aqui um caso de dupla identidade: UFBA e UFBA nova. Como pode um conselho universitário aceitar algo tão explicitamente esquizofrênico?

Meio meditabundo, ele ficou meneando a cabeça por um tempão, e a olhar não sei para que ponto imaginário do infinito. Decorridos alguns minutos, o pestinha dirigiu-se ao mouse, ajustou a cadeira giratória e mandou ver uma ilustração, com dedicatória invisível para a historiadora de olhar acurado.

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6 Respostas to “604 – Crise de identidade da UFBA?”

  1. osaciperere Says:

    Circulou na “debates-l”, da UFBA:

    —————————————-

    AO CONSELHO UNVERSITÁRIO DA UNIVERSIDADE FEFERAL DA BAHIA

    No ano 2000, Felippe Serpa aceitou ser meu orientador e começamos juntos, a trabalhar o projeto institucional da UFBA, diante das exigências da Lei de Diretrizes e Bases/1996. A intenção de estudar a educação naquele contexto, acabou se transformando em pesquisa histórica. Voltei no tempo para encontrar o projeto institucional da UFBA. Serpa orientou a pesquisa para que buscasse a existência de um projeto institucional que articulava ensino, pesquisa e extensão, desde o seu nascimento. A investigação permitiu descobrir que ele estava certo e que esta foi uma das singularidades da UFBA. O Reitor Edgard Santos, Anísio Teixeira, para não falar de uma longa lista de homens públicos pensaram a instituição, para mudar a cara da Bahia, a projetaram para fazer a diferença. Em meados da década de 1950, Gilberto Freire dizia que não havia nenhuma instituição universitária no Brasil assemelhada à UFBA. Ela conseguiu unir universidade- cidade e mudar a face da sociedade baiana. Um projeto totalmente exitoso.

    Nas pesquisas sobre a história institucional, descobri o historiador Luis Henrique Dias Tavares que contestou, veementemente, a versão sobre a criação da UFBA produzida por Alberto Silva, datando seu nascimento em 1808. Com o auxílio de documentos e historiadores da educação, comecei a busca histórica para chegar à posição que defenderia no trabalho. Fiz todas as relações históricas, busquei os registros da luta dos baianos por universidade e a Tese “UFBA NA MEMÓRIA: 1946-2006”, ficou pronta às portas da Universidade completar 60 anos. Nela, adotei a posição do professor Tavares, neguei a versão de Alberto Silva. Não se pode falar em universidade no Brasil até início do século XX.. Para que uma universidade exista, são necessárias condições e características que só foram atendidas no século passado. Tive elementos históricos para afirmar que a universidade brasileira, que a UFBA nasceu da luta dos baianos, em 1946. Todos os educadores e homens públicos que lutaram por sua criação escreveram sobre isto. A tese foi aprovada com muitos elogios e recomendação de publicação, que a Edufba encampou, e publicou com forte empenho da Professora Flávia Rosa, que enviou um exemplar do livro para a atual reitora.

    Conforme descobri nos estudos, os baianos nunca deixaram de lutar por universidade. O trabalho julgado por rigorosos acadêmicos, não deixa dúvida, a Universidade da Bahia, foi criada em 1946. O Conselho universitário da UFBA ao inscrever a data de 1808, no Brasão Institucional, comete um erro, mais que isto, inventa uma história que nunca existiu. É MUITO GRAVE. Esta posição muda a história da educação brasileira e tudo que já se escreveu no mundo, sobre o surgimento de universidades. Como historiadora, me incomoda abrir a página da UFBA e encontrar uma história da educação superior brasileira, que apresenta dados falsos.

    Agora, ao receber a recomendação expressa da instituição, para aplicar em todos os documentos oficiais a logomarca que remete sua fundação à 1808, que é uma mentira histórica, decidi pedir que o colendo Conselho Universitário que recue de sua posição e que insira no símbolo o ano de 1946. Peço a revisão do texto sobre a história da UFBA que encontra-se na página web, que por força da construção, remete a origem da universidade brasileira à 1808. Esta data é importantíssima para a educação superior brasileira, mas não é o marco da criação da Universidade no Brasil.

    Em nome da história da educação, peço que revejam esta decisão e façam justiça ao empenho trabalho e história de vida daqueles que conseguiram arrancar do governo federal uma universidade para a Bahia. Em nome do legado histórico de Edgard Santos, Anísio Teixeira, Luis Henrique Dias Tavares, peço coerência aos nossos dirigentes e que desfaçam o equívoco histórico.

    Maria Inês Corrêa Marques

    Universidade Federal da Bahia

    • osaciperere Says:

      Circulou na “debates-l”:
      ————————————

      Prezada Maria Inês,

      Sempre alertei sobre esse problema. Cheguei a argumentar que tal estupidez confrontava as afirmações de Sérgio Buarque de Holanda quando menciona em “Raízes do Brasil” as diferenças dos projetos de colonização hispânica e portuguesa, evocando a criação de universidade nas colônias americanas desde o século XVI, ao contrário dos portugueses que nunca pensaram nisso. Conte com o meu apoio contra essa tentativa de reescrever a
      história da Bahia, do Brasil e das Américas sem nenhum respaldo ciêntífico.

      Cordialmente

      Luiz Freire

    • osaciperere Says:

      Circulou na “debates-l”:
      ———————————

      Prezada Maria Inês, com meu apoio tb.

      Suely Moraes Ceravolo
      Museologia – FFCH

  2. Saci-Pererê Says:

    Circulou na lista “debates-l” da UFBA:

    ——————————————————-

    Prezado professor Luiz Freire,

    Muito agradecida pelo apoio, que não considero ser dirigido a mim, mas ao que significa fazer história, mantendo a coerência e a verdade, para as gerações futuras. Pesquisar para escrever a tese, foi uma oportunidade ímpar para reconhecer como a história nos é contada. Por exemplo, podemos falar de ensino superior desde a fase colonial, os jesuítas mantiveram cursos superiores que formaram a elite local. À revelia do Império, por um tempo,
    emitiram certificados universitários.Estes e outros aspectos, não têm relevo na hora de contar nossa história da educação.Ficamos sabendo que só ricos estudavam, e na Universidade de Coimbra.

    A história de criação e existência das Universidades do Paraná e de Manaus, é pouco focada, elas foram fechadas pelo governo central. Se fizermos jus à história, dir-se-ia que as iniciativas estaduais foram as pioneiras e não as federais.

    A história da Bahia, não destaca a luta empreendida pelos baianos por uma universidade, que foi longa e permanente. A tentativa de criar uma em 1930, durante a reforma getulista, não se concretizou em razão de fatores políticos. Em 1946, numa convergência de interesses, a Universidade da Bahia surgiu com toda força para dar régua e compasso às demais, as que já existiam e que viriam a nascer.

    Em nome da História, repito, este registro da criação da UFBA em 1808, como sugerem o texto de apresentação na página web e no brasão, deve ser retirado. Digo mais, para ter identidade, a instituição só pode ter um brasão.

    Saudações.
    Maria Inês Marques

  3. Saci-Pererê Says:

    Circulou na lista “debates-l”, da UFBA:
    ———————————————

    Prezada colega Maria Inês,
    Conte também o meu apoio.
    Joseania Miranda Freitas

    Museologia – FFCH

    ———————————————

    Em 20 de julho de 2012 07:39, Maria Inês Marques escreveu:

    Suely,

    Meus agradecimentos pelo apoio, vindo de uma profissional de um campo extremamente valorizado no projeto institucional, nos idos do Reitor Edgard Santos. A UFBA, foi a primeira universidade a criar um museu, que foi o de Arte Sacra, como um ato de preservação da memória e da história da Bahia.

    Segundo consta, as peças estavam desaparecendo e o Reitor Edgard Santos com sua respeitabilidade e foco na Universidade, conseguiu retomar e preservar.

    Datado em 1946, o brasão da UFBA é um só. Estaremos juntas nesta luta, para dar a “César o que é de César”!
    Abraço
    Maria Inês Marques

    —–Mensagem original—–
    De: debates-l-bounces@listas.ufba.br
    [mailto:debates-l-bounces@listas.ufba.br] Em nome de sumoce@ufba.br
    Enviada em: quinta-feira, 19 de julho de 2012 18:45
    Para: larf@ufba.br
    Cc: debates-l@listas.ufba.br
    Assunto:
    Re: [Debates-l] AO CONSELHO UNVERSITÁRIO DA UNIVERSIDADE FEFERAL DA BAHIA

    ———————————————

    Prezada Maria Inês,
    com meu apoio tb
    Suely Moraes Ceravolo
    Museologia – FFCH

  4. Saci-Pererê Says:

    A Professora Maria Inês, enviou-me a mensagem abaixo. Na condição de valente historiadora e consistente intelectual, fez uma grave denúncia sobre a história da UFBA e sobre o perverso traço cultural de nossos administradores públicos de recontar a história. A repercussão do grave fato foi silenciosa e isto me preocupa muito. Peço-lhe, na condição de brilhante historiador o favor de divulgar na lista e comentar o fato denunciado pela Professora Maria Inês Marques.

    Grande abraço.
    João.
    ———————————————

    ———- Mensagem encaminhada ———-
    De: Maria Inês Marques
    Data: 20 de julho de 2012 09:03
    Assunto: Pedido de divulgação
    Para: João dos Reis sILVA jR

    Prezado Professor João,

    Como Vai? Fiquei muito feliz com a virada da Ufscar e adesão à greve. Aqui na Ufba, as coisas foram semelhantes. Enviei há uns dois dias para a histedbr, com cópia para o senhor, mensagem denunciando um violento atentado à história da educação superior brasileira, cometido pelo Consuni UFBA. O fato ensejou minha indignação e desejo de reverter esta absurda falsificação da história. Pensei na lista, esperando que historiadores se manifestassem quanto ao fato, mas parece que não entrou. Seria bom que o senhor reenviasse para mim a mensagem na lista, talvez ganhemos algum apoio. No link abaixo, tem um ótimo texto do dono do blog sobre o assunto , seguido da carta em que peço a retificação histórica.

    Abraço

    Maria Inês Marques

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