624 – O golpe do abaixo-assinado

Para o Saci, o abaixo-assinado foi, sobretudo, um golpe baixo para iludir os docentes de boa-fé e pouco informados dos expedientes pouco limpos da diretoria destituída…

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Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

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ecebi de um colega, por e-mail, a relação dos 227 docentes que participaram do abaixo-assinado em favor da ex-diretoria da APUB, destituída recentemente pela Assembleia dos Professores da UFBA.

Lendo alguns comentários ao lado das assinaturas – recurso que a modalidade de abaixo-assinado via web possibilita -, verifiquei que algumas das manifestações consignadas no documento são por demais de boa-fé. A partir daí, compreendi o porquê de a ex-diretoria da entidade ter verdadeiro pavor das Assembleias, pois lá essas pessoas de boa-fé iriam ter esclarecimentos importantes, que pelo ciberespaço dificilmente teriam. Conheci inúmeros professores que, posteriormente, confessaram ter tido um dia “certa antipatia” ao movimento de oposição, pintado como “um tanto xiita” pelos ex-diretores da APUB, e de terem sido por eles atraídos, justamente pelo canto da sereia que ouviram. Até terem a oportunidade de um esclarecimento honesto sobre a situação. Assim, pelo estômago, pelos pés (através dos forrós e camarotes carnavalescos), e pelo Plano de Saúde e também pelas agendinhas de final de ano (igualzinho os representantes de remédio fazem com os médicos para propagandearem – sem que estes prestem muita atenção ao fato –  os produtos de seus laboratórios farmacêuticos). Através de gestos simpáticos e cativantes, foram se especializando em levar o associado no lero-lero. Os citados professores que passaram a nos apoiar, confessaram que jamais ouviram algo em favor do coletivo, enquanto entidade sindical, da mesma forma que jamais ouviram falar de perdas futuras da carreira, de perdas com a aposentadoria etc. Como a ex-diretoria não entendia que “sindicato é pra lutar”, muitos inferiam que “sindicato é pra bailar”, usando a expressão exata que um desses colegas usou, para mencionar o quanto ficou alienado pela inércia deliberada da direção destituída, em favor do governo de plantão.

Quem não se lembra de, em tempos de eleição da entidade, ter ouvido a cantilena: “Se a oposição ganhar, a primeira coisa que fará é acabar com o plano de Saúde”, quem não se lembra? É fácil de entender o grande número de votos obtidos por eles com os companheiros e companheiras aposentados. Eu mesmo testemunhei um professor conhecido, descer de um táxi com enorme dificuldade de locomoção, para votar, segundo ele,  “nos candidatos do reitor, meu amigo”. Questionado por uma colega sobre a necessidade de a autonomia sindical ser preservada, sem misturar as coisas, ele respondeu sem titubear: “Minha filha, quando você tiver a minha idade, vai dar valor a um Plano de Saúde que estão querendo acabar…”

Pincei alguns dos comentários no referido abaixo-assinado, que me pareceram significativos entre outros:

Profa. Marilia Santos Fontoura comentou: “Ainda que reconheça que a diretoria está fragilizada, discordo da destituição o processo eleitoral é necessário ao processo democrático para disputa de projeto e propostas, falta pouco tempo para o encerramento do mandato da atual diretoria e o processo eleitoral precisa acontecer democraticamente….”

Aqui, dá para perceber que, mesmo reconhecendo a “fragilidade” da então diretoria, talvez por generosidade, a Profa. Marilia a tenha preservado da destituição.

Prof. Aurélio Gonçalves de Lacerda: “Quem desejar dirigir a APUB, submeta-se às urnas.”

Vê-se que o Prof. Aurélio sofismou direitinho, pois a questão não era querer dirigir a APUB, mas dar um “chega pra lá” à diretoria descompromissada com as causas dos professores, e preocupada apenas em agradar o patrão. As recompensas por isso, só os parvos desconhecem.  O ilustre professor mesmo, ao deixar a diretoria da APUB – mas não só ele! -, foi agraciado com um cargo na Reitoria. E aqui não questiono a sua competência, pois sei que ele a tem de sobra. O que estranho é “um dia o caboclo ser pedra e, no outro, ser vidraça” nas palavras arrelientas do meu amigo de gorro vermelho e pito.

Profa. Maria Gabriela Hita:  “Troca de diretoria deve ocorrer por eleições diretas!”

Esse é o tipo do argumento de boa-fé, até mesmo ingênuo, no bom sentido. É provável que, numa Assembleia, com tudo explicadinho, a Profa. Hita logo entenderia que ninguém estava propondo eleição indireta, mas apenas a Assembleia usou da sua prerrogativa de destituir a diretoria da entidade, de acordo com o Art. 15 do Estatuto da entidade, por ela trair os interesses da categoria, em troca de agradar a Proifes, federação governista.

Profa.  Ana Alice Alcantara Costa:  “eu apoio a diretoria da APUB democraticamente eleita. Porque será que eles tem tanto medo das urnas?”.

Bem, não queria comentar muita coisa, apenas dizer que no CONSUNI, enquanto os docentes se reuniam em Assembleia no Salão Nobre da Reitoria, com o espaço repleto de professores favoráveis à greve, bem próximo, na Sala dos Conselhos a ilustre Profa. Ana Alice tinha seu discurso fura-greve rechaçado por conselheiros. Nesse mesmo dia, o tesoureiro da Proifes (e consultor do MEC, segundo denúncia da Folha de São Paulo), que veio tentar socorrer seus correligionários, então diretores da APUB, voltou – data venia –, com o “rabinho entre as pernas”, conforme a expressão popular que conota fragilidade e perda da arrogância.  A pergunta poderia ser devolvida à ínclita professora: “Porque será que eles têm tanto medo das Assembleias?”.

Prof. Israel de Oliveira Pinheiro: “Golpe contra a APUB, nunca!”.

Quanto ao bombástico slogan proferido pelo colendo cientista político, meio Luiz XIV, meio Pedro I, ao receber a carta de José Bonifácio, das mãos do emissário Paulo Bregaro, às margens do Ipiranga, prefiro deixar que falem os que o conheceram melhor do que eu, noutros carnavais. Com a palavra, a Profa. Lúcia Lobato (aposentada de Dança/UFBA) e o Prof. José Roque (ativíssimo do I. Química/UFBA):

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Menandro
Esta escalada do Israel não começou recentemente. Vem de longa data, pois ele se tornou presidente por um golpe que deu na minha gestão, quando ele era vice. Naquele momento não fui compreendida e todos pensaram que era apenas uma questão de animosidade na diretoria. Ele estava rodeado de traíras do mesmo escalão que ele. Eu não pude fazer mais do que fiz, que foi promover uma nova eleição para que já não se configurasse uma sucessão a partir de golpes na APUB. Mas todos se calaram e apenas eu e a Anete ficamos expostas a caça às bruxas. A verdadeira fogueira, no entanto, todos os que ficaram calados estão conhecendo agora. Que fazer, nada!!!!! Tenho certeza que tentei.

Lúcia Fernandes Lobato

(Fonte: AQUI)

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Prezados.  Prezada Lúcia Lobato: Acredito que éramos três: você, Anete e eu (eu era suplente, no exercício do mandato). Lembra-se? Aconteceu uma reunião do “golpe”, todos ELES/ELAS FORAM VESTIDOS DE CALÇA E BLUSA NA COR PRETO, dos pés ao couro cabeludo ou careca. Na blusa havia uma mensagem: Acho que era “FORA ROGÉRIO”. Olhando para eles eu disse: >>>Vocês na verdade estão querendo dizer:  FORA LÚCIA!<<< Naquela reunião esteve presente o Prof. Felipe Serpa e, eu, questionei, mesmo na presença do Prof. Felipe, o envolvimento, direto, do sindicato na eleição para reitor, vencida por Felipe Serpa. Você tem razão. O golpe estava (foi) delineado na noite do “traje a rigor”, preto. ABRAÇOS.

José Roque Mota Carvalho

Assista também ao vídeo:  “A elocução cordial dos presidentes” (AQUI).

2 Respostas to “624 – O golpe do abaixo-assinado”

  1. Francisco Santana Says:

    Como era mais fácil dar “golpes” naquela época.

    Bastava tirar o apoio político que a presidente entregava o cargo.

    Que dificuldade hoje. Mas de não sei quantas assembléias, contratação de seguranças (pode ser tipificado como formação de quadrilha), mandatos de segurança e essa turma não larga o osso.

    Os presidentes da APUB de antigamente teriam mais caráter?

    Não é bem isso embora tenha um pouco disso. Na verdade estamos vivendo um regime fascista e não percebemos.

    A inteligentzia brasileira representada pelas universidades ainda não percebeu. Os nossos sociólogos, filósofos e pedagogos tampouco. É lamentável. O PT e a CUT são um movimento fascista. O PSDB é a outra face do mesmo movimento, a face complementar mas não a determinante. Hitler está para Lula assimcomo Von Papen está para FHC.

    Uma das características do fascismo é que as pessoas envolvidas nele não têm autonomia de decisão. Elas se seguram em um patamar superior a elas, como marionetes. São como robôs, não hovem sua consciência.

    A presidente da APUB e Israel disseram isso claramente. Que eles só ouvem o PROIFES. Não importa o que as assembléias decidam. Esses e a CUT só ouvem os grupos de poder do PT dentro do Governo brasileiro. O presidente da república obedece ao presidente do BC e este à Washington.

    Portanto eles não vão desistir enquanto existir o PROIFES. Podem aguardar mais absurdos por parte deles. Eles cumprem ordens.

  2. Newton Novaes Says:

    Pois eu, sempre achei o prof. Israel Pinheiro com jeito de oficial prussiano…

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