644 – Diálogo com Palacios

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Prezado Prof. Marcos Palacios

Seus inimigos, se os tiver, jamais poderão dizer que o Sr. é um estúpido. Jamais. O Sr. escreve bem, raciocina bem, se expressa bem. Essas virtudes, entretanto, não o protegem. Ao contrário, atribuem-lhe muita responsabilidade. Com a sua argúcia para raciocínios complexos, dificilmente vai poder dizer que não compreendeu algo. Desculpe-me pela franqueza e não a tome como uma deselegância. Antes, é uma manifestação sincera de quem está receptivo ao diálogo, e quer aprender com o Colega.

Concordo “que fraudes podem ocorrer em qualquer sistema de votação”. Há na velha tradição brasileira dos coronéis registros memoráveis de manipulação do voto. A antologia do folclore político está repleta dela. Há, contudo, um diferencial entre a urna eletrônica e a urna “analógica” por assim dizer. Tome a primeira delas e submeta-a a inspeção de profissionais. Quantos deles o Sr. encontrará em Salvador em condições de fazer corretamente a referida inspeção? Tem dificuldades em encontrá-los? Tudo bem. Recorramos à UFBA! Melhor, ao CPD. Será que o Sr. encontrará duas dezenas de professores ou de técnicos em informática ou em Ciência da Computação com os predicados do “inspetor” abalizado para tarefa de tamanha envergadura? Se conseguir realizar essa proeza, eu jogo a toalha e concordarei com seus argumentos. Quanto à inspeção da urna de lona ou de papelão, qualquer pessoa, mesmo sem qualquer escolaridade poderá fazê-lo sem nenhuma dificuldade. Isso apenas usando de uma ilustração grotesca… Creio que, por tabelinha, podemos dizer o mesmo em relação aos tais plebiscitos virtuais realizados pela diretoria deposta da APUB, que já deu provas irrefutáveis do seu apego ao osso, com o perdão do termo que talvez julgue pouco acadêmico… Dessa forma, quem conseguirá inspecioná-los? Ou, melhor, quantos?

– Não é por nada, não – me acode o Saci –, mas é melhor não arriscar!…

Sei que o Sr. tem sido extremamente benevolente com a direção destituída. Dirá, talvez, como o filósofo espanhol Ortega y Gasset “Eu sou eu e minha circunstância”. Não tenho o direito de questioná-lo por isso.

É possível que a admire de forma sincera. Talvez não conheça o seu modus operandi, e isso não o faz sua cúmplice, mas se tivesse costume de frequentar as Assembleias, saberia que numa delas, salvo engano, realizada no dia 25 de abril passado, ainda na casinha da Rua Pe. Feijó – num espaço com cerca de 40 cadeiras! -, a Profa. Celi Taffarel inquiriu a ex-presidente sobre uma denúncia que lhe chegou do Recôncavo. Segundo foi informada a mencionada professora, a ex-diretoria da APUB estava “colaborando” com R$ 50,00 por inscrição de associado à entidade. E os “corretores” eram os colegas aposentados. Até hoje a profa. Celi espera um esclarecimento… O prezado Colega teria alguma pista?

Alguém pode argumentar que não há nenhum mal em um colega receber algum pro-labore para ajudar na compra dos remédios… Afinal, a situação dos aposentados vem piorando a cada governo… Tudo bem, mas não me refiro a isso. Refiro-me ao expediente para ganhar a simpatia dos “velhinhos” e convertê-la em “moeda” eleitoral. A fronteira entre a Ética e o seu contrário é muito tênue, concorda?

Talvez o Sr. tenha achado um delírio do Prof. Francisco Santana, quando o mesmo questionou, na Justiça do Trabalho, o plebiscito eivado de vícios realizado pela diretoria da APUB, anterior à direção recentemente deposta, mas geminada a ela no ideário progoverno. Do mesmo modo, talvez tenha achado também despautério dos eminentes juízes o fato de terem acolhido, em duas instâncias, o pleito de anulação do aludido plebiscito…

Apesar de não ser chegado a Assembleias, como tem deixado entender, o Sr. demonstra ter noção de como funciona a democracia sindical, e, talvez, a acolha de bom grado. Assim, não terá dificuldades em entender que ela pressupõe que nenhuma decisão ocorra sem votação; que nenhuma diretoria assuma a direção da entidade sem que seja pela via da eleição – até a escolha da direção pro-tempore deverá ter o aval do coletivo em Plenária, conforme ocorreu recentemente; que nenhuma diretoria poderá deixar de prestar contas do que recebeu e do que gastou e como gastou; que nenhuma diretoria poderá deixar de realizar, periodicamente, Assembleias – ainda que com um número reduzido de participantes; que nenhuma diretoria poderá deixar de cumprir as decisões da categoria manifestadas através de Assembleias. Como, infelizmente, o Sr. não é chegado a Assembleias, não pode dar o seu testemunho de que a ex-presidente destituída, Profa. Silvia Ferreira, ao chegar em Brasília, para engrossar as fileiras do “fórum governista Proifes” rompeu com o princípio último que acabei de aludir. Ou seja, rompeu com um dos princípios básicos de uma democracia sindical ou da Democracia sem adjetivos: a colenda ex-presidente traiu a vontade da Plenária.

Acaso o prezado colega daria crédito ao que escrevo? Se não, eu poderia, pacientemente, reunir todas as provas… Isto é, se julgar que registros videográficos brutos,  sem qualquer edição, podem ter algum valor.

Quanto ao que o Sr. chama de “chacota”, tenho entendimento diferente. Completamente. E talvez seja o ponto que terei mais dificuldade para convencê-lo do contrário. Aliás, essa é uma face conservadora do Colega que não supunha existir, com todas escusas pela franqueza. Embora eu tenha o maior respeito pelas Assembleias, e não veja nada melhor para substituí-la, longe de mim imaginá-las de maneira sacralizada. Pelo contrário, elas são demasiadamente humanas. No embate dos oradores há sempre a malícia, a astúcia, a agilidade mental, a experiência, a articulação a priori, e um conjunto de outros elementos que estão presentes, quer tenhamos consciência ou não. E tudo isso faz parte do jogo democrático. Infelizmente não conseguimos avançar – para melhor! – a invenção da pólis (πολις) grega. A última Assembleia que bateu o martelo pelo fim da greve no dia 13 de setembro é um belo exemplo de tudo isso que mencionei. Apesar de ter lamentado pela saída “antecipada” da greve, tenho que respeitar o que a Plenária aprovou, de forma acertada ou não. Ainda que discordando, radicalmente, de tudo (ou quase tudo!) do que foi colocado pelo Prof. Paulo Fábio, notável cientista político, louvo-o pela coragem que teve em comparecer às Assembleias. Só para ilustrar, ainda que não tendo suas propostas acolhidas pela Plenária, creio que em nenhum momento foi desrespeitado ou se sentiu ameaçado. Ele poderá dizer isso melhor do que eu. Algumas manifestações mais figadais, não passaram do limite do respeito que todo ser humano merece ter. Ainda mais em se tratando de um colega de instituição. Salvo engano, Lênin mencionou algo sobre as Assembleias barulhentas, porém democráticas… Minha memória de quase sessentão cada fez fica mais débil!

Talvez o Sr. tenha como modelo de Assembleia de docentes algo idealizado pelos poetas românticos do século XIX… Sei que isso não o torna um degenerado. Já eu não curto algo assim, e também não me sinto um degenerado por isso!… Ad nauseam reescrevo o poeta Leminski: na luta de classes, valem pedras, paus, poemas… e humor. Por extensão vale o anzol, a “traíra” de papelão, a charge em tamanho avantajado, o enterro simbólico, o deboche, a chacota, o escambau. E, aqui, é preciso que atente para um detalhe muito importante: em nenhum momento o alvo é a pessoa física da ex-presidente da APUB, bem como a pessoa física de seus companheiros de diretoria – mira-se apenas a “pessoa jurídica”, o ente público, o representante que rompe o pacto, que não representa conforme deveria representar…

Para encerrar provisoriamente esse nosso “papo”, prezado Prof. Palacios, há que se conversar, e muito. Não tenho dúvidas de que o diálogo seja o melhor caminho para que cheguemos a soluções inteligentes e justas para todos. Creio que temos muitos pleitos em comum. Talvez a dificuldade maior esteja em concordar com os caminhos a serem seguidos, bem como a forma de caminhar… Quero acreditar que estamos de acordo que a Educação vem sendo cada vez mais sucateada; que precisamos de um plano de carreira adequado; que as condições de trabalho que enfrentamos precisam urgentemente ser melhoradas; que o aposentado merece, após árdua jornada, ser tratado com dignidade e respeito etc, etc.

Quanto às discordância, elas serão eternas, até que o Sol pare de brilhar, mas isso não é necessariamente ruim…

Atenciosamente,

Menandro Ramos
FACED/UFBA

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Prezado Prof. Menandro,

Insisto em que fraudes podem ocorrer em qualquer sistema de votação e não podem ser argumentos para a deslegitimação de qualquer sistema. É tudo é uma questão de monitorar adequadamente o sistema que se adote e adotar o sistema que possibilite a melhor aferição da vontade geral. Pelo menos é o que entendo como princípio básico de uma Democracia. Mas veja que meus argumentos na mensagem anterior não foram respondidos em sua mensagem. Por favor retorne a eles.
Quanto ao clima das assembleias, infelizmente não posso concordar consigo. O que vi, na última da qual participei, foi um clima de absoluta chacota, inclusive com colegas carregando varas de pescar e colocando  cartazes desabonadores por sobre as insígnias oficiais da APUB.
O humor, em uma Lista como esta, é aceitável e pode ser uma forma saudável de trazer questões a público. A chacota, em uma assembleia universitária, absolutamente não. E, por favor, não me responda  dizendo que a chacota começou do outro lado. Responda, se puder,  pelo ocorreu lá e do que fui testemunha. Ou não ocorreu? Ou não foi chacota?
 
Enfim, como sempre, os argumentos não são discutidos. Ao que parece não há muita razão para insistir. O que menos se quer, ao que tudo indica, é uma discussão de posições.
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Saudações
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marcos palacios
FACOM/UFBA

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