645 – Marxismo de galinheiro

Para o Saci, um dos ganhos dessa greve foi desvelar a visão de mundo das lideranças do movimento paredista…

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Prof. Francisco Santana
Aposentado da UFBA

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e uma assembléia fúnebre, salvou-se a aula de marxismo que um jovem professor de engenharia deu despretensiosamente a pretensos marxistas, doutores em economia e filosofia da UFBA.

Com muita humildade, o jovem professor referido, declarou que se sentia confuso, dito com outras palavras, diante daquela assembléia onde tantos citavam Marx e que o que ele via não casava bem com a frase de Marx: “O salário é determinado através da luta hostil entre capitalista e trabalhador”.

De fato o que se observava ali era uma ausência total pelos pretensos “marxistas” da percepção desse enunciado de Marx. Parecia que o salário seria determinado pela troca de amabilidades por ambas as partes, pelo consenso, pela elegância em contrapropor propostas e até reconhecer que foi derrotado por antecipação, para evitar constrangimentos, como nas olimpíadas, ou então por números, cálculos, contingência de recursos, disponibilidade no orçamento, tudo, até milagres, menos o embate hostil entre capital e trabalhador.

A vontade do trabalhador explorado e ludibriado não tinha lugar nos discursos do comando. Seus ódios de indignação e revolta tinham que ser aplastados e exorcizados pelos pregadores sacros do comando local.

Diante daquela missa encomendada, o professor de engenharia só poderia se sentir confuso ao citar a tal frase de Marx.

Não se pode alegar que Marx não previra greves entre funcionários públicos e o estado. Pois hoje, o capitalismo em sua nova fase, o imperialismo (vide Lênin), ele se apropria da mais-valia de todo um país via o estado. Os governantes hoje não são mais do que meros gerentes dos negócios dos banqueiros.

Na época do capitalismo liberal, o capital se apropriava das mais valia na fábrica e a repartia com os banqueiros através de juros. Hoje os banqueiros, ou capital financeiro, paralelamente a essa modalidade de obter juros diretamente do capital produtivo, se apropria de vez de toda a renda da nação, pela via política (ou político-militar), reduzindo ao máximo as despesas do estado com o resto da população. Trava-se, portanto uma luta hostil entre o capital financeiro contra os gastos do estado com pessoal, educação, saúde, saneamento básico etc.

Assim o jovem professor de Engenharia deu uma aula de marxismo, apesar da modéstia e superando Marx e Lênin, atingiu o cerne da questão:

“O salário do professor (servidor em geral) é determinado através da luta hostil entre capital financeiro e o professor (servidor em geral)“.

Mas essa luta é mais ampla, pois o capital financeiro também luta para reduzir todos os gastos sociais possíveis, o que torna a luta do professor por salário parte de uma luta maior do povo em geral contra o grande capital financeiro.Assim todo aquele grande trabalho que eu tive para explicar aos oportunistas na assembléia, partindo do particular para o geral, de que a nossa luta ia ter que ser travada contra a política econômica do governo e que a presidente Dilma não tinha autonomia para negociar, nem ela nem seus ministros autorizados; e que esse embate, contra o pagamento da dívida dos banqueiros, é que nos poderia trazer apoio dentro da população, fica agora bem claro, graças ao jovem professor de Engenharia, cristalino como água Dias D’Ávila. Podemos agora deduzir nossa tese axiomaticamente a partir do lema acima:

“O salário do professor (servidor em geral) é determinado através da luta hostil entre capital financeiro e o professor (servidor em geral)”.

Mas essa luta é mais ampla, pois o capital financeiro também luta para reduzir todos os gastos sociais possíveis, o que torna a luta do professor por salário parte de uma luta hostil maior do povo em geral contra o grande capital financeiro.

Logo, aí está o elo que nos liga à população para juntos dobrar a força do capital financeiro.

Eis o silogismo perfeito, que os doutos marxistas da UFBA não foram capazes de entender.

Mas um jovem e humilde professor de Engenharia foi capaz de formular.

Aí surge o Prof. Luiz Filgueiras e tenta desclassificar o insight brilhante do jovem professor, arrotando arrogantemente falsa erudição marxista e escolhe o velho bordão desgastado do 18 Brumário para tergiversar:

“Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.”

A prova, de falsa erudição, ignorância e puro charlatanismo do douto professor, está em que o douto senhor citou um libelo contra si próprio e demais traidores da greve. Os professores estavam aptos e com vontade de mudar a realidade. Tinham o diagnóstico da situação. E esbarraram em quê?

Que tradição de gerações mortas oprimiu como um pesadelo o cérebro dos vivos? Daqueles que queriam transformar a sua realidade?

A RESPOSTA É: a herança maldita do lulismo e CUTismo. O comando local de greve, com raras e honrosas exceções, e outros marxistas de fancaria representam essa herança. Eles são a geração morta que oprimiu os cérebros dos demais membros da assembléia. Foram eles que impediram que a história fosse escrita de outra forma, a digna.

Não é só o PROIFES, portanto a única arma a serviço do governo. A CUT e o PT produziram vários matizes de gerações de zumbis que rondam as assembléias aterrorizando as mentes fracas para levar à derrota as greves. Muitos se apresentam, com discursos eloqüentes e enganadores, citando Max inclusive, mas não conseguem cortar o cordão umbilical que os prende à CUT e ao PT, visão fantasmagórica de um PT e CUT que não existem mais ou que retiraram as suas máscaras.

O papel portanto do PROIFES é o de contra ponto. Apontando para o PROIFES, os zumbis da CUT se declaram seus oponentes, enganando os incautos. Não somos farinha do mesmo saco do PROIFES, bradam. Sim, estão embalados em sacos diferentes: CUT, PSTU, Corrente Trabalho, Libelú, ex-libelú, PcdoB, PSDB, genéricos de todo o tipo etc. Mas são todos farinha do mesmo Moinho.

O Moinho chama-se PT&CUT S.A. Agora já estatizado tendo o governo a maioria das ações. O PROIFES é o novo tipo de farinha, moderno, da nova geração ligada ao dinheiro, cargos, vantagens, quadrilha de Cachoeira, Dantas, Eike Batista, Dirceu, aos bastidores dos Ministérios e Secretarias, a nova geração do PT. Já as correntes sindicais e políticas tradicionais são a farinha de tipo velho, mofada que o governo usa para saciar os idiotas. São a geração morta que precisa ser enterrada de uma vez por toda para deixar livres dessa opressão ideológica superada, os sindicatos, UNE, DCEs para que estes possam voltar a agir com a energia de antes. São os zumbis, que precisam ser sepultados, pois obstruem o caminho, não deixando avançar a luta.

Essa duplicidade de produtos fabricados pelo Moinho PT&CUT S.A., leva a essa confusão. A categoria fica dividida entre duas falsas opções que são duas faces da mesma moeda. Qual a solução? Destruir o Moinho. Mas para isso tem que limpar o caminho dos cadávares dos zumbis.

Portanto todos aqueles que se alinharam ao lado do Prof. Luis Filgueiras, tiveram suas mentes embotadas por essa tradição de gerações mortas, viraram zumbis. Só não ficou bem claro a que tipo de farinha pertence Luis Filgueiras. Se da velha, tipo zumbí,  ou da nova, tipo PROIFES. Se ele tem ambições futuras nesse governo do PT ou apenas é um defensor de um passado.

Não se iludam, pois o Moinho do PT tem a capacidade de transformar rapidamente a farinha do tipo velho na do tipo novo.

Resumindo, o Prof. Luis Filgueiras cometeu uma blasfêmia e uma burrice. Blasfêmia por usar um texto de Marx para justificar a capitulação dos trabalhadores diante da luta. De maneira nenhuma aquele texto do 18 Brumário justifica ordenar aos trabalhadores que desistam de lutar pois por dogma o trabalhador não pode obter o que quer. Isso é uma blasfêmia, um sacrilégio. Burrice porque o texto do 18 Brumário, volta-se contra o próprio Dr. Luis Filgueiras e seus parceiros anti-greve, camuflados e disfarçados, permitindo identificar e etiquetar os traidores: “Os zumbis do PT e da CUT”.

Encerraria aqui se o professor Zacharias não tivesse dado a sua nota triste também. Ao elogiar Luis Filgueiras pela sua falsa erudição, eu protestei e afirmei que quem estava correto era o jovem professor de engenharia e não o Dr. Luis Filgueiras. Aí o professor Zacharias começou a declamar pausadamente o mesmo trecho citado por Filgueiras , como se as citações de Marx fossem por si só suficientes para justificar qualquer coisa, tenham ou não relação com a situação concreta em questão.

Era se como as citações de Marx funcionassem como orações místicas como a Oração Da Espada De Chama Azul Do Arcanjo Miguel ou a Prece Poderosa De Socorro No Dia Da Angústia.

Feita a oração, Marx no céu abençoa Zacharias e Filgueiras e os salva de vexames na assembléia. Mas trata-se de uma assembléia de professores, mestres e doutores, que apesar do respeito que têm pelos doutores em questão, sabem raciocinar minimamente. Será que essa é uma postura correta de um marxista?

Por muito menos, Marx teria dito: Se isso é marxismo eu não sou marxista”.

Ou Engels: “De um modo geral, a palavra ‘materialismo’ (poderia ser marxismo) serve para muitos escritores novatos na Alemanha de simples frase com a qual se etiqueta toda espécie de coisas sem estudá-las antecipadamente, pensando que basta colar essa etiqueta para que tudo seja dito.”

Lembrando ainda Marx: “Até hoje os filósofos interpretaram o mundo; cabe a nós transformá-lo”. E aos marxistas da UFBA, cabe o que?

Decorar frases de Marx.

Para não se dizer que estou caindo no mesmo erro deles, citando Marx, vou citar preferencialmente Leonel Brizola, quando ele se refere a esse tipo de mentalidades livrescas (isso na melhor das hipóteses). Ele declarava: “eu li pouco mas li bem.” Sobre FHC, um ilustre intelectual que passou muito tempo por marxista ensinando inclusive economia, Brizola disse dele: “Sim ele é um grande intelectual, é capaz de decorar uma enciclopédia em poucos dias, mas não adianta nada porque ele é burro.” Em uma entrevista com Boris Casoy, ele foi mas ameno: “Sim ele é um grande intelectual, é capaz de decorar uma enciclopédia em poucos dias, em mais de uma língua, mas em detrimento do raciocínio.”

CONCLUSÃO – Do funeral da greve, salvou-se um grande ganho. As forças do atraso não conseguiram impedir que se fizesse uma análise límpida e clara do que foi esse momento histórico. E como tudo indica que essa crise ainda vai continuar, já temos pronto o instrumental para enfrentar os próximos embates.

Graças ao insight do jovem professor de engenharia pudemos abstrair a essência do fenômeno:

“O salário do professor (servidor em geral) é determinado através da luta hostil entre capital financeiro e o professor (servidor em geral)“.

Mas essa luta é mais ampla, pois o capital financeiro também luta para reduzir todos os gastos sociais possíveis, o que torna a luta do professor por salário parte de uma luta hostil maior do povo em geral contra o grande capital financeiro.

A partir dessas duas premissas concluímos:

Logo, aí está o elo que nos liga à população para juntos dobrar a força do capital financeiro.

E aí evidentemente conseguirmos nossos objetivos.

Quanto à tradição de todas as gerações mortas que oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”, já estamos de olho aberto contra elas. Caiu a máscara dos zumbis do PT e da CUT. Não jogarão tão solto como jogaram agora.

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2 Respostas to “645 – Marxismo de galinheiro”

  1. Menandro Ramos Says:

    Bobo é quem pensa que Karl Marx “já era”. Volta e meia o fantasma do barbudo surge para causar polêmicas. E volta e meia o movimento do real nos desafia a separar o estrutural do conjuntural e vice-versa…

    Dessa vez veio como rescaldo da Assembleia dos Professores da UFBA. Tensas as posições entre encerrar ou continuar a greve, sem querer, o Prof. Antônio Jr. foi fumar perto de um estopim, untado de pólvora. AH! Pra que! De repente, segundo o meu amigo de gorro vermelho e pito, toda a Federação ouviu o monumental BUUUUUUUUUUUUUUUMMM! saído das entranhas do Auditório de Arquitetura/UFBA.

    Acho o Prof. Francisco Santana uma das mentes mais extraordinárias da UFBA, se não for a maior da atualidade… Só não concordo que coloque no mesmo saco ou no mesmo moinho alguns partidos políticos “nanicos”, como dizem por aí, que fazem oposição de fato a esse governo neoliberal camuflado.

    Sempre que posso, lamento o fato de alguns colegas lúcidos, que ainda estão no PT e defendem a CUT como suporte lulista, se recusarem a exercer o pensameto crítico neles adormecido.

    Concordo com o meu amigo Saci quando diz que “marxismo e lulismo não combinam, mas os equívocos de membros de partidos que dizem professar o marxismo não afetam necessariamente partidos que rigorosamente acolhem o pensamento do barbudo”…

    Talvez as exceções devam ser ressalvadas!

  2. Rogério Costa Says:

    Numa luta a rendição é um último recurso, serve apenas para evitar perdas maiores.

    E o que há mais para ser perdido se tudo que importa já nos foi tirado?

    A educação no Brasil não está sendo apenas privatizada, está sendo extinta, corroída no seu cerne. Talvez essa greve represente um dos últmos suspiros de uma entidade fundamental para uma sociedade sadia.

    O que resta aos nosso professores agora tão desprestigiados? Salário? Plano de saúde? Aposentadoria? A ilusão de uma estabilidade que pode ser tirada num único golpe de caneta?

    Rogo aos professores que continuem sendo HOSTIS, pois com a rendição vem a privatização, seguida da extinção e em breve, muito mais breve do que se imagina, não haverá mais nenhum motivo para lutar.

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