707 – A APUB e o Opositômetro

OPOSITOMETRO

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Para onde vai a Oposição Sindical da UFBA

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

O (4).

meu amigo Saci tem quebrado a cabeça para desenvolver um aparelhinho que consiga detectar e distinguir – com precisão -, a oposição autêntica à APUB proificista. Para ele, a chamada Oposição de Araque (ODA) é um desastre para o movimento sindical, uma vez que, como autêntico fogo amigo, dificulta as ações do segmento genuíno da oposição. Segundo foi apurado por ele, a ODA está sempre  fazendo o discurso da conciliação, da flexibilização, e costuma adjetivar a Oposição Autêntica (OA) de “fundamentalista”. Já a Turma da Boquinha (TB), dispensa maiores comentários.

Deboche do meu amigo de gorro vermelho e pito à parte, a Oposição Sindical APUB tem avançado inegavelmente, mas algumas questões precisam ser urgentemente resolvidas, sob pena de o movimento não ter a força capaz para os enfrentamentos que estão na pauta de luta dos docentes. A carreira docente é um deles. O outro enfrentamento sério diz respeito à questão da precarização do trabalho. Mais um outro, remete à questão da autonomia da Universidade, o tempo todo assediada pelas forças neoliberais de plantão. E por aí vai, para citar apenas algumas dessas pinimbas que a categoria docente vem batendo de frente. A magnitude dos problemas exige um dispêndio descomunal de energia. E isso só pode ser feito coletivamente. De norte a sul, de leste a oeste. A pergunta que se faz é: quem poderá catalizar essas ações coletivas? Pode-se acrescentar, ainda: alguém – ou uma entidade -, que tenha algum vínculo com o partido do governo, e coligados, por menor que seja, terá condição de fazê-lo com isenção e garra?

No meio docente, há os que entendem que houve no Brasil distribuição de renda, sim, na última década; que a Reforma Agrária está caminhando como é possível; que a Ação Penal 470 (ou Mensalão, como querem outros) não passou de uma armação tucana et caterva; que a Educação tem avançado, e que o Reuni, a Uninova e o Prouni são a prova disso; que a Saúde vai muito bem obrigado (um hospital do subúrbio baiano acaba de ser premiado pelo Banco Mundial!); que a Segurança Pública está sob controle e a violência em níveis toleráveis; que o PAC está colocando a economia brasileira nos eixos; que os megaeventos esportivos contribuirão para aquecer essa economia; que o lucro exorbitante dos banqueiros foi uma tática para a governabilidade do país; que o leilão de cargos entre partidos coligados foi, ou tem sido, alarmismo da mídia golpista ou do PIG… E muitas outras tantas “positividades” podem ser acrescentadas no rol das realizações do governo petista. Mas há, também, os docente que pensam exatamente o contrário, e que apresentam excelentes argumentos para sustentar suas teses de que o atual governo foi um fiasco – tão perverso quanto o dos tucanos! -, e que, seguramente, traiu os trabalhadores que o colocaram no topo do poder.

Segundo o juízo do escrachado Saci, tudo leva a crer que muitas das competências docentes que a UFBA abriga  só olham para o próprio umbigo, para o Lattes e para a produtividade da coordenação de milionários projetos que dispensam a preocupação com as merrecas do contracheque. Exagero do meu escrachado amigo colocado de lado, não se pode dizer que o envolvimento dos professores com as questões ligadas ao sindicato seja de grande monta. As Assembleias esvaziadas da categoria comprovam isso. Exceção feita aos dias festivos de caruru e quadrilhas juninas, a grande movimentação na sede da APUB está ligada ao Plano de Saúde. Se não fosse por ele, para a marcação e autorização de exames, certamente os docentes não pisariam lá no minúsculo espaço onde, ocasionalmente, ocorrem as “concorridas” Assembleias da categoria… Isso é o que o moleque traquinas diz!… Mas o que é hiperbolismo sacizesco e o que é fato facilmente verificável?

Creio que não seria leviano afirmar que o grupo que vem mandando e desmandando na última década na APUB tem sido mantido na direção da entidade por absoluta inércia. Poucas vozes contestam a política assistencialista e  a tendência governista que os últimos diretores praticaram. Inclusive há os que mal deixaram a presidência da APUB e já foram ocupar cargos na reitoria, por mais estranhamento e perplexidade que o gesto possa conotar… Há mais de uma década que não encontram uma oposição organizada a ponto de desbancá-los. Insisto: não creio que tenha sido a expertise de cientistas políticos da APUB proificista que permitiu a continuidade do grupo governista, mas apenas o imobilismo de quem podia ou deveria fazer oposição qualificada. Não cabe, aqui, a explicação para esse imobilismo, mas que ele ocorreu, ocorreu. Ninguém pode negá-lo honestamente. Tanto assim é que, no ano passado, com um mínimo de organização e disposição para o enfrentamento à APUB proificista, houve uma greve de mais de cem dias – salvo erro, a maior da história da UFBA! -, contrariando a orientação dada pela direção da entidade, e, mais, houve até a destituição, em Assembleia, da sua presidente, a Profa. Silvia Ferreira. Daí para frente, ocorreu um afrouxamento da oposição, segundo leitura que faço. Ainda assim, por uma margem mínima de votos, por muito pouco não se desbancou o grupo governista incrustado na entidade.

Terminada a greve e encerrada a apuração dos votos, tudo voltou à velha pasmaceira. Para dificultar ainda mais as coisas, vieram o recesso acadêmico e o semestre atípico. Alguns poucos da Oposição Sindical APUB continuaram a se reunir, mas com consideráveis divergências internas, segundo me foi passado. Por motivos pessoais, só tenho contemplado a paisagem de longe…

Enquanto isso, a diretoria eleita tratou de fazer o “marketing da bondade”, apresentando-se como “disposta a dialogar” e com performance bem diferente da truculenta diretoria anterior. Pelo menos, foi o que sentiram alguns participantes da Assembleia do dia 27 de abril, conforme relato que li. Ou seja, não houve muita dificuldade dessa Oposição aprovar, em Assembleia, pontos que em diretorias proificistas anteriores certamente seriam barrados, como a aprovação da Moção de repúdio ao Proifes por criminalizar o Prof. Ricardo Antunes, da Unicamp, e por extensão, também algumas ações políticas dos militantes de oposição. A Mesa engoliu tudo quase calada. Da mesma forma, foi muito importante a aprovação de delegação da APUB para participar das manifestações do dia 24, articuladas pelo ANDES-SN e outros organismos combativos. É bom lembrar a presença do vice-presidente da APUB na Mesa da referida Assembleia, ele que era desconhecido no âmbito universitário, mas com grande envolvimento na política partidária, e, segunda se fala por aí, petista roxo de carteirinha… Inegavelmente, essas pequenas – mas significativas vitórias -, devem ser creditadas à articulação da Oposição.  Articulação essa, entretanto, que não impediu importantes perdas na votação de pontos fundamentais, uma vez que membros da Oposição acabaram se alinhando às descabidas proposições da Mesa. Creio que esses “alinhamentos” do fogo amigo não deverão passar batidos na reunião de avaliação que a Oposição fará. No mínimo, eles são intrigantes…. No mínimo!

Ainda que avanços sejam notados nas posições conquistadas pela Oposição Sindical, tem-se um grande desafio pela frente que é o de equilibrar o desejo de alguns membros importantes (no sentido de serem razoavelmente “bem falantes” e experientes na militância sindical) da Oposição em servir seus partidos, e a necessidade de criar mecanismo de defesa do trabalhador, sob permanente ameaça do catecismo neoliberal do governo. Aliás, governo esse por quem alguns membro da Oposição quebram lanças. E como quebram!…

Um sem-número de questões afloram: É possível construir um quadro de Oposição Autêntica tendo na sua base partidários do governo? Pode ser tolerada, nas Mesas de negociação com o  governo, a presença do Proifes, além do ANDES-SN? Que limites devem ser impostos aos petistas e coligados enquanto membros da oposição, no que diz respeito às participações em eventos sindicais  como delegados? Falarão e votarão por si próprios e por seus partidos ou respeitarão as decisões da base?

Creio que as respostas precisas a essas importantes indagações definirão os rumos que o movimento sindical da UFBA tomará na próxima década: se continuará claudicante e conduzido por vertentes pelegas, ou se encontrará sua verdadeira identidade de luta, incondicionalmente em favor da categoria docente e em fina sintonia com as bandeiras dos demais trabalhadores brasileiros e internacionais.

***

Assista ao vídeo preparado pelo meu amigo Saci-Pererê da UFBA sobre o aparelhinho que ele concebeu plasticamente, e denominou de “Opositômetro“:


De acordo com as reflexões e conjuminâncias sacizescas, tem gente da “oposição” cantando alegremente Zeca Pagodinho e agradecendo a Deus pela “boquinha” recebida…

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Uma resposta to “707 – A APUB e o Opositômetro”

  1. altino Says:

    MENA!
    importantíssima tua formulação separando joio do trigo, definindo tipologias e alertando para os problemas internos a serem superados com vistas à luta contra pelegos e governos. Sensato que a oposição analisasse questões como as que coloca.
    Por fim: excelente a criação! Que tal colocar um MURAL junto da Apub ou da reitoria?
    abraços,
    altino

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