709 – Odebrexi Universidade Federal da Bahia

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Universidade-PPP

Na furiosa onda neoliberal  da parceria público-privada (PPP), o Saci teme que não sobre boa coisa, no futuro, para as IFES após as engenhosas formas de sedução diligentemente aplicadas pelos agentes do empreendedorismo acadêmico… (clique na arte para visualizá-la melhor).

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

p.

areceu-me premonitória a tirada filosófica do meu amigo de gorro vermelho e pito: “Uma coisa puxa a outra como uma locomotiva puxa os vagões”. E foi mesmo o que aconteceu. Eu e um amigo conversávamos, no estacionamento da FACED, acerca do atentado de Boston e a compulsão da Globo por noticiar tragédias. Ele falava, irritado, sobre o quanto ainda somos colonizados e sobre a esdrúxula interrupção da novela global que assistia, para entrar em primeira mão as bravatas da polícia americana na caçada humana dos supostos responsáveis pelas explosões das bombas durante a competição esportiva estadunidense.

Quando pensamos que não, já falávamos da maratona que a Globo patrocinou para emagrecer Ronaldinho e da expertise da emissora para faturar umas boas merrecas com as empresas que pagavam pela promoção do ex-craque, agora alçado a comentarista esportivo da mesma emissora.

Em segundos, passamos a falar sobre a mudança do nome da Fonte Nova, ou melhor, do acréscimo do nome do parceiro do governo que bancou a reconstrução do “quase ex-bem público”… Fomos unânimes em reconhecer as jogadas astuciosas dos estrategistas neoliberais para destruir a coisa pública em doses homeopáticas.

cerveja-nova

Queira Deus, roga o Saci, que no final da parceiria, não sobre apenas a privada pouco cheirosa…

N.

isso o amigo interlocutor já foi me perguntando sobre o livro do Saci que eu havia anunciado meses atrás. Expliquei-lhe que estava ajuntando uns trocados para pagar a impressão do material, pois seria uma produção independente. Foi aí que ele se mostrou espantado:

– Peraínda, Cara! Você tá marcando bobeira! Como professor da UFBA, você tem a EDUFBA! Lá os Caras são “categoria”! O acabamento é de primeira! Você só vai gastar dinheiro se quiser! Afinal, o que o Saci faz é Arte pura, Filosofia, Ciência, Política, Reflexão Crítica… A produtividade do seu amigo peralta é altíssima! Uma pena ele não ter Plataforma Lattes!…

Já meio envergonhado, tratei de interrompê-lo:

– O que o pestinha do Saci faz, meu amigo, é pura pilantragem! Eu que o diga, pois como sal com ele praticamente todos os dias! Você não sabe como sofro na mão desse patife debochado… Não queira ter um brother desse quilate!…

Ele me interrompeu esbaforido:

– Cara! Pelamordedeus! Você descola fácil, fácil, uma boa grana com a Fapesb, com a Petrobras, ou mesmo com essas grandes construtoras baianas que patrocinam aqueles livrões de arte, em policromia, papel couchê, capa dura, letras douradas…

Por felicidade, a chuva interrompeu a nossa conversa. Corri para o meu carro, e o amigo correu para o dele. Antes de dar a partida, ainda pude ver o Saci trepado no pé de jambo sob o qual o veículo se encontrava. O moleque bisbilhoteiro ouvira toda a nossa conversa.

Dei com os ombros. Uma conversa a mais ou a menos que o patife ouvia, não fazia muita diferença, pois volta e meia ele estava me espreitando.

Ao ligar o limpador do pára-brisa, notei que havia um papel preso numa das paletas de silicone. Imaginei ser arte de Cajá, o mais antigo lavador de carro da FACED e meu amigo de longa data. De quando em vez, ele afixava um recorte de jornal ou revista sobre tecnologia no vidro dianteiro do meu carro. Para ele, eu não fazia nada na vida a não ser devorar livros da área tecnológica. Não era raro ele chegar com uma revista de informática do início da década de 1980 para me ofertar, perguntando se aquilo me servia. Às vezes, o sorriso estampado no seu rosto era tão envolvente e tão puro,  que eu acabava aceitando a “peça de museu” para não desapontá-lo.

Notei, pois, algo diferente no pára-brisa. Desliguei o veículo. Desci e recolhi o papel molhado pela chuva sobre o retrovisor. Percebi que era algo impresso em jato de tinta, pois a humidade borrara um pouco as letras. Com cuidado para o papel não se desintegrar, abri-o já no interior do carro. Ainda foi possível ler o seu conteúdo. A indicação na parte inferior do papel ofício dava a pista de que o material fora tirado de uma página da internet. Em outras palavras, dizia que fora feita uma enquete por um jornal baiano on-line, e que vinte e tantos por cento dos votantes não concordavam com a adição da marca da cervejaria “Itaipava” ao nome da Arena Fonte Nova. Que aquilo era um “agressão à história”. Outros vinte e poucos por cento consideravam a estratégia de marketing positiva, se os investimentos fossem revertidos em melhoria para o esporte baiano; enquanto vinte e poucos por cento admitiam o acréscimo do nome comercial à Fonte Nova, “numa boa”, desde que o preço dos ingressos caíssem e os serviços prestados fossem de qualidade.

Ao terminar a leitura, tive a convicção de que aquele impresso não fora colocado por Cajá. Provavelmente, era uma provocação de algum colega, ou mesmo leitor do Blog do Saci-Pererê. Quem fez aquilo, sabia que o expediente da pesquisa me afetaria até a medula. A gaiva era tão astuta, tão ladina, que a população já aceitava a privatização como algo inevitável. Se era a democracia que deveria dar as cartas, a cabeça da moçada já havia sido doutrinada para o imediatismo do aqui e agora. As migalhas que soavam como benefícios decidiriam pelo futuro do país e do seu povo. Adeus res publica!

Suspirei fundo. Olhei melancólico para as gotas de água escorrendo no pára-brisa. O reflexo das luzes vermelhas das lanternas traseiras dos automóveis que passavam na pista externa, faziam-nas parecer lágrimas de sangue. Por quanto tempo ali fiquei? Sabe Deus!

Finalmente, dei a partida no carro. Até chegar em casa, amargurei-me em pensar que talvez em uma década não restasse mais nada do que a UFBA que fora antes. A cada dia, a inventividade da onda neoliberal bolava um novo aparato de sedução das massas. Mais do que nunca, as correntes que aprisionavam os trabalhadores estavam sendo beijadas com sofreguidão… Lembrei-me das palavras do filósofo alemão Marcuse.

***

Quando cheguei em casa, as duas artes do Saci, acima, já me esperavam na área do desktop do meu computador.

Uma resposta to “709 – Odebrexi Universidade Federal da Bahia”

  1. Francisco Santana Says:

    No último debate das eleições de 2002, coube a um estudante devidamente selecionada para fazer justamente a última pergunta a Lula. A pergunta era: Deve-se cobrar anuidade nas universidades públicas? Lula respondeu claramente que era a favora de cobrar. O PT sempre foi um partido liberal. Já muito antes, diversos líderes sindicais afirmavam sobre os CIEPS: Os trabalhadores não precisam de CIEPS, precisam de ganhar maiores salários para botar seus filhos na escola que quiser; a posição de Milton Friedman.

    É fácil disfarçar seu liberalismo com o anarquismo, radicalismo contra o ESTADO. Como Lenin dizia: o anarquista é um liberal invertido. E as eswqwuerdas brasileiras nunca foram marxistas e sim anarquistas.

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