763 – Carnoy: Chega de universidade gratuita!

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Carnoy

O Saci teme que não seja tão bom para os brasileiros, o que é excelente para Tio Sam…

.Menandro Ramos
Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

E (3).

stava eu a refletir sobre a fugacidade da vida humana, quando o Saci entrou. Inicialmente, ignorei-o. Continuei tentando costurar os retalhos das lembranças que insistiam em me visitar e me remeter à tão falada condição humana. Não tive como não pensar na minha condição de decano da Faculdade onde eu trabalho por mais de três décadas. Agora, sou convocado a representar a referida instituição quando os dirigentes se afastam em viagens para congresso e outros eventos acadêmicos. Sou um dos velhinhos da unidade. Durante muito tempo, nos cursos que frequentei na minha juventude, era sempre o “mascote” da turma, o “mais novinho”, o “pirralho”, o “café com leite”. Agora, a balança do tempo invertera o prato. Atualmente, a minha idade pesa sempre mais do que a dos outros. A sensação que às vezes me assalta é a de que já estou com um pé na eternidade, ou melhor, nos umbrais do Reino do Esquecimento. A vida é um treco muito estranho. Estranhíssimo até. Difícil é saber se o bom mesmo é morrer na flor da idade ou, se longevo, enfrentando o tremor nas mãos, a incontinência urinária, as dores lancinantes nas juntas – ocasionadas pelo reumatismo -, a incontrolável baba senil… Perseguem-me, das leituras da juventude, as lembranças da “Cerimônia do Adeus”, de Simone de Beauvoir, sobre o outrora lúcido autor de “A Náusea”.

De repente, não mais que de repente, tive os meus pensamentos enxotados despudoradamente pelo pilantra do Saci, fino larápio das reminiscências alheias.

Pelamordedeus, chefia! Só faltava essa! A FACED botando tapete vermelho para o colonizador!

Tive o ímpeto de reprimir severamente o pilantra, mas, ao mesmo tempo, fiquei curioso para saber quem era o tal colonizador que merecia a tal mesura anunciada.

– Tô por fora, Saci. Quem é que está vindo para a FACED?

– Você ainda não sabe? Como não sabe?

– Ora! Ora! Não sabendo!… Mas desembucha logo, ô pilantra! Quem é que está vindo para a FACED?

Depois de muita presepada do patife de gorro vermelho e pito, fiquei sabendo que o professor estadunidense Martin Carnoy estaria chegando na FACED, para discutir a possibilidade de intercambiar estudos e de pesquisas na Universidade de Stanford, onde ele leciona.

Não pude deixar de dar uma boa e sonora gargalhada.

– Pelo amor de Deus digo eu, Saci! Que ideia mais boba é essa de rotular o ilustre intelectual americano como “colonizador”! Só a desculpa de ignorar o que já escreveu o Prof. Martin Carnoy, é que lhe dá o direito de julgá-lo dessa maneira! Confessa sua ignorância, ô broquinho?

– Ah! É mesmo, seu sabe-tudo? Pois aí é que está o perigo. Magister dixit! Não é preciso mais que se fale nada, pois o  Mestre já nos poupou o trabalho de pensar. Que usemos, então, a nossa energia, os nossos ombros e os nossos braços para carregar os pianos dos nossos senhores gringos. Até porque, eles são instrumentos nobres e de grande sonoridade! É cada uma! Me poupe, chefia! O diabo é que eu sempre me esqueço que você também é da corriola!…

Considerei aquilo que ele dissera um desrespeito inominável. Imagine! Considerar-me da “corriola”! Que corriola? Talvez o culpado tenha sido eu mesmo, por dar confiança a esse moleque desabusado. De pronto, me veio a música do conterrâneo da colega  Profa. Inês Marques: “De hoje em diante, eu vou modificar o meu modo de vida”. Eu precisava me impor perante o Saci. Ah! Se precisava!

– Ô abusado! – explodi – Eu exijo respeito com a minha pessoa!

Num gesto ríspido, meti o pé no estabilizador, desligando, assim, o meu desktop. A raiva que tive do pestinha naquele momento me fez mais rude do que normalmente sou.

Três ou quatro horas mais tarde, eu já estava bem tranquilo. Cuidar daquelas poucas plantinhas que cuido me faz recobrar a serenidade. Da mesma forma que a minha avó Iaiá fazia, vou regando e conversando com os silenciosos vegetais. Pergunto pela saúde deles, pela luz do sol que têm recebido e outras coisas que só as plantas apreciam. Coincidência ou não, parece que o carinho que as damos é devolvido em dobro, em forma de energia boa. Ah! essas coisas das dobras imponderáveis do real, que para alguns soam como maluquices! Ah! se eu conseguisse compreender bem uma única coisa do mundo! Ah! Se eu conseguisse!

Já mais calmo, resolvi enfrentar a sala e quem nela podia estar. Lá se encontrava o Saci, todo meditabundo, na sua cadeira preferida de três pernas, “a balouçar-se melancolicamente meditativo”, como costumam dizer os poetas. Contive o impulso de abraçá-lo, ao fitar os seus olhos piedosos e quase súplices pela reconciliação. Limitei-me a pedir-lhe licença ao recolher o cortador de unhas que ele havia usado e deixado fora do lugar. Gentil, ele me agradeceu:

– Valeu, chefia! Eu já ia botar lá na gaveta.

– Tudo bem, Saci. Eu mesmo guardo… – foi a única coisa que consegui balbuciar de razoável para aquele momento delicado.

– Sabe, chefia, às vezes sou rude com você, falo as coisas sem pensar… Talvez seja por conta do estresse…

– Deixe pra lá, Saci! Também sou rude com você…

– Não, eu é que devia maneirar mais com as palavras…

Não sei por quanto tempo ficamos naquela “rasgação” de seda, mas o fato é que conseguimos  nos entender e até conversamos civilizadamente.  Foi aí que ele sacou do bolso do seu calção um papel amarrotado, e começou a lê-lo em voz alta. Era um texto atribuído ao insigne teórico estadunidense Martin Carnoy:

“Chega de universidade gratuita

Se quiser mesmo se firmar como uma potência no cenário mundial, o Brasil precisa investir mais na universidade. É verdade que os custos para manter um estudante brasileiro numa  faculdade pública já figuram entre os mais altos do planeta. Por isso, é necessário  encarar uma questão espinhosa: a cobrança de mensalidades de quem pode pagar por elas,  como funciona em tantos países de bom ensino superior. Sempre me pergunto por que a  esquerda brasileira quer subsidiar os mais ricos na universidade. É um contrassenso. Olhe  o que aconteceria caso os estudantes de renda mais alta pagassem algo como 1 000 dólares  por ano às instituições públicas em que estudam. Logo de saída, o orçamento delas  aumentaria na casa dos 15%. Com esse dinheiro, daria para atrair professores do mais alto  nível. Quem sabe até um prêmio Nobel. O Brasil precisa, afinal, começar a se nivelar por  cima”.

Eu nem havia ainda organizado as ideias do que ouvira e ele já pedia para que eu me pronunciasse sobre a fala do teórico. Diante da minha dificuldade em abrir a boca para comentar algo de tanta responsabilidade, ele não se fez de rogado. Assumiu o bastão da reflexão – se é que essa metáfora faz algum sentido aqui.

– Veja bem, chefia! Longe de mim duvidar desse ilibado lente, desse luminar da não menos colenda Universidade de Stanford! Longe de mim! Até porque, além de Educação, ele leciona também Economia. E, como economista, ele deve saber o que está falando… Os economistas, diferentes dos educadores, sempre têm razão. Veja, aqui mesmo no Brasil, se o MEC apita em alguma coisa… Apita? O ministro da Educação faz alguma coisa sem antes pedir a bênção do MPOG? Faz? O problema é que o país que abriga a Universidade de Stanford, que abriga o MIT, que abriga Harvard, também abriga os grandes conglomerados financeiros, os megacartéis disfarçados, as grandes indústrias bélicas… E tudo indica que esses luminares, enquanto intelectuais e teóricos, são impotentes para deter a voracidade dessas imposturas capitalistas. Não podem ou não querem! Repare bem: Quem de outro planeta acreditaria se eu contasse que o país com as mais qualificadas universidade do mundo poderia eleger dirigentes com o perfil de Reagan, de George W. Bush – só para citar dois deles… Quem acreditaria?

Eu não queria concordar com tudo o que o Saci dizia – até para haver um diálogo, de fato, entre nós -, mas era impossível discordar dele naquele momento. Não me animei em contraditá-lo.

– E depois, chefia, quem me garante que a quebra do princípio da universidade pública e gratuita não é um astucioso ardil do capital financeiro para ir ocupando os espaços sucumbidos da res publica? Os legatários da liberalidade econômica, esses “enxugadores de Estados”, já aprenderam que o uso da  força é o último argumento a ser utilizado. Sai muito mais barato para eles, por incrível que pareça. Antes de empregá-la, eles têm a seu favor o mercado editorial  que repete ad nauseam a boa nova da economia globalizada, têm os filmes da indústria de Hollywood, têm a mídia hegemônica no ciberespaço, têm os programas de TV, têm as leis burguesas, e têm, além do mais, os competentes evangelizadores travestidos de “professores preparados”… Sem contar que alguns deles nem se dão conta disso, inocentes úteis que são!…

Eu ainda tentei falar umas coisinhas enquanto ele fazia uma pausa, mas o pilantrinha logo recuperou a palavra.

– E aí, chefia, o que vamos assistir no Auditório da FACED? Oh! Céus! Oh! Sereias! Oh! Cânticos maviosos! Já antevejo os olhinhos dos presentes deslumbrados com a possibilidade de intercambiar Educação com os States… Intercambiar? Eu disse intercambiar? Ah! que tonto que sou!

Na raça, tomei a palavra. Recusei-me a ser apenas plateia para o monólogo sacizesco.

– Intercâmbio, sim! Qual é o problema? Então, você acha que não temos nada a ensinar aos gringos?

– Ah! chefia, como você é bobinho! O problema é que eles só querem “ensinar”…

Diante do meu gesto de discordância, ele me contou, pela centésima vez, a história do tratado que os governadores americanos de Virgínia e de Maryland  assinaram com os Índios das Seis Nações. Como eu começara a me impacientar, pois conhecia de cor e salteada aquela história que aprendera com o Prof. Brandão, ele resolveu abreviar sua fala.

– Do fundo do coração, chefia, só espero que no retorno ao Brasil, os bravos pesquisadores que forem pros States, não retornem guerreiros imprestáveis…

Depois daquilo que ouvira do meu radical amigo, concluí que, se eu quisesse beber da sabedoria que o prestigiado pesquisador estadunidense tinha para partilhar com a comunidade da FACED, eu precisava manter essa minha decisão no mais absoluto sigilo. Ou o pestinha não me daria trégua pelos próximos seis meses.

———————————

Caso se interesse, a conhecida “Carta das Seis Nações” pode ser lida AQUI.

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5 Respostas to “763 – Carnoy: Chega de universidade gratuita!”

  1. Zemaria Porto Says:

    Que discurso mais besta esse do gringo: “Se quiser mesmo se firmar como uma potência no cenário mundial”. O que significa ser “potência mundial”? Parece que é a velha mania do oprimido querer imitar as ações do opressor!!! Me recuso a ser plateia do colonizador!

  2. Francisco Santana Says:

    Refrescando a memória..

    No último debate de Sera com Lula na campanha de 2002, foi designado para fazer a ùltima pergunta a Lula, justamente um estudante de uma comitiva de estudantes de uma Universidade privada. A pergunta foi:

    Você é a favor ou contra se cobrar anuidade nas universidades públicas?

    Lula rspondeu que era a favor de se cobrar, justamente com o argumento de que a maioria dos estudantes eram das classes mais ricas.

    E quem votou nele depois disso? Eu, não.

  3. Francisco Santana Says:

    Em 1967, o gande cientista brasileiro Leite Lopes, fez uma palestra sobre universidade e pesquisa na Escola Politécnica da UFBA. Entre outras coisas, ele falou que mais de 70% das verbas para pesquisa nas Universidades americanas vinham do governo.

    Parece-me que o sistema na realidade era vindo de verbas para a corrida armamentista e para a segurança nacional. As verbas eram votadas no congresso paras projetos do complexo industrial militar e da CIA que eram repassados para as Universidades a parte de pesquisas especializadas.

    Levando-se em conta que outra parte do orçamento das UNiversidades vêm de pesquisas encomendadas por grandees corporações americanas e de doações de empresas cujas família estudaram nessas universidades, que percentual do orçamento corresponde à receita proveniente das mensalidades cobradas?

    E tem o aspecto moral e ético. Essas verbas são conseguidas através de lobbys nada honetos. Os caças F-111s que caíram no Vietnã por problemas técnicos foram fabricados pela General Dynamics que ganhou a licitação do projeto TFX da Boeing. Todos esperavam que a Boeing ganharia pois seu projeto era melhor e mais barato e inclusive 4 conselhos de avaliação das forças armadas eram favoráveis à Boeing. Mas um ex-agente do FBI que trabalhava para a General Dynamics colocou escutas no apartamento de Judith Campbell, uma das amantes de JFK e com o resultado dessas escutas chantageou o governo JFK, ou JFK diretamente ou o seu secretário de defesa McNamara e ele entregou o projeto à General Dynamics.

    Como se vê esse modelo não funcionaria no Brasil. O Brasil não tem um grande orçamento militar e muito menos é o líder de armamentos de ponta ou de pesquisa de ponta. Não tem grandes corporações capazes de financiar universidades, salvo a PETROBRÁS. E não tem alunos suficientes para pagar altas mensalidades.

    Além de ser uma visão política pervertida, está completamente fora da realidade brasileira.

    Já se tentou isso na ditadura militar, criando fundações, que não chegaram a cobrar anuidades, mas falharam em conseguir financiamento privado para 20% de seus orçamentos. Se tivessem conseguido evoluiriam para no final cobrar anuidades e teriam total autonomia do governo federal. Mas era um projeto impossível. Só possível na cabeça daqueles que acreditam que podem imitar tudo dos EUA.

  4. Francisco Santana Says:

    Essa é a ilusão dos privatistas ingênuos. Pois as grandes corporações não acreditam em privatização mas sim nas tetas dos governos. Os banqueiros só emprestam dinheiro a governos, a empresas com o aval dos governos, ao setor privado em programas garantidos por governos ou por sistemas bancários com cartelização dos juros também garantidos pelos governos e BANCOS ESTATAIS E quando vão a falência pedem ajuda aos governos e sempre recebem. O Primeiro Ministro da Inglaterra justificou a ajuda de trilhões para saalvar a fraude especulativa do sub-prime com a frase: “É PARA COMPENSAR A INGENUIDADE DO MERCADO”.

    vEJAMOS ALGUNS NÚMEROS:

    Governos gastam quase US$ 10 trilhões com a crise
    http://www.swissinfo.ch/por/specials/crise_financeira/Governos_gastam_quase_US$_10_trilhoes_com_a_crise.html?cid=846172

    Quanto Custa a Crise Financeira Global? US$ 15 trilhões
    http://thyselfolord.blogspot.com.br/2012/10/quanto-custa-crise-financeira-global-us.html

    A COISA FUNCIONA COMO UMA PARÓDIA DE CONFÚCIO: PARA OS AMIGOS TUDO, PARA OS INIMIGOS PASTA A LEI.

    NO CASO DA CRISE FINANCEIRA: AOS BANQUEIROS TUDO, PARA OS PRIVATISTAS IDIOTAS BASTAM AS LEIS DE MERCADO

  5. Zemaria Porto Says:

    Oportunas colocações, Francisco!

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