777- Vandalismo de Estado

Para o Saci, vandalismo de Estado é quando a indiferença das autoridades constituídas acoitam   os larápios.

Para o Saci, vandalismo de Estado é quando a indiferença das autoridades constituídas acoita os larápios do bem público. Quem sabe, indaga ele, se o local do próprio painel ultrajado não possa – através de outra arte -, trazer à população a consciência do quanto tem sido desassistida e ludibriada?

O.

artigo do jornalista Vitor Hugo Soares diz tudo. A Bahia está entregue às baratas. Os ataques à vida humana, ao meio ambiente e ao patrimônio público vêm ocorrendo com frequência no  Bahia e refletem o despreparo dos atuais gestores, tanto da esfera estadual quanto municipal.

No que diz respeito ao bem cultural, em apenas 11 anos, as peças que compunham o painel do artista goiano Siron Franco, situado no Vale dos Barris,  foram surrupiadas sorrateiramente sem que o poder público movesse sequer uma palhar para estancar a gatunagem.

Triste Bahia!

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A Bahia às Baratas

Vitor Hugo Soares

Dois fatos emblemáticos, dos tempos temerários que atravessamos, levaram a Bahia, tristemente, esta semana, ao noticiário nacional. Tudo com direito a repercussões externas de causar …vergonha e indignação a gregos e baianos. Mesmo quando quase nada mais é capaz de envergonhar ou indignar pessoas ou sociedades. Governos e políticos então, nem se fala, a concluir pela omissão diante do sumiço de Amarildo, no Rio de Janeiro, ou o massacre monstruoso de civis no Egito.

O primeiro caso é o espantoso furto, impune e continuado, durante 11 anos, de todas as 454 peças, uma a uma, que compunham o esplendido painel concebido e montado por Siron Franco, na encosta de um morro na área do Dique do Tororó (belo e do mais visitados pontos turísticos de Salvador). Um presente precioso, ofertado pelo consagrado artista plástico goiano, quando das comemoração dos 454 anos de fundação da cidade, em 2002.

O segundo caso, que levou o Estado e a sua capital às manchetes, foi o assassinato, frio e cruel, da jornalista e servidora da Faculdade de Comunicação da UFBA (Facom), Selma Barbosa, na noite de domingo passado. A coordenadora do Laboratório de Vídeos da Facom foi morta quando parou o automóvel que dirigia, para deixar em casa, no bairro Costa Azul, uma amiga e colega com quem passara o dia estudando, para um trabalho acadêmico de mestrado.

Enquanto a amiga fechava o portão do prédio, o carro de Selma foi “fechado” por um automóvel com dois bandidos em fuga da polícia. Os dois desceram e um deles, com revolver em punho, se aproximou da janela do carro da servidora pública e disparou à queima-roupa. Toda a cena foi registrada por uma câmera instalada no prédio em frente ao local do crime.

Depois, os bandidos roubaram objetos pessoais, arrancaram Selma do interior do automóvel e deixaram o corpo sem vida estirado na pista de tráfego, para em seguida continuar na fuga usando um novo automóvel. E praticando novos assaltos.

“Quando eu entrei no portão, que eu me virei para fechar o portão, ele já estava atirando nela. Eu acho que ela nem viu direito. Não escutei ela gritar, não escutei nada. Eu só ouvi os tiros. Até agora eu não acredito”

A declaração é da amiga de Selma – ela preferiu não se identificar, tomada ainda pelo pânico e a insegurança – feita à TV Bahia (afiliada da Rede Globo), no dia seguinte à barbaridade. A também servidora pública fala enquanto a sua imagem é mantida sob sombras. Medo, abandono, revolta e impotência registrados em uma cena só.

Todos estes sentimentos foram levados às ruas do centro de Salvador na quinta-feira, 15, – enquanto a polícia anunciava a prisão dos dois suspeitos do crime – durante o ato de protesto e apelo por segurança, promovido pelos servidores e alunos da Universidade Federal da Bahia. Comoventes imagens das lágrimas rolando nas faces de tanta gente, enquanto os manifestantes entoavam o Hino Nacional diante do antigo prédio da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, na histórica Praça da Piedade.

E aqui uma pausa de silêncio e meditação para retornar ao caso da destruição da obra prima de Siron Franco, cuja última peça foi roubada na madrugada de segunda-feira, quando o painel ficou reduzido apenas ao seu esqueleto de cimento e concreto, depois de 11 anos de roubos sistemáticos.

Ironicamente o mesmo tempo de construção do “metrô de Salvador”, onde mais de R$1 bilhão já foi enterrado para a realizar meros 6 km de linha, de um sistema que até hoje não transportou um único passageiro. Está virando abrigo de baratas!

O caso do painel presenteado à cidade, localizado a menos de 300 metros do complexo de delegacias da Polícia Civil, e a menos de 600 da sede da Prefeitura, é surrealismo fantástico puro. Surpreendente, mesmo se comparados com obras de ficção de Kafka, Garcia Marquez ou Borges. Quando concluído e entregue, o painel era uma magnífica e impactante obra de arte exposta aos olhos dos soteropolitanos e visitantes, que passavam pelas vias de uma das áreas mais atraentes da capital: o Dique do Tororó.

Siron Franco construiu o painel com delicadas esculturas de animais feitas em alumínio, inspiradas em pinturas rupestres, presas artisticamente a uma encosta concretada. Causando sempre uma reação de admiração e enlevo dos passantes, na primeira olhada.

As peças mais próximas do nível do Dique foram as primeiras a sumir, antes do painel festejar o primeiro aniversário. “Aos poucos, de baixo para cima, todas foram furtadas. Durante a Copa das Confederações, que teve como sede na capital baiana a Itaipava Arena Fonte Nova, localizada do outro lado do dique, há menos de dois meses, ainda havia pouco mais de uma dezena de esculturas ali, no alto do morro. No fim de semana, o paredão apareceu, finalmente, vazio”, descreve o texto do repórter Tiago Décimo, correspondente da Agência Estado.

“Inacreditável”, diz Siron, o autor da obra, agora transformada num esqueleto de cimento. A prefeitura, de ACM Neto (DEM) ensaia um retardado recurso à justiça e à polícia, com “pedido de reparação”. O governo petista de Jaques Wagner prefere o silêncio omisso diante do vergonhosos fato consumado.

E enquanto governador e prefeito (antigos adversários) trocam agora abraços e elogios mútuos, abre-se no Dique do Tororó um novo espaço baiano de circulação das baratas.

Que lástima e que vergonha!

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