809 – Mais médicos, mais votos

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mais-médico

Para o Saci, tanto na mídia quanto na política, nada se cria, mas tudo se copia…

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Q.

uando o Saci me mostrou, na lista,  a discussão travada entre alguns professores da UFBA, acerca do “Mais Médico”, eu acabara de ler algo sobre a precariedade da saúde no Brasil. Na propaganda, principalmente a do governador da Bahia, tudo era lindo e maravilhoso. Na prática, entretanto, o bicho já tinha pegado desde muito.

– E aí, chefia, não vai meter seu bedelho na conversa?

Disse-lhe que não. Eu queria ser um flâneur – apenas um observador da lista, assim como o era da paisagem urbana ao meu redor. Deixaria que os “explicudos” da UFBA, nas palavras do Prof. Roberto Albergaria, se encarregassem de organizar o real. Eu queria vê-lo caótico, dissipativo. Até me divertia com isso. Lembrei-me do Pajé Felippe Serpa. O real é caótico e dissipativo. Cada um o organiza conforme lhe apraz. Potencialmente, tudo pode se precipitar e virar objeto da Ontologia…

– Sabe, chefia, o governo vai tocar o troço como quer, pois ele tem a máquina, tem a militância quase  religiosa, tem a turma da boquinha que não quer nem no sonho perdê-la…

– É isso aí! – tentei falar-lhe uma generalidade para não ser indelicado. Não estava a fim de conversar.

– Como assim? É isso aí? É isso aí o quê? ouviu o que eu falei?

– Claro que ouvi! Não sou surdo!

– Sim! Então, me explique! É isso aí o quê?

– Ah! Saci! Não me amole!

– Tudo bem! Se estou lhe importunando, não seja por isso. Desculpe-me se lhe pertubei. Vou me mandar agora mesmo…

O ar tristinho que ele fez me cortou o coração.

– Não seja dramático. Você sabe que tenho que passar as notas para o sistema. Hoje é o último dia.

– Já? Não são quinze dias depois do último dia de aula?

– Não. Agora é vapt-vupt! A UFBA tem pressa.

– E é? Pensei o contrário, a jugar pelo elevador da FACED que não emplaca,  primo carnal do metrô de Salvador…

– Engraçadinho!

Agora é sério, chefia! Por que você não participa da discussão do “Mais Médico”? Você está contra, a favor ou muito pelo contrário?

– Você sabe da minha posição.

– Já me esqueci. Qual é?

– Do ponto de vista da precariedade da saúde no Brasil, não vejo nenhum problema que venham bons médicos de fora, além dos brasileiros, é claro. Não podemos esquecer que o povo está precisando de muitos e muitos profissionais de medicina. Quanto mais  melhor.

– Assim a migué? E o Revalida? Onde fica na história?

– Claro que não é a migué! Ninguém falou para entrar médicos sem algum critério. Isso seria uma estupidez. A classe médica brasileira não deixa de ter suas razões ao querer que uma peneira fina seja usada para selecionar só quem tem competência, mas o Ministério da Saúde e o MEC, por sua vez, têm o direito e o dever de buscar soluções razoáveis para suas pastas.

– Mas só um anos antes das eleições? E por que não levantaram essa lebre no primeiro ano de governo?

– OK! Saci! Em parte, concordo com você! Mas fazendo média ou não com o eleitor, é burrice ficarmos contra algo que vai beneficiar o povo.

– Pois é, chefia. Nesse ponto, estamos de acordo. Mas veja o seguinte…

– Preciso passar minhas notas! O sistema fecha hoje!

– É rapidinho. Acompanhe o meu raciocínio. Esse país é muito surreal…

– Mais um ponto que tenho acordo com você…

– Que bom, mas veja só: o estudante de Direito quando conclui o curso, precisa passar pelo crivo da OAB, correto?

– É vero. E você é contra?

– Não é que eu seja contra. Isso é problema lá dos bacharéis recém formados. Mas é um troço meio estranho, uma vez que a responsabilidade de fiscalizar a qualidade dos cursos universitários deveria ser do MEC. E aí, eu pergunto: se o curso não é de qualidade, então, porque permitir o seu funcionamento? Ou, ainda, se o aluno não está preparado, por que a Universidade lhe confere o diploma?

– Ora, ora Saci. Existem coisas no mundo dos humanos que jamais o feeling dos sacis irá sacar…

– Talvez você tenha razão. Os humanos sofismam mais do que raciocinam. A verdade é algo que pouco interessa aos da sua espécie. Ao crescerem, vocês vivem no mundo de um faz-de-conta perverso, diferente, claro, do faz-de-conta inocente do mundo infantil.

– Ah! Vá pra lá, Saci! Vê se te manca! O que é que você entende dos humanos?

Em tempo, percebi o quanto eu estava sendo ridículo. Ainda que sendo um fervoroso defensor dos meus pares humanos, era estúpido querer tapar o sol com a peneira. Não podia deixar de reconhecer que o Saci tinha lá seus méritos. Tentei fazer um gracejo.

– Espero que na próxima vida você venha como humano, para conhecer a dor e a delícia de ser como somos…

certo. Vou pensar no seu caso. Se decidir, me esforçarei para existir como um ser humano igual a você. De óculos, miopia e tudo mais… Mas voltando à vaca fria, você pode me explicar a razão da existência do tal exame Revalida apenas para os médicos de outros países?

– Claro que posso. É um exame que foi  instituído através de portaria ministerial em 2011, com o objetivo de revalidar diplomas de médicos, obtidos no exterior…

– Para verificar se os médicos são mesmo competentes?

– Resumindo, acaba sendo isso.

– Ué! Quer dizer que no exterior os órgão responsáveis pela fiscalização dos cursos de Medicina também não fiscalizam,  e que aqui é feito aqui uma espécie de exame da OAB para os médicos? Nesse caso, como é que a coisa funcionava antes de 2011?

– Não é bem assim, digamos que…

– Caramba! Vocês humanos são muito complicados! Aceitam numa boa a bibliografia médica de outros países, mas desconfiam dos médicos que chegam de fora…

– Ah! Saci! Você mistura tudo…

– Tudo bem! Tudo bem, tudo bem! Já entendi! Digamos que é um cuidado que o país tem para não deixar entrar gato no lugar de lebre. Tudo bem. Faz-se um exame criterioso, e quem for aprovado vai poder exercer a profissão sem problema, recebendo uma graninha legal e etc e tal. É isso?

– Ufa! até que enfim entendeu as regras do jogo. Dura lex sed lex.

Pensei com os meus botões que nada com uma bela frase em latim para encerrar uma discussão. Mas qual! Quando eu digitava a senha para entrar no ambiente virtual das notas, eis que o pilantrinha me puxa pela barra da camisa.

– Só mais uma perguntinha, chefia. Se o Revalida é tão-somente para assegurar que a população brasileira tenha bons médicos vindos de universidades estrangeiras, qual a razão para não submetê-lo aos profissionais que vão atuar nos  bairros periféricos e cidades do interior brasileiro? Seria razão de Estado? Ou seria segredo de Justiça?

Antes que eu conseguisse sequer abrir a boca, o pestinha rodopiou estrepitosamente e fez estremecer os vidros da janela com um estrondosa gargalhada debochada. Em segundos, era só um ponto negro no céu alaranjado de final de tarde.

Enquanto eu passava as notas, fiquei matutando as patacoadas do Saci. Todo aquele enxame apenas para me fazer compreender que – sem entrar no mérito da nobreza ou não do móvel da decisão de gabinete -, se mais médico, logo, mais voto… Cartesianamente!

Sem dúvida, não era difícil imaginar que o “Mais Médicos” tivesse o mesmo DNA do Bolsa Família!…

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Abaixo, os e-mails trocados entre os professores.

Prezado Zamparone

O governo brasileiro demorou muito de cumprir com sua obrigação pelo que você relata. Pois há acordos de reciprocidade que Portugal desrespeitou grosseiramente. E se o Brasil não tivesse esses acordos, o que Portugal iria fazer? Cederia? Eu duvido.

Não era para isso ter ocorrido em hipótese alguma. E no primeiro dia do primeiro incidente o Brasil deveria ter agido energicamente e rompido os acordos existentes inclusive com expulsão de portugueses do Brasil. Mas pelo que você mesmo diz o problema se prolongou desde o gooverno de Sarney, pelo menos ao governo FHC e Lula. 

E respondendo também ao Décio Torres, a mesma desculpa foi usada pelo defensores dos atos da Ditadura. Que não estavam tirando o emprego dos brasileiros pois esses engenheiros estrangeiros estavam ocupando funções que os brasileiros não ocupavam. Que os engenheiros brasileiros estavam mal acostumados e só queriam trabalhar em carteira e escritório, faltando engenheiros para trabalhar na área de operação e manutenção nas fábricas.

A verdade é que existe um plano de saúde em Cuba e lás os médicos são formados dentro desse plano. Já o governo brasileiro não tem nenhum plano. Age improvisadamente. Antigamente existia um bom serviço de saúde para os associados dos IAPC, IAPI, IAPB, IAPTEC etc. Na ditadura foram reunidos num só, virando IAPAS, INPS e por último INSS, mas ainda mantendo uma certa qualidade. Aí tiveram uma idéia genial, estimular convênios com clínicas particulares e sem gastar dinheiro (pois a prioridade é o pagamento da dívida) estenderam os serviços do INSS (ou IAPAS) para o restante da população carente com o eufemístico nome de SUS; é claro que a qualidade baixou para valer. Agora já inventara as parcerias público-privadas e pasmem, estão transferindo os custos da saúde pública para os planos de saúde privados da classe média, onerando-os e fazendo com que cada vez mais profissionais competentes peçam o seu descredenciamento.

Essa importação de médicos estrangeiros é mais uma improvisação e demagogia pois como você mesmo diz, Décio, é por tempo definido.

Saudações brasileiras

F. Santana

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Prezado Francisco,

O senhor está esquecendo que o governo brasileiro não está contratando estrangeiros em detrimento dos brasileiros.

Ele está dando prioridade primeiro aos brasileiros. Para as vagas restantes, estão contratando estrangeiros para trabalhar nos locais onde os brasileiros não querem ir.

E mesmo assim, estão sobrando vagas.

Além disso, vários dos brasileiros que se candidataram não compareceram.

A proteção de mercado também está sendo contemplada, já que os médicos estrangeiros estão sendo contratados apenas por um tempo definido.

Décio Torres Cruz

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Caro Francisco,

não vou comentar o assunto dos engenheiros, que não conheço, mas tenho a impressão que você esta defasado quanto aos dentistas brasileiros. Primeiro o Brasil tratou o tema como assunto de Estado. Vários foram os figurões tanto do governo FHC quanto Lula, inclusive os próprios, que pressionaram seus pares em Portugal para aceitarem os dentistas brasileiros, que tiveram sua situação legitimada. Hoje atuam livremente. Sei porque conheço Portugal muito bem e conheço lá dentistas brasileiros. Quem como eu circula por Portugal desde meados dos anos 80 sabe bem que era um horror a saude bucal dos portugueses, incluindo nossos colegas, professores universitários: dentes podres, desdentados, enfim… Tres universidades formavam dentistas em Portugal (Porto, Coimbra e Lisboa) e a odontologia era uma especialidade médica. Conclusão: saiam delas pouco mais de uma dúzia de médicos-dentistas por ano.  Os que estavam no mercado, eram poucos, e cobravam os “olhos da cara”. Tratar dos dentes era investimento alto que somente os mais abastados podiam fazer. Mas diante dos dentistas brasileiros – trabalhando clandestinamente, sub-remunerados, em clínicas de médicos-dentistas portugueses (isso sim pode ser visto como trabalho escravo) –  os profissionais portugueses reagiram ferozmente, em “defesa do interesse” nacional e da “saúde do povo português” que segundo eles corria riscos diante de dentistas “mal formados”, que seriam os brasileiros!  Os dentistas brasileiros, como os médicos agora importados, NÃO ameaçavam tirar empregos ou vencimentos dos portugueses (talvez algum ganho extra, dos que usavam a força de trabalho dos dentistas brasileiros clandestinos) mas atenderam legitimamente aos interesses públicos da população portuguesa.  Obviamente que não sou contra a realização de exames profissionais mas tais exames deveriam ser os mesmos para formados no Brasil e estrangeiros. Pelo que leio na mídia os médicos brasileiros não querem se submeter ao tal “revalida”. Qual a razão? Vá lá em Portugal hoje e verá que praticamente todos tem tratamento  dentário de qualidade, em grande parte fornecido por dentistas  brasileiros. Também lá se apelou para a questão da regulamentação da  profissão, etc, etc,,mas fosse o governo português sucumbir a pressões corporativas e sua população ainda estaria desdentada!

abcs,
V. Zamparoni
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From: Francisco José Duarte de Santana

Sent: Friday, September 13, 2013 10:31 AM

To: debates-l@listas.ufba.br ; zampa@ufba.br

Subject: Re: [debates-l] Fwd: [gtafrica] Incentivem esse gesto nas suas universidades: Moção sobre a vinda de médicos estrangeiros

1) A ditadura militar instituiu convênios com países como a Espanha e Itália e importou de lá engenheiros que não teriam seus diplomas revalidados pelos padrões brasileiros. Os CREAS e o CONFEA criticaram essa atitude mas como era a ditadura as críticas não viraram manifestações significativas. A ditadura também financiou os estudos de alunos nas áreas de exata desde o cursinho prevestibulara até a formatura com a condição de eles trabalharem depois um ano ou dois anos com salários e locais determinados pelo gov erno. Nesse ponto o governo Dilma é um plágio da Ditadura Militar.

2) Portugal não aceita que Dentistas brasileiros trabalhem lá, como profissionais liberais (contratados pelo governo então seria uma blasf~emia) não por serem inferirores ma por serem melhores que os de lá e tirariam o emprego dos de lá. Todos os países estabelecem restrições a importações de profissionais para resguardar o emprego dos nativos e exportam profissionais para os países colonizados para darem empregos garantidos aos seus de lá. E o agravante é que nós temos acordos bilaterais com Portugal para tratamento igualitário dos seus povo nos dois países. Não sei porque brasileiros t~em mais compaixão pelos cubanos do que pelos brasileiros. Eu admiro Fidel Castro e o povo cubano, mas defendo os interesses do povo brasileiro por obrigação.

3) Então há duas questões preliminares. O Governo brasileiro deve proteger os profissionais brasileiros no Brasil contra a concorrência de profissionais desempregados nos seus países de origem independente de que país seja? A profissão de médico ou de outros profissionais  liberais no Brasil deve ser desregulamentada e apenas obedecer às leis de mercado, independente de diploma?

O CONFEA e os CREAS fizeram uma longa discussão sobre isso durante anos realizadas nas chamadas ESTAUINTES. E no final concluiram que era melhor deiar como estava.

4) Estão desviando a discussão para pontos insignificantes com a intenção de desqualificá-la, como se fosse questão de preconceitos ideológicos. .

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Em 13 de setembro de 2013 09:50, Prof. Dr. Valdemir Zamparoni <zampa@ufba.br> escreveu:

vejam o exemplo da EFLCH da UNIFESP em relação à vinda de médicos estrangeiros. E nós?

———- Mensagem encaminhada ———-

Moção sobre a vinda de médicos estrangeiros
A Congregação da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) e o Conselho Universitário (Consu) da Universidade Federal de São Paulo vêm a público repudiar veementemente as vergonhosas demonstrações de intolerância e racismo diante da vinda de médicos estrangeiros que, ignorando as fronteiras linguísticas ou nacionais, vêm nos dar significativas lições de desprendimento e humanidade ao se dispor a exercer a medicina nas remotas localidades onde muitos médicos brasileiros relutam em se instalar. Este simples gesto já permitiu diagnosticar os sintomas da doença que acomete a sociedade brasileira desde os tempos da escravidão: a desigualdade e o preconceito que são o resultado da insensibilidade e da indiferença.

Este tipo de preconceito não tem lugar numa universidade como a Unifesp, que se orgulha da sua reconhecida tradição de dedicação à saúde indígena e de atendimento às populações carentes. Assim, prestamos a nossa singela homenagem aos valorosos médicos estrangeiros que aceitaram o apelo do governo brasileiro para contribuir com a melhoria da saúde no nosso país.

Publicada também em: http://www.unifesp.br/index.php?pag=noticias.php&tipo=1&idnoticia=774

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Uma resposta to “809 – Mais médicos, mais votos”

  1. José Tavares-Neto Says:

    Ao Amigo do Saci,

    É omissão, esquecimento ou cinismo, ausência de comentários referentes ao pagamento de menos de 40% ao médico cubano, enquanto maior parte do salário irá para Ditadura dos Castros? Por que médico cubano não pode trazer família, ao contrário daqueles de outras nacionalidades?

    Felizmente, UFBA tem especialistas em precarização do trabalho e esses saberão melhor explicar se há, ou não, diferença(s) do trabalho do “médico cubano” com aquele dos “pretos de ganho” do infame regime escravocrata no Brasil.

    Saudações, não cínicas

    José Tavares-Neto
    Médico (Complexo HUPES) e
    Professor (FMB-UFBA)

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