811 – O Rock in Rio e o fim da História

O-Canto-da-Sereia-do-Rock-i

Certamente, e não me encontrasse amarrado, eu iria, sem pensar duas vezes, parar no fundo do oceano… Seria aquilo uma alucinação provocada pelos feixes de fótons emanados da telinha?

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Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

rock.

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azão eu tinha de sobra para dormir. Desde quatro horas da madruga estava em pé. O dia fora muito corrido. Só fui parar mesmo depois das 22 horas. Após um banho morno e uma sopa pelando, sentei no sofá e liguei a TV. Entre um cochilo e outro, deu para perceber que o meu amigo de gorro vermelho e pito chegara com mais outros convidados. Recomendei-lhes que ficassem à vontade, uma vez que eu estava “pregado” de sono. Enquanto o Saci conversava animadamente com a Vaca Tatá e o Caipora, eu travei uma luta mortal contra Morfeu. Perdi legal. O cansaço me vencera. Tentara, em vão, compreender o conteúdo que a televisão exibia, mas o sono era incontrolável. Apaguei.

É sempre intranquilo o meu sono diante da telinha. Vozes, músicas e ruídos se misturam no meu cérebro, e resultam num enorme desconforto. Em alguns momentos, eu acordava pela metade, vendo tudo meio desfocado. Às vezes, eu ouvia a voz metálica do Caipora; outras vezes, a risada debochada do Saci. Quando o ambiente ficava mais silencioso, tinha a impressão de ouvir o som de um discreto ruminar bovino. Embora não a enxergando de onde eu me encontrava, sentia, vez ou outra, o bater do rabo da Vaca Tatá, como se tentasse espantar moscas invisíveis.

Depois de muito tempo ali no sofá, senti que acordei, mas não conseguia me mexer. Em vão, tentei me levantar. Tive a sensação de que as minhas mãos estavam amarradas para trás. E muito bem amarradas. Não conseguia me lembrar, mas certamente algo muito ruim havia acontecido comigo. Teriam me sequestrado? Estaria eu num cativeiro? Nessa Bahia intranquila em que vivemos, não é de estranhar que pensemos logo no pior. Mas de repente, as vozes ficaram mais claras. Aos poucos fui tomando pé da situação. Felizmente, não era nenhum sequestro. Eu estava no AP onde me escondia. Reconheci logo o meu aparelho de TV com as marcas engorduradas na tela, feitas pelas mãos buliçosas e descuidadas do Saci.

Alguém abaixara o som do aparelho. Talvez para não me perturbar o sono. Tentei chamar pelo Saci, mas a voz me sumira no fundo da garganta. Em vão, esforcei-me para sair da posição em que eu me encontrava. Cordas robustas prendiam firmemente os meus pulsos. Devia ser uma daquelas brincadeiras bobas do pestinha, aproveitando os meus momentos de cochilo. Depois de muitas tentativas fracassadas, aquietei-me. Comecei a racionalizar a situação. O desespero é sempre um péssimo aliado. Tinha que me manter calmo. Uma solução deveria existir para eu me desvencilhar daquelas malditas amarras. Depois de algum tempo, o corpo tornou a sucumbir pelo sono. Talvez eu tenha cochilado uma meia hora. Talvez até mais. O fato é que, lá para as tantas, a voz metálica do Caipora se fez ouvir. Percebi que ele falava sobre o espetáculo luminoso que eu tinha diante de mim. De fato era tudo muito belo.

– Vocês estão é despeitados. Se tivessem lá, estariam dançando, bebendo e “ficando” como qualquer jovem. A nossa juventude  aprendeu a gostar do que há de melhor no mundo, patrocinado pela tecnolgia de ponta. E o Midas Medina é o seu representante mais abalizado. Ele sabe o que é bom. É um homem finíssimo. E, sobretudo, sabe se cercar dos profissionais mais gabaritados, mas competentes. O Rock in Rio há muito tempo deixou de ser um evento local ou uma realização made in Brazil. O Rock in Rio, agora, é uma grandiosa celebração do revolucionário rock no calendário mundial globalizado. Medina sabe escolher os seus convidados e o que tem de melhor no mundo da música e dos equipamentos hi-tech.

– É verdade. Nisso tenho acordo com você. Adorei ver a roqueira Ivete Sangalo…

– Não adianta ironizar Saci, pois o rock é generoso e acolhe todos os gêneros musicais. Pra que melhor do que este espetáculo que estamos vendo agora com a Beyoncé? É o tributo da diva americana à invenção do funk carioca… Veja isso! É o magistral “Qq que é isso Lelek”.

De fato, os meus olhos e ouvidos viram e ouviram uma apoteose de movimentos ritmados e uma explosão de luzes coloridas e efeitos especiais. Lek-lek-lek-lek-lek-lek-lek! Que sonoridade extraordinária! Que sincronismo com os ritmos orgânicos humanos! Que escultura banhada de multicoloridas luzes!

De repente, uma onda abrasadora me percorreu o corpo. Tentei desvencilhar-me mais uma vez das cordas e cair na gandaia. Era o que o instinto exigia. Atinei que a telinha queria abduzir-me. Só aí comecei a sacar o porquê de terem me amarrado. Naquele momento, senti-me um Ulisses imobilizado por marinheiros amigos para eu não me afogar no fundo dos oceanos. Nenhum vivente sobreviveu à companhia fatal das irresistíveis sereias.

– Você estão percebendo como o outro aí na frente está bestificado?

Embora tivesse um tanto grogue de sono, pude ouvir o Caipora se referindo a mim. Tentei passar-lhe umas boas descomposturas, mas as minhas cordas vocais continuavam imprestáveis. Comecei a temer pela minha voz. O que seria de um professor sem poder verbalizar?

Enquanto isso o Caipora professorava.

– Vocês estão vendo isso? É a melhor prova de que o capitalismo – que tanto vocês criticam! -, veio para ficar. Não adianta espernear. Aos poucos, ele vai sendo aperfeiçoado, humanizado. E os jovens estão percebendo isso com muita lucidez. Viva a democracia do consumo! Depois do espetáculo do Rock in Rio V, as manifestações de rua – orquestradas e alimentadas por lideranças vândalas para trazer o terror à população ordeira das nossas grandes cidades -, vão sendo aos poucos sepultadas. Brevemente, não serão senão uma triste lembrança e uma séria advertência sobre até onde pode chegar o ser humano emprenhado por ideais equivocados…

Pelo silêncio que reinava na sala, parecia que o Saci e a Vaca Tatá haviam sucumbido. Apavorado, pensei: Fukuyama vencera. Era o fim da História!

– E o legal disso tudo, – continuava o Caipora – é que nessas bandas de cá, a belíssima consolidação do definitivo modo de produção capitalista  realizou a verdadeira revolução cultural  sem derramar uma gota de sangue sequer. Em vez de fuzis, metralhadoras e bombas, a explosão de guitarras mágicas, de pura alegria, de luzes inebriantes, de palcos e estéticas grandiloquentes. Cada pop star é uma general, um comandante, um núncio de um futuro maravilhoso; cada tiete, um soldado da paz, do amor, da plena comunhão de um mundo sem conflito, sob a égide da obediência e do respeito

Já com os braços adormecidos, eu tentava me beliscar para ver se não estava sonhado. Para meu desespero, apesar da dormência dos membros, a cada tentativa de beliscá-los, sentia uma dor fina como o resultado da pressão exercida pelos dedos sobre a pele, o que comprovava que eu estava acordado e bem desperto.

O Caipora continuava firme e seguro no seu discurso.

– A vinda de sua santidade, o papa Francisco, e o maravilhoso evento da juventude traduziram o momento alvissareiro que o Brasil experimenta. O Rock in Rio V só confirma isso. Depois virão os outros dois eventos  esportivos, já vitoriosos, para confirmar o empreendedorismo do empresário nacional e das suas salutares parcerias com o empresariado multi e transnacional. Some-se a tudo isso os programas “Mais Médicos”, o “Bolsa Família”, o “Mais Você”, o “Reuni”, o “Prouni”,  o “Proifes”, o “Minha casa Minha Vida”, o “Criança Esperança”, o “Vale Gás”, o “Perdão aos Mensaleiros” e tantos e tantos outros engenhos político-econômicos que o Brasil conseguiu produzir nos últimos tempos… Sinceramente, Saci, sinceramente, Tatá, o que precisamos mais? Se melhorar, por mínimo que seja, piora!

De repente, pensei na possibilidade de eu estar morto. Talvez morrer fosse isso. Escutar a vida lá fora se manifestando e não poder dela participar como interlocutor. Eu devia estar morto. Só que jamais imaginei que um defunto pudesse sentir o desconforto de ter os braços formigando. Resolvi tentar mais uma vez me livrar das cordas. Para a minha surpresa, constatei que os meus braços se movimentavam. Testei a minha voz para saber se eu podia falar. Gritei para o Saci. Maravilhado, constatei que a minha voz ecoou forte pela sala. Experimentei movimentar a cabeça e eis que ela me obedecia.

– Mas afinal, o que está acontecendo? – exclamei intrigado.

Vi que ninguém me respondera. Virei para trás e não encontrei um pé de alma na sala. Estava sozinho. O Saci, a Vaca Tatá e o Caipora não estiveram ali naquela noite. Eu tinha sonhado.

Ufa! Que alívio! Fora apenas um sonho. Melhor, um terrível pesadelo!

VANDALISMO-E-ROCK

Talvez tenha sido sonho, mas juro que vi umas letras pichadas num telão imenso. Eu estava vendo coisas ou as manifestações de rua continuavam na butique chique da Cidade do Rock?

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2 Respostas to “811 – O Rock in Rio e o fim da História”

  1. J. Marcelino Says:

    Excelente crônica. Bate um desânimo quando assistimos a juventude cooptada pelo mavioso canto das sirenas… A sensação que dá é que não podemos lutar contra as armas poderosas do capitalismo. Se os pobres, os miseráveis não fizerem a Revolução, dificilmente o farão os mauricinhos e patricinhas da classe média, deslumbrados com o consumo, com o “parecer-se”, com o simulacro.

    De toda sorte, como o próprio Saci já disse neste blog, o real está em permanente movimento…

  2. F.T. Dias Says:

    Byonce tava mesmo uma delicia!!!

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