861 – Urna eletrônica usurpa o trabalhador?

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urna-eletrônica.

Segundo o meu amigo de gorro vermelho e pito, tanto a retórica das palavras e das imagens quanto as ferramentas tecnológicas, tidas como “de ponta”, podem ser utilizadas para surrupiar os direitos dos trabalhadores, inclusive o de escolher seus representantes de forma honesta. Sendo assim, com as velhas e surradas urnas de lona qualquer cidadão poderia acompanhar a trajetória do voto. O que não acontece com o voto eletrônico. Os “candidatos” da tela, tomados emprestados de Disney,  são meras ilustrações, sem equivalências à realidade…

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Menandro Ramos
FACED/UFBA

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T.

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al qual pensava o filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626), para o Saci, conhecer é poder. Ele discorria que não era de hoje que o conhecimento vinha sendo usado por alguns ilustrados para subjugar a maioria. As doutas autoridades em  saber jurídico, de acordo com ele,  eram completamente ignorantes na ciência dos zeros e uns. Que eram verdadeiras “portas xucras” – e bote xucras nisso! -, em linguagem de programação. Sendo assim, permaneciam sempre reféns dos que as dominavam, isto é, daqueles que habitam no Olimpo tecnocrático, e que aos colendos juízes prestavam “complicada assessoria”.

– De qualquer maneira – continuou o meu amigo de gorro vermelho e pito – ainda que não dominando a Ciência da Computação, um bom exercício com a Lógica Formal aristotélica possibilita, a quem o queira realizar, descobrir, em tese,  possíveis e potenciais mutretas nas urnas eletrônicas. Mesmo com o comprovante do voto impresso, que não invalida a fraude coisíssima nenhuma como dizem por aí. Não é preciso ser um gênio para pensar na possibilidade de criação de algoritmos de impressão diferentes dos votos computados, com o propósito de acumulá-los para uma suposta fraude. Do tipo: If (se) impresso o voto, then (então), somar para tal candidato. Claro que com algumas operações randômicas para não dar na pinta…

Apesar de nada responder ao Saci, e de não acompanhar rigorosamente aquele cansativo silogismo de árido fluxograma, no fundo, concordava com ele. O paradoxo é que, à medida em que a humanidade avança no tempo e no espaço, a Ciência se torna mais complexa e mais distante do trabalhador. Somente poucos nela são “alfabetizados”. E, a partir daí, toda forma de controle passa a ser exercido para assegurar a mais-valia, a acumulação, a exploração, a subjugação.

Tomemos um simples exemplo, pensei comigo mesmo. Qualquer país que hoje não estiver conectado à rede mundial dos computadores será considerado “muito atrasado”. Contraditoriamente, o que fragiliza os países conectados é exatamente o fato de poderem partilhar dessa tecnologia. Ressaltando,  partilha essa sem a expertise da construção da adequada barreira contra violação de privacidade e acesso a conteúdos maliciosos. Em inglês, o recurso contra intrusos é chamado de firewall.

Eu sabia que os últimos acontecimentos envolvendo a espionagem de e-mails e ambientes de rede pela Casa Branca ilustrava bem essa ideia. Os Estados Unidos, que saíram na frente nas pesquisas de conexão entre computadores, no período da guerra fria, a partir de parcerias desenvolvidas entre universidades americanas e o estado maior daquele país, puderam bisbilhotar, tranquilamente, a vida de chefes de estado e de empresas estatais até serem descobertos. Dilma, Merkel e, certamente,  muitos outros. Nem o papa escapou. Donde se conclui que o celebrado Barack Obama, prêmio Nobel da Paz, não é tão ético assim… O que significa ponderar que, se os parceiros comerciais e sócios do Clube do Capital são diuturnamente bisbilhotados, o que dizer, então, dos trabalhadores, potencialmente antagônicos e insurgentes? Que ardis tecnológicos são urdidos para mantê-los no cabresto?  Talvez a urna eletrônica seja um desses cabrestos, contras os quais não poderá haver insurgências. Talvez!…

Não pude deixar de pensar no repto que o Prof. Francisco Santana lançou aos especialistas do CPD, da UFBA, sobre as urnas eletrônicas, inspirado num debate promovido pelo Prof. Nelson Pretto, da FACED/UFBA, em uma de suas disciplinas. Alguém respondeu? Que eu visse não. Quem sabe não costumam ler as mensagens que circulam nas listas da UFBA…

Excetuando a hipótese acima, das duas, uma: ou estão absurdamente por fora do assunto, ou estão absurdamente por dentro. E nesse caso são, lamentavelmente, cúmplices.

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2 Respostas to “861 – Urna eletrônica usurpa o trabalhador?”

  1. osaciperere Says:

    O Prof. Francisco Santana fez circular nas listas da UFBA:—————————————————————

    Se existe qualquer suspeita sobre o sistema eleitoral brasileiro, então estamos vivendo numa ditadura pior do que as militares, mas que os brasileiros, principalmente os intelectuais cinicamente a apelidam de democracia.

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    ———- Mensagem encaminhada ———-
    De: Pedro Porfírio
    Data: 8 de novembro de 2013 18:57
    Assunto: Adeus às urnas
    Para: “Francisco José Duarte de Santana >”

    ———————————————————————
    Adeus às urnas

    Numa unanimidade rara, STF detona Lei que garantia a impressão do voto para eventual conferência

    Assim como quem não quer nada, sem choro nem vela na grande mídia, sem clamores dos donos dos podres poderes e numa UNANIMIDADE rara, os ministros da mais política das cortes judiciais do mundo, o Supremo Tribunal Federal, decidiram sepultar definitivamente a impressão do voto para fins de conferência, como existem em vários países, sob a absurda alegação de que essa prática compromete seu caráter secreto.

    Isso aconteceu na tarde friorenta da quarta-feira, 6 de novembro, numa sessão em que os ministros abusaram de sofismas para atender ao lobby do Colégio de Presidentes de Tribunais Eleitorais, que se serviu da Procuradoria Geral da República para entrar com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, assinada em janeiro de 2011 pela vice-procuradora eleitoral, Sandra Cureau, contra o Art. 5º da Lei 12.034/2009.

    Não é a primeira vez que os ministros do Supremo usam de todo o seu poder para preservar essas urnas eletrônicas que já serviram a trapaças impunes, como pode se ver numa fieira de denúncias tornadas públicas, preservando “equipamentos ultrapassados” – como demonstra o jornalista e professor Osvaldo Maneschy – “de uso proibido nos Estados Unidos, na Holanda (onde foram inventadas), na Bélgica, na Alemanha e no resto do mundo – porque foram substituídas por modelos de 2ª. geração, que imprimem o voto; ou de terceira geração, mais modernas ainda, que além de imprimirem o voto, registram digitalmente o mesmo voto, criando uma dupla proteção de que a vontade do eleitor – soberana – será respeitada”.

    Saiba mais:

    http://www.blogdoporfirio.com/2013/11/adeus-as-urnas.html

  2. Duílio Says:

    Até hoje é um mistério a virada de Jaques wagner conta o carlismo no primeiro mandato… a menos que tenha havido um acordo entre as duas dinastias. A explicação do sucesso do barba branca por “milagre’ na programação das urnas é uma resposta muito mais plausível, hehehe!

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