891 – Quem vale quanto e por que?

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quem-vale-quanto

Gal-Carlinhos-Brown

Para o Saci, o Gal. Carlinhos Brown é um dos mais competentes oficiais que já passaram pela primeira divisão do exército da Vênus Platinada…

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

D (2)

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essa vez, a coruja de Minerva veio durante o dia, isto é, a reflexão do meu amigo de gorro vermelho e pito chegou após a queima das toneladas  de fogos do Réveillon, já raiando o sol.

De fato, a diferença do cachê recebido entre os artistas era bastante significativa. Ou seja, a velha conhecida e grande sambista Beth Carvalho valia 3,75 vezes menos do que o novato Gusttavo Lima. Ele recebendo R$ 6000.000,00 e ela, 160.000,00.

Vi os dedos ágeis do Saci golpeando impiedosamente as teclas da calculadora. Agora era a vez de concluir que, ainda assim, a maravilhosa Beth Carvalho recebera pela sua atuação na noite do Réveiilon muito mais, mas muito mais mesmo – o dobro na média -, do que um professor universitário com titulação de doutor receberia durante um ano, após mais de três décadas de trabalho. Ainda pedi que ele fizesses o cálculo em relação a professores do ensino fundamental e médio, mas o pilantrinha já não queria mais nada com os números. O que ele queria mesmo era refletir sobre a condição humana na sociedade capitalista. Ou , como ele gosta de dizer, no desequilíbrio da balança.

– Sabe, chefia, seguindo esses parâmetros de remuneração pela força de trabalho, um pai ou uma mãe deverão ser denunciados como irresponsáveis, e quem sabe até deverão perder a guarda dos filhos, se não estimularem os mesmos a galgar o estrelato futebolístico ou o pódio musical…

Embora intimamente estivesse pipocando de rir daquele exagero sacizesco, fingi-me de Mona Lisa. Esbocei apenas um leve sorriso para não perder o amigo.

– Tive pensando, chefia, os grandes astros da música popular brasileira – e mundial, claro! -, são, no modo de produção capitalista, o que foram os generais no modo de produção escravista, e até feudal.

Diante do meu ar estúpido, ele se apressou em me explicar o que queria dizer.

– Veja: certamente, você deve ter estudado, quando passou pelo Instituto de Educação Anísio Teixeira, em Caetité, provavelmente com a  Prof. Danúzia Silveira, sobre os generais da antiguidade. Ora, o que eles  faziam? Até quem não é CDF sabe que esses tais generais eram os sustentáculos dos impérios, do poder, do raio que o parta que for. Através das armas, além das pilhagens e apropriação na marra do que cobiçavam, eles comandavam soldados que, por bem ou por mal asseguravam a “ordem”. Entenda-se bem:  a “ordem” de quem mandava. Os fios das espadas estavam sempre afiados e dispostos a mostrar as vísceras dos insatisfeitos. Sem falar nas cordas dos patíbulos, nas cruzes, nas fogueiras e outros instrumentos eloquentes de convencimento dos vivos…

Tentei me levantar, mas ele me segurou pelos ombros.

– Só mais um minutinho, chefia. E, como não podia deixar de ser – dizia eu -, a recompensa para o generalato vinha líquida e certa: o direito às grandes propriedades, terra boa e fértil, construções suntuosas, mão de obra escrava,  joias, mulheres hermosas (ou homens!) mil e o escambau. Era ou não era boa a vida de um general? Mas vamos continuar pensando em termos de Europa. Pois bem. Quando o império romano se desmoronou, o que foi feito dos grandes generais? Ora, ora! Eles e outros grandes de alta patente acabaram dividindo o vetusto continente entre si. Cada um tratou de abocanhar a melhor parte. Assim, na ordem feudal que substituiu o modo de produção escravista, os generais foram gozar do que fizeram por merecer. Se foram capazes de sustentar com valentia e dedicação a velha ordem, nada mais justo do que serem beneficiados na nova ordem…

Querendo saber logo sobre o desfecho daquele bolodoro que já começava a me cansar, tratei de apressá-lo.

– OK, Saci! Conclua que tenho que botar alguma coisa no estômago. Já são quase três da tarde e estou apenas com um pingado e uma banda de pão…

– Mais um minutinho, chefia, já estou concluindo…

– Que seja, então, um minutinho mesmo!

– Concluindo, o que estou querendo dizer, é que no modo de produção capitalista, na fase imperialista sobretudo, uma nova classe de generais foi sendo urdida. São comandantes que abriram mão das armas convencionais, para portar apenas microfones e instrumentos musicais. Embora o poder de domínio seja também avassalador, têm a vantagem de as algemas que prendem seus cativos jamais serem notadas. Pelo contrário, os escravos nunca se sentiram tão felizes com os seus grilhões…

Aquela passagem me lembrava o teórico alemão Marcuse. Aproveitei as reticências feitas pelo pilantrinha filósofo para levantar-me.

– Momentinho, chefia! Que diabo de pressa! Espere ao menos eu concluir…

bommm, purgante! Mas acelere a gravação! Tenho muito o que fazer ainda!

– De modo que, como eu dizia, os escravos nunca se sentiram tão felizes com os  seus grilhões… E, nesse caso, os responsáveis são os adoráveis generais da alegria, como por exemplo, o da minha cor Carlinhos Brown: “Água, água mineral! Hê! Hê! Água, água mineral!”…

Ichi! Endoideceu?

– Não, chefia! É que o cara tem um ritmo, um embalo, um swing que até estátua mexe os quadris. Brown lidera, Brown arrebata, Brown anestesia! Caramba! Brown é The Voice! É uma máquina de última geração de fazer grana! Muita grana! Aliás, não é  à toa que  ele agora é um dos generais de primeira divisão da Vênus Platinada, com direito a todas as mordomias e privilégios que os seus outros  colegas generais da antiguidade gozavam: boa cama, boa companhia, boa mesa, boas carruagens, bons palácios para morar, bons esculápios e boas escolas para seus reais infantes, parentes e aderentes…

E, num rodopio fabuloso, foi saindo, cantando aos berros, e se rebolando feito um peixe no anzol:

Bebeu água, não!
Tá com sede, tô!
Água, mineral
Água, mineral
Água, mineral
Do Candeal
Você vai ficar legal!

Já sozinho e livre das perturbações do meu abusado amigo, quedei-me num canto a pensar sobre o que ele dissera. De fato, o papel do artista contemporâneo era fundamental para a construção dos grandes impérios. Aliás, sempre fora assim. Palácios, castelos,  templos, praças, fontes, chafarizes  e tudo o mais que o sentido da visão podia apreciar, tinha o dedo e a sensibilidade do artista. De todos eles e de todas as áreas. Não tive como não pensar no Jardim Botânico onde o Dr. Roberto Marinho construiu o seu império das telecomunicações e de lá foi expandindo os seus investimentos. Talvez, alguns dissessem “tentáculos”.  Mas pouco importava como diziam ou deixavam de dizer. Além dos melhores técnicos, mais do que ninguém, o Dr. Marinho soube garimpar e investir nos melhores artistas de todos os  naipes: mestres na dramaturgia, na programação visual, na computação gráfica, no marketing, enfim, cercou-se competentemente de todos os profissionais para tocar bem e com a expertise que seus negócios exigiam. E triunfou por décadas, inclusive voando em céu de brigadeiro durante o que se costumou chamar de anos brasileiros de chumbo  do governo militar.

Assim, para que metralhadoras, bazucas, granadas e quejandos se o capitalismo podia muito bem trilhar por outros caminhos? Claro que alguns continuavam fazendo – e assim era necessário -, a opção por armamentos pesados, como os que lidavam com a condução dos estados nacionais ou com o narcotráfico. Mas a escolha que o Dr. Marinho fizera era de outro jaez e não menos lucrativa. De uma tacada só, através da indústria da informação, ele fazia convergir para a sua conta bancária os frutos dulcíssimos do mercado fonográfico, do mercado editorial, do mercado do entretenimento, do mercado virtual e de tantos outros mercados que ainda poderiam surgir para seus amados herdeiros.

E o melhor de tudo isso era saber que a semente plantada carinhosamente no solo fértil do Jardim Botânico germinara, frutificara e produzira uma copa frondosa para abrigar, à sua sombra, graciosos pássaros canoros de plumagens multicoloridas. Cada qual com o seu preço segundo a trilogia custo/benefício/demanda, resignadamente, cada qual com o seu código de barra, para muito além do Jardim Botânico…

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Confira (AQUI) a cotação de alguns artistas durante o Réveillon de 2013.

Gusttavo-Lima

—————-Carlinhos-Brawn

Lulu-Santos

Caetano-Veloso

Gilberto-Gil

GAL-COSTA

Beth-Carvalho

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Uma resposta to “891 – Quem vale quanto e por que?”

  1. osaciperere Says:

    Eh preciso fazer justiça aos gringos, chefia! A Globo, desde muito, adotou o modelo estadunidense de fazer televisão. Talvez, com mais bom gosto. Vide os programas equivalentes ao de Jô Soares, aos noticiosos etc.

    O famoso complexo de vira-latas está sempre presente na programação global. Uma simples exposição de quadros que acontece no final de semana em Nova York, é destaque no Fantástico do próximo domingo.

    Toda a grade de programação da Vênus Platinada é calcada no modo americano (e outros dos Atlântico Norte, para ser justo) de ser. The Voice e Big Brothers são bons exemplos…

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