916 – Elton John na Fonte Nova

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Saci-Pererê da UFBA

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“Se a burguesia, hoje, tivesse o controle da Bastilha, dificilmente o povo a destruiria.”
Vaca Tatá

 

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a verdade, o talento de Elton John não está em discussão. Ele é fera. Tanto no gogó quanto no piano. O problema que trazemos é outro. O show do maravilhoso cantor inglês, hoje, dia 22 de fevereiro de 2014, é apenas um detonador de reflexões, de conjuminâncias: bovinas, sacizescas ou humanas. Tanto faz.

Há muito o Brasil passou a ser a rota do grande capital. Só que, agora, o colonizador descobriu que, com o verniz da cultura ou com projetos culturais,  o processo de apropriação do capital e da mais-valia é, praticamente, indolor. Armas e chicotes só são acionados no último caso. Ou, talvez, no penúltimo. O crescente mercado dos países emergentes é uma mão na roda, mas exige ações refinadas para não despertar indignações e insurgências. Probabilisticamente, a coisa funciona assim. Ou, pelo menos, assim é astuciada. Mas, no mais, a praça é boa e generosa. Em se plantando, tudo dá… Até porque, o velho continente europeu não tem mais tanto oxigênio assim. Vislumbra-se em Pindorama, quem sabe, a Terra Prometida há milênios…

O filé mignon das artes musicais é apenas um galho da frondosa árvore que o capital internacional explora nestas plagas. Saúde e Educação, entre outros, têm também seus nichos de mercado assegurados. Só para refrescar a memória, em Salvador, a Faculdade Ruy Barbosa atualmente passou a ser laboratório do Grupo Devray americano ( DeVry Education Group Inc.)… Em dando certo o investimento, outros espaços serão desbravados. Foi-se o tempo que se corria para o Velho Oeste. Os filões de ouro estão agora abaixo da linha do Equador. Com a graça de Deus, pois “In God we trust”.

E é confiando em Deus – e nos prepostos do Estado neoliberal -, que entra a utilidade da novíssima e ampla Fonte Nova. Depois do sucesso do DJ francês David Guetta e de Ivete Sangalo, Elton Jonh já pisa numa arena testada com êxito.  Melhor, numa máquina de fazer muita bufunfa.  Não há possibilidade de erro quanto ao investimento. Com seus cerca de 50 mil lugares, o faturamento é ultra mega seguro e rentável, considerando que os valores dos ingressos variam de 40 a 750 mangos. Para ser mais exato, os preços são os seguintes: R$ 80/R$ 40 (superior), R$ 100/ R$ 50 (pista), R$ 120/R$ 60 (norte), R$ 200/ R$ 100 (leste), R$ 240/R$ 120 (especial leste), R$ 240/R$ 120 (especial oeste) e R$ 750 (camarote). Não é preciso ser gênio para perceber que a Arena da Fonte Nova bota o Teatro Castro Alves (TCA) – também templo da burguesia culta soteropolitana -, no chinelo.

Como se vê, o apetite dos empreendedores e parceiros da coisa pública privatizada vai muito bem obrigado. Não se contenta mais com as cerca de 1.500 cadeiras do TCA ou os 5.500 lugares da Concha Acústica. Para começo de conversa, 50 mil pessoas por show multiplica os milhões por 10, por 20 ou por 30! Coincidentemente, o número de pagantes é o mesmo que abriga o espaço do Festival de Verão, evento cultural de iniciativa do Grupo da TV Bahia/Rede Globo e aparentados.

tetas-estataisA conclusão que se chega é que o Estado brasileiro se transformou numa vaca de robustas tetas para alimentar o sempre faminto capital. Se é verdade que a burguesia europeia tirou boas lições  a partir das experiências da Tomada da Bastilha e da Comuna de Paris, nos séculos 18 e 19, respectivamente, por certo, a milionária Copa Mundial que se descortina aqui no Brasil dará aos governos subjugados pelo capital excelentes subsídios  para o controle das massas e  a expertise para reprimir futuras manifestações, venham de onde vierem.

A estrondosa vaia recebida pela presidente Dilma Rousseff no jogo contra o Japão, em 2013, além dos 27 feridos e 16 detidos nas proximidades do estádio Mané Garrincha, em Brasília, serviram de lição. Não há dúvida de que a Copa das Nações foi um extraordinário laboratório para as forças da repressão. Às duras penas, aprendeu-se que é preciso manter o povo descontente a muitos e muitos quilômetros de distância do local dos eventos e festividades esportivas. Sabe-se, e não é de hoje, que a massa é imprevisível. Coleira curta, pois.

Durante a partida da seleção brasileira contra o México, em Fortaleza, as trinta mil pessoas que participaram do protesto, segundo a mídia divulgou, foram contidas pelas prodigiosas balas de borracha e outros miraculosos widgets desenvolvidos pela tecnologia da repressão. No Mineirão, no jogo da semifinal contra o Uruguai, não foi diferente. Sendo que, dessa vez, o número de manifestantes quase dobrou. Falou-se em 50 mil pessoas.

Não se sabe se os baianos ficaram intimidados com o saldo da pancadaria ocorrida nos outros Estados. O certo é que, na última rodada da fase de grupos, quando o Brasil e a Itália se enfrentaram na Fonte Nova, o número de manifestantes caiu para apenas 500 pessoas, e assim mesmo bem distantes do local da realização da partida. Rapidamente, a polícia de Jaques Wagner aprendeu a criar um cordão de isolamento com gás lacrimogêneo…

No final da disputa da Copa das Confederações, entre o Brasil e a Espanha, o forte aparato de segurança  (10.600 policiais e 7.400 militares) manteve os cerca de 5 mil participantes bem afastados do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro.

Mas, ainda que o aparato de repressão tenha sido exitoso, o Estado não se sustenta apenas com os hardwares (as armas). É preciso que bons softwares (as leis) sejam urdidos. E é por isso mesmo que o PLS 728, já batizado como “Projeto de Lei de Segurança do Capital”, corre de vento em popa. Escusado dizer que tem inspiração, segundo dizem, na famigerada Lei de Segurança Nacional, urdida nos porões da ditadura militar pós golpe de 64, contra a qual lutou a ilibada presidente Dilma Rousseff. Donde se conclui que são patentes as contradições do real…

Art. 1º Esta Lei traz disposições que visam incrementar a segurança da Copa das Confederações FIFA de 2013, doravante designada “Copa das Confederações”, e da Copa do Mundo da Fifa Brasil 2014, doravante designada “Copa do Mundo de Futebol”, a serem realizadas no Brasil, definindo crimes e sanções administrativas, disciplinando o incidente de celeridade processual, bem como o direito de greve no período que antecede e durante a realização dos eventos, entre outras providências. (saiba mais AQUI).

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Voltando às vacas frias, o certo é que, os felizardos que puderem pagar os míseros trocados do mega show de Elton John, certamente vão  poder ouvir, sensibilizados, os belos versos da canção “Believe“, mostrada no vídeo da Phonogram, de 1995,  abaixo:

I believe in love, it’s all we got /Love has no boundaries, costs nothing to touch War makes money (Traduzidos livremente por: “Eu acredito no amor, é tudo o que temos/O amor não tem fronteiras, não custa nada para tocar/Guerra faz dinheiro” […]

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Uma resposta to “916 – Elton John na Fonte Nova”

  1. altinobojr@yahoo.com.br Says:

    MENA,
    tá na mídia: presidenta vai colocar exército nas ruas para garantir a copa; constituida força-nacional de 10 mil homens. Você mesmo cita a nova lei…..
    Daí que pequena correção. Diferente de “Armas e chicotes só são acionados no último caso. Ou, talvez, no penúltimo” essa fantástica multiplicação do capital amparada/sustentada/apoiada/empurrada pelo Estado que deveria pela constituição “promover o bem-estar social” GERAL, utiliza CONCOMITANTEMENTE de panis/circens y armas, chicotes, tacapes e outros equipamentos sofisticados para impedir os mais e mais explorados se manifestarem!! Juntinhos!
    Daí:
    – aprofunda-se o questionamento que vivemos em Democracia dado que amplia-se os processos de controle e repressão social em que destaca-se a onda de criminalização (veja o comportamento da diretoria da Apub);
    – em profundo questionamento o PARA QUE VOTAR…vez que apenas legitima-se os que aprofundam as formas de repressão;
    – enfim, falta tampar a lata do lixo em encontra-se a chamada REPRESENTAÇÃO POLÍTICA.
    altino

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