51 – A APUB e a ordem do dia

 

caserna

O Saci sabe que quem elaborou o cartaz - que ele, aliás, invadiu sem a menor cerimônia -, não tinha outra alternativa, senão cumprir a ordem do chefe, pois "ordis é ordis"!... Mas tem tudo a ver com o espírito do tempo da administração isolpiana: depois da censura à lista, o jargão da caserna...

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

O Saci está estranho. Eu o conheço muito bem. Sei que essa charge que ele tentou pilheriar com o tom de caserna dado pela direção da APUB, para o chamamento à Assembleia de ontem (11/03/2010), é apenas uma cortina de fumaça ou, melhor, de suspense, para mexer com os meus nervos. Percebi a sua manobra logo que o vi caminhar em círculos e aos pulos pela sala.

Reconheço imediatamente que ele está um verdadeiro vulcão internamente, prestes a entrar em erupção. Quer me contar algo, mas antes tem que me torturar primeiro. A expressão de pachorra que o pilantra tenta assumir é inteiramente teatral. Quando ele está tranquilo, de verdade, seu recanto predileto é a cadeira de três pernas, enquanto os seus volteios pela sala denunciam, insofismavelmente, o grande estado de agitação em que se encontra.

Por outro lado, ele adora alfinetar a minha curiosidade. Inicialmente, começou me perguntando se eu sabia “da saúde do Plano de Saúde”, se estava tudo em ordem e coisa e tal. Diante da minha confissão de ignorância sobre o indagado, num exercício maiêutico de deixar Sócrates com água na boca, tentou ainda partejar ditos, comentários e fofocas que eu ouvira nos últimos dias. Tirei o corpo de baixo, respondendo-lhe à altura, bem à moda socrática – e, porque não dizer, também  de Lula (mudando o que tem de ser mudado, claro), por ocasião do escândalo do mensalão:

– Não soube e não sei de nada, Saci. Aliás, minto. Tenho ciência de uma única coisinha –  Sei que nada sei!

– Tá bom chefe! Se você que é do meio e inteiramente por fora, muito menos sei eu!

– Alto lá pilantra! – alterei-me sem conseguir segurar a onda de indignação que me invadiu. Não sou do meio,  nada! Inclua-me fora disso!

– Calma, chefinho! Olhe o estresse… O que foi que o médico lhe recomendou? O meio que me refiro é o meio dos professores!…

– Ah! Desculpe-me… estou meio aperreado. Mas o que foi que você descobriu?

– Eu? Nada, nada. Falei por falar… É que eu dei um pulinho na Assembleia de ontem, na sede da APUB…

– Como é que é, Saci? Você foi lá sem ser pro…

– Calma, chefinhozinho do meu coração. Eu não dei nenhuma bobeira, não. Consegui me enfiar dentro de uma caixa de som e o pano dela é meio transparente… Eu via todo mundo, mas ninguém me enxergava… O som é que me deixou meio surdo…

– Bom, se foi assim… – tentei ser indiferente – Na verdade, Saci, eu pretendia ir, mas infelizmente não me foi possível. Tive médico e, logo depois, aula. Além do mais, a minha pressão está meio descompensada… Mas o que você descobriu lá?

– Eu? Nada, nada!

E, mudando de tom bruscamente, perguntou-me na bucha:

– Chefinho, você acha que tudo bem na administração da APUB, que sua diretoria está coesa, que ninguém quer, por algum motivo, pular fora do barco?…

– Ué Saci, que chá de cogumelo venenoso você tomou hoje? Que pergunta mais besta! Como é que eu vou saber isso? Por acaso, você me acha com cara de quem frequenta a copa desse pessoal? Eu, hem!?

– Calma chefe, são só assaltos cogitabundos, meras cismas, ínfimas indagações político-filosóficas…

E novamente o risinho de canto de boca fez-se um quase equador facial, praticamente de orelha a orelha.

Não quis dar na pinta, mas estava de olho no sacripanta. Fingi-me de monge.

Pra me confundir mais ainda, ele inventou aquela história de que a próxima Assembleia da APUB deveria acontecer no Centro de Convenções, dado o comparecimento em massa dos associados. Segundo ele, era difícil encontrar uma cadeira sobrando na salinha da simpática fortaleza da rua Padre Feijó. Gente paca: mais de três dezenas de professores. Para os tempos de fastio que atravessávamos, dado o chapa-branquismo sindical, só o espírito de liderança do seu presidente podia explicar aquele mar de professores presentes. Pelo livro de assinaturas, talvez tivesse até comparecido mais associados. Mas o diabo era o calor que estava fazendo naquelas bandas e o local não era dos mais aconchegantes…

Brincando, brincando, o pilantra ainda me falou uma porção de coisas. Desde as idiossincrasias do  colendo presidente do sindicato, que é contra as minorias, numa alusão ao seu embargo quanto à realização de Assembleias fora de Salvador – como em Cruz das Almas e outras localidades do recôncavo baiano -, até a informação de que queriam impedir o registro videográfico de algumas falas… Mas tudo aquilo me cheirava uma grande enrolação.

Eu jurava que ele tentava me esconder algo, só para botar pilha nos meus nervos.

——–

Sei não, viu, leitor… Posso até estar enganado, mas sinto um cheiro de pólvora no ar. Não tenho ideia de que lado, mas alguma coisa me diz que uma bomba vai estourar. E o pavio já foi aceso.

Mas mil vezes pior do que isso, e bote pior nisso, é o Saci saber do epicentro da explosão e me deixar pipocando de curiosidade.

Quem tem uma praguinha dessa como amigo, precisa ter inimigo, precisa?

  

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2 Respostas to “51 – A APUB e a ordem do dia”

  1. Menandro Ramos Says:

    Bom, pelo menos, uma crítica surtiu efeito. Tão logo o Saci fez a charge sobre o “ato falho” do Todo Poderoso dirigente sindical apubiano (com perdão do nome pouco eufônico), o estranho termo “ordem do dia” foi imediatamente substituído por “pauta”. Quem duvidar, é só conferir no site da APUB.

    Assim ficou bem melhor, presidente!

    O Saci me insufla para aproveitar a maré (ou marolinha) do gesto largo e sugere que eu publique o texto que ele mesmo redigiu:

    Presidente Israel Pinheiro!

    Rememberos tempos de luta e de resistência. Abjure o tenebroso Proifes governamental e devolva ao ANDES-SN e ao ânimo da luta sindical o que lhe é de direito.

    Assim, o senhor nem precisa mais cancelar o evento para homenagear a memória do grande baiano Marighella. E viva a LIBERDADE! E tenho dito!”

    Imagine, leitor, se eu sou louco de publicar um treco estapafúrdio desse!

    Ah! Mas, aqui para nós, seria tão bom que o presidente da APUB tomasse esse gesto digno! Ah! Se seria…

  2. Cecília de Paula Says:

    Ordis é ordis… em um sindicato???… Onde estaremos daqui a alguns dias se essa moda pegar! E imagine só. Não é que hoje, visitando os e-mails antigos do domínio UFBA encontrei a chamada da outra assembléia, de dezembro… E não é que lá estava, ou se iniciava a ordem do dia. Pois é, na nossa caixa de correio, como este convite agora a ordem persiste, em ordis… Será?
    Ou, simplesmente expressa a vontade de ficar…
    Na ordem! Mas ainda não descobri de qual dia! Talvez, o dia em que a terra parou…
    … E o professor não saiu pra reivindicar…
    Por que seu dirigente resolveu só comandar.

    … E o sindicato não saiu para lutar…
    … Por que a ordem do dia também estava lá…

    Imagine, o dia em que a Terra parou, e nós não sonhamos mais…
    estamos silenciosos, esperando a morte chegar…
    Ainda mais falando, lembrando como o Saci do Plano de Saúde.
    Esperto este Saci.
    Eu estava lá,
    e a terra não parou de girar… e a vida do plano deve estar a sussurrar.
    Mas, de fato, não sabemos,
    Por que, embora a Terra não tenha parado,
    Parece-me que esta diretoria do sindicato está conseguindo inviabilizar a nossa esperança de lutar pela autonomia e independencia sindical.
    Parece. Somente, pois os poucos que lá estavam,
    Os que sonham, que resistem, que acreditam na luta e na organização sindical, não silenciaram.
    Sabe do que mais… Não foi o Centro de Convenções não que foi cogitado. Aquele gigante branco nem mesmo foi lembrado.
    De fato, a reivindicação foi irmos para a UFRB que, como minoria, deveria ser contemplada, ainda mais nesse regime de escolta, digo, regime de caserna em que vivem sob a botina do general Isolpi.
    Sabe qual era a proposta. Irmos lá, na UFRB, local que caberia os mais de 2.770 sindicalizados e todos os seus carros. Nada mais justo, pois após as duas assembléias convocadas (e minguadas) aqui na UFBA no enormeeeeeee espaço da sede, que só cabem cerca de trinta pessoas ( e olha que tinha muita cadeira vazia, ainda, além de inúmeros convidados para a festa que se seguiu com acarajé e refri)… deveríamos contemplar outro espaço, que estava a reivindicar, mais uma vez, o fim da tutela descabida e não quista da galera da UFRB.
    Pois é… em pouco tempo muito se discutiu e o que prevaleceu foi a cortina de fumaça. Interrogações que ficam e … não passam, como esta sobre a diretoria da APUB e o funcionamento do Plano de Saúde, que parece, está bem caidinho, precisando se tratar.
    Ah! A censura também foi lembrada e reivindicada o fim da mesma. Não só dos nossos e-mails, como também o fim da censura ao nosso sindicato nacional, o ANDES-SN.
    Bom, isso para termos uma idéia do quanto ainda temos que lutar…
    Ai, ai. Ainda bem que temos grandes companheiros, além do Saci, para nos ajudar na luta e nesta organização. E viva a resistencia!
    E viva a Liberdade! E viva Marighella… Ainda mais em tempos repressivos e ordenados como estes, sindicais, de nossa seção sindical local. Por um sindicato que não omite informação, que permaneça atento a tudo e a todo o movimento dessa história mal contada.
    E viva o movimento historico das lutas e histórias, ainda por contar.
    Por isso sonhamos e resistimos. Por isso não podemos nos calar.
    Nem mesmo deixar o Saci com a pulga atrás da orelha…
    Liberdade. Eis o termo preciso que transparece na luta. Não, se escondendo dela, omitindo informações, boicotando mensagens e notícias, camuflando.
    Tenho dito!
    Bj, nos dois.

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