12 – O Bolsa Família de Lula e Outros

 

 

“Eu acho Sarney uma das figuras trágicas da política brasileira. Mas acho que o presidente Lula tem toda a razão quando ele tomou a decisão de apoio, porque o jogo é político.” (1)

A princípio, eu me recusei em acreditar que essa frase fosse da lavra do Secretário de Educação do Estado da Bahia. Depois de conferir mil e uma vezes o e-mail que recebera com a entrevista do dito cujo, conformei-me. Tudo indicava que aquelas palavras eram dele. Dessa vez a internet estava inocente. O homem dissera aquilo mesmo e pronto. Por mais que eu lamentasse, tinha que respeitar o pensamento dele. (Ou o certo seria desrespeitá-lo, já que eu não tinha acordo com o que ele dizia?)

A vida é engraçada, às vezes. Alguém quis obsequiá-lo divulgando algo que achara um primor e em mim provocara efeito contrário. Tentei até me colocar na pele dele. Em seu lugar, o que eu responderia se alguém me perguntasse, em entrevista, sobre a atitude do Excelentíssimo Presidente Inácio Lula, em relação ao seu colega do Senado, o não menos excelentíssimo – e além do mais, imortal da Academia Brasileira de Letras – Presidente José Sarney? Qual seria a minha resposta?

Matutei, dei tratos às bolas, refleti. Hummm! O que eu diria numa situação daquela? Talvez eu dissesse: ”Olhe, seu periodista, de pouco vai valer o que eu pense ou deixe de pensar sobre a esfera federal. A minha preocupação é em fazer o que estiver ao meu alcance, para honrar a confiança em mim depositada e, dentro das minhas possibilidades, fazer o melhor para que a Secretaria de Educação contribua, de fato, para elevar a qualidade da educação do povo baiano, e brasileiro em última instância”.

Talvez alguns me achassem um pouco careta, mas acho que era por aí. Nem é dizer que o secretário precisasse fazer média com o governador, pois ele era um homem empregado – e continua  sendo – quando aceitou o convite para ficar esta temporada no CAB. Para falar a verdade, até um “nada a declarar” ainda ficava bem melhor do que a resposta que dera. Aquilo dava a entender que na política valia tudo… TUDO! Isso não é um pouco forte, leitor?

O que poderiam pensar alguns professores e alunos desavisados, de uma forma ou de outra a ele subordinados hierarquicamente? Um Secretário, enquanto dirigente, não deve ser uma referência positiva, tanto no que faz quanto no que diz? Quem se livra das más interpretações? Será que apenas a boa vontade é salvo-conduto para os que têm o bastão de comando?

Por outro lado, pensei, e se eu estiver sendo ingênuo, bobo, panaca? E se o único jogo que vale à pena ser jogado for o político? E se eu descobrir que passei a vida inteira como um insensível, um bestão, um injusto, condenando abobalhadamente o que eu julgava ser malvadezas ou perversas ternuras? E se o Estado tiver razões que sequer a melhor razão pode suspeitar?

Por que alguém não me comunicou isso antes, para que eu pudesse avisar também a meus filhos e a meus alunos, que não há limite no jogo político, mas o que há é o vale tudo? Por que eu tive que viver mais de meio século para aprender uma lição tão elementar, embora constrangedoura?

Foi nessa aflição existencial que me encontrou o Saci. Percebendo o meu desespero, falou-me com ternura:

– Fica assim não, chefe. não tá só. O problema não é com você. Tem muita gente pior e muito mais trouxa. O mal é vocês enxergarem o mundo engessado, cristalizado. As palavras, como as coisas, são hoje e deixam de ser amanhã. tem uma sapato bonitão hoje, e amanhã ele já se tornou chinelo; se era marrom, ficou fubento. Sua calça jeans – por sinal, essa sua já está puída no joelho, sem ser por moda – amanhã será uma bermuda; a lata desse refrigerante que está lhe enchendo de celulite, hoje, amanhã será um porta-lápis. O mesmo acontece com os seres animados dotados de neo-córtex: um secretário hoje, amanhã pode ser deputado estadual ou federal; alguém, amanhã, pode dormir reitor e, depois de amanhã, pode acordar um parlamentar ou um ministro da Educação. Só depende do que ele articular nos bastidores… De que lado você pensa que está hoje, quem ontem foi de esquerda, hem, hem?

Meio abobalhado, eu não sabia onde ele estava pretendendo chegar.

– Com a palavra, chefe – continuou o Saci – acontece a mesmíssima coisa: o “grande gesto” de hoje  foi a “demagogia” de ontem, que por sinal não é mais assistencialista. Pelo contrário. É algo muito bacana e muito nobre.

Antes que eu pudesse esboçar qualquer gesto de protesto contra essa apologia que o pilantra fazia em favor do que eu já supunha um “vir-a-ser canalha ou degradado”, ele, de forma ágil metralhou:

– Veja, chefinho! Por conta própria, sem a ajuda da Petrobrás, da CAPES ou da FAPESB, eu venho investigando umas coisinhas interessantes. Estou preparando o leito para pesquisas mais avançadas que seus colegas farão no futuro sobre o exercício da palavra e das imagens pelos poder e pelos homens (e mulheres) que com ele costumam adornar suas frontes.

Aquela lenga-lenga começava a me impacientar. Mas ele não se deixou intimidar. Melhor, não estava nem aí para minha manifestação de impaciência.

– Arme-se de curiosidade, mô bródi, – prosseguiu o Saci mais empolgado do que nunca – de paciência e de tolerância para ouvir e ver, por exemplo, dois momentos que pesquisei do seu popularíssimo presidente. Como dizer que ele só mente ou que só fala a verdade? É a dialética meu rei, é o movimento perpétuo das coisas, dos eventos, das pessoas e dos pensamentos.

E dizendo isso, o pilantra clicou rápido no mouse. Ele já havia deixado no ponto um “vídeo-web-charge”, feito com um desses programas simples de edição de imagens e, como matéria prima, todo o material disponibilizado no YouTube, alimentando, assim, o ciclo virtual, numa espécie de ecologia cognitiva: do YouTube e para o Youtube. Ainda não acabara a exibição do curtíssimo vídeo de exatos 88 segundos e o traquinas já se escafedera.

Como sempre, provocava o rombo em minhas pobres idéias, e, de fininho, tirava o time de campo. E, como sempre, deixava esse bobão que vos escreve a ver navios. Ou transatlânticos.

***

O presidente Lula confirmava o que o Saci acabava de teorizar. Acabei transcrevendo as falas de dois momentos distintos do sempre eloquente Cara. Caso o leitor tenha dificuldade de assistir ao vídeo, e caso confie na minha transcrição, aqui estão os dois discursos:

Na atualidade, o Presidente Lula fala assim:

“Alguns dizem assim: o Bolsa Família é uma esmola; o Bolsa Família é assistencialismo; o Bolsa Família é demagogia, e vai por aí afora. Tem gente tão imbecil, tão ignorante, que ainda fala: o Bolsa Família é p’a deixar as pessoas preguiçosas, porque quem recebe o Bolsa Família não quer mais trabalhar.”

No passado, assim falava Lula:

“Olhe, lamentavelmente, no Brasil, o voto não é ideológico; lamentavelmente, as pessoas não votam, não votam partidariamente, e, lamentavelmente, você tem uma parte da sociedade que, pelo alto grau de empobrecimento ela é conduzida a pensar pelo estômago e não pela cabeça. É por isso que se distribui tanta cesta básica, é por isso que se distribui tanto ticket de leite, por que isso, na verdade, é uma peça de troca em época de eleição. E assim, você despolitiza o processo eleitoral, você trata o povo mais pobre da mesma forma que Cabral tratou os índios quando chegou no Brasil, , tentando distribuir bijuterias,  espelhos e para ganhar os índios… ele distribui alimento. Você tem como lógica a política de dominação que é secular no Brasil.”

***

Não pude deixar de comparar as imagens gravadas do presidente com as da professora que foi demitida (veja mais) por ter praticado uma “dança sensual”, ambas disponibilizadas no YouTube. A diferença é que, o último vídeo produziu sérios prejuízos à trabalhadora, culminando com sua demissão na escola onde era empregada, enquanto as primeiras imagens referidas, de comícios ou afins, ao que parece, sequer fizeram cócegas na sólida reputação do ilibado ex-trabalhador, agora Presidente da República. O máximo que fizeram foi estimular a retórica dos que o incensam.

Felizmente, verdade seja dita, o secretário de Educação não teve nada a ver com a demissão da professora de Educação Infantil. Ela era da rede particular de ensino. Ainda bem. Pelo menos isso!

 

———————————————-

(1) – Frase atribuída ao Secretário de Educação do Estado da Bahia. Entrevista a Evilásio Júnio para o Bahia Notícias
De: alunos-ppge@googlegroups.com [mailto:alunos-ppge@googlegroups.com] Em nome de Penildon Silva Filho
Enviada em: sábado, 29 de agosto de 2009 19:33
Para: producaoeditorial2002.1@grupos.com.br
Assunto: Entrevista com Osvaldo Barreto, Sec. Est. Educação (BAHIA)
Anúncios

3 Respostas to “12 – O Bolsa Família de Lula e Outros”

  1. Dilma quer acelerar economia | Blog do Saci-Pererê Says:

    […] O Bolsa Família de Lula e Outros […]

  2. Ana Lía Pujato (@pujapais) Says:

    até o mais idiota ou estrangeiro percebe a diferença entre distribuição de cestas básicas e o programa bolsa família.

    nao tem limite o cretinismo dos que só tem discurso (antipt).

    lamentavelmente, desacredita toda crítica que possa ser válida neste site.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: