• O Reencantamento da Universidade e o Saci

Fevereiro 28, 2009 by osaciperere

Menandro Ramos
Professor da FACED/UFBA

Réu confesso. Sou um banana sem palavra. Fraquejei. Havia jurado que entraria para o time dos dóceis, dos silenciosos, dos indiferentes. Prometi a mim mesmo que jamais escreveria, uma linha que fosse, mencionando o alinhamento do meu festivo sindicato local com a reitoria e esta com o governo. Refleti exaustivamente e cheguei à conclusão que seria mais prudente fechar o bico e recolher a pena para sempre. Às portas da minha aposentadoria, melhor seria juntar-me aos bem-humorados velhinhos da Praça da Piedade e assegurar minha vaga no campeonato de dama ou de dominó da temporada. O silêncio vale ouro, concluí como muitos. A mim, não mais importava a provocação do colega Telésforo, do Igeo, que li na lista da UFBA: “A grande maioria dos docentes é irresponsavelmente e covardemente indiferente em relação ao futuro da universidade.”

Além de malquerença, eu nada ganharia em contestar o projeto de uma universidade nova (turbinado por um governo com mais de 80% de aprovação), potente trator do pensamento único (o do brilhante chefe epidemiologista…). Até porque, devo reconhecer, que só a Uninova é capaz de trazer recursos para pintar os velhos prédios e dispor de generosos cachês para recompensar a falação encomendada aos bruxos de além-mar.

Aliás, me disseram que vem aí um deles para a aula inaugural do semestre letivo, no próximo dia 2 de março, com pompas e circunstâncias. Falaram-me. Juro. Má fé? Só li o mínimo. Contaram-me que fará o magno sortilégio e responderá umas perguntinhas previamente selecionadas. Nada mais. Ah! Uns livrinhos também serão vendidos, que ninguém é bobo para perder uma oportunidade dessas. O resto do reencantamento da universidade é com o amuleto eletrônico… E a fé de mais ou de menos de cada um.

Pois é exatamente sobre esse amuleto eletrônico que vou abordar. Se o leitor preferir, pode denominá-lo de notebook. É sobre o dito cujo que quero falar, ou melhor, escrever. Foi ele que me fez quebrar a jura que havia feito de não mais teclar para a lista da UFBA entre outras (além da apubdebates-l, na qual os textos por mim escritos no semestre passado foram frequentemente barrados), sobretudo para não dar mais espaço ao infame saci. Mais uma vez o sacripanta me passou a perna.

Na verdade, já havia mencionado, por alto, o engodo de que eu fora vítima meses atrás. Vou contar aqui como foi o negócio. Simplesmente, num final de semana qualquer, o saci me apareceu com um troço na mão, enrolado num papel de presente. Com um ar meio sonso, foi logo me perguntando:

– Adivinha o que é isso?

Tentei inferir o objeto pelo tamanho do volume. Pareceu-me uma caixa de chocolates sofisticados, mas não quis arriscar. Sabia que o saci queria me pegar. Aquilo, com certeza, parecia uma coisa, mas era outra. Ele queria, mesmo, era me enganar. Depois de algum tempo de indecisão, simulei indiferença. No fundo, estava morrendo de curiosidade para saber do que se tratava.

– Não faço a menor idéia!…

Numa patacoada digna dele mesmo, esclareceu-me com afetação:

Thianrammm! É um notebook, meu rei. Acabei de ganhar…

Achei aquilo estranho, mas me contive. Apenas balancei a cabeça em sinal de aquiescência e, fingindo desinteresse, concentrei-me na minha leitura. Diante do meu mutismo ele me dardejou em cheio.

– Acabei de ganhar da Uninova…

Dei um pinote da cadeira. Com estardalhaço, pedi esclarecimento. Ele não esperou duas vezes e contou-me que rodopiava pelas bandas do Palácio da Reitoria da UFBA quando avistou uma enorme fila. Curioso, aproximou-se para ver do que se tratava. Logo sacou que estavam distribuindo notebooks. Informou-se, no final da fila, que se tratava de uma doação da Uninova. Para isso o candidato devia apenas proferir a frase mágica: “Universidade Nova, me dá um notebook!” Apenas isso e nada mais. Achou aquilo moleza demais. Postou-se no final da fila, todo bem comportado. Logo foi informado que podia ir para frente. Não se fez de rogado. Só que, gaiato que é, resolveu inovar com a frase “Universidade Velha, me dá um notebook!” Isso lhe custou um pé no traseiro, com tanta, mas com tanta violência, que foi parar na Rua João das Botas, bem na porta de uma clínica ortopédica.

Inteligente que é, o pilantra escondeu o gorro vermelho e o cachimbo para não ser reconhecido e voltou para a reitoria. Ao chegar, no final da fila, orientaram-no a ir para frente. Foi bufando de alegria. Dessa vez recitou esperto e teatral:

– Oh queridíssima Universidade Nova, contempla-me com um notebook novinho em folha como você!

Tiro e queda. Faturou o amuleto eletrônico que ali se encontrava diante de mim, em embalagem vistosa de presente.

Mal ele acabou de falar e eu já voava, literalmente, na sua garganta. Sua habilidade corporal o livrou da minha ira. Quase me esbarrei na tábua de passar ferro. O pilantra se esgueirou como um felino. Ao me aprumar, esbravejei:

– Não acredito que você aceitou esse cavalo de tróia! Eu não posso acreditar que logo você caiu nesse engodo. Cara! Você não vê que isso é um sórdido artifício de cooptação? Isso é muito pior do que os espelhinhos que o colonizador europeu distribuiu para os índios! Cara, eu não acredito! Isso é para neutralizar qualquer tentativa de resistência. É o presentinho de tapeação!

Diante do meu surto de cólera, senti que ele recuou. Imaginei que já estivesse se arrependido de ter aceitado o tal presente. Velhaco, ele encenou me acalmar em voz doce e sussurrante:

– Quer pra você o notebook?

Mais uma vez, avancei furibundo sobre o moleque. E novamente ele conseguiu se livrar da fúria das minhas mãos. Dessa vez, desapareceu como por milagre. Não ficou um canto do apartamento sem que eu revistasse. Fiz uma operação pente-fino, mas em vão. O filho de uma mater equa, com o perdão da palavra, ainda que em imprecisa expressão latina, virou éter.

Corri para o telefone e comecei a ligar para alguns dos meus camaradas. Mary Arapiraca, Cleverson, Cecília, Celi Taffarel, Inês Marques, Pedro Abib, Câmara, Roque, Chico, Lana, Batista, Altino, Paulo Balanco, entre outros, ouviram pacientemente o que eu contava quase sem fôlego. Descrevi o palco surrealista que a reitoria se tornou. Falei da gigantesca fila. Fiz minhas as palavras do saci. Tim-tim por tim-tim. Tentaram me acalmar. Na verdade, eu nem consegui ouvir o que me diziam, tal era a minha indignação. Um por um teve que ouvir todo o meu desabafo histérico. Tínhamos que fazer algo. Aquilo era uma tática behaviorista pé-de-chinelo, chinfrim. Tínhamos que denunciar para a imprensa. Aquela prática enxovalhava não só a UFBA, mas todas as universidades públicas. Aquele era um laboratório de manipulação que brevemente, qual dominó tombando, atingiria as demais instituições de ensino superior do país. Um caos!

Resolvi dar um tempo antes de ligar para os jornais. O meu telefone sem fio estava quase que em brasa. Foram tantas as ligações que eu já nem consegui apoiá-lo na orelha, tamanha era a quentura. Saltei para o computador. Com mensagens por e-mail eu atingiria um mundo de gente com mais eficiência. Comecei a digitar o endereço de Nelson Pretto. Ele era um elemento chave, pois se encontrava no exterior fazendo pós-doutorado e certamente ficava mais fácil contatar com professores e pesquisadores estrangeiros e denunciar a manobra infame.

Antes de encerrar a carta-denúncia que redigia, minha vista foi atraída pelo tal notebook embalado em papel de presente, quase que no meu nariz. Afastei-me do teclado levado por uma súbita curiosidade. Quis ver a marca do maldito amuleto eletrônico. Qual não foi a minha surpresa ao tocar no suposto computador portátil! A leveza da embalagem revelava o mico que eu acabara de pagar. Tremendo de ódio rasguei o papel que escondia uma placa de isopor, do tamanhozinho de um notebook: a mesma altura, a mesma largura e a mesma profundidade.

Maldito saci. Até hoje eu dou voltas para não cruzar com essas pessoas que falei por telefone. Provavelmente deram boas risadas às minhas custas. Idiota que fui.

Parece que o maldito me enfeitiçou. Ai, que vergonha…

Oxalá os estudantes, um dia, não digam o mesmo do notebook!

Uma resposta to “• O Reencantamento da Universidade e o Saci”

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