• A Arte de Furtar

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

Pense aí, leitor, num camarada abusado, galhofento, pândego até dizer chega. Pensou? Pois é, esse dito cujo é o Saci.

Há pouco me chegou com a história de um tal Professor Dr. J. Little Blitz No-Phia Pravda, PhD em Comunicação e o escambau. Segundo ele, esse sujeito está fazendo o maior sucesso nos EUA e na Europa. Inclusive, está até havendo brigas entre países para reivindicar o solo que lhe serviu de berço quando ele veio ao mundo. O fato é que ele tem ascendência estadunidense, alemã, chinesa e russa. Seu sobrenome não deixa a menor dúvida.

E o nome desse gringo, ele trouxe, exatamente, para embasar uma tal teoria da Annulation, segundo a qual, se o receptor for submetido a mais de sete estímulos fortes, a tendência é que todos eles se anulem mutuamente. Assim, nenhum deles chegará até o cérebro do recebedor e não haverá produção de sinapses nervosas. Sendo que, o que vale para estímulos linguísticos, vale também para signos icônicos, quer na compreensão peirceana, quer na saussureana, quer na hjemsleviana etc.

Achei que aquela teoria caía como uma luva para explicar a enxurrada de e-mail meus que os colegas da UFBA haviam recebido recentemente.

Quando o pilantra percebeu o meu interesse exagerado pela tal teoria da Annulation, ainda colocou mais pilha no bolodoro. Mencionou o estudo da retenção de informação como tendo origem numa obra  atribuída ao Pe. Antônio Vieira, que posteriormente teve a sua autoria retificada como sendo da lavra do piedoso Pe. Manuel da Costa (1601-1667), jesuíta português, lente de Letras e Humanidades, e exímio pregador.  A obra, de nome um tanto extenso “Arte de Furtar, Espelho de Enganos, Theatro de Verdades, Mostrador de Horas Minguadas, Gazua Geral Dos Reynos de Portugal”, “Offerecida a Elrey Nosso Senhor D. João IV”, para que a emendasse, teria sido a fonte de inspiração para que o cientista e comunicólogo sino-americano-russo-alemão desse o pontapé inicial da sua importante pesquisa.

Diante de tanta riqueza de informação, perguntei-lhe como havia tomado conhecimento daquela maravilha de proposição científica e ele, meio sem graça, quis desconversar, falou do calor, do terremoto do Chile, do furacão da UFBA – ocorrido no Campus de Ondina -, numa alusão à destruição do Forno a Lenha e do Teto Verde e mais uma porção de abobrinhas. Achei-lhe com um ar meio suspeito. Daí, até apertá-lo contra a parede, foi um pulo de gato escaldado em água quente…

Escabreado, o sacripanta acabou confessando que aquelas ideias, ele as tivera depois de ler alguns e-mails e ouvir certos comentário sobre a estranha liberação em massa das minhas mensagens pela lista da UFBA. Disse-me que ficou tão envergonhado de suspeitar de pessoas tão decentes, como as que controlam ou moderam os e-mails, que preferiu, à guisa de “hipótese preliminar de elencagem de possíveis ocorrências no universo da comunicação e da informação”, atribuir sua autoria a um estrangeiro, ainda que não sendo xenófobo.

Depois de um bom sabão que lhe passei, conversamos sobre outros assuntos sérios, mas uma coisa estava me corroendo de curiosidade. Não resisti e voltei à tal teoria da Annulation (que me fez lembrar do Rebolation do Carnaval passado – quanto tempo ainda resistiria tocando?).

– Saci, só me diga mais uma coisinha! Por que você inventou um nome tão complicado para um “cientista e comunicólogo”?

– Ah! Chefe! sabe que esses nomes estrangeiros sempre pegam bem pra caramba!… Veja como é lindão ouvir “a publicação tem qualis A1”; “ele estudou em Havard”, “ela publicou vários papers enquanto fazia um pos-doc em Stanford”; “sua formação foi no “emiaiti” [MIT]…

Não me aguentei com o pilantra. Dei-lhe as costas para que ele não me visse prendendo, a todo custo, uma escandalosa gargalhada.

Senhor da situação, percebendo que agradava, não tardou em dar o tiro de misericórdia:

– Imagine,   chefe, se em vez do tal Dr. J. Hand Little Blitz No-Phia Pravda eu tivesse chamado o cientista de Fessô Jãozinho Mão Ligeira Nunca Fala a Vedade, você acreditaria no cara, acreditaria? E em mim?

———

Quanto ao link que ele fez com a publicação do Pe. Manuel da Costa, para dar mais veracidade àquela história mirabolante, acabei me passando de lhe perguntar por que havia escolhido logo aquela.

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