– A Invasão Holandesa

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

Há 187 anos, neste mesmo dia 2 de julho, os baianos, além de outros brasileiros (e até alguns estrangeiros também), botaram as tropas portuguesas para correr. Estava no comando luso, o brigadeiro Ignácio Luiz Madeira de Mello. Esta data é o marco definitivo da separação do Brasil da Corte de Portugal.

Décadas atrás, em Caetité, comemorávamos com grande entusiasmo a referida data magna da Bahia. Desfiles, cavalhadas e discursos eloquentes enchiam de prazer os nossos olhos e ouvidos. No trajeto do cortejo, que compreendia a Rua Barão de Caetité, a Praça da Catedral e a Rua Dois de Julho, via-se a receptividade dos moradores, através das belas e ornadas toalhas de mesa, que decoravam janelas e sacadas.

Era a oportunidade para que alguns manifestassem sua eloquência e teatralidade artística. De púlpitos improvisados, surgiam declamadores arrebatados, admiradores do Poeta dos Escravos:

Era no dous de julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia…
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
Neste lençol tão largo, tão extenso,
Como um pedaço roto do infinito…
O mundo perguntava erguendo um grito:
Qual dos gigantes morto rolará?!…”

Da mesma forma que no interior baiano, o Dois de Julho em Salvador não passava e não passa em brancas nuvens, mas já em proporções sobremaneiramente ampliadas.

A celebração cívica, além do povo, traz também os sorridentes políticos de plantão às vias públicas. Eles têm toda a longa extensão, que vai do Largo da Lapinha ao Terreiro de Jesus, para exibirem seus melhores sorrisos sintéticos. E o fazem sem a menor cerimônia. Muitos deles, despudoradamente, ainda acrescentam afetados apertos de mão, e outros afagos, a potenciais eleitores, que imprudentemente se colocam na linha de mirada dos seus olhos de águia…

A partir de hoje, a data do Dois de Julho não será apenas lembrada pelos baianos. Doravante, será recordada, da mesma forma, pelos holandeses. Mais de três séculos atrás, eles, que se fizeram acompanhar pelo príncipe João Maurício de Nassau, no que a História registra como Invasão Holandesa no Brasil, tendo a Bahia e Pernambuco como palco de memorável resistência, conheceram a mão forte dos baianos e pernambucanos, entre outros brasileiros, nos idos de 1654, portanto, 169 anos antes da expulsão de Madeira de Mello.

Só que, dessa vez, os brasileiros também conheceram os pés fortes dos holandeses. Apenas 11 homens no campo de batalha do Campeonato Mundial de Futebol de 2010, na África do Sul, fizeram o serviço completo – o famoso “mata-mata” -, em noventa minutos, contra outros onze, e, mais tarde, dez. Nada de navios de guerra, de espadas, de canhões. Só bola, chuteira, rede, gramado e trave, conforme determinação da misteriosa Federação Internacional de Futebol (FIFA), ao som de ensurdecedoras vuvuzelas. De quebra, um árbitro e dois auxiliares para controlar o excesso de entusiasmo dos soldados, participantes do certame, pelas canelas alheias.

No final dessa luta de vida ou morte, ocorrida na terra de Nelson Mandela, felizmente sem óbitos, mas com muitos feridos no seu amor próprio, os laranjas, como são chamados os gladiadores holandeses, lavaram a honra do príncipe Maurício de Nassau, expulsando impiedosamente os recrutas brasileiros do continente africano.

O olhar de lince do meu amigo de gorro vermelho e pito facultou-lhe enxergar um belo capricho da História. Enquanto na data de 2 de julho de 1823 os portugueses são expulsos do Brasil, comandados pelo brigadeiro Ignácio Luiz Madeira de Mello, 187 anos depois os jogadores da “seleção canarinha”, como são conhecidos os soldados brasileiros, saboreiam – a contragosto – o mesmo gostinho de uma expulsão das terras de outrem. Quem os comanda é mais conhecido pelo cognome de Dunga, alcunha este extraído de uma História de Contos de Fada, mas seu verdadeiro nome de batismo é Carlos Caetano Bledorn Verri. Contos de Fada à parte, o país de Dunga tem por comandante maior o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Assim, numa prova do ENEM, é salutar que o estudante distinga “Ignácio Luiz” de “Luiz Inácio”, pois enquanto os baianos expulsaram o primeiro do solo brasileiro, os holandeses botaram para correr, do continente africano, a seleção do país do segundo. E ambas as expulsões ocorreram na mesma data: Dois de Julho. Neste dia, o Sol resolveu brilhar mais para os filhos dos Países Baixos.

Como dizem os mais jovens, desta vez a Invasão Holandesa emplacou. Emplacou e deixou o país de Cacá – um dos seus mais bem pagos soldados -, mergulhado em um oceano de lágrimas ressentidas e abarrotado de bugigangas verde-amarelas por vender.

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