• A morte do Magnífico Elegance

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Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

No primeiro dia do ano, data da Confraternização Universal, escrevi, melancólico, algumas linhas sobre o passamento de um amigo ambulante. Não era propriamente uma homenagem dedicada a ele, mas, antes, uma espécie de desabafo a mim mesmo, ou um lembrete de um ser-sendo-para-a-morte em permanente angústia. Enquanto espoucavam os foguetes retardatários do réveillon, eu cismava sobre a fugacidade da espuma do champanhe, que a espessa borda do copo de extrato de tomate teimava em surrupiar a elegância. Aquela borda era como a notícia da morte de alguém conhecido. Simplesmente tirava os bons augúrios daquele ano novinho em folha que se despontava.

Quantas vezes o meu amigo teria ouvido dos seus fregueses – exatamente há trezentos e sessenta e cinco dias – o solene desejo de Feliz Ano Novo? Quantas vezes ele teria escutado esses votos? Vinte e cinco, trinta e uma? Teria eu assim também me manifestado para ele um ano atrás? Por mais que me esforçasse para lembrar de alguma coisa, os pensamentos não achavam qualquer correspondência imagética, a não ser com a sua figura diluída e sorridente, como a me advertir que a vida é breve para uns e inexoravelmente brevíssima para outros.

Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris (Lembra-te, homem, que és pó e ao pó retornarás)! – recuperei a imagem sonora da sentença ouvida da boca do próprio falecido, meses antes, no original da língua de Quintus Horatius.

***

De lá para cá, mais de três meses já fluíram na grande ampulheta do tempo. Hoje cedo, eu me deparei com os meus escritos, no espremido espaço de uma antiga convocação para uma reunião de condomínio (não-comparecida, por absoluta razão de força maior). Enquanto eu tentava decifrar o que havia rabiscado quando soube do acontecido com Elegance, vi o Saci rodopiar pela janela a dentro. O moleque acabou demorando mais do que de costume num papo-cabeça. Foi aí que eu lhe mostrei o que havia escrito por ocasião da morte do finado amigo. Falei-lhe sobre a condição trágica do seu falecimento e da minha admiração pelas suas tiradas inteligentes e sensíveis.

Ele, então, me sugeriu resgatá-las da memória e, aos poucos, ir tentando costurar toda a sua curiosa filosofia de vida, pois ainda que Elegance fosse um homem pobre de posses materiais, era rico, muito rico de espírito. Achei a sugestão muitíssimo pertinente e até pensei que seria bastante prudente acatá-la.

Pareceu-me óbvio que, com uma única cenoura, eu pudesse alimentar dois coelhos, já que, além de enriquecer os meus textos com citações de outrem, como é de bom tom na academia, ao mesmo tempo, eu não incorreria ao risco de me apoiar nas idéias de alguém que, a qualquer momento e em consonância com conveniências pessoais, pudesse virar a casaca.

Para conseguir imaginar o vexame de uma situação dessas, é só pensar na hipótese de um admirador ter citado o sociólogo do nhem-nhem-nhem e, logo após, o ex-presidente ter pedido ao mundo para esquecer tudo o que ele dissera e escrevera. Certamente, faltaria ao infortunado feagacista o chão epistemológico. Foi aí que eu percebi a razão de a simpática Profa. Marilena Chauí, por quem tenho o maior respeito e admiração, só citar os seus colegas Espinosa e Merleau-Ponty, filósofos como ela, quando, eventualmente, tem por intuito fazer a defesa do governo do presidente Lula, pois eles já estão mortinhos da silva e não vão dar a menor bola para o imprudente socorro retórico, ainda que seus nomes sejam evocados. Os mortos não falam e não cobram absolutamente nada. É a dura Lei da Morte.

Mas eu falava de Elegance. Provavelmente, nenhum sino dobrou por ele. Pessoalmente, só soube do ocorrido depois do Natal. Já fazia um bom tempo que não o via. Foram seus colegas fruteiros que me deram a triste notícia.

– Elegance descansou! – um deles me disse, quando perguntei por ele. Parece que percebeu o quanto a notícia me abalara. Além de perplexo, fiquei um tanto irritado com o eufemismo. Se uma coisa que Elegance não pretendia era descansar tão cedo. Pelo menos nunca deixou transparecer nas conversas que tivemos.

Um outro tentou ser pragmático, dizendo-me que a morte era a única coisa certa da vida.

– Bolas, até aí morreu Neves! – pensei com os meus botões. Coisa mais boba esse chavão ridículo. Tão idiota quanto aquele que diz que “ninguém morre na véspera”. Obvio e inútil! Puro bolodoro…

Quis saber de mais detalhes, porém eles não tinham muito para dizer. Souberam, através de uma vizinha do falecido, quase duas semanas depois do acidente. O ocorrido foi na véspera do seu aniversário, num local próximo da Feira de São Joaquim. Quem estava perto dele, viu quando um carro invadiu o sinal vermelho e o jogou longe, com as compras e tudo. Já caiu sem vida. A velocidade do veículo era tão grande que nem foi possível anotar a placa. Os jornais também não noticiaram nada.

Sem ânimo, paguei as pinhas que mal conseguira escolher e saí meio atônito. A lembrança de Elegance não me saia da cabeça. Afeiçoara-me muito a ele. Continuei caminhando pelo calçadão. Parei para ver os novos títulos de DVDs de um camelô conhecido. Ele percebeu meus olhos marejados e perguntou-me se era conjuntivite. Confirmei e ele me disse que sua sogra ficou três dias com os olhos grudados por conta da incômoda inflamação. Ainda tentou se lembrar do nome do colírio que a velha usara. Agradeci-lhe e tranquilizei-o, dizendo-lhe que já havia marcado um oftalmologista.

Tudo me fazia recordar Elegance. O burburinho dos ambulantes, o cheiro de frutas espalhadas pelo calçadão, o som possante saído da miniatura de caminhão do vendedor de café, a voz nasalada do mercador de “toucas para cabelo”, enfim, toda aquela azáfama característica do Portão da Piedade quebrando com a Junqueira Ayres e adjacências. Dali, pais e mães de família tiravam o seu sustento. Alguns deles viviam em permanente estado de apreensão, pois se bobeassem suas mercadorias eram apreendidas pelos rapas.

Elegance era um daqueles vendedores de fruta que faziam girar a roda da economia dita informal baiana. Seu verdadeiro nome era Leuteciano, mas poucas pessoas o chamaram assim um dia. O fato de ele tratar a todos por “elegance“, acabou fazendo voltar para si próprio a amável denominação. Pegou. E com picardia ele se apresentava para os estranhos: “Elegance, seu criado!” Segundo os mais antigos, em outros tempos, quando se tratava do sexo feminino, ele costumava, ainda, acrescentar um genérico “Enchanté, madame!” Isso independente de idade e formosura, acompanhado de exagerado cumprimento, daqueles vistos apenas nas quadrilhas juninas ou nos filmes antigos de espadachins franceses.

Já havia algum tempo que eu era um de seus fregueses. Não me lembro exatamente quando aconteceu, mas sei as circunstâncias da minha admiração por ele. Tudo começou quando comprei uns abacates em sua mão. Dias depois, verifiquei que os ditos cujos não amadureciam. Descobri que havia perdido o meu dinheiro, pois os frutos haviam sido colhidos antes do tempo. Semanas mais tarde, comentei com ele sobre o meu desacerto. Ele não titubeou. Foi logo me dizendo que, quando trouxesse mais abacates para vender, eu poderia escolher outros, para não sair no prejuízo.

Dito e cumprido. Dias depois, ao passar atarantado próximo de seu tabuleiro, senti quando ele me segurou no ombro e entregou-me quatro baitas abacates. Agradeci-lhe pela atenção, mas não ia para casa naquele momento. Estava indo para o lançamento do livro de um amigo meu. Como estava de buzu, ia pegar mal eu chegar, num lugar de gente tão chique, com aqueles abacates enormes, num saco de supermercado.

Por várias vezes Elegance tentou me ressarcir do prejuízo e eu repetia o que lhe dissera anteriormente: não estava indo para casa naquele momento. Acabei capitulando, depois de algumas de suas investidas, dias depois. Pude, enfim, saborear os deliciosos frutos que me dera em reposição aos encruados.

Depois disso, fomos nos aproximando e nos abrindo um pouco, um para o outro. Ele passou a me chamar de “fessor” e começou a guardar para mim tudo o que os jornais publicavam sobre a UFBA e as questões sindicais docentes. Uma das suas freguesas “baronas”, como ele dizia, o abastecia dos principais jornais do país. Velhos e semi-lidos, evidentemente. Ela era gente “graúda”, segundo ele.

Quando eu saía para comprar frutas e o procurava, quase sempre ele me entregava o fruto de sua clipagem espontânea e não remunerada. Só depois descobri que o clipping era apenas um pretexto para conversar fiado. Algumas vezes, a impressão que eu tinha era que ele me olhava com um ar de curiosidade, como que para ter certeza se de fato eu era também membro daquela estranha confraria dos vinte ou trinta por cento restantes de brasileiros que não assinavam um cheque em branco para o governo. Desconfiado no início, aos poucos foi se abrindo até escancarar-se todo. Descia o malho em quase todos os políticos. Recorrentemente, dizia que os demagogos agiam como pegadores de pássaros. Que imitavam os seus cantos e os seduziam com pedaços de frutos suculentos até atingir seus infames objetivos.

Ao escrever essas palavras sobre a convivência que tive com Elegance e ao dar-me conta da perda do seu convívio, um turbilhão de pensamentos acorre-me. A começar pela constatação da minha ignorância sobre o meu amigo fruteiro. São muitas as lacunas que ficaram sobre a sua vida. Nunca vou me perdoar por não ter lhe perguntado mais sobre ele próprio. É sempre assim. Depois da perda, o arrependimento. Talvez ele mesmo nem quisesse falar sobre si mesmo. O fato é que nunca lhe perguntei sobre suas andanças pelo mundo, nem sobre suas histórias vividas. Doravante, seria aquela personagem misteriosa e para sempre inacessível.

De agora em diante, eu só poderia fazer suposições e, no máximo, tentar descobrir de que barro teria sido moldado o seu caráter, quais as circunstâncias que o fizeram assim como era e não como poderia ter sido e por aí vai. Da sua vida, o pouco que sabia era sobre sua origem ribeirinha. Numa das nossas conversas, mencionou sua infância vivida numa localidade banhada pelo rio São Francisco, próxima da Serra do Ramalho e do seu batismo na gruta de Bom Jesus da Lapa, numa festa de romaria. Ainda jovem, viveu em cidades do Recôncavo baiano onde ficou sabendo que a data do seu aniversário era a mesma do dia de Iansã. Desde então, a tomou como sua protetora e considerava-se protegido dos ventos, raios e tempestades. Mas, para não abusar, dizia sorrindo, evitava tomar banho quente, pegar em tesoura em dia de trovoada e morar em encostas. Para ele, cometer qualquer uma dessas imprudências era tripudiar da divindade.

Nunca me ocorreu lhe perguntar sobre a sua escolaridade, mas pensando sobre o assunto, suponho que tenha cursado as últimas séries do antigo ginásio e, quem sabe, até mesmo o clássico ou científico, dada a profundidade dos assuntos que abordava e o nível de conversa que mantinha. De quando em vez em deixava escapar uma frase em latim. Teria sido ele coroinha?

Uma das coisas de que mais se orgulhava era de sua vista. Gabava-se de ter lido muitos romances de letras miúdas – e continuar lendo ainda – sem precisar de óculos. Pelo visto, tivera, quando jovem, contato com pessoas de hábitos de leitura. A riqueza dos seus comentários sobre a política, e assuntos mais filosóficos, estava muito além do que se podia esperar de alguém que sempre tivera necessidade de batalhar arduamente, com trabalho pesado de verdade, para tirar do cotidiano o seu sustento. Ao fazer uma retrospectiva sobre o que conversávamos, nos breves encontros que tivemos nesses últimos anos, chego à conclusão do quanto ele era perspicaz, crítico e, sobretudo, gozador. Sempre o achei com um quê de uma figuraça que atendia pelo nome de Nozim, de lá para as bandas do meu sertão, no centro-sul baiano, outro filósofo nato ( já mencionado por mim, num dos meus escritos sobre Anísio Teixeira).

Mais recentemente, toda vez que Elegance me via, tinha que perguntar pela Universidade Nova ou sobre o meu sindicato. Eu já javia conversado longamente com ele sobre ambos. Com ar aparentemente cândido, sutilmente debochava, misturando tudo:

– E aí fessor? E essa Universidade Nova, vai ser nova mesmo, ou é só o jaleco que é novo? – E o dinheiro desse tal note-sei-lá-o-quê, (referia-se ao notebook do BI), é cortesia das privadas ou será patrocinado pelas multinacionais? – E o salário do pessoal terceirizado da limpeza, vai sair até o ano que vem? (Sobre isso os jornais não noticiaram nada, que eu saiba. Provavelmente alguém da UFBA contou para ele o “pão amassado pelo diabo” que os trabalhadores terceirizados estavam comendo, com seus salários atrasados). Outras vezes, me perguntava se todo pobre teria mesmo acesso à universidade pública ou se aquilo só era degrau para alguns dirigentes galgarem Brasília.

Toda vez que isso acontecia, eu sentia o rubor tomar conta do meu rosto. Aquilo me desconsertava. Achava que o tom dele me colocava numa saia justa. A impressão que eu tinha era que os passantes, ao nosso redor, olhavam para mim como se eu fizesse parte de um complô para engambelar o povo. Dentro do possível, eu tentava manter um ar de gozação e, às vezes, até me defendia dizendo que não tinha nenhuma responsabilidade com aquela proposta, que aquilo simplesmente fora imposto a partir das instâncias superiores, que não havia consenso entre professores e funcionários sobre o proposto; que a comunidade estudantil havia rejeitado com grande veemência aquela aventura, cujo principal malefício para a Universidade Pública era a perda de autonomia (no caso do REUNI), além de outros ligados à formação profissional dos universitários (quanto ao BI). Ao perceber a minha aflição ele descontraia o ambiente com uma aguda gargalhada. E logo me acudia com pândegas arrelientas.

– Boca de forno! – Forno! Tirar de um bolo! – Bolo! Farão tudo que o mestre mandar? – Faremos todos! – E se não fizerem? – Ganharemos bolo… Ora, ora professor! Estou só pilheriando com o senhor…

Conquanto houvesse aquela bem-humorada tirada, ainda assim, eu me perguntava que imagem a população (sem plano de saúde privado) tinha da Universidade Pública. Nos últimos tempos, quase tudo o que se fala sobre ela tem, de alguma forma, um link com a Universidade Nova. Curioso é que, pelos cargos que ocupam, os mascates desse projeto de reestruturação da Universidade têm espaço garantido nos meios de comunicação. Por conta disso, o que dizem passa a ser a única verdade, reforçada pela mídia ávida de manchetes e chamadas motivadoras de vendas, de ibope e de grandes tiragens, tendo o alto faturamento como um simples corolário.

Que o leitor me perdoe o alongar do texto, mas a lembrança de Elegance me estimula a refletir como se ainda estivesse a dialogar com ele e a prosseguir desta maneira:

Assim, como certos sabonetes e iogurtes não são vendidos sozinhos, pelas suas limitadas ou modestas qualidades intrínsecas, necessitando, por isso mesmo, de rostinhos bonitos ou de corpos sarados, de preferência de astros famosos, para fazê-los conhecidos, aceitos, interiorizados e consumidos, também certos projetos da esfera pública vão recorrer ao artifício do testemunhal. Só que, nesse caso, não se usa mais argumentos estéticos, mas sim, intelectuais ou científicos. (Alguém ainda se recorda da visita dos ilustres Boaventura Santos e Michel Maffesoli ao Palácio da Reitoria? E da engajada Danielle Mitterand, só para citar a presença de alguns dos ilustres visitantes? O que aqui vieram fazer, além de partilhar seus encantadores saberes e prestígios? Alguém poderia me responder, já que não poderei mais contar com o agora insondável Elegance?).

Vale, para essa situação, também a autoridade de quem escreveu mais livros (ainda que obras alheias ao proposto), cursou em universidade do exterior e publicou artigos em revistas estrangeiras (de preferência em outro idioma que não o Português). Assim, as “verdades” desses arautos do paraíso de papel ganham o status da racionalidade sagrada e inquestionável. Magister dixit! Uma verdadeira atualização da alegoria de Zaratustra descendo do “Monte Harvard” para inundar de luz a mitológica caverna platônica das pobres criaturas acorrentadas e mergulhadas no mundo das sombras…

Vixe, leitor, me perdoe. Aqui abro outro parêntese. Acabei me empolgando e quase me esqueci de Elegance. A bem da verdade, talvez até achasse que eu havia pirado, se de repente eu tivesse descarregado, para ele, todas essas coisas a um só tempo, como o faço neste momento, não obstante ele ter uma inteligência aguda e paciente – igual a sua, caro leitor que chegou até aqui – e gostar de prosear sobre tudo… Quem está com a palavra, como eu estou agora, sempre tende a usá-la conforme o interesse que tem em demonstrar seus próprios pontos de vista, esquecendo, às vezes, que há uma realidade objetiva, o tempo todo acenando indicialmente lá fora, como que dizendo “Ei, olhe eu aqui, eu também existo, ainda que não cogite disso”. Volto, pois, ao meu amigo falecido.

Há pouco mais de um ano, nas proximidades do Natal, falávamos da correria das pessoas, empenhadas em comprar presentes. Ele então me segredou que, no mês de dezembro, sempre ganhava muita coisa. Menos pelo seu aniversário e mais pela comemoração do nascimento do Menino Jesus. De um modo geral, parecia que as pessoas ficavam com o coração amolecido. Aquele era o mês de algumas almas piedosas e tementes a Deus conferirem, nos seus abarrotados armários, os produtos de validade por vencer ou vencida e doarem generosamente aos pobres. Ele mesmo recebia muitas doações. Algumas delas estranhíssimas. De cuias repletas de cascas de queijo do reino – vermelhinhas como flor de onze-horas (Portulaca grandiflora) – isso ocorrendo incondicionalmente após as noites de Natal e Réveillon – , até brinquedos quebrados para os netinhos que ele nunca tivera, passando por pés solteiros de meias femininas e pesados cobertores de lã, além de gorros de pelo de foca que pareciam querer esconjurar o verão de Salvador…

Seus causos eram tão maravilhosos quanto as suas teorias. Tinha aquela sobre a eficácia de certos diagnósticos da presença de mais ou menos-valia, como costumava dizer, a partir do lixo e de outros dejetos produzidos por pobres e ricos, estendendo o conceito a países e blocos econômicos, que certamente muitos pesquisadores jamais topariam botar a mão na massa… E tinha aquela sua tese sobre a luta de classes escancarada na simples escolha do pedaço de chão para a última morada. Aqui em Salvador, por exemplo, dizia ele, o simples exame do necrológio de cada jornal diário, permite distinguir de que matéria era feito o apito que o falecido tocava: se de platina, de ouro, de prata ou de flandre, para fazer alusão aos que eram sepultados no Cemitério do Campo Santo, no Jardim da Saudade, no Campo da Paz ou na Quinta dos Lázaros. E para completar, com ar debochado, dizia que, no Juízo Final, Deus ia ter uma trabalheira dos diabos para separar o joio do trigo… De qualquer forma, completava ele, se Deus é Amor como dizem, será que nos deixaria de acolher e amar se não pagássemos o dízimo? A lógica divina seria a mesma do Leão do Imposto de Renda?

Essas e muitas outras conversas que tivemos, me fizeram aproximar daquela figura maravilhosa e divertida. Dentro do possível, tentarei vasculhar na memória mais algumas delas, daqui para a frente, em outros textos futuros…

Se, por um lado, as lembranças dos papos que bati com Elegance me obrigam a reconhecer sua inteligência e perspicácia, por outro, malgradamente, me fazem descortinar a imobilidade de um mundo em permanente movimento. Agora que seu corpo jaz encarcerado em um caixão barato a espera de ser reduzido à condição primeira de pó – moléculas e átomos -, reporto-me às suas palavras pronunciadas em tom pessimista que tento, de memória, reproduzir abaixo:

– Meu caro professor, o senhor sabe, melhor do que eu, que a marca mais forte do mundo é a instabilidade. Não é à-toa que o nosso planeta fica solto no espaço girando, girando. Daqui, tudo parece imóvel; ninguém suspeita, à primeira vista, que as montanhas se esvaem pelo sopro dos séculos e que a carícia dos ventos transforma os duros rochedos em delicadas partículas de areia. Entretanto, professor, algumas coisas parecem resistir à ação do tempo e parecem admiravelmente estáticas. Seria o movimento apenas uma ilusão, professor?

E Assim perguntou Elegance. Uma, duas, três, muitas vezes!

***

De repente uma idéia assalta-me à consciência: seria Elegance um conservador, um imobilista, um fatalista? Teria ele, ainda que com alguns laivos de rebeldia, bebido valores culturais deterministas para os quais Deus joga pôquer, mas conhece previamente as cartas?

***

Há pouco conversei, por telefone, com uma colega da faculdade. Ela me falava da reação de um taxista ao ler, ontem, a manchete do Jornal A Tarde sobre o fim do vestibular. Foi taxativo:

– Esse Reitor da UFBA adora inventar novidade! A cidade não fala de outra coisa.

Fizemos algumas ponderações sobre a fala do taxista e da expectativa geral dos estudantes sobre a nova medida, sobre o BI, sobre a insegurança dos campi da UFBA, sobre a resistência que temos em relação a algumas mudanças, sobre as dores (das juntas) que os anos trazem e sobre a importância do Marketing no sucesso das vendas e dos serviços.

Ao desligar o telefone, continuei pensando na frase do taxista. Lembrei-me da Emilia lobatiana que adorava também inventar. Pensei no Saci que saiu de fininho. Senti-me só. Considerei o quão misterioso é o mundo. O que de fato a gente sabe dele? A mim, me parece que nada sei.

Com esses pensamentos e incertezas, inclinei-me a desejar que, se houver vida após a morte, que a Universidade Nova encontre, o mais rápido possível, um lugar de descanso, de refrigério, de luz e de paz; e que o Magnífico Elegance possa me perdoar por ter duvidado dele.

Amém.

2 Respostas to “• A morte do Magnífico Elegance”

  1. Maria Inês Marques Says:

    Mena… já está ficando redundante dizer que és brilhante!!
    Bota o morto para falar!!!!

    Beijo
    MI

  2. Assim falou o Saci: “Pobre Univelha!” « Osaciperere’s Blog Says:

    […] Velocidade das trevas! – diria o Magnífico Elegance… […]

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