• A UFBA não negará fogo!

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

Concordei com o Saci. De fato, a UFBA não negará fogo. Apesar de todos os percalços que a nossa cara Universidade atravessa, ela não negocia a liberdade e o direito de cada professor se expressar segundo suas convicções. Claro que ela tem seus conflitos, brabões por sinal, mas certos princípios ela não abre mão. A rejeição à última Bula Proibitória expedida pelo colendo presidente da APUB, ilustra bem isso.

Inúmeros professores já se posicionaram contrários ao infeliz gesto do dirigente sindical e cientista político e a lista de contribuições sobre o assunto vai aumentando a cada dia (VEJA). Até mesmo professores que não têm por hábito o diálogo virtual se manifestaram. Como se pode constatar, são falas serenas, ponderadas, reflexivas, que se manifestam preocupadas com o retrocesso perpetrado pela APUB, seção sindical com uma bela história de lutas em prol da liberdade e da democracia, criada justamente no pior período enfrentado pelo povo brasileiro, período esse patrocinado pela ditadura militar, em que prisões arbitrárias, torturas e mortes tingiram de sangue as páginas da nossa História.

Recentemente, ouvi de um colega, professor aposentado da UFBA, que a impressão que se tinha era a de  que o governo Lula havia enterrado uma caveira de burro num dos nossos campi, e que, desde a posse presidencial em 2003, no seu primeiro mandato, a UFBA não vinha sendo mais a mesma. Que todo tipo de azar havia ocorrido desde então. Aliás, bem diferente do que estava acontecendo nas instituições financeiras pelo Brasil afora, segundo o referido professor aposentado.

Não sou do tipo que se deixa impressionar  por crendices aziagas, como encosto, mau olhado, possessões malignas ou coisa do gênero. O único espírito que acredito é o Espírito de Porco, cuja ilustração melhor, acaba sendo o pestinha do Saci.  Ainda assim, não pude deixar de elencar, de memória, alguns infaustos acontecimentos. De fato, a partir de Lula, até as Assembléias do nosso sindicato passaram a minguar de participação, coisa que, outrora, nunca ocorreu. Lembro-me dos embates travados em oposição aos atentados de FHC contra a Universidade Pública, das greves e do envolvimento de um grande número de docentes, estudantes e servidores técnico-administrativos em defesa do que julgávamos ser o bem comum. Num dos vídeos que fiz sobre o Prof. Felippe Serpa, ex-reitor da UFBA e posteriormente do quadro da diretoria da APUB, ele chega a afirmar categórico que a Universidade Pública ainda estava de pé por conta da resistência heroica dos servidores públicos e estudantes, através das greves e movimentos de resistência, tanto em favor da educação pública e suas demandas por qualidade, quanto da autonomia universitária.

Quando olho para trás, não posso deixar de indagar, a mim mesmo, o que foi feito do ânimo dos nossos colegas, do ânimo dos estudantes e do ânimo dos servidores técnico-administrativos. Seria tudo aquilo fruto da condução de uma má estrela?

Li, na Revista Carta Capital  (de 23/12/2009, p. 70), um texto sobre a esquerda de mão atada, no qual constata que “O povo chileno, um dos mais politizados até a era de Allende, tornou-se um dos mais passivos”. Não tive como fugir à tentação de comparar o que li  com o quebrantamento do povo brasileiro e, em particular, a prostração da comunidade da UFBA.

Seriam ventos da má sorte e de sortilégios malfazejos com o propósito de testar a nossa tenacidade e espírito de luta? Teriam aquelas provações endiabradas se materializado em incêndio, como ocorreu no Instituto de Química, em escândalo, qual o do jaleco branco, em espancamentos de estudantes, como o que assistimos no Palácio da Reitoria, ou no sepultamento da Estatuinte, conforme vimos recentemente ao findar o ano de 2009 – citando apenas alguns poucos dos muitos azares, para não cansar o leitor? Até as árvores, normalmente quietinhas no seu canto, que  se limitam apenas a balouçar suas verdes copas, acharam de cair! Sinceramente, leitor, tudo isso não é muito estranho?

Em compensação, apesar do que alguns chamam de maré de azar, que pessoalmente não acredito, eis que uma luz surge bem no finzinho do porão sombrio. Confiante no seu poder de corte, o presidente do sindicato dos professores e cientista político, numa cartada infeliz,  tenta brandir a tesoura vil para calar as vozes dos que ousam ponderar criticamente contra ações equivocadas do trio presidencial (os colendos presidentes da República, do Consuni e da APUB). Julgando seus pares cordeirinhos amestrados e dóceis, ou, ainda, julgando-se autoridade religiosa do medievo, eis que o insigne dirigente expede normatização discricionária bem aos moldes clássicos repressores  e em sintonia com o que o presidente da República criou como estratagema para cercear a liberdade de expressão no país, eufemisticamente denominado de Plano Nacional dos Direitos Humanos (PNDH).

Pois é essa luz bruxuleante no fim do túnel,  de chama quase tímida – perceptível apenas através da manifestação de alguns docentes -, que nos dá alento para acreditar que  a vocação da UFBA é mesmo a de pensar, inquirir, refletir, problematizar, exercer o pensamento crítico e questionar o que os sentidos frouxos e os discursos falaciosos nos fazem enxergar, às vezes, como legítimo e verdadeiro. É essa luz que nos encoraja a ousar pensar ou saber  (sapere aude!) que o cenário não está totalmente dominado pelos “vendilhões da Universidade Pública”, nas palavras ora sérias, ora arrelientas do pândego Saci. Aquela chama me estimulou a cantar e a escrever como Chico: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia…”

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Eu me considerava um felizardo por ter conseguido encerrar o presente texto  com um verso do autor de “Apesar de Você”. O sogro de Carlinhos Braun (Brown) era – e continua sendo – um timbaleiro de palavras como poucos. Mas eis que, de repente, surge um probleminha. No exato momento em que eu ia clicar na palavra “publicar”, o pilantra do Saci me chega com algo escrito num taco de papel higiênico.

 Com um enorme esforço, eu consegui ler seus garranchos:

“Acrescente aí, para finalizar, chefe: Que o presidente atual da APUB não se iluda em pensar que  a UFBA é apenas o núcleo duro hegemônico –  que atualmente dá as cartas!… Que saiba, também,  que ela tem outros rizomas capazes de nutri-la com a seiva da LIBERDADE. E tem mais: que nunca, mas nunquinha mesmo, o preclaro cientista político queira confundir uma medalhinha à-toa com um escudo, embora ambos os objetos tenham o mesmo formato!”

 

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Pensei duas vezes se deveria ou não publicar aquilo que o Saci escrevera. Afinal, o ardor com que aquele capetinha defendia a Universidade Federal da Bahia, que lhe era tão cara, poderia parecer uma provocação ao premiado presidente, agora, talvez, com as costas mais largas do que nunca.

Decorrido algum tempo , depois de ter processados uns raciocínios básicos, capitulei em nome da liberdade de expressão. Se havia alguém como censor naquela história, certamente não seria euzinho aqui. E depois, quem poderia afirmar que a pequena contribuição do pilantra, em forma de texto, estava totalmente desprovida de nexo, de sentido?…  Quem?

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