• A velhinha da Praça da Alegria

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

Decididamente, eu morro de medo da palavra truncada. Não sei se o tempo chuvoso contribuiu para a má audição, mas o certo é que, daqui pra frente, nunca mais vou pedir ao Saci para anotar recados por telefone. Você sabe quando a gente lê mil vezes uma coisa e não entender patavina? Foi o que aconteceu comigo. Achei que estava pirando. Ou ficando mais limitado do que sou. Felizmente, veio em meu auxílio um e-mail de um amigo e tudo ficou esclarecido.

Depois do sufoco, dei boas gargalhadas para dentro, é claro. Não queria escabrear o meu amigo Saci. Afinal, ele se esforçou tanto para anotar tudo, tim-tim por tim-tim!

Vou contar essa história agora. Sei que não corro o risco de melindrar o moleque, pois ele vive dizendo que não lê os meus textos, porque são longos demais. Ainda bem. Afinal, o texto grande ainda tem alguma utilidade…

A coisa aconteceu mais ou menos assim:

Meu celular tocou e a pessoa do outro lado se identificou como sendo a secretária de um deputado meu conhecido. Emocionei-me. Afinal, não é todo dia que um deputado liga para um eleitor. Principalmente se já foi eleito.

Nesse exato momento, o telefone fixo toca também. Senti-me importante. Era uma colega da Faculdade. Para não ser indelicado, pedido-lhe que ligasse depois, resolvi ocupar o prestimoso Saci. Ele já estava com caneta e papel na mão. Cochichou-me que anotaria o recado. Surpreendi-me com a sua agilidade. Pensei o quão é bom ter um secretário ou uma secretária.

Concentrei-me na ligação do deputado. Aliás, não era bem ele. Quem falava era sua secretária, mas em seu nome. O que era quase a mesma coisa. Segundo ela, meu nome constava na lista de amigos do nobre deputado. Este, por sinal, estava necessitando de doadores de sangue do tipo “O” positivo, para um seu parente que ia se submeter a uma cirurgia. Lembrara, então, deste modesto eleitor que vos escreve…

Mas isso não tem a menor importância. Não escrevo essas coisas para me gabar. O que quero contar mesmo é que o meu amigo Saci anotou tudo bonitinho. Por qualquer motivo, ele precisou sair enquanto eu agradecia a secretária do atencioso deputado.

Assim que desliguei o celular, deparei-me com a seguinte anotação do colaborativo Saci:

Você viu o sábio doando? O Búfalo Bill do cortiço… não, do prolixo do Gula…  está cheio da grama [ou é de lama?]. Aqui na frente, será que ele ainda alisa mais o pé na mala de alma? Veja a avó! Onde é que vão mamar? Viu porque eles odeiam dizer que Cinde, o pato, é pra lucrar?

Ou, antes, pediu uma isca de cimento ao sinistro do praguejamento e ao fusca pobre do convento, criado entre as duas situações que instalaria o benefício antes do presidente do Prolulifes. O percurso ultrapassa os presentes e se tenta em dois mil outros inocentes que dormem imóveis.

Fiquei atônito. Que diabo era aquilo? Sem exagero, devo ter relido aquela coisa umas duzentas vezes. Talvez até mais. Não vou mentir, não, recorri até a um site de tradução na internet. Mas de nada me valeu. As palavras anotadas pelo Saci continuavam sem fazer o menor sentido.

Dois dias depois, calmamente, após dormir um sono reparador, resolvi tentar traduzir a mensagem “sacizesca”. Antes, porém, resolvi ver meus e-mails. Li uma mensagem de um amigo sobre o Proifes. Algo que estava no site do ANDES-SN. Bingo! Voltei ao texto anotado pelo Saci. De repente, tudo ficou muito claro. Claríssimo. Nenhum mistério resiste ao silêncio das quatro da madruga. A coisa foi fluindo, fluindo, como que por milagre. Tudo fazia sentido. Por que a charada depois de matada se torna tão fácil? Como é que eu não saquei antes, aquilo que agora me parecia tão óbvio?

Parou de chover. Até consigo ver umas tímidas estrelinhas no céu. Logo mais, serão expulsas pelo Astro-Rei. Que venha a aurora. Agora posso dar mais um cochilo, até o dia se tornar pleno.

Eu transbordava de contentamento por dentro. Parecia coisa da velhinha da Praça da Alegria. Antes de fechar os olhos, já deitado, ainda li com indizível gosto, pela centésima vez, as anotações sacizescas por mim decifradas:

Você viu no site do Andes? O Gil do Proifes…, não, do Proifes de Lula… está cheio da grana. Daqui pra frente, será que ele ainda pisa o pé numa sala de aula? Veja só! Onde é que vamos parar? Viu, porque eles odeiam dizer que ‘sindicato é pra lutar’?

O Andes pediu um esclarecimento ao ministro do planejamento e a UFCar sobre um convênio firmado entre as duas instituições que estaria beneficiando o presidente do Proifes. O recurso passa de 370 mil em 2008 para 870 mil em 2009.

Mal consegui ler os últimos números. Aos poucos, os objetos do quarto tornaram-se desfocados e diluídos. E eu fui perdendo a consciência das coisas, igualzinho como era antes de eu ter nascido. O sono profundo abduziu-me das estranhezas do mundo. Dormi.

4 Respostas to “• A velhinha da Praça da Alegria”

  1. Mary Aapiraca Says:

    Nenhum mistério resiste ao silêncio das quatro da madruga. Certamenter, é por isso que, com toda a minha insônia, a sônia aparece exatamente às 3h e 59min, e eu continuo embrenhada nos enigmas, consolada por Clarice Lispector que me diz: “- não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. Belíssimo e mais que adequado o seu texto. Boa estratégia para denunciar o que precisa ser denunciado. Parabéns

  2. Cecília de Paula Says:

    E eu continuo com estas estranhezas… do que podemos fazer e como podemos desfazer certas coisas… também não gosto das palavras truncadas. Menos ainda das ações truncadas. Ainda bem que temos o Saci!!! E ainda os que dormem… até perceberem que sindicato é mesmo para lutar… beijo

  3. Conceição Cabral/PA Says:

    Caro Saci, ao ficar sabendo de mais essa, por pouco, também, não perco os sentidos: fui tomada por um sentimento de ódio e desilusão. E me pergunto: até quando teremos força pra lutar contra esse gigante??

  4. osaciperere Says:

    Prezada Conceição,

    Ainda que o golpe seja desanimador, fazendo até aflorar um certo desânimo, é sempre bom lembrar que não há noite eterna. Pelo menos enquanto existir o sol… Caminhemos, sem sobressaltos, mas com a mesma disposição para a luta… Até porque os pés do gigante são de argila quebradiça. Eles passarão… Nós sacizaremos, tomando … de empréstimo o desabafo do poeta…

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