• A versão francesa da Universidade Nova

  

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

Não são poucas as mensagens que tenho recebido de gozadores desocupados pedindo a minha permissão para que libere a ida do Saci à França, como se eu tivesse alguma influência sobre o meu amigo estripulento.

O pau está comendo lá. Parece que o mal que nos aflige também empesteia a pátria de Edgar Morin, de Michel Maffesoli e de Danielle Mitterand. Os franceses estão às voltas com a versão Sarkozy da Universidade Nova ou algo parecido. Ou não será isso? Segundo me disseram, o projeto de reforma lá é um sarcoma da pesada (como o de cá, dirão alguns). Só que a reação deles é mais envolvente. Não estão para brincadeira ao que parece.

Se o ânimo da meninada for o mesmo do tempo de Marat ou o da estudantada do Quartier Latin, em 1968, muitas pedras ainda irão rolar. E quem sabe até cabeças…

Por mim, o Saci que vá. Não faço nenhuma objeção. Pessoalmente acho desnecessário, pois eles, além do baixinho arretado que atende pelo nome de Asterix e do monumental Obelix, ainda têm a poção mágica do sabido druida. Portanto, acho que estão bem guarnecidos. Acho também que a parada deles lá é menos indigesta do que a nossa. Até porque o ventre do país da Marselhesa não gestou o poderoso Cara, esse mesmo que você leitor está pensando, companheiro do camarada Bush e afeto do brother Obama. Nossos percalços são muito maiores do que a Tour Eiffel, acho eu.

É como já disse: se ele quiser ir, que vá, até por solidariedade ao ideário da Revolução Francesa – “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Tudo bem. Mas acho que, aqui, ele pode fazer muito mais. Bem pior do que a guilhotina que a França um dia conheceu, são alguns dos nossos aparelhos sindicais pelegos, correias de transmissão, tão terríveis quanto o garrote vil que infelizes espanhóis, no tempo franquista e noutros, tiveram a desventura de conhecer. Só tem medo quem tem pescoço…

Na verdade, a tal reforma, lá na França, não aconteceu como aqui no Brasil. Não surgiu pela mão de alguns reitores, mas imposta às Universidades pela própria ministra da educação (do Ensino Superior e da Pesquisa) do presidente Nicolas Sarkozy, a loiríssima administradora e ex-deputada Valérie Pécresse.

A reação imediata das Universidades Francesa, segundo li em mídias “arte-nativas”, foi a greve ilimitada. Transcrevo, abaixo, um trecho de uma página do site multilíngüe que faz um apelo internacional e publiciza o imblóglio:

 

“Appel internationa à tous les universitaires

As Universidades Francesas estão em greve ilimitada. A França possuía um serviço público de ensino superior e de pesquisa de qualidade, gozando de independência, de liberdade e de consideração. Em alguns meses, o governo decidiu, brutalmente e sem concertação, destruí-lo e transformá-lo em uma espécie de mercado do conhecimento, da precariedade e do arbitrário.

– Os professores-pesquisadores perdem seus estatutos ; seus horários passam a ser segundo « a vontade do freguês ».

– Os postos estatuários diminuem de maneira drástica para dar lugar a empregos temporários, aleatórios e dependentes.

– Os doutorandos poderão ser licenciados sem motivo nos seis primeiros meses e serão colocados à disposição de empresas sem reconhecimento nem direitos.

– A formação dos professores é saqueada.

– As Universidades, tornadas « autônomas » (de fato, sobretudo, concorrentes e sob contrôle estatal reforçado) e sem orçamento suficiente, ver-se-ão evidentemente dentro em pouco constrangidas a tornar pago o ensino e a se submeter aos agentes financeiros de suas regiões.

– O CNRS é suprimido e transformado em agência de meios distribuídos por tecnocratas.

– Os pesquisadores são avaliados segundo critérios « quantitativos» ineptos e inadaptados, rejeitados por todas as sociedades científicas.

Nós, universitários e pesquisadores de todos os países, reconhecemos nisso medidas burocráticas, venais e perigosas, que se tentou e se tenta impor em outros países. Por essa razão nós somos solidários aos universitários franceses. Se, no país da Enciclopédia, de Voltaire e de Rousseau, da Declaração dos Direitos do Homem, a educação e a pesquisa são reduzidas ao estado de comércio e submetidas à discreção dos poderes, é a liberdade do mundo inteiro que se encontra ameaçada.”

 

Caso queira, pessoalmente, conferir o sítio com sotaque francês, o leitor poderá acessar o endereço:

http://math.univ-lyon1.fr/appel/

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4 Respostas to “• A versão francesa da Universidade Nova”

  1. Maria Inês Marques Says:

    Mena,

    A Cuca avisa que este fato guarda um péssimo presságio…Vai precisar juntar muito super-herói!!
    Viva o Saci!

    Beijo
    MI

  2. Francisco Santana Says:

    Não há dúvida de que nada acontece no mundo que não seja idéia gerada nos porões secretos do G7 ou do Clube de Roma. Antigamente as reuniões do Clube de Roma eram secretas mas como o buxixo começou a ameaçar, então passaram a fazer reuniões oficiais de fachada, inocentes, com resoluções ambíguas e os assuntos escabrosos são decididos em contatos mais secretos ainda. E o Brasil virou a cobaia predileta desses Drs. Franksteins liberais. Qualquer experiência absurda é feita primeiro no Brasil e se ninguém protestar tenta-se reproduzir globalmente. Assim foi o golpe de 64 que passou a se chamar modelo brasileiro. Assim foi a urna eletrônica, que depois de ser imposta no Paraguai, tentaram irradiar para o resto do mundo. Felizmente não deu certo. Os paraguaios devolveram ela, apesar de ser de graça para eles, além de demonstrar pela TV paraguaia como ela era uma arapuca de fraude; A Suprema Corte (se é que se chama assim) alemã já decidiu que urna do tipo brasileira é inconstitucional e ameaça à democracia; dos 50 e tantos estados americanos, 48 já proibiram o uso da urna de tipo brasileira; no estado da Califórnia que é quintal de Bush, entretanto a Diebold, fabricante de 90% das urnas usadas no Brasil e cujo dono é amigo de Bush, é proibida de vender lá, pela justiça de lá, qualquer produto, por causa da tal urna brasileira considerada uma tentativa de fraudar as eleições. Mas os Franksteins não desistem, com o domínio nda mídia e lobbys poderosos no Congresso americano tentam reverter a acachapante derrota. Com a Universidade Nova não foi diferente. Primeiro se experimenta no Brasil (pode-se ter experimentado outro paisinho também) e se ninguém reclamar amplia-se. Espero que tenha o mesmo destinop da urna eletrônica.

    Francisco Santana

  3. Francisco Santana Says:

    Com a globalização do saci, tem um duende Romeno rondando o Brasil, um tal de Andrei Pleshu. Envio a versão de OLavo de Carvalho que me foi enviada pelo economista Ricardo Bergamini:
    Meu amigo Andrei Pleshu, filósofo romeno, resumia: “No Brasil, ninguém tem a obrigação de ser normal.” Se fosse só isso, estaria bem. Esse é o Brasil tolerante, bonachão, que prefere o desleixo moral ao risco da severidade injusta. Mas há no fundo dele um Brasil temível, o Brasil do caos obrigatório, que rejeita a ordem, a clareza e a verdade como se fossem pecados capitais. O Brasil onde ser normal não é só desnecessário: é proibido. O Brasil onde você pode dizer que dois mais dois são cinco, sete ou nove e meio, mas, se diz que são quatro, sente nos olhares em torno o fogo do rancor ou o gelo do desprezo. Sobretudo se insiste que pode provar.(Cavalos mortos, Olavo de Carvalho, O Globo, 17 de Fevereiro de 2001)

  4. Francisco Santana Says:

    Completando

    “O Brasil onde você pode dizer que dois mais dois são cinco, sete ou nove e meio, mas, se diz que são quatro, sente nos olhares em torno o fogo do rancor ou o gelo do desprezo. Sobretudo se insiste que pode provar.”

    Além disso, o moderador do apubdebates imediatamente corta seu e-mail.

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