– Amanda Gurgel para presidente

Para o Saci, numa época em que se assiste a tanta indignidade pelo país afora - mensalões, nepotismos, valerioduto, malaoduto, genuinoduto, cuecoduto, superfaturodutos, oportunodutos, flash-enriquecimentos, só para avivar a memória -, é preciso encorajar os gestos largos da dignidade humana (clique na arte para visualizá-la melhor).

 
Quando o Saci leu a notícia da recusa da premiação pela professora potiguar (aquela mesma professora que há dois meses foi destaque na Web com o seu discurso na Câmara dos deputados no Rio Grande do Norte), ele não contou conversa. Correu para o computador e artifinalizou um cartaz para as eleições de 2014. Mal eu me dei conta do que se tratava a arte e ele já atacava:
 
– Chefia! Isso é inédito! O que tem de gente boa se deixando cooptar, seja na política, seja nas Artes, na Educação, ou no mundo da Cultura de um modo geral, nos obriga a agir rápido. A Prof. Amanda Gurgel é o nome, a radicalidade consciente, a esperança. De cara, as emissoras de rádio e TV, ávidas por audiência e anunciantes, fizeram da moça a bola da vez. Inclusive o Programa do Faustão… E ela estava lá firme e forte em defesa da Educação,  do Trabalhador, da construção de um país digno e justo para todos os brasileiros…
 
Tentei falar alguma coisa, mas ele me interrompeu educadamente.
 
– Minutinho, chefia! Só um minutinho!… Agora é a vez do Pensamento Nacional de Bases Empresariais (PNBE) e do bondoso empresariado quererer fazer farol com o brilho da professora! Pois sim! A resposta dela está à altura da cara-de-pau da organização “mui amiga”!…
 
E, numa velocidade descomunal de aproximadamente 300.000 km/s,  clicou a tecla “enter” e reencaminhou, juntamente com o cartaz de sua autoria, o material que eu havia recebido sobre a professora potiguar – que a net tornou celebridade da noite para o dia! Aliás, com muita justiça!
 
——————————-
 
As Ideias Não Se Matam
Data: 07/07/2011
Autor:
Amanda Gurgel
Nesta segunda, o Pensamento Nacional de Bases Empresariais (PNBE) vai entregar o prêmio “Brasileiros de Valor 2011”. O júri me escolheu, mas, depois de analisar um pouco, decidi recusar o prêmio. Mandei essa carta aí embaixo para a,organização, agradecendo e expondo os motivos pelos quais não iria receber a premiação. Minha luta é outra.Prezado júri do 19º Prêmio PNBE,Recebi comunicado notificando que este júri decidiu conferir-me o prêmio de 2011 na categoria Educador de Valor, “pela relevante posição a favor da dignidade humana e o amor a educação”. A premiação é importante reconhecimento do movimento reivindicativo dos professores, de seu papel central no processo educativo e na vida de nosso país. A dramática situação na qual se encontra hoje a escola brasileira tem acarretado uma inédita desvalorização do trabalho docente. Os salários aviltantes, as péssimas condições de trabalho, as absurdas exigências por parte das secretarias e do Ministério da Educação fazem com que seja cada vez maior o número de professores talentosos que após um curto e angustiante período de exercício da docência exonera-se em busca de melhores condições de vida e trabalho.Embora exista desde 1994 esta é a primeira vez que esse prêmio é destinado a uma professora comprometida com o movimento reivindicativo de sua categoria. Evidenciando suas prioridades, esse mesmo prêmio foi antes de mim destinado à Fundação Bradesco, à Fundação Victor Civita (editora Abril), ao Canal Futura (mantido pela Rede Globo) e a empresários da educação. Em categorias diferentes também foram agraciadas com ele corporações como Banco Itaú, Embraer, Natura Cosméticos, McDonald?s, Brasil Telecon e Casas Bahia, bem como a políticos tradicionais como Fernando Henrique Cardoso, Pedro Simon, Gabriel Chalita e Marina Silva.A minha luta é muito diferente dessas instituições, empresas e personalidades. Minha luta é igual a de milhares de professores da rede pública. É um combate pelo ensino público, gratuito e de qualidade, pela valorização do trabalho docente e para que 10% do Produto Interno Bruto seja destinado imediatamente para a educação. Os pressupostos dessa luta são diametralmente diferentes daqueles que norteiam o PNBE. Entidade empresarial fundada no final da década de 1980, esta manteve sempre seu compromisso com a economia de mercado.

Assim como o movimento dos professores sou contrária à mercantilização do ensino e ao modelo empreendedorista defendido pelo PNBE. A educação não é uma mercadoria, mas um direito inalienável de todo ser humano. Ela não é uma atividade que possa ser gerenciada por meio de um modelo empresarial, mas um bem público que deve ser administrado de modo eficiente e sem perder de vista sua finalidade.

Oponho-me à privatização da educação, às parcerias empresa-escola e às chamadas “organizações da sociedade civil de interesse público” (Oscips), utilizadas para desobrigar o Estado de seu dever para com o ensino público. Defendo que 10% do PIB seja destinado exclusivamente para instituições educacionais estatais e gratuitas. Não quero que nenhum centavo seja dirigido para organizações que se autodenominam amigas ou parceiras da escola, mas que encaram estas apenas como uma oportunidade de marketing ou, simplesmente, de negócios e desoneração fiscal.

Por essa razão, não posso aceitar esse Prêmio. Aceitá-lo significaria renunciar a tudo porque tenho lutado desde 2001, quando ingressei em uma Universidade pública, que era gradativamente privatizada, muito embora somente dez anos depois, por força da internet, a minha voz tenha sido ouvida, ecoando a voz de milhões de trabalhadores e estudantes do Brasil inteiro que hoje compartilham comigo suas angústias históricas. Prefiro, então, recusá-lo e ficar com meus ideais, ao lado de meus companheiros e longe dos empresários da educação.

Saudações,
Professora Amanda Gurgel

Natal, 02 de Julho de 2011

2 Respostas to “– Amanda Gurgel para presidente”

  1. José Tavares-Neto Says:

    Prezado Amigo do Saci,

    Se bem acompanho os escritos e ditos da Profa. AMANDA GURGEL, vai também recusar a idéia proposta pela campanha lançada pelo Saci. Provavelmente, a Combativa Potiguar vai argumentar que sem Reforma Política (séria, qualificada e voltada aos interesses do Povo Brasileiro), não vai pleitear o ingresso na pocilga da atual politicagem brasileira, onde até Collor é amigo e aderente dos outros “sonhadores”, hoje mensaleiros, do início dos anos 90.

    Saudações acadêmicas bicentenárias,

    J. Tavares-Neto
    Medicina – UFBA

    • osaciperere Says:

      Isso lá é, Prof. Tavares. Nem de máscara o odor fétido da política da capital federal pode ser combatido. De fato, sem uma reforma política séria, a esquerda de mentirinha continuará tomando chá das cinco na Casa da Dinda e comendo Feijoada na Granja do Torto…

      De qualquer modo, que a Profa. Amanda continua amada e admirada pelos que lutam por uma Educação brasileira decente, isso continua!

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