• Anísio Teixeira, eterno palanque eleitoral

Um esclarecimento:


Eu estava tão fulo com o Saci que, simplesmente, embolei e joguei no lixo um bilhete que ele havia deixado para mim, preso no meu motinor, colado com fita adesiva. Além de não estar a fim de bater papo com o endiabrado moleque, fiquei p da vida por ele ter colado papel na delicada tela de cristal líquido do meu computador. Todo mundo sabe que sempre fica um resíduo de cola depois da fita removida. E aí para acumular poeira não custa…


Há pouco, quando fui recolher o lixo, deparei-me com o bilhete não lido. Como acordei  hoje com o humor melhorzinho, fiquei curioso para conhecer o que ele estava arquitetando. Para minha surpresa, dessa vez, o danadinho ponderou serenamente. Pelo menos é o que me pareceu. Eis o que escreveu:


Oi Chefinho! Não leve a mal a minha intromissão, mas seria interessante que os calouros, além da merecida e calourosa recepção, conhecessem também o que a mídia alternativa vem escrevendo, para não ficarem apenas com o que o diário oficial publica. Como sugestão, recomendaria um resgate de alguns textos do seu poderoso alfarrábio eletrônico. Da sua corrente, para o que der e vier, Saci.”


Ao terminar de ler o seu singelo bilhete, comovi-me às lágrimas. Notei que havia uma florzinha azul murcha, ainda colada no papel. Logo a reconheci: era um Miosótis. Lembrei-me que um seu ancestral já havia usado esse mesmo expediente para enternecer o coração de Narizinho, de Monteiro Lobato, no livro O Saci.

– Que alma poética ele tem! – exclamei qual a menina do nariz arrebitado, comovido. Miosótis em inglês é forget-me-not, que significa “não-te-esqueças-de-mim”.

Ato contínuo, fui logo abrindo pastas de bites e bytes embolorados. Coisas antiquíssima, de mais de dois anos. Parecia que tinham acabado de ser digitadas. Negócio bem bolado esse de zeros e uns!


Mesmo a sugestão do Saci não sendo acatada para antes da simpática Calourosa, não faz mal, pois o semestre é longo…


E foi assim que, novamente, o irrequieto caetiteense deu o ar de sua graça. Refiro-me ao criador da CAPES, que fique bem claro… Além dele, outros também darão uma mãozinha. ( Menandro Ramos, em 30/03/2009)

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Anísio Teixeira, eterno palanque eleitoral

menandro@ufba.br
Salvador, 05/12/2006

 

Há figuras que são constantemente evocadas para referenciar idéias, quaisquer que sejam, lesivas ou não à humanidade, éticas ou não, retrógradas ou progressistas: “Segundo Jesus”, “para Ghandi”, “de acordo com Marx”, “conforme explicou Freud”. Tudo bem, vá lá! O testemunho, ou melhor, o argumento de autoridade nos tira da insignificância e nos faz cúmplices de notáveis. Normalíssimo. O nosso cotidiano está repletos dessas situações.

No Brasil, quando se pretende o testemunho de educadores, entre outros, recorre-se a Anísio Teixeira, a Darcy Ribeiro e a Paulo Freire. Aliás, muito justo. Justíssimo. Eles de fato foram brilhantes, cada um a seu modo. Até aí tudo bem.

Ocorre que esses mesmos ilustres são permanente usados e banalizados para bodas e batizados, adoidadamente, para isso e para aquilo. Alguém que quer enveredar pelo campo editorial sabe que uma matéria com um deles é faturamento seguro. Um outro que se estréia na política, toma-os como padrinho (devidamente ou não) e por aí vai. Tudo bem até aí. Fazer o que, ? Eles não fizeram por merecer?

Ocorre também que não é fácil distinguir a citação sincera da apropriação oportunista. Quando esta última acontece, os ditos cujos transformam-se (de forma não-consentida) em garotos-propaganda e tudo se transforma em apelo marketeiro. Tudo. Nada escapa.

Lembro-me de um episódio que aconteceu comigo há poucos anos. Fui contatado pela Fundação Anísio Teixeira, através de Babi Teixeira, para montar, na Escola Parque, uma exposição itinerante de painéis (banners) fotográficos alusivos à trajetória do ilustre educador baiano, filho de Caetité, interior da Bahia, para orgulho dos de lá. Inclusive eu, adotado, aos quatro meses de idade, pela terrinha querida.

Providenciei auxiliares e me meti a “quebrar a cabeça” com os quatrocentos quilos de estrutura metálica que compunham os suportes do material exposto. Na azáfama, muito suor e pressão. Tudo tinha que ficar pronto para o dia seguinte. Isso porque um certo senador da República, muito afamado (bem por uns e mal por outros), iria descerrar uma placa da recém reformada Escola Parque. Na oportunidade, o tal senador e o seu séqüito, composto inclusive por um governadorzinho assustado, certamente apreciariam embevecidos e reverentes a Expo sobre o singular educador.

Tudo já estava pronto e no lugar quando um estrategista em segurança (e quem sabe em bajulação), inspecionando o nosso trabalho para se certificar que tudo estava dentro dos conformes, zeloso, descobriu que, para azar nosso, os biombos metálicos estavam, por acaso, no caminho da colenda comitiva. Digo para azar meu e dos meus auxiliares porque tivemos que remover, para outro local, o que havíamos instalado com tanto labor. Não houve argumentação que demovesse o nosso oficial interlocutor. Por fim, quando se viu encurralado pelos nossos argumentos, com a maior doçura do mundo alegou preocupação com o rico acervo. Foi taxativo: “O Sr. Professor sabe como é popular o nosso (lá dele) senador” (INTENCIONALMENTE ESCRITO EM LETRAS MINÚSCULAS). “Dessa forma, não quero correr o risco da espontaneidade popular, mesmo sem querer, danificar o acervo desse grande educador baiano”. Diante dessa eloqüente imposição, capitulei. Tratei, ou melhor, tratamos de remover as ferragens um pouco para a parede. Ufa, que trabalheira! Eu bem sabia o quanto a comitiva era espaçosa…

Não é necessário dizer que não compareci à exposição. Às vezes fico turrão e irascível. E me isolo. Mas soube que foi um sucesso. Que o público, curioso, se amontoava para ver aquelas fotos incomuns. Muitos ficaram sabendo, pela primeira vez, que aquele genial espaço arquitetônico (reconhecido pela UNESCO como modelo educacional) fora concebido por um tal Diógenes Rebouças, arquiteto,  como parte de um projeto pedagógico maior, sonhado e materializado por Anísio Teixeira, ilustre homenageado daquela exposição. Souberam também que a comitiva, esbaforida e ávida em aplaudir o desvelador da placa comemorativa, não tivera tempo de apreciar um pôster sequer. Passaram ao largo. Aliás, muito compreensível. Eles são sempre bastante ocupados e não podem perder um minuto. Time is money.

Quero acreditar que, só depois do evento ocorrido, a família do ilustre educador atinou-se que caíra no “Conto da Homenagem”; que Anísio servira de palanque eleitoral e de apelo marketeiro da politicalha. Mas quero acreditar também que, dialeticamente, a população saiu lucrando, pois pôde ter acesso às idéias de Anísio. Talvez não o quanto elas mereçam… a população e as idéias de Anísio… Mas que teve acesso, isso teve.

Hoje, parte dos painéis dessa referida exposição, encontra-se afixada nas paredes dos corredores da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia. O Prof. Nelson Pretto e a Profa. Mary Arapiraca, na direção da FACED, felizmente, acolheram o meu pedido para afixá-los naquele local e até hoje podem ser vistos.

Achei pertinente contar esse ocorrido. Mormente no momento em que proclamam, aos quatro ventos, tomar as idéias de Anísio como esteios da construção de uma Nova UFBA e de uma Nova Universidade Brasileira. “Né por nada não” como dizia meu amigo Nozim (pronuncia-se Nôzim), que vocês não conhecem, mas que eu considero um verdadeiro sábio.

Só estou querendo participar um pouco dessa discussão e para isso tomo o testemunho, ou melhor, a prudência e cautela de um douto em mundo, ainda que desconhecido e de pouco lustro. Valho-me também desse artifício, comum na comunicação, que é o de evocar nomes e buscar testemunhos.

Pois bem, como dizia, no alto da sua eterna desconfiança das boas intenções de certos homens públicos (a questão de gênero deve ser entendida e estendida), Nozim exerce de maneira admirável o pensamento crítico. O maravilhoso é que ele nem sabe disso. Bota a turma de Frankfurt no chinelo. E com modéstia. Sujeito bão, ! Aliás um dos traços de Anísio que encantava Darcy Ribeiro. Crítico, eternamente crítico.

Nozim nunca ouviu falar em Havard, em Colúmbia (onde Anísio pós-graduou-se) em Sorbone, em Cambridge, em Oxford, em Coimbra, em Salamanca e em muitos desses lugares que tanto impressionam e que abrem caminhos meritocráticos. Impressionam vírgula, menos a ele, o Nozim do Lameirão, como costuma se apresentar. Quando tentam tapeá-lo, costuma rir com ironia, deixando à mostra o seu canino superior direito, único e comprometido dente: “Cês pensam que sou besta… Vá… Não tô cumeno nada disso“.

Assim, em tempo de “Projetos Novos” e de promessas magnificamente grandiloquentes, considerando que o que tem sido feito para o “Projeto Velho” deixa muito a desejar, é sempre bom nos valermos daqueles que sempre estão com “um ôi no padre e o outre na missa”, por via das dúvidas. (Notem que esses termos fazem parte do léxico “nozimiano”).

Nozim e Anísio tinham origens diferentes. Um pertenceu, digamos, a uma aristocracia rural e nasceu num sobrado relativamente suntuoso, na praça principal da cidade, vizinho da igreja; o outro, ainda vivo até hoje, para não me deixar mentir, é um dos muitos filhos de uma família simples, que ainda reside no Lameirão, em habitação modesta, nas cercanias de Caetité, que vive do plantio e comércio de hortaliças e que só pisa os pés na Praça da Catedral na ocasião dos festejos da padroeira da cidade, Senhora Santana. Menos por fé e mais por curtição, que ninguém é de ferro.

Os caminhos trilhados por Anísio e Nozim foram bem diferentes, mas o olhar de ambos, que um dia mirou o Morro do Gambá, um pouco à direita dos fundos da igreja que os batizou, talvez os tenha aguçado a vista, além dos outros sentidos, (e não apenas o olfato como pode ser sugerido), para perceber cores e odores bem diferentes daqueles apreciados na verdejante vegetação do despenhadeiro, próximo do Alto do Observatório ou do pôr-do-sol dos cerrados da Passagem da Pedra, que diria “qual um brigue em chamas” a lírica do poeta condoreiro de Cabaceiras, também no interior baiano…  (Ufa, que período longo! Faltou-me o fôlego!). Enfim, é isso.

Odores fétidos e nauseabundos de empreitadas que atentam contra a dignidade humana, mas que fazem parte de um rol de mazelas que podem ser transformadas; cores assustadoras e tenebrosas que devem ser, pela ação de mulheres e homens, modificadas em verdes paisagens esperançosas, fecundas e vivificantes. Ambos criam nisso, Anísio e Nozim, cada um como podia. Sarcasmo, ironia, pessimismo, indulgência e compaixão, eternos distintivos esgrimidos pela inteligência dos dois, permanentemente estão presentes nas expressões de ambos, cada um a sua maneira, cada qual como a vida lhes permitiu manifestar: de forma elegante ou de maneira jocosa. Agudas as duas, entretanto.

Fico feliz, hoje, por imortalizar Nozim. Não careço dizer que o “imortalizar” que me refiro é em termos, dado que o universo dos meus leitores não chega a ultrapassar a capacidade que tem o gracioso coreto do jardim, lá da referida Praça da Catedral, em Caetité, de abrigar pessoas. Mas não importa. Para esse exíguo número de leitores, Nozim torna-se eterno, como Anísio o é, evidentemente que para um número de almas infinitamente maior.

Que Tupã não permita que Nozim, qual Anísio, se transforme um dia em palanque… Amém, Axé, Gute-Gute!

P.S. – Animei-me tanto em escrever sobre Anísio, que acabei teclando algumas linhas a mais para o Professor Antônio Câmara, caro companheiro de Chapa 2 – APUB EM MOVIMENTO, em resposta a uma sua mensagem. Aproveito para socializar, abaixo,  o meu escrito.

Prezado Câmara

Excelentes as suas ponderações. Tanto as suas quanto as de Cecília, apaixonadamente contestada por outrem. Nossa querida Candidata da Chapa 2 toca na ferida e incomoda horrores. Parabéns a ambos. Resistiremos. Sem perder a ternura jamais.

Para a felicidade de Anísio, ele não pode tomar conhecimento, segundo suponho, do quanto o seu pensamento vem sendo distorcido. É sempre assim. Esperamos muito mais. Isso é apenas o começo.

Tenho uma amiga religiosa que costuma dizer “Satanás cita as Escrituras e tenta pervertê-las com o propósito de enganar”. Nisso temos acordo, ainda que eu não seja religioso… Papel ou tela de computador aceita tudo que lhe escrevem… Qual os alquimistas, da música de Jorge Ben Jor, os exegetas do pensamento de Anísio estão chegando, estão chegando os exegetas… e chegando em pencas. “Polianicamente”, isso tem o lado bom.

Anísio passou por vicissitudes exatamente por defender a escola pública. Chamou para si a ira dos empreendedores religiosos que viam na escola ou no ensino um filão para amealhar uns bons trocados. E olhe que naquela época a coisa era bem modesta. A educação ainda não era vista como commodity.

Os tempos são outros e os mecanismos sutis (ou nem tanto) para desviar recursos públicos para os cofrinhos particulares vão sendo inventados… O PROUNI não me faz crescer o nariz…

A escola pública da qual falava Anísio era bem diferente da nossa querida UFBA, tão maltratada e mal conservada nos seus sessenta anos. Em todos os sentidos.

Fala-se em UFBA Nova quando a sexagenária está tão precisada, tão pobrezinha de sapatos furados… Ou será apenas em algumas unidades?

Anísio assim se manifestou:

“Só existirá uma democracia no Brasil no dia em que se montar a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a escola pública. Mas não a escola pública sem prédios, sem asseio, sem higiene e sem mestres devidamente preparados e, por conseguinte, sem eficiência e sem resultados e, sim, a escola pública rica e eficiente, destinada a preparar o brasileiro para vencer e servir com eficiência dentro deste País.” (Anísio Teixeira, Educação para a democracia, 1936).

O próprio Darcy Ribeiro (Confissões, 1997) referiu-se, assim, sobre o ilustre caetiteense: “Anísio me ensinou a duvidar e a pensar”. Tudo indica que os que citam Anísio e Darcy não se aprofundaram no pensamento de ambos… ou não querem… e apenas se valem de retórica chinfrim.

Para terminar, recomendo para quem não conheça, uma carta de Anísio a seu amigo Fernando de Azevedo, abaixo, pouco menos de três meses antes da sua trágica e misteriosa morte (*), portanto na sua maturidade, ou seja, umas cinco décadas após o seu deslumbramento inicial pelo país de Tio Sam…

É bom lembrar sempre o contexto em que Anísio viveu. As contingências da vida fizeram um bacharel em direito, qual Paulo Freire, se envolver com a Educação e ele o fez com o coração e a inteligência. Oriundo de uma família razoavelmente com recursos (seu pai servira como médico na Guerra do Paraguai e era chefe político – íntegro – no interior da Bahia), Anísio era um homem do seu tempo, com virtudes e equívocos. Sacralizá-lo é uma imprudência, obscurecê-lo, uma injustiça.

Um grande abraço,

Menandro

(*) Para os mais jovens: Anísio morreu em 11 de março de 1971, no Rio. Seu corpo foi encontrado dias depois, num poço de elevador.

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Carta de Anísio Teixeira a Fernando de Azevedo (Papel timbrado: Companhia Editora Nacional)

Rio, 16.12.70

Meu querido Fernando

 

Estou a reler pela terceira ou quarta vez sua carta de 27 de Nov., confessando-lhe haver sido premiado de meus comentários inconformados pela sua admirável carta. A sua visão é sem dúvida a certa, se não estivéssemos vivendo época de desmedida aceleração do curso dos acontecimentos humanos e de igualmente desmedido aumento do poder material e intelectual do homem. Se o homem continuasse com o poder a que chegou em Roma, eu poderia olhar para Tibério ou Calígula com piedade e um sofrido sorriso e conservar viva minha esperança. Mas hoje a força do homem já destruiu a natureza e está em marcha para destruir o próprio homem . e não há nenhum Júpiter para abater os Titãs do momento.

Os poderosos de hoje estão convencidos que estamos na luta final da civilização entre comunistas e capitalistas, luta pela qual admitem que a destruição de toda espécie é aceitável, desde que possam sobreviver um homem e uma mulher e estes sejam americanos. Isto não é fantasia, mas objeto de cálculos rigorosos e complexos, elaborados pelo Pentágono, o atual centro do poder no mundo, perante o qual as loucuras de Hitler parecem turbulência de crianças. O senador americano Richard Russell estaria aí para atestá-lo. O último laboratório orbital humano, recentemente lançado ao espaço pelos americanos e que se dissolveu na atmosfera antes de entrar em órbita ­tinha entre seus objetivos o de poder constituir-se o aparelho para preservar alguns americanos no caso da destruição global cá na Terra. Cálculos de 75 milhões de mortos contra 150 milhões dos adversários são banalidades no war-game do Pentágono.

Considerarmos tais coisas como episódios semelhantes ao que sofremos no passado é muito desejo de deixar de ver, porque só deste modo podemos conservar a esperança. Esta sólida esperança decorria ou da crença em outra vida, ou da crença no tempo, diante da fragilidade humana. Foi essa fragilidade que acabou.

O homem chegou ao poder total e é o mesmo selvagem que, com tamanho custo, se procurou civilizar. Não só a civilização se faz um inferno, como o homem voltou à selvageria original do exclusivo poder da força.

Posso voltar a acreditar na sorte e imaginar que voltaremos à razão antiga da ordem rural e não da força. Mas vivendo em meio a esse perigo positivo e real, meu dever é acordar todas as forças de sentimento humano para a resistência à tamanha falta de senso e não dizer-lhes que sempre foi assim e tudo não passa de mais um episódio dos eternos conflitos humanos… à maneira das ingênuas guerras dos 30 e dos 100 anos de passado relativamente recente…

O perigo em que estamos é, infelizmente, sem precedentes. O homem, talvez, seja o mesmo. Mas as suas armas, a sua força são diferentes e os seus erros hoje podem, pela primeira vez na história, serem erros definitivos. Para o universo poderá ser isto acidente insignificante, mas sou humano e a destruição da espécie me horroriza demais para poder refugiar-me num futuro cósmico. Nem por isto deixo de ler e meditar em sua admirável página de confiança e esperança.

Os antigos puderam alimentar essa espécie de fé e ela devia continuar a ser possível. A minha linguagem quase de pânico nasce exatamente de não ser mais fácil acalentá-la. Perdoe-me, meu caro Fernando, essas palavras apocalípticas.

Nem por isto deixo de lhe enviar para V. e todos os seus os meus mais sinceros votos por um feliz natal – quantos ainda teremos? – e um próspero ano novo.

Seu de sempre amigo fiel e devoto admirador Anísio.

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Por que atacam a candidata a presidente da Chapa 2 – APUB EM Movimento em nome da democracia?

Curiosamente o professor Virgilio normalmente ausente da discussão político-acadêmica deu-se ao trabalho de atacar as posições expressas pela professora Cecília, em nome da Chapa 2 APUB Em Movimento, isso talvez, em função da arrogância daqueles que consideram herético alguém pronunciar-se criticamente em relação às propostas oriundas do atual reitorado. Em função de estarmos em campanha lutando para tornar a APUB um sindicato autônomo, independente e de luta, não poderemos apreciar com tanto cuidado a missiva do nosso colega, recém convertido às lutas sindicais. No entanto gostaríamos de comentar algumas das suas “agudas” observaçéoes:

1. A atual proposta de reforma da universidade, que começou com UFBA Nova e atualmente, com o aval do governo federal, passou a chamar-se Universidade Nova, foi sim lançada como mais um produto de marketing da atual administração e, só após dezenas de apresentações de slides, consolidou-se um documento de intenções sobre a a “Nova Universidade”. Nós, docentes, trabalhando em unidades com péssimas condições materiais (a exemplo da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas), sentir-nos-íamos felizes se o marketing fosse talvez: “recuperar o a patrimônio físico da UFBA”.

2. Esse projeto, nesse momento, conta com o apoio do governo que vê a possibilidade de implantar a sua conturbada reforma universitária, que teve na UFBA um baluarte de resistência, infelizmente ignorado pelo professor e pelo próprio Reitor;

3. A palavra reforma, desde a década. de 80, vem sendo semanticamente esvaziada por aqueles que defendem o neoliberalismo; por isso, e com bastantes motivos, sabemos que as reformas tributárias, previdenciária, sindical, trabalhista e universitária não visam o bem estar da sociedade e sim, soluções para o capital na presente conjuntura internacional.

4. Quanto às experiências americanas e européias e, particularmente, a tão decantada reforma universitária da Europa, os documentos oficiais apontam nitidamente que esta visa adequar as Universidades aos blocos econômicos e à globalização. Sabemos que as intenções ainda não se realizaram na Europa, dada a resistência universitária e a heterogeneidade do próprio sistema universitário daquele continente e, até o momento, o único resultado comum foi a unificação dos Mestrados  (Master). A criação de um curso pós-secundário, com tinturas de humanismo, não vence a dispersão e a atomização do conhecimento implantadas pelo positivismo e profundamente instaladas nas disciplinas científicas.

5. A chapa APUB EM MOVIMENTO levanta questões sobre a proposição da UFBA NOVA e entende que os parâmetros apresentados não pretendem resolver o problema da Universidade e sim responder à pressão mercadológica pela ampliação de um público com conhecimentos médios expandidos. Reafirmamos que aqui temos um binômio: massificação/elitização por prometer ampliar o público da Universidade (em até cinco vezes), sem melhorias nas condições de trabalho, nem nas condições materiais da Universidade e nem ao menos na ampliação do corpo docente.

Reafirmamos que se apresenta uma desarticulação das atuais carreiras universitárias e o que se propõe no lugar delas é o procedimento elitista de “pinçar” os talentos para as pós-graduações. Tememos sim, que a UFBA novamente se torne o laboratório do governo federal sendo a primeira Universidade a experimentar a desconstrução do seu atual sistema de ensino e pesquisa.

6. Quanto à paternidade do projeto segundo o colega, filho de Darci Ribeiro e Anísio Teixeira, não é para nós, impeditivo de abrir a discussão. Cremos que desconhecer a conjuntura nacional e internacional atual, na qual vivemos o ataque do capital à educação e a sua pseudo-proposta de reforma do ensino superior, isto sim, apresenta grave risco de alienação. A postura de invocar estes educadores (e até mesmo santificá-los) para escamotear a realidade atual e os seus desafios, é que deve ser chamada de conservadora, pois isso é reeditar o passado em condições históricas absolutamente transformadas pela sanha neoliberal. Neste sentido, os termos – novo e reforma – estão esvaziados do seu sentido original e indicam apenas adaptações abertas à ordem capitalista. Talvez o colega, sentindo-se progressista, sinta ojeriza por movimentos na América Latina que são contra essas “novidades” que destruíram a Universidade Argentina, modificaram a Universidade Chilena e estão sendo enfrentadas na Universidade Mexicana. Talvez, sejamos tão conservadores quanto os educadores destes países que resistem ao projeto neoliberal, os educadores brasileiros (organizados no ANDES-SN e das Conferencias Nacionais de Educação).

Talvez, ser “progressista” hoje seja aliar-se automaticamente a reitores, governos, organismos internacionais (Banco Mundial, Orus, etc). Se assim for, somos conservadores, pois queremos preservar o patrimônio secular das Universidades Públicas da sanha mercadológica.

7. Por fim, perguntamos ao nosso “novo” colega de movimento social:

Por que esta proposta tão bem articulada com os próceres da educação superior no país atêm-se apenas à criação de um BI, indicando a estruturação dos atuais bacharelados? Pó que não indica também como a Universidade resolverá os problemas de asfixia financeira, fruto da política educacional dos últimos governantes? Por que a questão da destruição criminosa do patrimônio público, através da sua deterioração ou da sua privatização interna, não é tratada neste documento? Por que as precárias condições de vida e trabalho da categoria docente, (que, se o BI vingar, poderão tornar-se ainda mais precárias), e as suas condições salariais, não são sequer ventiladas pelo documento do BI? Por que se propõe reforma universitária sem nenhuma articulação com a necessária mudança radical do ensino público de primeiro e segundo graus no Brasil? Por que se propõe uma reforma universitária que mantêm intacta o atual sistema de pós-graduação tutelado pela CAPES? O que faremos com os titulados nos BI’S – em especial aqueles que não forem considerados de excepcional talento pelos seus professores? Enfim, por que esse projeto não é oriundo e anseios da sociedade e da comunidade universitária e sim do reitor e de seus mais próximos colaboradores?

8. Essas questões poderão nos ajudar a iniciar o debate. Somos favoráveis às mudanças quando estas, de fato, não obedecem à lógica do poder e do capital. Estamos prontos para discutir e, se esse não for o caso do projeto do BI, certamente, poderemos nos juntar ao coro daqueles que agora não admitem divergência em nome da “democracia”. Aliás, caro colega, essa foi argumentação da professora Cecília na entrevista a qual o Sr. se refere.

Antônio da Silva Câmara
Pof. Departamento de Sociologia

Candidato suplente da Chapa 2 – APUB EM MOVIMENTO
SINDICATO É PARA LUTAR!

14 Respostas to “• Anísio Teixeira, eterno palanque eleitoral”

  1. Prof. J. Tavares-Neto Says:

    Prezado Prof. MENANDRO,

    Foi um grande prazer a leitura da sua mensagem, além da grata satisfação de reler Anísio Teixeira. Parabéns, inclusive pela sucinta análise quanto a UFBA, e sem adjetivos. Aliás, o adjetivo “nova” lembra muitas outras tristezas do povo do Brasil: Estado Novo, Cruzeiro Novo, etc.

    Cordiais saudações universitárias,

    José Tavares-Neto
    Medicina-UFBA

  2. Jussara Midlej Says:

    Especial seu artigo sobre Anísio Teixeira, Menandro.

    Parabéns, mais uma vez, pela lucidez e compromisso com as questões essenciais da vida! […]

    Um grande abraço,
    Jussara Midlej

  3. Marco Rêgo Says:

    Prezado Menandro

    Escrevo para te parabenizar pelo texto “Anísio Teixeira, eterno palanque eleitoral”. Tomei a liberdade de procurar seu email, já que estou meio que de saco cheio dessas listas.

    Um abraço,
    Marco Rêgo
    DPM/FAMED/UFBA

  4. Ana Paula Says:

    Não sei, não sei… fiquei a ruminar desde que vi a apresentação da UFBA nova (Vixe!! ‘responsa’…) e li seu texto…

    Em tempos de universidade nova, será que Nozim teria seu lugar nas festas culturais, ou no cotidiano?

    Anísio pensou dessa forma a UNB ou sofre uma atualização em tempos de globalização e pós-todas as coisas? Análise de discurso?

    Nova, vai ser a formação ou a estrutura dos cursos?

    E o pré-universidadade (infantil, médio etc) onde fica?? A humanidade só começa na vida adulta?

    Muito bom o texto Mena, esses caetiteenses… Ainda bem que me fazem duvidar… risos…

    beijos

  5. Ana Paula Says:

    Mena, quando vc diz “Pode acreditar, mesmo que cruzemos os braços, por comodismo, conveniência, medo ou sei lá o que, outros buscarão por justiça social, qualquer que seja a forma. ” me remete a uma canção que me acompanhou na infância, juventude… criou raízes…, versão cantada por Chico Buarque:

    “Esperteza, Paciência
    Lealdade, Teimosia
    E mais dia menos dia
    A lei da selva vai mudar

    Todos juntos somos fortes
    Somos flecha e somos arco
    Todos nós no mesmo barco
    Não há nada pra temer
    – Ao meu lado há um amigo
    Que é preciso proteger
    Todos juntos somos fortes
    Não há nada pra temer

    E no entanto dizem que são tantos
    Saltimbancos como somos nós.”

    Acredito também que a panela um dia explode e espero estar viva parta ver esse momento e dele ser participante…

    beijos meu adorado menandro….

  6. Antonio Batista Says:

    MEU VELHO AMIGO-COLEGA-GURU e etc. MENANDRO

    Sinto um orgulho danado de o conhecer e poder abraçá-lo como AMIGO-IRMÃO-COLEGA-GURU. Mais uma vez você alimenta, através do “escrever bem”, nossa ignorância (no sentido do consciencional reprimido ou impedido pelas artimanhas da ideologia dominante).
    […]
    Muito lúcido o toque sobre a utilização do “brilhante” que existe, hoje nas almas DESSAS FIGURAS PORTENTOSAS da nossa Educação Brasileira e ontem nas ações dos seus corpos-cérebros.

    Que os Orixás sejam os defensores….

    Abraço Amigo do Amigo
    Batista

  7. Marisa Lajolo Says:

    Menandro,

    São belos, divertidos e pungentes os seus textos. Sua reflexão sobre a “carona” que pegam nos “chiques e famosos” é extremamente oportuna. Infelizmente oportuna, eu devia escrever … É muito bela a carta de Anísio a Fernando Azevedo. Tragicamente lúcida … De 70 para cá, o poder do Império aumentou muito …

    Um abraço e saudades.
    Marisa

  8. Custódio G. da Silva Says:

    Professor Menandro
    há uma educação que está feliz com sua existência. É muito bom ouvi-lo. Utilizando-me de uma autoridade não reconhecida por nossa espécie deixo ao público leitor um comentário sobre a reforma do sistema educativo: “E digam lá se não são outra vez os liberais que insistem na necessidade de uma boa educação e da reforma do sistema educativo? Naturalmente, senão como é que o seu liberalismo, a sua ‘liberdade adentro dos limites das leis iria afirmar-se sem disciplina? Se é certo que eles não educam propriamente no sentido do temor a Deus, também é verdade que exigem tanto mais energicamente o temor dos homens, ou seja, o temor do homem, e despertam, pela disciplina, o ‘entusiasmo pela verdadeira vocação humana’.” (STIRNER, 2004, p. 71).

    PS.: reforma etimologicamente é mesmo o quê???

  9. Jilvania Lima Says:

    Menandro,

    Adoro correr riscos. Por isso, mesmo na aparência do ridículo, expresso minha alegria e meu amor em tê-lo por perto ainda que seja virtualmente.
    Amo muito você, você é essencial: vigoroso.

    Obrigada! Um abraço bem demorado em celebração por este momento. Jil

  10. Lighia Says:

    Prezado Menandro,

    Muito oportuna, bem escrita e contundente a sua manifestação!
    Vou ajudar um pouquinho a espalhá-la para além do coreto da pracinha.
    Estamos, de fato, numa época deveras difícil para quem acredita nos valores fundamentais da civilização.

    Parabéns pelo empenho de todos os valentes companheiros da oposição na Bahia.

    Um grande abraço,
    Lighia
    __________________________________
    2.a vice da Regional SP/ tb. GTPE do Andes
    e professora de Física da USP.

  11. Cristiano Matias Says:

    Teresina, 18 de dezembro de 2006.

    Prezado Menandro Ramos,

    Infelizmente, estamos reproduzindo em nossas Universidades este “modelo” de “educação” que você chamou muito bem “educação remendista” ou reformista. Cada vez mais, se perde a perspectiva da uma Educação Libertadora, capaz de transgredir e modificar o status quo em que, lamentavelmente, vivemos. É fundamental esta análise, a partir dos “gurus da economia” mundial que privilegia sempre os interesses dos capitalistas transnacionais. Temos acordo com a sua abordagem. É uma pena que sejamos tão poucos a pensar e a buscar o trabalho em Educação visando a emancipação e não a domesticação dos jovens para o consumo alienado e alienante, instrumento essencial para o desenvolvimento capitalista contemporâneo.

    Grande Abraço, Sempre na Luta e na perspectiva de uma
    Educação Libertadora da Ignorância e Maldade Capitalista,

    de: Cristiano Matias Neto,
    51 anos, Professor do
    Departamento de Filosofia
    da Universidade Federal do Piauí

  12. Francisco José Duarte de Santana Says:

    Menandro

    Acabo de ler todo o seu texto e a carta de Anísio Teixeira. Os dois são fantásticos.

    Devo-lhe desculpas por ter lido rapidamente e dado a resposta simples abaixo. […]

    […]Por essa minha displicência(mas eu estava e ainda estou muito cansado), eu também não tinha entendido direito quando você me falou que alguém lhe disse que esse seu artigo e o meu eram complementares. Eu pensei que era o outro seu artigo.

    Agora que lí até o fim o seu artigo vejo que era esse. E é uma obra literária e agradável de se ler. O meu é uma denúncia cáustica.

    A carta de Anísio é perfeitamente atual pois cala a boca desses que ficam dizendo que tudo é teoria conspiratória. Vou divulgá-la o mais possível.

    Chico

    ———————————————

    É a velha técnica

    Cultivar aves empalhadas para justificar a extinção das que estão vivas.

    F. Santana

  13. Sandra Tereza de Freitas Says:

    Professor, Menandro

    Li todos os textos, até as mensagens que talvez não fosse pertinentes pelo tempo , 2006 , 2007 etc.

    Voltarei a ler algumas considerações feitas pelo Sr. para compreender melhor.

    Existem muitos Nozins, por este universo, hoje eu e algumas e alguns colegas comentavamos o comportamento de alguns (as) Professores, distantes, sem comunicação, sem liderança, sobre os alunos, a falta de cuidados com o meio ambiente da Faculdade, as plantas sujas desarrumadas, papeis jogados atoa, tudo isto na Faculdade de educação, até pensamos em realizar um mutirão de organização, bobagens muitos não iam entender. Acho que alguns de nós somos Nozins.espero que tenhamos sorte e a tão anunciada reforma na universidade chegue e atenda a todos, de forma única e legitima, inclusive com informações e esclarecimentos, para os Calouros.
    Mas o seu nome e de outros Professores foi citado neste dialogo como referência de simplicidade e interação, é muito importante este contato e a transparência como motivação.
    A carta de Anisio Teixeira é muito atual, e muito interessante, acho que os Governantes não deveriam usar um trabalho tão bonito para palanque eleitoral, mas deveriam realizar e efetivar projetos dentro desta realidade, a Escola Parque é o sonho de muitos educadores, aqueles que tem compromisso com uma educação valorosa, e que acredita na transformação do homem pela educação.
    Vou copia-la e enviar aos meus contatos ou melhor colegas educadores (as) posso?
    Pela passagem do dia do Professor

    M – uita garra e força

    E – esperança nas causas sociais

    N – unca esquecendo que as grandes vitorias vieram de grandes lutas

    A – mor pelos indios, negros e educação , já percebi que tens

    N – a Universidade encontramos diversidade

    D – e todas podes ter certeza Professor és um

    R – eflexão em cada aula, Rondon, Missões, indios

    O – nde encontramos uma dura realidade, a terra do indio para o indio

    Obrigada , por todas orientações e indicações

  14. Menandro Ramos Says:

    Obrigado, muito obrigado pela gentileza, Sandra!

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