• Uma Caricatura Magnífica!

naomar22a

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

Tenho certeza que o Saci não deu a mínima para o que eu falei. Gastei em vão meu latim. Depois de eu teorizar por quase dez minutos sobre a vigotskiana zona de desenvolvimento proximal, percebi que ele estava absorto, perdido nas deformações formais que eu insistia em denominar de ato sêmico icônico. Nos últimos dias, estava um tanto monossilábico, meio abstêmio de palavras. Mal sussurrava chochíssimos “oi” e “hum-hum”.

Notei que andou rondando a estante, e folheando, à-toa, alguns autores. Pelo dorso dos livros pude distinguir alguns como Platão, Aristóteles, Francis Bacon, Locke, Saussure, Peirce, Wittgenstein, entre outros. Eram obras vistosas da grande indústria cultural que eu havia adquirido por preços módicos, num sebo, nas proximidades da Estação da Lapa. Nunca tive coragem de lê-los, mas achei que ficavam bem no móvel de pinus, recentemente reciclado com maestria – modestamente – por este que vos escreve. Dava à minha sala um ar erudito, intelectualizado, com aquelas encadernações em azul-escuro e letras douradas. Na verdade, só os abria para guardar o dinheiro do condomínio e alguns trocados para o transporte. Cada mês eu mudava de autor, temendo que alguém pudesse estar me espionando com potentes telescópios, do alto dos edifícios que davam para a minha janela. Hoje a malandragem está em toda parte. Nunca se sabe… A TV, o tempo todo, tem mostrado figurões – acima de qualquer suspeita – envolvidos em impensáveis roubalheiras.

Mas eu falava do mutismo em que se encontrava o Saci. Depois de dias entrando e saindo sem me dizer uma palavra sequer, ou quase isso, surpreendi-me quando ele me perguntou se era muito difícil fazer caricaturas com as ferramentas digitais. Depois de algumas considerações que fiz, ele me pediu que “transformasse em demonstração todo aquele palavreado indigesto”.  Fiquei tentado a responder-lhe rispidamente. Aquilo que me dissera era, no mínimo, uma indelicadeza. Principalmente quando eu iria prestar-lhe um favor. Contive-me. Afinal, ele estava meio borocoxô. Não me custava nada relevar seu temperamento mal-humorado. Amigo não é pra essas coisas?

Relevei, então, seus maus modos e iniciamos o mergulho no software gráfico. Poucos minutos depois de ter-lhe falado sobre os comandos básicos do programa, ele já me tomou a cadeira giratória e assumiu a pilotagem do mouse. Sentindo-me inútil, fui cuidar da gororoba, pois já passava do meio-dia. O velho estômago manifestava seus primeiros sinais de desconforto. De quando em vez,   ele – o Saci –  me fazia brevíssimas consultas. Coisa pouca. O suficiente para me deixar imensamente frustrado, pois o que eu levara anos para aprender minimamente, ele, em poucos minutos, já demonstrava invejável intimidade. O que me obrigava a concluir que eu estava ficando muito mais rude depois dos cinquenta… E bota rude nisso!

Enquanto descascava a batatinha, tentei fazer um percurso mental até a gênese da irascividade do moleque. Depois de quebrar a cabeça por algum tempo, recordei-me que ele havia falado com ar de pândega sobre a folga da direção da APUB em desconhecer as atribuladas ocupações do reitor, acabando por obrigá-lo a deixar seus afazeres – que não são poucos! – para ter que explicar coisas menores, como minuta do MEC ou coisa que o valha. Assim, o Magnífico descia dos seus cuidados para assumir o que o sindicato negligenciara.

Logo depois veio o petardo do Professor Isolpi. Não dos mais elegantes, como aliás, tem sido nos últimos tempos… Não sei o que está havendo com ele… Eu que o diga (se duvida leitor, veja aqui…). Dessa vez, sobrou para a professora Inês Marques, que queria saber a quanta andava a novela da Dedicação Exclusiva. O zeloso presidente da APUB fez uma respeitosa referência à […] “veiculação de uma minuta falsa de portaria do MEC, veiculada pela professora da FACED” […]. (Veja a íntegra do texto)

O que o colendo dirigente sindical estava querendo insinuar? Apenas um mero comentário, só “falando por falar”? Ou seria aquilo um iceberg de maledicência – para não deixar de considerar quaisquer que fossem as possibilidades, ainda que, de cara, tal hipótese jamais pudesse se materializar, dado o trato gentil que o preclaro professor costuma reservar aos seus… súditos (por me faltar um melhor termo)?

Pensei até que o traquinas do Saci fosse sugerir outro texto com título gaiato do tipo “O Permanente Estado de Beligerância de Israel”. Mas qual nada. Ele só me perguntou “se era comum esse tipo de consideração de um presidente de sindicato a uma colega” e “se isso fazia parte da tal urbanidade acadêmica” (nas palavras piedosas do Prof. Joviniano Neto). Diante da minha indiferença em responder-lhe de imediato, ele quedou calado, como que fazendo do seu silêncio um terrível grito “assônico” (se é que isso seja possível) a incomodar-me a consciência até eu não resistir mais.

Com certeza era essa a razão do seu mutismo. Ainda havia nele a capacidade de indignar-se!

Enquanto a batatinha fervia na caçarola esmaltada, meus miolos borbulhavam em desvario. Claro que o Saci estava certo. Como não enxergara isso antes? Eu tinha que me pronunciar em defesa da colega. Era evidente que ela não havia redigido aquela minuta. Oficialmente, podia não existir para o MEC, mas informalmente ela estava vivíssima, perambulando por esse ciberespaço de meu deus. Alguém a tinha rascunhado e não havia sido a Profa. Inês Marques. Quanto ao intuito do rascunho, eram outros quinhentos, mas a sua existência concreta era inquestionável. Talvez até para nos dizer – reles criaturas que somos – que existem mais minutas entre o céu e a terra do que a nossa pobre e vã filosofia pode atinar e aprovar… Mas que ela (a tal minuta) existe, existe. Ainda que só oficiosamente. E muito além dos zeros e uns…

Compreendi o fastio do amigo Saci em usar a parola, o signo verbal. De que valem as metáforas, as metonímias, as hipérboles, as antífrases, as aliterações, os anacolutos, as perífrases, as paronomásias, as elipses, as litotes e todo esse horror de denominações que tanto afligiram a pobre memória ginasiana deste que vos escreve, se com elas as verdades são construídas de forma tão escorregadia, débil, pífia? Melhor fora, pensei, não existissem os signos, os símbolos, os veículos sígnicos, o sema, a expressão, conforme Peirce, Ogden e Richards, Morrris, Buyssens, Hjelmslev e tantos outros.

No nobre gesto da alteração formal icônica, a ele – o Saci –  era também facultado construir hipérboles, elipses e outras tantas transmutações no limite dos voos que sua criatividade e imaginação lhe permitissem alçar, sem a truculência autoritária do imperativo signo linguístico, da oração, da alocução, do discurso. O simples deslizar do ponteiro do mouse, pela névoa diáfana luminescente do monitor de LCD, lhe abria novos horizontes cromáticos, ora de intangível frescor ou abrasamento, ora de incomensurável beleza ou fealdade. E com a vantagem de ele não precisar se valer dos insidiosos adjetivos, das pegajentas preposições e conjunções, das esquálidas interjeições, dos bajuladores pronomes, sem mencionar os conservadores substantivos e os irrequietos verbos, abundantes ou não em transitividade. A caricatura é o triunfo escalar das intervenções criativas e livres, é a ruptura contra o determinismo das proporções harmoniosas, apolíneas e previsíveis, é o fulgor libérrimo da representação imagética. É tudo isso e muito mais.

Vendo o Saci entretido, ali, diante daquela miríade de pixels luminescentes, laborioso e concentrado, imaginei que o insigne presidente da APUB fosse o primeiro, com todo respeito, a ser agraciado com aquela nova forma de expressão que ora o moleque traquinas se apropriava. Antevi o traço ágil justiceiro, ou até mesmo vingador, representando o notável Prof. Isolpi, exageradamente túrgido, iracundo, tacanho, arqueado, acerbo, bilioso, olhar sonolento de noites insones.

Mas qual! Nada de rancor, nada de vendeta. Muito pelo contrário: antes o reconhecimento sincero em forma de magnífica, elegante e risonha caricatura daquele que, nas entrelinhas, dizia com todas as cores que o regime de dedicação exclusiva não seria alterado.

O Saci sempre me surpreende. Não pude conter o meu entusiasmo.

– Saci, você também é magnífico. É fantástico! Com essa caricatura me fez ver duas coisas extraordinárias. A primeira é que você tem jeito para a coisa e a segunda é que a nossa DE está mais sólida do que, do que…

Faltou-me a metáfora precisa, a comparação adequada. Ah, esses cinquenta e tantos anos!

O Saci não se fez de rogado para acudir-me todo solícito:

– A DE de vocês mais sólida do que as Torres Gêmeas de Nova York!

Agradeci-lhe o auxílio verbal e corri para socorrer as batatinhas. O forte cheiro de queimado denunciava-me um próximo jejum forçado.

Pensado e constatado. A caçarola esmaltada era um pretume só. Malditas batatas, maldito Saci! E o pior é que nem pude responsabilizá-lo pela tragédia. Ao voltar da cozinha, o pilantra já havia se mandado. Besta é que ele não é!

***

Agora que sentei para escrever, depois de improvisar um rango com meio pacote de biscoitos waffers e um big suco em pó, de saquinho, sabor limão, me ocorreu uma coisa: quando o patife do Saci se referiu à solidez das Torres Gêmeas – The World Trade Center – estaria ele querendo dizer antes ou depois do Onze de Setembro?

Teria ele, por acaso, bisbilhotado, também na estante, um livrinho que diz que “tudo que é sólido desmancha no ar”?

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Uma resposta to “• Uma Caricatura Magnífica!”

  1. Bárbara Says:

    Muito boa Saci!!!
    Muito boa mesmoooo!!
    hehehe…

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