• Carta de uma avó aflita

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

O Saci, no fundo, é um sentimental. Hoje, bem cedo, ele me chegou com um tipo de envelope que há muito eu não via. Daquele que tem nas bordas uns picotes verde-amarelos. Era uma carta já aberta, um tanto volumosa. O moleque a havia subtraído de alguma escrivaninha. Sabe Deus de onde! Ele, simplesmente, colocou-a na minha cama e deu meia-volta. Ainda tentei falar com ele, mas logo vi que já tinha se mandado. Não sei se foi impressão minha, mas acho que vi umas lagriminhas furtivas minarem dos seus olhos…

Ao deitar-me, ontem, ou melhor, hoje de madrugada, prometi, a mim mesmo, que procuraria o síndico do prédio onde moro. Queria justificar-me por não ter comparecido à reunião do condomínio, ocorrida na noite anterior. Acabou não dando para comparecer. Tive que recorrer ao tratamento odontológico de um profissional de um bairro mais afastado, pois os preços estão bem mais em conta. Saí tarde de lá. O meu plano da Apub não cobre extrações cirúrgicas, segundo me informaram, e aqui pelo centro a coisa está pela hora da morte. Outro dia mesmo, passei o ecler na boca para não discutir com um outro dentista. Ele queria justificar o seu orçamento absurdo, responsabilizando a crise financeira mundial pelo alto valor cobrado. É como diz o zelador do meu prédio:

– Tá todo mundo tirando uma lasquinha dela…

Fiquei tentado a ler a carta. O síndico podia esperar. A reunião já havia acontecido mesmo, e me desculpar perante ele, era apenas uma mera formalidade. Fazia parte do rol dos nossos esforços cotidianos para manter a sociabilidade – ou a urbanidade – como dizia um ex-presidente do meu sindicato. Na verdade, o meu gesto era de pouco efeito prático.

Senti saudade dos tempos em que recebia correspondências dos meus velhos. Se vivos fossem, certamente, continuariam iniciando suas cartinhas como sempre o fizeram. Desejando-me paz, saúde, alegria e, sobretudo, invocando-me a proteção divina: “Que as bênçãos de Deus lhe cubram com a Sua excelsa generosidade”.

Ao ver o papel, logo identifiquei a caligrafia de uma pessoa mais idosa. Parecia até a letra da minha saudosa mãe.

Vi que era de alguém da cidade de Jequié, interior da Bahia e que, pela data, se tratava de uma correspondência recente. Vou transcrevê-la quase que na íntegra. Digo quase, por conta de alguns parágrafos serem mais de cunho pessoal. Daí, tomar a liberdade de suprimi-los. Achei-a, no todo, muito interessante, e gostaria de socializá-la. Por não estar autorizado a divulgar os verdadeiros nomes, tentei, ao menos, fazer uma aproximação de seus fonemas originais.   Ei-la, pois:

 

“Meu estimado Clebinho:

Que a Gloriosa Nossa Senhora do Bom Conselho e o Imaculado Senhor dos Passos te guiem; que o nosso padroeiro, o glorioso Santo Antônio, interceda por ti, agora e sempre. Amém.

Desejo para ti, e para a tua esposa Amanda, muita prosperidade e compreensão mútua. Que no teu lar nunca falte o pão e que tuas portas nunca se fechem para os mais necessitados, com a graça de Deus Pai.

Depois que partistes […] a casa ficou deserta. Se não fosse muita despesa para ti, acho que podias passar aqui, também, a Semana Santa. Era uma boa oportunidade para descansares. De qualquer forma, nunca exigiria isso de ti, pois a coisa não está para brincadeira e é bom não fazeres mais despesas. Com essa crise mundial, eu não sei o que é que vai ser da gente. Principalmente os que são mais fracos de recursos financeiros. Os ricos, não. Eles até se beneficiam com isso, como sempre fizeram. Mas Deus não há de nos desamparar.

Eu que o diga como Ele tem sido bom para mim. Desde que começastes a trabalhar, me sinto outra pessoa, pois não te esqueces desta tua pobre avó. Como não crer que foi Deus que te botou no meu caminho? Às vezes, fico pensando o que seria de mim sem a tua ajuda financeira e o teu carinho, nesta fase da vida em que o corpo não presta mais para nada…

Na minha mocidade, trabalhei muito de sol a sol, como tu sabes, mas o que ganhava, mal dava para alimentar tua mãe e teus tios. A vida do trabalhador é muito dura. E o pior de tudo é que, quando chega a velhice, a gente fica imprestável, tendo de viver da caridade alheia. Entra governo e sai governo e não tem nunca uma solução. Eles só nos procuram quando querem o nosso voto. Pura tapeação. Claro que há algumas exceções, ainda que raríssimas… Olhe o que fizeram com a Previdência… Na hora H, se unem todos para prejudicar o povo que botou eles lá em cima. Infelizmente, somos muito conformados. Depois que se elegem, somem do contato da pobreza. Gente só sabe deles pelas propagandas e pelos escândalos que passam na televisão.

Por falar nisso, tenho visto, o tempo todo, os repórteres e doutores dizendo que cada pessoa deve procurar garantir o seu emprego. No último caso, até negociar com os patrões, para não ficar desempregada. Muitas vezes, segundo dizem, é melhor receber menos do que ir para o olho da rua. Eles agora não falam de outra coisa. Fico até pensando se essa choradeira toda não é para segurar esse aumento. Eles são muito astutos. Como sou uma pobre ignorante, nunca sei se estão falando a verdade. Mas posso dizer, por experiência própria, que a pior coisa para um pai ou uma mãe de família é não ter um trabalho digno para poder dar o pirão e a educação de seus filhos. Às vezes, fico pensando como o nosso boníssimo Deus pode permitir que isso aconteça. Mas Ele sabe o que faz e não cabe a nós, pobres pecadores, questionarmos os desígnios do Alto.

Ontem esteve aqui a Deusdete. Também está morando em Salvador. Ela é uma boa pessoa, mas é um pouco tontinha. Na verdade, foi uma conversa que tive com ela me deixou aflita. A pobre menina me falou de umas coisas de sindicato que eu não compreendo muito. Se não me engano, ela agora faz parte da diretoria de um deles, mas já está arrependida. Na verdade, acho que ela ainda apóia o presidente Lula, mas parece que ele não vai dar mais o aumento que prometeu aos servidores públicos… É uma enrolada aí que eu não compreendo muito. Deve ser a crise mundial. Mas o fato é que, a coitada, tem botado a mão na cabeça, sem saber como dizer para as pessoas que esse esperado dinheirinho está ameaçado de não sair mais. Deus permita que isso não aconteça. A pobrezinha está muito estressada, meu filho.

Também, pudera! Eu sempre soube que sindicato era para lutar em favor do trabalhador, mas, pelo que pude compreender da fala dela, agora não precisa ser mais assim. Está tudo mudando muito rapidamente. Tudo muito modernoso ou até mais. Estão chamando agora de “pós-moderno”. Tu ouviste isso também? Tem até os que lutam, verdade seja dita, mas parece que esses vão ficando cada vez mais raros. Estão sendo chamados de radicais ou de dinossauros. Imagine só: defender os direitos dos trabalhadores é ser ultrapassado… Onde já se viu uma coisa dessa? Por isso, eu queria te pedir, pelo nosso padroeiro, o glorioso Santo Antônio, para te afastares dessas confusões todas. Acho que na minha idade eu não iria suportar ver o meu neto ser chamado de pelego. Isso é muito feio. A coitadinha da Deusdete está muito magoada.

Muitas vezes, aqui na rua onde moro, gente briga, xinga, quebra o pau. Mas na hora da precisão, todos ajudam uns aos outros. Acho que era assim que devia ser a humanidade. […]

Muitos desses políticos e autoridades só têm pose e bla-blá-blá. Aqui, na hora do vamos ver, gente não vira a cara. Nessa madrugada mesmo, o compadre Mário foi acordado, às pressas, para levar a neta de dona Meirinha para a maternidade. Lá foi ele com sua rural caindo os pedaços, mas foi, sem fazer cara feia. O pouco com Deus é muito. Por sinal, a nenenzinha é uma graça. Parece uma pequena sereia […]

O tempo aqui continua abafado. Um calor que ninguém está suportando. Não sei o que vai ser de nós. A ambição de alguns homens vem destruindo a natureza e agora toda a humanidade paga o pato. Só Jesus pode nos socorrer. Quanto àquela idéia de trocar a hélice do ventilador, fica para quando for possível. Mesmo barulhento, ele ainda funciona, com as graças a Deus. […]

Antes de terminar, queria te pedir, do fundo do meu coração, para não te preocupares, porque não vai ser possível aumentar a minha mesada dessa vez. Sei que a crise mundial está de amargar e que toda economia é pouca. Como és muito preocupado, a tendência é ficares estressado também, perdendo os poucos cabelos que ainda tens. E isso pode até afetar o teu humor.

Tu já fazes muito por mim. Até demais. Tens teus compromissos também. Sou uma pessoa econômica e praticamente minha despesa é só com comida e remédio. Às vezes, dou um dinheirinho às tuas primas, pois os maridos delas estão desempregados, mas a gente ajuda como pode. O pouco com Deus é muito.

Por fim, quero te desejar tudo de bom, o quanto mereces. A ti e a tua esposa. Faço votos que possa estender esse meu desejo, o mais breve possível, a um teu rebento, com a crise mundial ou sem ela. Nós continuamos vivos em nossos filhos, netos, bisnetos… É essa a lei da Natureza, com a graça de Deus. Se Ele me conceder a bem-aventurança de estreitar nos meus braços o filho do meu neto, eu descansarei feliz. Muito, muito feliz.

Com a bênção da tua avó que muito te ama,
Arlinda”

***

Mal eu me recompunha da leitura da carta, o telefone tocou. Era o síndico. Tentei me desculpar, dizendo-lhe que naquele exato momento eu já estava com a agenda na mão, tentando localizar o seu número, mas parece que ele nem me ouviu. Já foi dizendo que a única alternativa, para saldar as contas do condomínio, era aumentar o valor da taxa mensal dos que ainda pagavam.

Segundo ele, na reunião, os moradores inadimplentes alegaram não poder pagar suas dívidas de três anos atrás, ou até mais, por conta da terrível crise que assola o planeta.

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3 Respostas to “• Carta de uma avó aflita”

  1. Cecília de Paula Says:

    Linda Mena!

    Se é meio verdade, não sei, mas que parece com a vozinha de um grande amigo nosso, isso parece!!! Então, fica como se fosse. E cá pra nós, vai ter imaginação assim lá no período Triássico. Assim, comprova-se o motivo da denominação de dinossauro para nós… Com um exemplar desses do nosso lado…

    Beijo então nos três: você, a vozinha e nele, o … (ops!) Clebinho…

  2. Fernanda Gonçalves Says:

    Meu querido, imensas saudades.

    Adorei a Carta de uma avó aflita… Você e seu saci são ótimos. […]

    Beijos,
    Fernanda

  3. Luciene Souza Santos Cerqueira Says:

    Menandro,
    Vc sempre surpreende… tá me parecendo um grande contador d histórias e o meu faro d pesquisadora começa a me dar indícios de que há fumaça nesse pito… logo, há fogo!!!

    Parabéns por mais esse texto… deu vontade até de escrever uma carta (a mão)… p aqueles que tanto prezo e quero bem.

    Abraços,
    Luciene

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