• Censura e promiscuidade da língua

 

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

 – Qual a verdadeira função do moderador em uma lista, moderar ou censurar disfarçadamente? – perguntou-me, de chofre, o Saci.

Antes que eu pudesse esboçar qualquer raciocínio, ele simplesmente se mandou. Foi a famosa “visita de galo”, como diz o pessoal no interior, que até hoje, aliás, não atinei o motivo da denominação enigmática. Mas considerando que há muita coisa enigmática nessa terra – que um dia haverá de nos cobrar o retorno a ela, assim como nos fez surgir, não sei porque cargas d’água – nem reagi diante de sua inquirição. 

Há dias que estou mais lerdo do que de costume: esqueço de dar descarga, o café cai-me pela roupa, calço a sandália no pé errado, pego ônibus da Ribeira quando vou para Itapoã, dou parabéns ao invés de pêsames, deixo o gás ligado e vou reclamar do cheiro forte com o vizinho, como vírgulas, acentos, pronomes reflexivos, desconsidero a pernóstica mesóclise, torno-me, enfim, um perigoso desastrado, uma péssima companhia. Ai de quem, nesse dia, eu tomar algum dinheiro emprestado!

No trabalho, às vezes, sinto-me sonolento, e alguns adversários políticos se aproveitam disso para “destilarem” que estou meio estranho, (quem sabe PMD?), questionam com meus amigos se não estou ficando meio lelé, se não estou tomando algum “karateka faixa-preta” (outro nome que dão para os medicamentos controlados), e por aí vai.

Quando o Saci me abordou, eu estava assim, com os ânimos um tanto assonorentados. Só recobrei minhas energias quando senti um forte cheiro de coisa queimada. Dessa vez, felizmente, fui esperto e não dei o vexame de telefonar para o Corpo de Bombeiros dizendo que “tudo indicava que o AP do vizinho estava pegando fogo”, sendo que era o meu próprio que ameaçava arder em chamas “qual fogueira de São João”… Ai que vexame passei esse dia!… Nem gosto de me lembrar. Mas como gato escaldado tem pavor de água fria, mais ligado dessa vez, corri para a cozinha e consegui evitar que a sanduicheira tivesse o mesmo destino do pão e do queijo esturricados no seu interior incandescente.

 Parece que a produção daquele oceano de adrenalina me tirou do quase torpor em que me encontrava. O que possibilitou concentrar-me na pergunta que o Sacia me havia feito:

 – Qual a verdadeira função do moderador em uma lista, moderar ou censurar disfarçadamente?

 Parecia uma coisa simples de responder, mas só parecia. A realidade que estávamos vivendo nas listas da UFBA/APUB desmentia a nossa tentativa ou pretensão de responder tal pergunta com simplicidade.

De forma ingênua, eu pensava que a função dos moderadores era cuidar para que algum desavisado usuário não tentasse enviar arquivos pesados, com imagens, músicas, vídeos. Muitos como eu, no início, encantados com a internet, talvez até tentassem mandar para algum parente, no exterior, uma rapadurinha serenta, um rosário de “coco licuri”, um bejuzinho, uma manteiga de garrafa, uns pequis com casca… Essas coisas que quem é do interior aprecia e sempre quer mimosear, com elas, as pessoas queridas… Alguém pode pensar que tudo isso é absurdo, mas não é não. São tantas as virtudes proclamadas do mundo virtual que a gente acaba acreditando que ele pode tudo. Só na hora do vamos ver é que sacamos o quanto de exagero tem sobre a internet.

Então, eu me pergunto, além de fazer essa mediação para impedir o excesso de peso, de bagagem ou arquivos paquidérmicos, qual seria a função do moderador?

Bom, eu não vou imaginar que, na sacrossanta academia, alguém vá baixar o nível para contrapor a um colega. Primeiro que fica feio para quem o fizer. De um modo geral, ninguém apoia quem “arma barraco”. E depois, as difamações, as calúnias e as injúrias são passíveis aos rigores das leis. Ou você acha que nesse país não tem justiça? Claro que os endinheirados levam alguma vantagem, mas isso não é em caráter absoluto. Pelo menos é o que penso (no presente momento). Evidentemente que amanhã posso até mudar de opinião, mas preciso me sustentar em algo. Você concorda comigo?

E nesse embalo de pensar afirmando, ou negando, ou duvidando sem negar tudo totalmente, fui fortalecendo cada vez mais a idéia de que moderador de lista é como um vaso noturno furado. Pelo menos num espaço (virtual) que julgamos democrático. Não deve ter função. Ou melhor, diferente do referido vaso, que pode ter uma função estética (por exemplo, para decorar), para que servirá um moderador de lista se até a função de impedir anexos inconvenientes pode ser automatizada apenas com o uso de zeros e uns convenientemente aplicados, que qualquer programador/administrador de sistema de rede virtual – competente – está proibido de desconhecer? (Claro, que eu, felizmente, estou incluído fora disso…). 

Ou será que tem outra coisa por trás disso tudo, que minha miopia não me permite enxergar, além de uma mancha desfocada?

Por outro lado, acabo achando que se tivesse algo, o olhar perspicaz e crítico da Universidade (e, porque não dizer, do Sindicato dos Professores?) já teria detectado e extirpado tal corpo estranho. A menos que…

Hum, esse “a menos que” é um diabo… no melhor dos raciocínios ele vem e PIMBA! Estraga tudo. Hum!… Como concluir este texto que já entra pela terceira lauda? Como?…

Depois dizem que sou prolixo e pouco objetivo. E aí eu me defendo com unhas, dentes e léxico… Como fazer sínteses precisas se a própria sensualidade das palavras exacerba cópulas do verbo com o sujeito – quer simples quer composto; ou presente ou oculto ou até mesmo indeterminado? Alguém desconhece o quão as conjunções e preposições são promíscuas e entronas? Alguém consegue imaginar um período composto por coordenação ou subordinação sem elas? Consegue? 

Viu como pensar cansa, prezado leitor? E o pior não é nada, se ao menos eu pudesse me desvencilhar das inúteis palavras (escritas, faladas e pensadas é como eu as classifico) quando penso! Mas quem pode? E se eu tentasse ao menos? Qual nada, ninguém consegue pensar e passar sem elas. São onipresentes, voluntariosas, mandonas, embirrentas, autoritárias e muito mais. Nós somos os seus servos, e elas ainda conseguem nos fazer acreditar que é o contrário.

Imagine você, leitor, que eu apenas tentei responder a uma simples pergunta do Saci e me embrenhei num cipoal verboso, com fome, com sede, sem pão, sem queijo – coitadinhos, ambos esturricados – sem um único pacotinho de miojo para enganar o estômago, até as cinco da tarde, tentando dar um sentido à existência de um moderador de lista… Pode isso? Se aquele colega de trabalho sonhar uma coisa dessa, ele não vai se rejubilar, espalhando por aí, que eu pirei de vez? Não vai?

Para que tanto esforço em teorizar sobre uma coisa completamente inútil, estéril e sem sentido, quando o certo seria adotar soluções mais pragmáticas como, por exemplo, reunir meia dúzia de professores que tiveram seus textos “impedidos de circular”, quaisquer que fossem eles, doutos ou ignaros, e procurar a imprensa para denunciar os abusos praticados pelos moderadores  – subordinadas ao Reitor ou à Direção Sindical – caso seus dirigentes ouvidos de mercador fizessem? Se é uma coisa tão simples, por que a complicamos tanto?

Deambulando em círculos, e já repetitivo, insisto em que, a razão de tudo isso, talvez deva ser creditada na conta da natureza concupiscente do impiedoso verbo – ávido também por orações insubordinadas, por novos predicados e conjugações mil – seja com outros anômalos, com abundantes, com defectivos, com transitivos ou não; com pretéritos, com perfeitos e imperfeitos ou até mesmo com os que se julgam mais-que-perfeitos, ora indicativos, ora subjuntivos, mas na maioria das vezes imperativos!

Talvez aqui esteja a verdadeira resposta que o Saci gostaria de ouvir: se a língua é tão promíscua – e que me perdoem as professoras Emília, Dinea, Lícia e Mary, do Grupo de Letras – GELING, do meu Departamento – é prudente não arriscar. Cabe ao moderador, então, moderar todo o verbo que pode desvelar, desmentir, desnudar e desmascarar.

Seguro morreu de velho!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: