– Marx e Wagner: dois descendentes de Abraão

“Facas e lanças com ponta de sílex, ou de bronze, ou de ferro; bordunas; arcos e flechas; aríetes; espadas; sabres; adagas; armas de fogo em geral; tanques; gás lacrimogêneo; bombas atômicas; redes de TV; mídia… a lista é extensa.”

Dicas para se tornar popular

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A lição aprendida

Marx e Wagner: dois descendentes de Abraão

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Menandro Ramos
Prof. da FACED/ UFBA

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s biógrafos do governador Jaques Wagner, atual síndico do Palácio de Ondina, e talvez pleiteante futuro do Palácio do Planalto, aos pouquinhos, vão registrando seus ditos e feitos para uma análise futura mais aprofundada sobre o político carioca. Ainda que pedindo enfaticamente para ser incluído fora disso, não há como deixar de incluir o meu amigo Saci nesse rol de estudiosos e escritores. E é sob protesto do pestinha – por julgar o levantamento preliminar que ele fez muito chinfrim -, que publico essas mal traçadas linhas por ele rascunhadas.

Assim, pois, escreveu o Saci:

Tal como Karl Marx, Jaques Wagner é judeu. Sendo assim, ambos descendem de Abraão. Os dois também nasceram no mesmo mês. Além desses traços identitários, e o da barba, é claro!, parece que as semelhanças entre eles encerram por aí.

E aqui, abro um parêntese para explicar o que o grande publico talvez ainda não saiba. Enquanto o primeiro debruçou-se em pesados escritos de teóricos da sua época, quais Adam Smith e David Ricardo, para entender e transformar as relações econômicas injustas da sociedade de classes em que viveu, o segundo, despojado de preocupações teóricas, investiu pragmaticamente em legitimar as práticas de acumulação dos seus contemporâneos e, por que não dizer, das suas próprias. Senão vejamos:

O fruto do penoso estudo de Karl Marx, corporificou-se, como retribuição pelo esforço intelectual, na sua monumental obra – talvez mais citada do que lida -, “Das Kapital”, ou “O Capital” em português; a paga da qual fez jus Jaques Wagner, é menos ambiciosa, pois não pretende transformar nada, a não ser mudar o seu beneficiário para um novo endereço e status, que é o Corredor dos sujeitos financeiramente vitoriosos, exclusivo aos que conseguiram acumular acima de cinco milhões de reais para investir em um teto nada modesto ( Leia mais AQUI).  Fechando o parêntese, retomo a narrativa.

Ainda muito jovem, Jaques Wagner militou no movimento sionista, também chamado de nacionalismo judaico, que historicamente defende o retorno dos judeus (povos descendentes do patriarca Abraão), dispersos pelo mundo, ao atual Estado de Israel. Pelo menos a ideia inicial era essa.

Seu batismo na política deu-se quando era estudante, como presidente do diretório acadêmico da Faculdade de Engenharia, da PUC-RJ, no final da década de 1960. Perseguido pela ditadura militar, abandonou o curso e mudou-se para Salvador. Nessa época, o Polo Petroquímico de Camaçari era disputado pelos jovens que ambicionavam um emprego com remuneração um pouco acima da média do que pagava o mercado. Wagner conseguiu empregar-se lá como técnico de manutenção. Algum tempo depois, começou a atuar no Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Petroquímica (Sindiquímica), chegando à presidência da entidade. Como sindicalista, conheceu o ex-presidente Lula, e anos mais tarde o ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores. Em 1990, elegeu-se deputado federal pelo PT baiano por três legislaturas. Ainda como deputado, incita a polícia baiana a se rebelar (ouça). Em 2002 candidatou-se a governador da Bahia e foi derrotado.

Ao eleger-se presidente da República, em 2003, Lula o nomeou ministro do Trabalho e, posteriormente, ministro das Relações Institucionais. Ainda nesta pasta, assumiu também a coordenação política do governo.

Em 2006, concorrendo novamente à eleição para governador da Bahia, coligou-se com partidos de centro direita e supostamente de esquerda, conseguindo, surpreendentemente, destronar o carlismo, depois de décadas incrustado no poder. Segundo o TRE, o processo foi idôneo no que concerne ao voto através da urna eletrônica. Há quem busque, até hoje, explicações técnicas, ou até mesmo exotéricas, para explicar a guinada das tais urnas.

Wagner não perdeu tempo. Valendo-se do que aprendera em matéria de propaganda com o governo anterior, conseguiu reeleger-se com uma margem folgada de votos.

Rei morto, rei posto. Morreu o carlismo. Nascia, então, o wagnerismo.

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Assim caminha a humanidade

A construção da humanidade tem sido bastante penosa e contraditória. Da hominização à humanização, muito água ainda passará pela ponte. Milton Santos é de opinião que toda a marcha vivida pelo homo sapien sapien não foi senão um esboço de humanização. Acho que faz sentido o que ele disse.

Os sumérios, povos do sul da Mesopotâmia, que inventaram a roda e a escrita, a partir de 3000 a.C., foram dominados pelos acádios (2150 a.C.) que tinham por armas arcos e  flechas, bem superiores às lanças e escudo dos seus adversários. A festa dos acádios acabou quando o povo guti, entre outros, desceu dos montes Zagros (Irã).

Depois foi a vez do povo amorrita fixar-se na Babilônia, e Hamurábi criar o código que celebrizou o seu nome. Tudo indica que a máxima “olho por olho” tenha sido seguida à risca, pois o Império Babilônio, da mesma forma que outros, também ruiu, e outros povos dele se banquetearam. Entres os ditos povos estavam os hititas e os cassitas, que logo deram lugar à fúria assíria. Os assírios, por seu turno, criaram gosto pelo poder, e constituíram um dos mais poderosos e temíveis exércitos que a antiguidade conheceu. Não vou mentir, eles só não tinham metralhadoras e helicópteros. Essas armas não tinham, não. Mas havia a infantaria toda “miseravona”, na gíria contemporânea, turbinada com o último modelo de lança da época, espadas de ferro, escudos semi blindados e cavalaria equipada com carros de roda reforçada, puxados por potentes e garbosos cavalos. Ninguém brincava com eles. Era um exército mau como um pica-pau, conforme se diz hoje em dia. Há quem diga também que eles inventaram a malvadeza. A crueldade com que tratavam seus adversários não conheceu limites. Até que foram perdendo o gás. De longe, outros povos observavam tudo e cantavam um deboche que se tornou célebre uns dois mil e quinhentos anos depois: “Ai! Se eu te pego! Ai, ai! Assim você me mata!…”

Um belo dias, quando já se encontravam bem debilitados, no bagaço mesmo, chegaram os povos caldeus, conterrâneos do patriarca Abraão, coligados com os medos e…Créu! Bye, bye Nínive!, a belacap da época. Foi uma farra descomunal a comemoração dos povos que sofreram na pele as brutalidades patrocinadas pelos assírios, que nunca deram moleza!…

E aí foi a vez da Babilônia deslumbrar o mundo antigo e Nabucodonosor fazer o marketing dos lindos jardins suspensos, além de destruir Jerusalém e o reino de Judá (587 a.C.), juntamente com o seu famoso templo. Até que veio Ciro e… Pimba! Lá se foi a vez da Babilônia cair, e cair feio. O curioso é que a famosa cidade não tinha a maçã como símbolo, mas lembrava muito Nova York de hoje, pela grandiosidade e exagero em tudo!…

Vale, aqui, voltar um pouquinho até o povo hebreu, descendente do patriarca Abraão, conforme foi dito acima, povo esses também conhecido como judeu ou israelita, para que não se perca o fio da meada. Quando o reino de Judá foi destruído pelo bad boy Nabucodonosor, os hebreus foram levados como escravos para a Babilônia, de acordo com o costume da época. E lá padeceram por um tempão (quase cinco séculos de escravidão, o conhecido Cativeiro da Babilônia). A sorte deles é que o persa Ciro II, conquistou a Babilônia e eles se viram livres para retornar à Palestina, então província do Império Persa. De volta à querida e disputada terrinha prometida, puderam reconstruir o templo de Jerusalém. Mas o bicho pegou feio daí para frente, e os hebreus não mais recuperaram a autonomia perdida. A Palestina transformou-se em província da Macedônia, após sair do jugo persa para, em seguida, cair nas garras do Império Romano. Quando ensaiaram quebrar as correntes, no ano 70 a.C., o imperador romano Tito jogou água no brinquedo, e os hebreus foram obrigados a se dispersar pelo mundo afora, episódio também conhecido como Diáspora. Nessas idas e vindas, e em tempos diferentes, os descendentes de Abraão se multiplicaram e percorreram os caminhos mais diversos que se pode imaginar. Karl Marx, só para ilustrar, nasceu em 14 de março de 1818, em Tréveris, na Alemanha, e Jaques Wagner nasceu em 16 de março de 1951, no Rio de Janeiro, no Brasil, exatos 133 anos e dois dias depois…

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Facas e lanças com ponta de sílex, de bronze, de ferro; bordunas; arcos e flechas; aríetes; espadas; sabres adagas; armas de fogo em geral; tanques; gás lacrimogêneo; bombas atômicas, redes de TV, mídia (veja gráfico AQUI)… a lista é extensa.

Não foi à-toa que Thomas Hobbes (1588-1679), filósofo inglês, escreveu na sua obra Leviatã que “o homem é o lobo do homem” (homo homini lupus). Pelo menos, tem sido assim, até a humanidade educar-se de verdade.

E aqui, uma derradeira observação. Se a última frase escrita e grifada acima suscitou no Leitor ou Leitora um sorriso cético, significa dizer que, por muito e muito tempo, esse modo de ser da humanidade ainda perdurará. Se não suscitou, uma sementinha acaba de ser levada pelo vento em busca de solo fértil… Que bom!

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